ANA (da CUNHA) CHAVES: MULHER ou MULHERES?!!

A nossa história está repleta de dogmas. Por exemplo, a realidade da existência dos Angolares divide os historiadores; a identidade do Amador Vieira que não se contesta o que fez tornando-se aceite Rei da Ilha de S. Tomé, violenta os curiosos e os profissionais da história no que toca a data do seu nascimento e  morte, mas sobretudo se o fulano era Angolar ou não.

Por: Francisco Costa Alegre

ANA (da CUNHA) CHAVES:

MULHER ou MULHERES?!!

A nossa história está repleta de dogmas. Por exemplo, a realidade da existência dos Angolares divide os historiadores; a identidade do Amador Vieira que não se contesta o que fez tornando-se aceite Rei da Ilha de S. Tomé, violenta os curiosos e os profissionais da história no que toca a data do seu nascimento e  morte, mas sobretudo se o fulano era Angolar ou não. A própria data da chegada dos portugueses às ilhas desafia os investigadores sendo também aceite como é óbvio, foi um facto real e consumado, a vinda deles a estas paragens; ainda mais, o porquê do marco histórico do massacre de 1953 separa os escritores e intelectuais dos operadores económicos indevidamente. Enfim, a verdadeira origem das coisas como a real identidade da figura da senhora Ana (de) Chaves constitui outro fundamento de estudo que até então levanta algumas dúvidas e preocupa os investigadores e alguns curiosos, se no passado teria existido uma única Ana Chaves que deu o nome a importante baía da capital ou se teriam existido entre duas ou três mulheres com este nome.

1- Introdução

Cada efeméride, cada momento de reflexão; cada celebração, cada oportunidade para inovação; cada inovação, cada perspectiva de transferência de novos valores, visando a elegância dos nossos antepassados na revelação dos fundamentos que nos prendem às realizações do presente.

Os paradigmas da urbanidade assentam-se na demonstração da consciencialização das origens, do nosso património comum material e imaterial que assumimos no rescaldo  da História. Nesse rescaldo destaca-se o conjunto humano e não só, que de uma forma ou de outra constitui a razão da realidade visível e invisível. Se as crianças  são, como se cosntuma dizer, a flor da nossa vida, a razão da nossa existência; as mulheres numa sequência lógica de perpectuação da nossa espécie, como quem arranca a costela de Adão para criar a Eva, para esta ser o género do seu género, elas (as mulheres), são a cumplicidade das nossas vidas, a causa da nossa procriação.

Nesse quadro de género do seu género, cumplicidades das nossas vidas, assim como a causa da nossa procriação, vamos encontrar enquanto cidadãos santomenses  referências ocultas ou evidentes das nossas origens  pinceladas com amor e paixões, ciúmes e infidelidades, adultério e concubinagem, desterros e degredados, escravatura e abolicionismo, para toda vida….

Quantos amores não desmbocaram em dissabores ou sol da eternidade?! Quantos casamentos não são torneados de adultérios e de ciúmes, de concubinagem e de assaltos ao cercado do vizinho?! Quantas paixões ocultas não têm ficado simplesmente em paixões?! Quantos filhos legítimos ou ilegítimos não ficaram sem serem reconhecidos e relegados ao abandono devido a ciúmes e paixões?! Quantas damas da corte não foram expulsas do circuito real devido a suspeitas de alguma traição amorosa? Quantos filhos e filhas não foram desterradas para sempre e nunca mais foram vistas? Enfim.. Se tentarmos responder a essas questões como quem procura um culpado, só temos a dizer que o suposto culpado é o género do próprio género, como o dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher riscado pelos acontecimentos que ocorreram desde o dia 8 de Março de 1857 que um grupo de mulheres reivindicando direitos iguais aos homens no que toca ao horário e ao produto laboral, ergueram seus braços para extrairem da tecta de seus peitos o leite para alimentar gerações com os seus feitos…….

Tudo isso para provar que as mulheres estiveram e estão sempre presentes em tudo quanto fazemos, desde as descrições bíblicas e alcorânicas, passando pelos grandes descobrimentos em que não se consegue destrinçar se as mulheres estiveram a bordo daquelas embarcações ou não, até na arquitectura de toda urbanidade que nos amarra ao sentido da nossa identidade colectiva.

