A VOZ E O VIOLÃO DE JOSÉ KAFALA

Representatividade do intérprete ao longo da história da trova angolana. O músico angolano que actua esta noite na CACAU. 

Jomo Fortunato |

Ligada à história social da música de intervenção, e com ela identificada, a trova angolana conheceu um rápido desenvolvimento e divulgação depois da independência de Angola, em 1975. Consubstanciada na sátira ou no aplauso a um ideal político, o seu desenvolvimento absorveu nítidas influências dos trovadores cubanos da chamada “nueva trova”, representada, fundamentalmente, por Leo Brawer, Sílvio Rodrigues e Pablo Milanês.

A noção de trovador embora se distancie, nos tempos modernos, da remota acepção medieval – designação dos antigos poetas provençais, em França, que cultivaram a poesia lírica, e aos poetas peninsulares desse tempo que os imitaram – conserva a carga semântica que lhe está na origem.

A economia de meios, concretizada no uso da voz e do violão, uma das características da trova moderna, contribuiu para sua larga difusão e o seu cultivo no período pós-independência. Outro aspecto deveu-se à eclosão da liberdade, constituindo, o exercício do canto livre, uma das manifestações mais populares de regozijo e de motivação à criação, gerada pelos novos tempos de emancipação política.

A história da trova angolana regista os nomes de Manuel Curado, Trio Percussor, formado por Ladislau Ventura, Massangano e Júlio Quental, Mário Rui, Mário Silva, José Fixe, Waldemar Bastos, Beto Gourgel, Duo Missosso, de Filipe Mukenga e José Agostinho, Afonso Gonçalves e, naturalmente, José Kafala.

Carreira

A expressividade da voz de José Kafala, assenta na liturgia religiosa. O pai de José cantava,  foi pastor e regente de coro da Igreja Protestante, colocado nos Dembos, hoje província do Bengo. Militante de uma temática textual de feição marcadamente humanista e social, José Kafala evoca nas suas canções a dor, o sofrimento, a conflitualidade étnica e amorosa, e a eterna esperança de um mundo melhor.

José Kafala vence, em 1984,  o Primeiro Festival dos Artistas Amadores das Forças Armadas, com o tema “Ngui mbalundo” e, em 1985, o arrebata o primeiro lugar do Top dos Mais Queridos, da Rádio Nacional de Angola, com o tem “Ó Kudizola Kueto”, gravado depois com o “Amandla”, a banda musical do ANC, da África do Sul.

A partir de 1985, José Kafala grangeia um singular prestígio do público e viaja por vários países. Portugal, Bulgária e Alemanha, foram os principais destinos, onde obteve inúmeros aplausos junto da crítica musical local, das quais destacamos uma apreciação crítica da jornalista búlgara Buchaskova. Actualmente, José Kafala segue uma carreira, a solo, fazendo espectáculos, restritos, em apresentações dispersas.

No dia 14 de Abril de 19 “Ngola”” (1988), “Salipo” (1995) e “Bálsamo” (2000).87, dia da Juventude Angolana, aconteceu o reencontro do grupo. O duo brindou o facto com um espectáculo de gala, realizado no cine Karl Marx, e interpretaram, de forma apoteótica, a canção “Ngola”.

Concerto

José  Kafala participou, no dia 20 de Maio de 2002, no Festival de Música da CPLP, num concerto comemorativo da independência de Timor Leste e da entrada como oitavo país da comunidade lusófona. O Festival, que congregou músicos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, juntou uma audiência de 200 mil pessoas, na capital timorense, e contou com a participação dos cantores: Ildo Lobo, de Cabo Verde, Martinho da Vila, do  Brasil, Luís Represas, de Portugal, Dulce das Neves, da Guiné-Bissau, Hortêncio Langa, de Moçambique, Juka, de São Tomé e Príncipe, Fafá de Belém, do Brasil, e a Banda  Delfins, de Portugal.

No evento José Kafala cantou “Luanda”, “Ofeka Yetu”, “Crucifixo”, “Renúncia Impossível”, “Kalumba”, “Dialogando” e “Minga”, títulos do CD “Bálsamo”, cantado  em kimbundu, umbundu, tchokwé e português. As revistas “Le Monde de la Musique”, “Africultures”, “L’Affiche” (le magazine d’autres musiques), “Continental” (l’afrique em marche), e “Reportoire e Actualités des Religions”, publicaram textos críticos favoráveis à qualidade da música de José Kakala.

