Francisco Silva em paz, lançou em Portugal a segunda edição do seu livro “estórias ao acaso da vida e da terra”

Publicado em 16 Dez 2008
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O Presidpresidente-da-assembleia-nacional.jpgente da Assembleia Nacional, Francisco Silva, apresentou o seu livro “Estórias ao Acaso da Vida e da Terra” a comunidade são-tomense em Portugal, numa cerimónia que contou com a presença do Presidente da Assembleia da República portuguesa Jaime Gama e demais individualidades. A biblioteca do parlamento português foi o palco do lançamento do livro em Portugal. Francisco Silva, que se encontra ausente do país em tratamento médico, manifesta-se tranquilo diante do desafio pela vida. “Tenho consciência real da situação em que estou, mas creiam que encaro esta minha luta de forma francamente positiva. Sinto-me bem, estou em paz comigo mesmo”.

Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr.ª Embaixadora da República Democrática de S. Tomé e Príncipe, Srs. Deputados, Sr.ª Professora Doutora Inocência Mata, Caros Amigos, Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Depois de tantas emoções, espero estar em condições de vos dirigir algumas palavras.

As minhas primeiras palavras são, necessariamente, para si, Presidente e amigo Jaime Gama, pela amizade da sua presença, por me acolher nesta Augusta Casa, neste lugar de tão nobre tradição, neste espaço de verdade, de democracia e de cidadania. À generosidade da recepção, ao calor das boas-vindas, ao apoio, à solidariedade só posso dizer obrigado.

Em si, Sr. Presidente, vejo e saúdo o estadista lúcido e o notável humanista cuja trajectória incorpora uma verdadeira lição de cooperação e de fraternidade entre povos e culturas.

A qualidade do seu acolhimento e as palavras com que me distinguiu, a mim e ao meu livro, levam-me, em primeiro lugar, a registar um tributo à excelência do relacionamento entre a Assembleia da República de Portugal e a Assembleia Nacional de S. Tomé e Príncipe, aos laços históricos de fraternidade, de amizade e de cooperação entre os povos de Portugal e de S. Tomé e Príncipe, laços que se renovam e se aperfeiçoam todos os dias numa dimensão múltipla e concreta.

Recordo, por outro lado, o grande apreço e a constante amizade com que V. Ex.ª tem honrado o meu país.

Registo, por fim, uma estima pessoal, que não posso deixar de agradecer com sinceridade. Acredite, Sr. Presidente, que lhe retribuímos com igual apreço, com igual amizade e com uma grande admiração.

Sr.ª Embaixadora de S. Tomé e Príncipe em Portugal, Dr.ª Alda Melo, agradeço penhoradamente a sua presença amiga, a gentileza das suas palavras e o conjunto de atenções que me tem dispensado. Peço-lhe que este reconhecimento seja extensivo à sua incansável equipa.

A Professora Doutora Inocência Mata é uma muito distinta filha das nossas ilhas, que tem contribuído decisivamente para a promoção, a divulgação e a dignificação das nossas letras, da nossa cultura, do nosso país. Lamento o trabalho que lhe dei, mas calaram-me fundo as suas palavras, pelo que peço que aceite a minha gratidão.

É uma grande honra para mim a presença dos Srs. Deputados portugueses.

Caros amigos, no ano passado, nesta bela cidade de Lisboa, escrevi um livro, um livro singelo em que procurei juntar fragmentos da minha história pessoal — memórias, lembranças, afectos — e, também, desenvolver algumas reflexões sobre o trajecto recente do nosso país. Onde estamos, para onde vamos, que destino colectivo pretendemos construir, são perguntas subjacentes às reflexões a que fiz referência.

É uma homenagem a pessoas que conheci ao longo da minha vida, pessoas que me marcaram, pessoas que amei e amo. É uma homenagem ao meu povo e ao meu país.

Peço-vos que leiam as inquietações, as referências ou as observações menos abonatórias e até mesmo alguma frustração, em certas passagens, não como um sinal de descrença ou de desânimo mas como fruto do amor à terra onde nasci, a grande vontade e determinação em contribuir para a transformação do presente e uma grande fé na capacidade de os meus conterrâneos, dos são-tomenses, para construir um futuro mais próspero e mais digno para todos nós.

Eu sou um inconformado porque acho que hoje deve ser melhor do que ontem e amanhã deve ser melhor do que hoje.

Eu sou um inconformado porque acredito no presente e no futuro de S. Tomé e Príncipe.

Eu sou um inconformado porque optimista.

E sou, ainda, um inconformado porque acredito em milagres. Não acredito, contudo, no milagre dos subsolos. Acredito, sim, na capacidade inovadora, empreendedora, na capacidade de trabalho de homens e mulheres, capazes de superarem as suas próprias fraquezas, de vencerem as vicissitudes do presente e de construírem um futuro melhor.