Muito recentemente, no nosso país num conflito catalogado como fenómeno NINJAS de 4 de Novembro de 2007 que, os homens não conseguiram agarrar com garras de pacificação e entendimento, uma mulher das Forças Armadas matou outra sua colega para-militar (Polícia da Segurança Pública), à tiro. Quem atribuir a culpa?! O género do próprio género….Quem atribuir a culpa, a militar que ao receber ordens de fogo e agiu superiormente, ou a para-militar que treinada única e exclusivamente para ser NINJA e nada mais, foi ao local de trabalho saber o que se passava e foi baleada? Quem atribuir a culpa? Enfim, esse mundo é o erro de toda gente e, cada um de nós é o erro de cada um de nós, incluisivé eu próprio que estou agindo como sendo um santo e neutro em prol da posteridade….

O comungar individual ou colectivo desse raciocíneo cimenta em cada época histórica  a unidade necessária na argumentação da condução do Estado/Nação que pretendemos construir  na placa giratória de uma manta de retalhos sociológica altamente estratificada e competitiva, como é muito natural. A distinção de sexo como foi visto atrás do género do nosso género, suplanta ou associa-se a outros factores da socialização crioula onde a mestiçagem e a mulatização se confrontam como princípios remotos da fundação antropológica, recinto onde antes a colonização e a independência política convivem não só como acto simbólico ocorrido na sua data singela, mas também numa retórica eterna de refazer a convivência daquilo que foi o segregacionismo versus o abolicismo. Por outro lado ainda essa realidade toda, carrega consigo os compartimentos contemporâneos assinalados por Forros, Angolares, Minu-yés, Caboverdianos e outros que sublinham a diferença entre a Cidade e o Campo, ou seja a Roça, situação reportada pela colonização e a escravatura, a independência e a reconstrução nacional, seguidas de Primeira e Segunda Repúblicas.

Na Cidade capital de S. Tomé ou nos diferentes locais das Roças e Luchans, vamos encontrar por causa disso tudo o que foi dito atrás, topónimos que, remetem-nos nos carris deste comboio chamado urbanidade que na especialização académica para o nosso país chamamos de santomensidade como o palácio da governação sociológica. A santomensidade encerra neste governo, a consanguinidade de que nos propõe a realidade cultural, ao estudo dessa realidade em diversas correntes, assim como mediante ela mesma, estabelece um plano de desenvolvimento, assinalando essa miscigenação consequente definida pela crioulização linguística e humana. Neste ponto complexo e reservando o Dia Internacional da Mulher para refletir de forma que ultrapassa o tradicional, os topónimos feminimos poderiam ser eleitos como a razão de uma investigação. Por exemplo, poderiamos falar de S. Ponjata, San Dôli, Dona Augusta, Ma Godinho, Sum Dindi, Ocá Ôcô, Ôkê Pôkô Mwala, Sama Vinagli, Maria Correia, Ana Chaves e por aí fora….

2- Ana (de) Chaves, Ana da Cunha Chaves, ou outras

A República Democrática de S. Tomé e Príncipe com 541 anos de história conhecida, entre os quais 36 de país independente, realça a sua urbanidade nesses pressupostos, onde vamos encontrar nos túmulos e nas ossadas figuras de grandes homens e valentes mulheres que participaram na produção de factos, alguns deles intrigantes, alguns deles tornaram assim elementos de análise obrigatória quando depois de despercebidos, somos chamados a uma interpretação forçada e obrigatória enquanto operadores literários cientes da necessidade de se desfazer dúvidas e dogmas.

A nossa história está repleta de dogmas. Por exemplo, a realidade da existência dos Angolares divide os historiadores; a identidade do Amador Vieira que não se contesta o que fez tornando-se aceite Rei da Ilha de S. Tomé, violenta os curiosos e os profissionais da história no que toca a data do seu nascimento e  morte, mas sobretudo se o fulano era Angolar ou não. A própria data da chegada dos portugueses as ilhas desafia os investigadores sendo tambem aceite como é óbvio, foi um facto real e consumado, a vinda deles a estas paragens; ainda mais, o porquê do marco histórico de massacre de 1953 separa os escritores e intelectuais dos operadores económicos indevidamente. Enfim, a verdadeira origem das coisas como a real identidade da figura da senhora Ana (de) Chaves constitui outro fundamento de estudo que até então levanta algumas dúvidas e preocupa os investigadores e alguns curiosos, se no passado teria existido uma única Ana Chaves que deu o nome a importante baía da capital ou se teria existido entre duas ou três mulheres com este nome.

