Poeta Corsino Fortes sepultado no Mindelo com honras de Estado

Ao anunciar a sua morte, a vice-presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras, Vera Duarte, definiu-o como ‘ o maior poeta épico de Cabo Verde’.

Corsino Fortes, considerado um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa, foi a enterrar esta sexta-feira na sua cidade natal do Mindelo, com honras de Estado, tendo o cortejo partido do Palácio do Povo.

Foram decretados dois dias de luto nacional. Tinha 82 anos, vinha lutando contra um cancro e regressou a São Vicente há três semanas, a seu pedido. Foi fundador e Presidente da Academia Cabo-verdiana de Letras desde a sua criação em 2013, depois de ter presidido à Associação dos Escritores Cabo-verdianos.

CORSINO CAIXAO FOTOFoi Presidente da Fundação Amílcar Cabral, esteve ligado à criação da televisão cabo-verdiana e, entre outras funções de Estado, foi Secretário de Estado da Comunicação Social e embaixador em Portugal. No ano corrente havia sido distinguido com o Prémio Literário do 40º aniversário da independência de Cabo Verde.

Nas exéquias, o seu filho, também Corsino Fortes, falou em nome da família:

«Sinto uma certa felicidade em saber que ele é amado. Fez uma obra, ensinou-nos muita coisa e preparou-nos para aquilo que possa vir.»

Ao saber da sua morte, o Presidente Jorge Carlos Fonseca reagira, lamentando a morte de ‘’uma das referências  mais importantes e fortes da poesia do país’’ , tendo acrescentado que o conhecimento e a divulgação da sua obra será a melhor homenagem que Cabo Verde e os cabo-verdianos lhe poderão render. O chefe do Estado cabo-verdiano enalteceu ‘o homem bom’, ‘o poeta singular’ e ‘o amigo de todas as circunstâncias.

CORSINO LIVRONas cerimónias fúnebres, o Primeiro-ministro José Maria Neves, destacou a vida e a obra de Corsino Fortes e o seu contributo para a construção do país.

‘’Ele deu um enorme contributo para a construção do Estado e para servir o bem-comum. Um homem plural que trabalhou para que Cabo Verde tivesse uma literatura de dimensão internacional’’, disse José Maria Neves.

Poucos dias antes da sua morte, foi publicado o seu quarto livro de poemas intitulado ‘’Sinos de Silêncio’’. Antes, havia publicado Pão & Fonema (1973), Árvore  & Tambor, (1986) e Pedras de Sol e Substância, (2001), reunidos no volume ‘’A Cabeça Calva de Deus’’. Sobre a trilogia, disse a crítica literária Ana Mafalda Leite:

«Aqui se lê um percurso que começa por anunciar a libertação do país, o festeja em som celebrativo e o dignifica na sua solaridade cultural. (…) Abandonadas pelos deuses no meio do Atlântico, as dez ilhas cabo-verdianas, a caminho de África, Europa e América, com a nudez mineral da secura, incorporam nelas a força poética e rítmica com que a  poesia fundacional de Corsino Fortes as canta em tom épico e sagrado.»

São Lima / Téla Nón

 

Tela Non

 

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    Júlio Neto Responder

    Sei que com tanta dor e sofrimento, palavras são incapazes de consolar o coração de um Povo, nessa hora.
    Aqueles que amamos nunca morrem, apenas partem antes de nós. Que Deus na sua infinita bondade, conforte os corações do Povo de Cabo Verde.
    Aceitar a morte é difícil, mas é o único caminho para o momento que se passa. Contudo, a fé cicatrizará a ferida da perda deste filho amado da África e do mundo, uma das mais importantes figuras da literatura de língua portuguesa, do nosso tempo.
    A maior homenagem já foi dada: as lágrimas de um País inteiro e, sobretudo, dos familiares, são a maior expresão de amor do ser humano. Lamentamos, mas, como legado a esse querido filho da Nacão Cabo-verdiana talvez teria sido a maior homenagem a Corsino Fortes, e, com certeza, era seu sonho. Manifesto os meus profundos sentimentos pelo acontecido a todas as famílias! Que sua alma tenha um eterno descanso..!

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    Mali Responder

    Corsino Fortes permanecerá na sua obra, nos seus poemas, nos seus livros, nos quais canta, celebra e eleva alto, muito alto, a sua Pátria e os filhos e filhas da sua Pátria, Cabo Verde. Até sempre, Poeta!

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    Isto é Poesia Responder

    Quando a África incha seus músculos de sangue & secura
    Não há Sahel que não queime
    No coração da noite
    A sua salina de solidão

    Não há boca Que não chova a sua gota de corpo & alma
    Nem gota
    De água doce Que não seja
    Um espaço! para amar e habitar

    Por vezes! o relâmpago
    Escreve coisas vivas na boca do arquipélago

    E as ilhas soerguem-se
    pelo arquipélago das patas
    E vão
    De cratera em cratera
    Erguer
    na boca das sementes
    A força contida dos vulcões (…)

    In ‘Árvore & Tambor’

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