São estas as razões do meu inconformismo.

Sobre o livro já falaram, amavelmente, os que me antecederam. Vou, de uma forma muito breve, referir-me às circunstâncias em que foi escrito.

Em Janeiro de 2007, foi-me detectado um cancro e tem sido aqui, em Lisboa, desde então, que tenho encontrado respostas competentes de uma equipa de médicos, enfermeiras e técnicos do Hospital de Santa Maria, de insuperável profissionalismo e dedicação.

Alegra-me imenso partilhar com eles este momento, depois de com eles ter dividido a ansiedade de tantas perguntas. Nós sabemos — eles e eu — que as perguntas vão continuar neste desafio, porventura, o mais difícil da minha vida, que, todavia, me proponho vencer com a sua ajuda.

Tenho consciência real da situação em que estou, mas creiam que encaro esta minha luta de forma francamente positiva. Sinto-me bem, estou em paz comigo mesmo.

A sua hospitalidade, Sr. Presidente, e a vossa presença, caríssimos amigos, conferem-me um maior conforto.

E acreditem se vos digo que este é um momento de festa.

Uma festa de amigos, porque estou rodeado de amigos, mas também uma festa da língua portuguesa. Amílcar Cabral, um filho clarividente de África e cidadão do mundo, definiu a língua portuguesa como o maior legado que Portugal deixou no seu país.

Em S. Tomé e Príncipe, elegemos o português como língua de libertação e construção, como instrumento de luta pelo desenvolvimento, pela modernização, pela inclusão, pela afirmação. Por isso vos disse que esta é, também, uma festa da língua portuguesa, sob o pretexto de um livro no qual celebro expressões crioulas, algumas particularidades do português falado em S. Tomé e Príncipe, meu país crioulo, insular e africano.

Mas há uma outra razão para considerar este acto e este livro mais um momento de festa: a possibilidade que tive de, finalmente, o apresentar à comunidade são-tomense radicada em Portugal, testemunhando o meu profundo respeito, consideração e estima.

Reconheço e saúdo o esforço que fazem para a vossa integração plena no país de acolhimento. Reconheço, também, o esforço que fazem para manter e actualizar os laços com S. Tomé e Príncipe, transformando a distância que vos separa do nosso país em mais-valia.

Portanto, são três grandes motivos para que considere este dia como um dia de festa.

Gostaria de agradecer, sinceramente, a presença de todos vós, mas peço-vos que me perdoem mencionar algumas pessoas que vieram expressamente de outros países, ou que retardaram a sua estada em Lisboa para estarem hoje aqui. São os casos do meu amigo e Secretário-Geral da Assembleia Nacional de S. Tomé e Príncipe, Dr. Romão Pereira de Couto, dos meus amigos Conceição Deus Lima, Caló Costa Alegre, Arzemiro dos Prazeres, e do meu filho Elton, que chegou directamente do aeroporto para esta sala.

Em relação a Conceição Lima, gostava de agradecer não só a presença amiga como o facto de ter acreditado e acarinhado este livro desde o primeiro minuto.

Gostava ainda de distinguir a Dr.ª Alda Neves, que por razões de saúde não se encontra presente nesta sala, cidadã portuguesa que, enquanto trabalhou no Centro Cultural Português, impulsionou a edição de um conjunto de obras de autores são-tomenses e que agora, a partir de Évora, continua a apoiar, a promover escritores são-tomenses.

Quero pedir a permissão do Sr. Presidente Jaime Gama para cumprimentar e agradecer a amizade da Sr.ª Secretária-Geral da Assembleia da República de Portugal, Dr.ª Adelina Sá Carvalho, minha antiga colega, minha querida amiga, pedindo que este cumprimento e este reconhecimento sejam extensivos a todos os seus colaboradores.

Comoveu-me ver aqui a Dr.ª Isabel Corte-Real, também antiga colega.

Gostava de vos nomear a todos, um por um. Tenho razões particulares para o fazer, mas compreenderão que não é possível e não vos quero cansar.

Permitam-me, contudo, duas palavras para aquelas pessoas que dão o mais profundo sentido à minha vida e à minha luta: a Tina, minha companheira e amiga de longos anos, os meus filhos, que me fazem sentir o pai mais querido do mundo, e as minhas irmãs.

Aplausos.

A todas as pessoas que amo. Elas sabem o que sinto e sabem da minha gratidão.

Para terminar, quero agradecer, mais uma vez, ao Sr. Presidente Jaime Gama. Agradecer o privilégio de me ter concedido a palavra em último lugar nesta Cerimónia e pedir-lhe para declarar encerrada a Sessão, como tantas vezes fazemos nas nossas reuniões plenárias. Obrigado do coração.

Muito obrigado pela vossa atenção.

Aplausos.