A primeira vez que tomei contacto com o nome dessa mulher foi ainda em tenra idade, talvez nos primeiros anos do ensino secundário (nos anos sessenta do século passado) muito perto do altar da Igreja da Sé Catedral que na altura tinha o chão cimentado de ocre vermelho espaçado por grandes e largas divisões túmulas, em que uma delas dizia, Aqui Jaz Ana Chaves ou Ana de Chaves, já não me recordo e nem tenho como reconfirmar outros dizeres inscritos no túmulo porque os melhoramentos e transformações  levaram as autoridades diocesanas a cobrir todo o espaço largo do altar de azulejos.

Naquela altura nunca teria pensado que viria entrar no mundo da escrita ou mesmo nos meandros aliciantes da investigação científica e por isso nem me teria passado pela cabeça que haveria também um rio e um pico com este nome no interior da ilha de S. Tomé. Só que nalguns documentos históricos a referência o Pico Ana Chaves aparece como o mais alto da ilha, enquanto que o Pico S. Tomé é na actualidade o mais alto de todos, com 2024 metros.

Assim, decorridos anos e já em 2003 quando publicava o meu segundo livro de contos sob o título “CRÓNICA DE MAGODINHO” e na procura de obter argumentos sobre a Senhora Dona Semoa Godinho que antes tinha dado o nome do local onde hoje é Micoló, eu fui deparar com um texto de Manuel Braga da Cruz, texto esse que aparece em edições de A Voz de S. Tomé de 1947, na Separata do Boletim da Sociedade Geográfica de Lisboa Janeiro-Março 1964, e noutros locais. Desta forma, quando publiquei em primeira edição o livro “Cidade de S. Tomé – Cidade de Todas as Esperanças” em 2008, por ocasião dos 473 anos da sua criação régia, eu decalquei uma descrição que narra como se segue:

“Na visita que há doze anos fiz a estas paragens, a minha atenção fixou-se na personalidade que havia dado o nome à baía onde desembarquei, bem como um dos mais elevados picos do interior da ilha. Estranhei, sobretudo a ausência de qualquer referência histórica a Ana Chaves em livros como a Coreografia Histórica de Raimundo Cunha Matos, e outros que havia consultado. Apenas Almada Negreiros lhe fazia uma pequena referência a propósito duma carta Sesmaria …. … Lourenço Pires de Távora, filho de Cristóvão de Távora, comendador de S. Pedro Lardosa, casou com D. Ana da Cunha Chaves. Esta Ana Chaves é pois filha natural de João Barbosa da Cunha, sargento ou alferes mor desta ilha, que por 4 vezes a governou entre 1600 e 1610 e que também governou a ilha por 4 vezes de 1628 à 1645. Esta Ana Chaves teve dois filhos: Gaspar de Sousa Távora e D. Catarina Távora. Gaspar Pires Távora viveu em S. Tome´, passando depois ao continente, onde casou, mas não teve geração. D. Catarina Távora casou Pedro da Silva, alcaide-mor de Silves e foi também governador de S. Tomé. Num artigo publicado em ‘Acção’ de 19/9/46 o Senhor José B. Pereira de Melo anuncia uma obra em preparação sobre a História de S. Tomé e ampliando, a referência de Almada Negreiros, diz que há na Torre do Tombo uma carta Sesmaria a Ana Chaves dum terreno junto do ribeiro da Lagoa, datada de 1546, em tempo de D. João II. Ora a Ana Chaves atrás identificada é da época de 1640. Ora que concluir? Ou o ano daquela referência é 1640 e o rei D. João IV, ou então devemos concluir que houve duas Ana de Chaves”

3- Ana Chaves, os depoimentos dos investigadores

Esse extracto técnico  parece não elucidar muito, pois ficamos sem saber de facto se no caso de uma, duas ou mais, porquê por exemplo da presença da primeira em S. Tomé. Será que a primeira referenciada a partir de 1640 seria filha legítima do rei D João III (o Piedoso) e de Dona Catarina? Seria filha ilegítima do rei e relegada ao degredo para toda vida separada dos pais?! Será que mesmo a primeira teria sido uma dama da corte e concubina estimada do rei e, por causa de ciúmes e infidelidade, retirada do circuito da nobreza?! Seria ela judia? Ou então, será que a segunda ou a terceira eram mestiças?! Resalve-se mestiças porque se hoje o ser mulato no quadro da mulatização ou mestiçem representa uma ligação com antiga metrópele ou mesmo (quase) superioridade para gentes de cor, ou mesmo até donos da terra; no passado chamar alguém de mulato era crime punível.