Diploma
José Kafala foi agraciado com o Diploma de Mérito, uma honrosa distinção do Ministério da Cultura, no dia 11 de Janeiro de 2008, no âmbito das comemorações do dia 8 de Janeiro, dia da Cultura Nacional de Angola.

O Diploma, um reconhecimento público às pessoas singulares, colectivas, e instituições que, reiteradamente, contribuem para preservação e divulgação da cultura nacional, foi outorgado ao José Kafala, por ser um dos mais representativos trovadores do pós-indepedência, tendo as suas canções, como as inspiradas nos livros “Sagrada Esperança” e “Renúncia Impossível” do poeta Agostinho Neto, contribuído para a unidade nacional.

Enquanto duo, a flauta e o violão foram dois complementos de um outro instrumento, a voz, que foi explorada até a exaustão com o seu irmão Moisés Kafala, num exercício notável de contracanto que os colocou no ponto mais alto de vocalização da trova angolana.

Discografia

“Ngola”, o primeiro álbum do grupo, lançado no mercado, em 1988, foi produzido pelo Movimento Internacional Contra o Apartheid. Do CD alinham as canções:  “Ngola”, que dá titulo ao CD, “O’Lomgembia”, “Paira no Tempo”, Ngui Kinguilo”, “África”, “Vissolela”, “Nvunda Yeto”, “Lemba”, “O’Kudizola Kueto” e “Papá”

José Kafala gravou, em 1986, nos Estúdios da Rádio Nacional de Angola, a canção“Renúncia Impossível”, baseado num texto poético de inspiração niilista do poeta Agostinho Neto, um  tema que acabou por ser regravado, depois, com a flauta de Moisés Kafala, e veio a integrar o CD “Salipo”, termo, em umbundo, que significa adeus.

A internacionalização de José Kafala começa a ganhar forma e visita a Inglaterra, no Festival Womad, a Escócia, França, no Festival Atlântica, Alemanha, Brasil, integrados no Festival de Artes Negras, Cuba, Canadá, Zimbabwe, Namíbia, África do Sul, Suécia, Costa do Marfim, Congo Brazzaville, Bélgica, Holanda, Finlândia, Itália, Espanha e Estados Unidos.

É assim que grava, em Boston, em 1995, o  CD “Salipo”, que teve a produção da editora M.B.Record’s, dirigida pelo cantor cabo-verdiano Ramiro Mendes. “Salipo” foi reeditado pela editora francesa, “Harmonia Mundi”, e tem tido, até a actualidade, uma ressonância, positiva, junto do público estrangeiro.

“Ndenda la suku”, “Malamba mamy”, “Kalumba”, “Crucifixo”, “Ho Muno”, “Le Timba Liamome”, “Benguela”, ”Vutuka”, “Salipo”, “Amor Suspenso”, “Nguxi”, “Renúncia impossível”, e “Catito”, são as canções alinhadas no CD “Salipo. Embora sem o impacto dos discos anteriores, constatação que na altura denotava o declínio do duo com o seu irmão, surge, em 2004, o derradeiro CD, “Bálsamo”, onde pontificam, entre outras canções, os temas: “Ofeka yetu, “Crucifixo, “Um abraço”, “Amor”, “Suspenso”, “Renúncia impossível”, regravado, “Voz de Sangue”e “Kalunga”, canções interpretadas em português, kimbundu, umbundu e chokwe. Uma  conflitualidade interna separou o grupo, depois da gravação do CD “Bálsamo”, em 2004.

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    Bingo Responder

    Um belo e convincente currículo.

    É bom tê-lo cá, José Kafala.

    Cante e encante-nos.

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    Santana Barros Responder

    Força aí Zé Kafala. És o melhor trovador de Angola. E o teu irmão Moisés? Deviam continuar juntos para estarem melhor. Não ficam desunidos.

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    carlos almeida "camucuço" Responder

    Caro Abel Veiga,
    Por respeito ao leitor, sugiro que retire do texto a referência ao compositor Leo Brouwer.
    Este ilustre cubano é um dos nomes cimeiros e referência incontornável da chamada música erudita contemporânea, cuja obra musical em geral, mas, especialmente, a sua vanguardista produção composicional e técnica para guitarra clássica se tornou material de estudo obrigatório nos mais importantes conservatórios do mundo. Por conseguinte, Leo Browuer nunca esteve ligado ao mundo da canção, muito menos à “Nueva Trova Cubana”, senão apenas em exercícios esporádicos e meramente simbólicos enquanto orquestrador e director de orquestra.
    Cordialmente,
    Camu

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