Segundo relata Arlindo Manuel Caldeira nos seus depoimentos,  em 1683, João Alves da Cunha,  um parente da árvore genealógica de Ana da Cunha Chaves, um dos maiores proprietários locais, desempenhando, na ocasião  o cargo de  governador interino, mandou na altura espancar e mais tarde condenar a açoites públicos um tal Manuel Rodrigues Veloso que, na sua ausência, lhe teria chamado de mulato. Isto quer dizer que se nos nossos dias ser mulato ou de pele mais clara possível é ser privilegiado, no passado era quase ser filho(a) do pecado, do preto, do demónio, qualquer coisa como se dizia “’ovu má bisu”. Contam-se histórias que a própria Ana Chaves (uma delas, posivelmente a primeira) ao saber que uma sua neta era filha de uma escrava negra, quase que a despresou para toda a vida vindo a aceitá-la única e exclusivamente porque não tinha outro ou outra herdeiro(a) directo(a),

No entanto deixado por instantes a questão de mulato, pois todos nós somos mestiços, ou mulatos de sangue coagolado, como eu próprio que estou escevendo esse ensaio, sou uma fusão dos Lobatos, dos Angolares e mesmo de moçambicano por aí fora, vamos rebuscar fontes diversas a procura de um esclarecimento mais ou menos próximo.

a)    ainda Manuel Braga da Cruz reporta que Lorenço Pires Távora, filho de Cristovão de Távora e herói das lutas contra os holandeses em S. Tomé em 1644 casou com Ana da Cunha Chaves, filha de João Barbosa.e eles tiveram dois filhos, Gaspar de Sousa Távora e Catarina de Sousa Távora. Gaspar não teve filhos, Catarina de Távora teve dois filhos casando Pedro da Silva e, repare que o nome Catarina teria sido o da esposa do rei D.João III. Os filhos chamavam-se Rui da Silva e Maria Teresa da Silva e Távora. Rui da da Silva não teve filhos e faleceu em 1725, enquanto Maria teresa que casou com D.. Manuel Pereira Coutinho e tiveram pelo menos oito filhos e estes não tiveram descendência, Francisco José Coutinho e Brito, Pedro da Silva Coutinho, Rui da Silva Távora, Aires António da Silva, Dona Catarina, Dona Joana e Dona Margarida. Enfim, segundo Braga da Cruz, a descendência da suposta primeira Ana Chaves de 1640, ou Ana de Chaves extingue-se com  Aires António de Sousa Coutinho que teria vendido em 1863 todos os bens pertencentesa Ana Chaves que constituíam a capela ou o morgadio instituído por ela e denominado Praia Lagarto.

b) Porém, em Junho de 2005, num texto disponível na internet com o título a Ana de Chaves e assinado por Marcelo Alves que pensa que uma ou outra desta Ana Chaves, ou mesmo todas sejam suas conterrâneas, relata que origens iniciais da Ana Chaves não são estabelecidas com nitidez. Para ele os historiadores dividem-se entre si, concordando apenas acerca do local onde teria falecido, a ilha de S. Tomé. Para o efeito ele aponta várias versões, no mínimo três:

Há quem a julgue judaica, ou descendente de judeus, residente em S. Tomé, na condição de refugiada das perseguições feitas em Portugal. Nesta versão, o nome de família “de Chaves” terá sido adoptado para substituir um qualquer outro de origem semita, cuja utilização seria perigosa. Sendo expulsa de Portugal, teria adoptado, no ultramar, um discreto nome lusitano.

Numa segunda versão, Ana de Chaves terá sido uma modesta dama da corte, aia da rainha D. Catarina, cujos dotes físicos teriam chamado a atenção do rei D. João III e atraído sobre si os ciúmes da soberana. Nesta versão, a rainha terá mesmo resolvido o problema, determinando que a sua aia abandonasse a corte e rumasse a S. Tomé. Mas, na sua real bondade, legou-lhe várias possessões em troca do seu afastamento da corte. A terceira e última versão identifica-a como filha ilegítima do rei, e, por isso mesmo, ocultada e enviada para S. Tomé. Conhece-se, no entanto, o nome da amante do rei e mãe da nossa heroína, uma tal Cezília de Chaves, falecida em 1540, como indica a sua lápide funerária.


Ambas terão sido enviadas para esta ilha atlântica, com um alargado dote, constituído por possessões territoriais
. Para além do nome, o que leva os historiadores a identificar esta Ana com a nossa cidade é o brasão, onde foram esculpidas as armas da família, duas chaves cruzadas em diagonal, o que denota a notória inspiração do que já então era o símbolo municipal da vila de Chaves.

Da vida desta “nossa” Ana, sabe-se pouco. Mas sabe-se alguma coisa. Por exemplo, que teve uma vida de grande senhora e recebeu em sua casa viajantes de todos os cantos do mundo que aportavam a S.Tomé. Terá criado e protegido instituições de caridade. Casou com um nobre de baixa estirpe. Deste casamento nasceu apenas um filho. Filho que se relacionou com uma escrava negra de quem teve uma descendente, mestiça portanto. Esta ligação e o respectivo rebento não foram bem acolhidos por Ana de Chaves, que não aceitou acolher no lar a sua neta africana.. Mas, com o tempo, ficou velha e viúva, e, fazendo das tripas coração, acolheu a sua descendente em casa, a quem fez dar o nome de Catarina de Chaves. E até lhe oferece bom dote, na condição de vir a casar-se com pessoa ilustre da ilha. O que se veio a verificar. Catarina contraiu matrimónio com um branco, filho da nobreza lusitana. Deste casamento ainda nasceu uma menina, mais branca que sua mãe, a quem deram o nome de Ana de Chaves, como a sua bisavó, e um vasto património. Com tal herança não lhe foi difícil arranjar bom casamento. A sorte bateu à porta de um tal Lourenço de Távora, descendente dos poderosos Távoras. Mas do seu ramo menor, pois também tinha este varão sido concebido em pecado, com uma escrava negra, por Cristóvão de Távora. Destes dois africanos “descendentes mitigados da nobreza portuguesa”, não nasceu rebento algum. Mas o mestiço Lourenço de Távora deixou vários filhos ilegítimos, todos mestiços. Não se deu o milagre de nascer algum branco.

Foi esta prole beneficiada com os inúmeros bens de raiz da casa “de Chaves”. Estranhamente, nenhum herdou o nome de família. O Pedro Verdelho escreveu neste seu trabalho de investigação que «em S. Tomé e Príncipe existem ainda descendentes da nossa Ana de Chaves. Todos eles são mestiços ou mesmo negros, mas nenhum usa o nome “de Chaves” e, provavelmente, muito poucos conhecem esta sua avó de raça branca.»

c)    Gerhard Seibert, investigador alemão sobre questões santomenses na nossa correspondência enquanto operadores literários, forneceu-me um documento escrito pelo Arlindo Manuel Caldeira sob o título “MESTIÇAGEM, ESTRATÉGIAS DE CASAMENTO E PROPRIEDADE FEMININA NO ARQUIPÉLAGO DE SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE NOS SÉCULOS XVI, XVII E XVIII”. Já antes, o meu colega de trabalho, Raimundo Carvalho, em conversa particular, também abordou-me parte do raciocínio de Caldeira.  Para Arlindo Caldeira, o caso Ana Chaves é quase um enigma quinhentista que engrossa o protagonismo do conjunto de figuras lendárias do nosso país S. Tomé e Príncipe enquanto herdeiro número um dos feitos dos antepassados de várias origens que fizeram dele terra maravilhosa. A sua presença deve ter ocorrido a partir de 1535, daí acredita-se ou suspeita-se a importância que o rei teria atribuído à categoria de cidade, a cidade de S. Tomé, que foi criada através de uma carta régia de 22 de Abril.

Da descrição de Caldeira chegamos a conclusão que existe algum entendimento entre Braga da Cruz e Marcelo Alves, mas no entanto não se depreende bem o porquê desses topônimos conhecidos por Ana Chaves e, ainda mais o destaque do Pico Ana Chaves ser o maior da ilha de S. Tomé, enquanto, o pico mais alto é o Pico de S. Tomé com 2024 metros. Ou será que o Pico de S. Tomé se chamou Ana Chaves?!

No entanto, se todos entendem que a (primeira) Ana Chaves era de origem europeia, talvez judia, filha ou aia do rei, nem todos depoimentos faz menção da Cezilha Chaves mãe da Ana Chaves que seria mandada para S. Tomé acompanhada da filha. Manuel Braga da Cruz e Marcelo Alves fazem essa referência que desafia a precisão dos relatos históricos. Num texto de Manuel Braga da Cruz até indica a zona actual do Matadouro Municipal onde havia uma lápide dando conta desse importante facto.

Outro caso mais intrigante é a menção ou o recurso ao nome da família Catarina. Se Catarina era esposa rei D. João III e ela é que teria enciumado pelo facto do marido envolver-se com a suposta aia, ou então, ele teria tido uma filha com uma concubina de nome Cezilha Chaves, porquê desse interesse a Ana Chaves dar o nome de Catarina uma sua bisneta. Tudo porque segundo o relato de Caldeira que pela sua ordem lógica de descrição, compagina muito bem com a do possível conterrâneo Marcelo Alves. Ana Chaves chega a S. Tomé casa com Gonçalo Álvares de quem se enviuvou, vindo a ter um neto do mesmo nome, também Gonçalo Álvares que ter-se-ia envolvido com uma escrava negra desprezada por ela.

Este Gonçalo Álvares deu a rapariga o nome de Catarina que foi inicialmente rejeitada pela bisavó Ana Chaves. Sendo a Catarina desprezada por ser “mulata” foi antes conhecida como Catarina da Trindade, talvez por ter sido encontrada na Trindade ou morar na Trindade. Essa Catarina da Trindade foi avó de um João Alves da Cunha como vimos atrás, que por ter sido chamado de mulato na sua ausência, mandou açoitar publicamente Manuel Rodrigues Veloso que fez tal declaração ao saber quanto custava na altura ser-se chamado como tal, porque a sua avó Catarina da Trindade passou pelo.

Isto porque, quando Ana Chaves (a primeira) já nas portas da morte ao não ter herdeiro ou herdeira, lembrou-se da neta filha da escrava negra, a Catarina Trindade ( o apelido Trindade era apenas porque foram-lhe encontrar desprezada na freguesia da Trindade) que a ser passada o testemunho de toda grande herança, foi perfilhada de novo como o nome de Catarina Chaves.

A coisa não ficou por aí, a Ana Chaves proporcionou o casamento de Catarina Chaves com um outro homem rico e influente na ilha João Barbosa da Cunha. Desse casamento surgiram duas filhas, a mais velha que com efeito da genética nasceu branca tal e qual a trisavó Ana Chaves vinda de Portugal, por isso a ela foi atribuído o nome de Ana (da Cunha) Chaves. Outra filha de Catarina com Barbosa da Cunha, chamava-se Maria Álvares, ela foi mãe de João Alves da Cunha (o suposto mulato) como vimos atrás que mandou açoitar publicamente Manuel Rodrigues Veloso.

Ora, se a Ana Chaves, filha de Cezilha Chaves ou não, chegou a S. Tomé em 1535, neste momento do relato já estamos a descer o século XVII por dentro, possivelmente 1640 em diante. Desta data até possivelmente entrada do século XIX a riqueza enorme de Ana Chaves vai-se desmoronando assim como vestígios da sua árvore genealógica.  Se Manuel Braga da Cruz remata que em 1863 Aires António de Sousa Coutinho (possivel descendente da família Chaves) teria vendido em 1863 todos os bens pertencentes a Ana Chaves que constituíam a capela ou o morgadio instituído por ela e denominado Praia Lagarto. Arlindo Caldeira aponta a existência de uma Ana Fernandes, mestiça, como um dos últimos vestígios de Ana Chaves. (Agora, quantas Ana Fernandes não existem por este S. Tomé fora????)

4- Conclusão

A História não mente, ela é como um rio correndo para a praia, por onde passa deixa sempre vestígios, ou então como água do monte “água matu” arrasta para a praia, para o oceano detritos que permanecem indistrutíveis. É desta forma que assumo a História como a maior agência reitora da Humanidade. Por isso o mundo só pode ser mundo enquanto existir homens e mulheres entre cumplicidades e paixões, amores e infidelidades, pois o pecado é a nossa fonte e somos fruto do pecado, enfim somos pecadores.

O que ocorreu em 8 de Março de 1857, por exemplo, em que um grupo de mulheres reivindicou direitos iguais aos homens, exigindo a redução de 16 horas de trabalho para dez, formula uma oprotunidade para assim recordarmos este acto, como também elevar outros em que mulheres e homens aparecem na cumplicidade e nos amores, na edificação e na revolução do mundo a procura de pão e de paz.

A Ana (de) Chaves foi uma nossa matriarca quer tenha sido branca, judia, negra, escrava ou degredada, como seguramente a Catarina da Trindade ou a Catarina Chaves avó de João Álvares da Cunha foi, foi uma mulata. O que se conclui é que seguramente houve duas Ana Chaves, uma trisavó da outra, assim como houve dois Gonçalo Alvares, um seria avô do outro, pois o primeiro foi marido de Ana Chaves, o segundo que nalgumas descrições é acusado de se envolver em actos de bruxaria, foi pai da Catarina da Trindade (Catarina Chaves) que embora mestiça escura, teve a feliz sorte de a primeira sua filha nascer branca, branca, tal e qual a sua trisavó Ana Chaves. A primeira Ana Chaves quer seja filha ilegítima do rei ou aia da corte, a sua mãe foi Cezilha Chaves. A primeira Ana Chaves é pelo menos trisavô da segunda que seria Ana (da Cunha) Chaves.

De Cunha Chaves chegamos a uma tal de Ana Fernandes e  já no século XXI, lanço um repto a minha sociedade. Será que existe alguém de nome Chaves em S. Tomé e Príncipe? Ou mesmo alguém com o nome de Ana Chaves? .Será que este apelido Chaves que dados históricos pensam ser um nome que a primeira Ana teria escolhido apenas para um disfarce no ultrmar, teria já desaparecido com o tempo?!!!!!

Uma nota de rodopé é que a Ana Chaves  como muitas mulheres famosas e viúvas de S. Tomé e Príncipe foram grandes trabalhadoras, eram donas de casa, donas de grandes parcelas de terra e exportavam cacau e café.

Enfim, com muita humildade devemos sempre ser capazes de reinvistir o nosso passado crioulizante no nosso presente construtivo. Por isso Alda Graça Espírito Santo dizia no título do seu livro: “Este é o Nosso Solo Sagrado da Terra” Neste Solo Sagrado da Terra podemos afirmar “A Liberdade é a pátria dos Homens”.

BIBLIOGRAFIA

Caldeira, Arlindo Manuel Mestiçagem, Estratégia de Casamento e Propriedade Feminina no Arquipélago de S.. Tomé e Príncipe nos séculos XVI, XVII e XVIII, pp 49-71

Boletim da Sociedade Geográfica de Lisboa Janeiro-Março 1964

Joseph Ki-Zerbo

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    J. Maria Cardoso Responder

    Bate, bate na pedra!
    Embora o momento pode parecer despercebido por tanto bater, ninguém duvida que a pedra adquira furo ou furos.
    Com duas mulheres em luta contra os homens a imaginar um dia sentadas ou sentada no poder presidencial, Ana Chaves, 1ª, 2ª ou 3ª devia-lhes servir de mote a subir o pico.
    Fiquei esclarecido e prometo procurar os Chaves entre nós, frutos dos mulatos e produtos da crioulização das ilhas.
    Parabéns!

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    FILIPE BERNARDO Responder

    Todo povo tem uma história,tradição, costumes,encantos e desencantos!E Conhecer essas histórias é muito mais importante ainda!É mais uma pedra para construção do edifício da sabedoria que pretendemos.Obrigado!

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    Reto Responder

    a primeira imagem neste artigo se chama por-do-sol… viraram a ilha ao contrário..???

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    Celsio Junqueira Responder

    Caro Francisco Costa Alegre,

    Antes de mais felicita-lo por esse artigo que contém conteudo mais que suficiente para deliciar qualquer interessado nas histórias e enigmas das Ilhas.

    Já li o livro que cita do Arlindo M. Caldeira, recomendo vivamente pela importancia nos cinco seculos de existência de STP das Mulheres.

    Tanto a D. Ana Chaves e a D. Simoa Godinho são ingredientes suficientes para uma investigação e posterior escrita apaixonante. Pena é que o tempo joga em desfavor e corroi a possibilidade de completar “puzzle histórico”.

    Na minha opinião uma cooperação entre os historiadores portugueses e santomenses produziriam com certeza “frutos”.

    Os nossos investigadores poderiam cruzar dados e informações e até solicitar uma abordagem estratégica em areas tematicas que coincidem no espaço temporal com os colegas Portugueses.

    Em jeito de conclusão, para quando uma associação de historiadores/investigadores, que só por si traria beneficio em separar o trigo do joio e uma melhor atenção ao programa curricular escolar de Historia Nacional?

    Saudações cordiais e um muito obrigado (adorei o artigo),

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    Marta Responder

    Este artigo é realmente uma lufada de ar fresco nas mais recentes publicações do Téla Nón ;-) Bem haja o Bom Senso, mesmo em campanha eleitoral.

    Vem também demonstrar como seria interessante se na escola estudássemos a verdadeira história de STP e os personagens que mais a influenciaram, mesmo com toda a sua dureza relativamente ao momento pós-independência. Afinal o Ser Humano atinge a maturidade quando consegue assumir o passado e ver o futuro com grande esperança.

    Demonstra ainda, o que as mulheres aparentemente desconhecem em STP: A FORÇA E O PODER FEMININO DE UMA SOCIEDADE MATRIARCAL.

    Mesmo com toda a sua ambiguidade, espero que nenhum homem se lembre de mudar o feminino nome da Nossa Baía de Ana Chaves. Afinal a Nossa Ana Chaves da Paixões, dos Amores, das Traições e Reconciliações – Qual é o namoro que se prese que não desfilou românticamente pela BAIA DE ANA CHAVES?

    Um bem haja à todos

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    Rio de Ouro Responder

    Há pormenores da nossa história que nunca viremos a conhecer a versão exacta. Mas não deixa de ser apaixonante, bem pelo contrário. Aliás um pouco de mistério, pimenta aqui ou alí, não faz mal, creio que todas as histórias têm disso.
    Imaginem que já ouvi dizer que Amador era mulato, talvez filho de branco e angolar, era um grandecessímo mal-criado, brigão, desordeiro, bêbado e, resumidamente, um perfeito ordinário. Mas, mesmo assim foi capaz de conduzir uma revolta.
    Outro assunto: Será que os prtugueses quando cá chegaram, não viram ninguem ou não viram em quntidade significativa? Cheira-me que a história dos angolares está muito mal contada.
    Torna-se necessário investigar. Como? Com que meios? Em que fontes?
    Torna-se necessário um trabalho profundo de arqueologia, paleontologia, etc, etc…e já estamos a falar em miliões de investimentos.
    Será que algum dia chegaremos a verdade, mesmo com alguma pitada de pimento aqui ou alí?
    Temos que tentar preservar as poucas informações que temos.Com a febre de 25 de Abril 74 muitos registos foram destruidos e, até hoje, há certas repartições em que livros de registos antigos andam aos pontapés ou confinados a uma arrecadação qualquer até irem para o lixo.
    Enfim, e assim vamos andando. Parece que fomos sempre assim.
    Por exemplo, fala-se de gente com muito dinheiro em STP. Convido-vos a tirarem uma percentagem e financiarem investigação a, b ou c. Muitos paizes têm alguma coisa feita graças a iniciativa privada e, por vezes, gente anónima.
    CONTO CONVOSCO.

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    Horácio Will Responder

    Quantas vezes acontece! Várias pessoas presenciarem uma cena e cada circunstante apresentar uma versão diferente dos factos, acreditando cada um ser o detentor da verdade. Mesmo sabendo de antemão que a verdade absoluta estará distante nessas circunstâncias, continuamos ansiosos por escutar as versões que nos apresentam. É assim a natureza humana. Talvez a natureza nos tenha concedido a consciência de que o futuro trará mais lucidez a quem tenha escutado algo, mesmo de veracidade não provada, do que a quem não tenha escutado nada.
    Como santomense, agradeço-lhe o empenho no sentido de nos apresentar factos relacionados com a nossa história.
    Garanto-lhe que cá no estrangeiro, sinto-me com algo mais para falar sobre a minha terra, depois de ler este artigo.
    MUITO OBRIGADO

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    Flavio Moniz Responder

    tenho a felicitar o nosso escritor, por uma tao grande obra…
    Graças a ele, dei mais um passo ao conhecimento da minha, nossa historia

    Parabens!!!

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    Bianca Responder

    Manuel Rodrigues Veloso era o nome do meu bisavô.

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