Nigéria: Porque venceu Buhari e o que deverá fazer a seguir

Oladiran Bello/ Allafrica.com 

Tradução de São de Deus Lima

A história irá, provavelmente, consagrar as recentes eleições na Nigéria como um momento definidor que colocou finalmente o país no irreversível caminho da maturação democrática.

O exercício foi imperfeito, salpicado por problemas técnicos, bolsas de violência e o inevitável brandir de espadas. Porém, à luz dos padrões africanos, a sua condução foi extremamente bem-sucedida. Ninguém terá, com segurança, previsto tal desfecho, mas os nigerianos demonstraram a sua fé no processo eleitoral e na escolha democrática. Vários factores concorreram para esse pacífico desfecho e irão ajudar a entender as prováveis prioridades do próximo governo do general Muhammadu Buhari.

Eleições marcantes

Em primeiro lugar, a oposição aglutinada no Congresso de Todos os Progressistas,  APC, esteve mais organizada e unida desta vez, tendo conseguido, melhor do que o Partido Democrático do Povo do presidente Goodluck  Jonathan, levar os seus eleitores às urnas.

Estado após estado, o APC assegurou uma fatia da base eleitoral que catapultou Jonathan ao poder em 2011.  Ficou claro: o sólido apoio obtido por Buhari na sua natal região nordeste a qual inclui Kano, segunda mais populosa cidade logo a seguir a Lagos, foi reforçado pela entusiástica afluência naqueles estados.

O mesmo apoio não obteve Jonathan nos seus bastiões do sul-sul e do sudeste. Por outro lado, Buhari conquistou sólido apoio no sudoeste, um dos mais populosos blocos geopolíticos da Nigéria que inclui a plataforma económica de Lagos.

BUARI FOTO 1Facto positivo para a Nigéria, as eleições não foram, do ponto de vista étnico e religioso, tão polarizadas como se receava. Goodluck Jonathan obteve substancial apoio em alguns estados nordestinos muçulmanos, tal como Buahri entre os maioritariamente cristãos Edo, bem como no sudoeste, com um misto de cristãos e muçulmanos.

O segundo factor a ter pesado nestas eleições foi uma generalizada insatisfação com o desempenho do PDP. A massiva afluência liderada por uma coligação jovem e cristã que beneficiou Jonathan em 2011 não ocorreu desta vez.

Preocupações com a segurança nacional, particularmente no nordeste, a situação económica marcada pelo desemprego e pelo alargamento do fosso da pobreza e um abastecimento energético errático, estão na base da perda de popularidade do PDP. O presidente Jonathan comprometeu-se publicamente a melhorar o abastecimento energético mas não cumpriu.

O terceiro e talvez mais importante factor foi a remodelação do processo eleitoral. O uso de cartões biométricos permitiu monitorizar potenciais acções fraudulentas. A actualização dos cadernos eleitorais possibilitou a eliminação de mais de cinco milhões de eleitores fantasmas.

Créditos para Goodluck Jonathan

Se a tecnologia redimiu a Nigéria, os créditos devem ir para Goodluck Jonathan por ter encorajado a introdução de salvaguardas tecnológicas do processo eleitoral. E ao reconhecer com prontidão e elegância a derrota, Jonathan posicionou-se para ser reconhecido por gerações futuras como um elemento definidor do progresso da democracia nigeriana.

Muitos observadores esperavam que estas eleições desembocassem num sangrento impasse. O pacífico desfecho deixou o mundo de boca aberta mas há ainda graves desafios pela frente. Em retrospectiva, a muito criticada decisão de adiar as eleições por seis semanas permitiu à Comissão Eleitoral Nacional Independente, INEC, preparar-se melhor e afinar a logística. Tivessem as eleições ocorrido na data inicialmente prevista, os desafios de ordem logística teriam sido, provavelmente, mais severos.

Quais deverão ser a prioridades do presidente Buhari?

A ameaça do Boko Haram continua a pairar, mas a origem étnica e a experiência militar de Buhari apontam-no como um líder melhor posicionado para capitalizar algumas das recentes conquistas das forças armadas contra a insurgência islamita.

Buhari talvez remodele a liderança das forças armadas para revitalizar os serviços de segurança e elevar o moral das tropas.

Contudo, um potencial perigo é a petrolífera região do Delta, no sul, onde está prestes a expirar a amnistia amplamente bem-sucedida que ajudou a pôr termo a uma insurgência alimentada pelo petróleo.

Um Buhari astuto irá, sem demora, direccionar  para aí as suas atenções e encontrar formas de manter apaziguados os ânimos. Na verdade, o novo presidente deverá enfrentar o potencial risco de insegurança no Delta com o mesmo vigor a devotar ao Boko Haram, tratando como uma hidra de duas cabeças ambas as ameaças à estabilidade da Nigéria.

A partir do primeiro dia, Buhari deverá priorizar intervenções sociais e económicas que materializem os há muito aguardados dividendos da democracia, tais como consolidar os programas de remodelação do sector da electricidade iniciados pelo governo do PDP, estimular a criação de postos de emprego através da agricultura e outros sectores, bem como redireccionar os recursos públicos, pondo termo ao desperdício de recursos e investindo em pessoas, competências, comunidades e infra-estruturas.

Muitos nigerianos quererão ver responsabilizados os que geriram mal os fundos públicos durante o mandato de Jonathan. No entanto, Buhari irá ter de equilibrar esses apelos com a necessidade de olhar em frente, de modo a estabilizar o barco do Estado. Apenas se o conseguir poderá o país tirar partido dos ganhos eleitorais para abordar os desafios económicos e sociais mais vastos. 

Governação pós-eleitoral e perspectivas económicas

Buhari tem uma comprovada reputação de ter sido incorruptível enquanto presidente militar da federação (1983-85)  e enquanto Presidente do Conselho de Administração do Fundo Nigeriano do Petróleo, em finais da década de 90. O seu real contributo consistirá em assinalar, a partir de cima, que a nova administração é seria nos propósitos de eliminar desperdícios e corrupção e promover a disciplina na gestão da coisa pública.

Isso terá de ir além da esfera federal para se reflectir em todos os outros níveis de governação, dos 36 estados às autoridades locais. Mais transparência e eficiência irão igualmente ajudar as finanças nigerianas em tempos de emagrecimento das receitas do petróleo.

A cultura de corrupção e de má-gestão resultou em crescente má qualidade de serviços nos sectores energéticos, da educação, da saúde e outros, desde o retorno á democracia em 1999. Um esforço concertado de Buhari para corrigir essas anomalias irá ajudar a restaurar a esperança e a confiança públicas na liderança política.

Os cidadãos compreendem a  enormidade do empreendimento que aguarda a nova administração mas o governo terá de começar cedo a mostrar sinais de avanço. Uma governação assim orientada iria consolidar os ganhos económicos obtidos pela Nigéria nos últimos 10 anos e torna-los mais inclusivos socialmente.

A forma pacífica como se deu a eleição de Buhari já está a entusiasmar a comunidade global de investidores. A previsibilidade política irá também persuadir investidores mais circunspectos a avançar com os seus planos de investimento no crescentemente atractivo mercado nigeriano.

O sucesso de Buhari na sua guerra à corrupção irá igualmente reabilitar a Nigéria em termos globais, proporcionando um activo reengajamento com processos globais de governação como o G20.

Existe um crescente reconhecimento mundial da Nigéria como o único Estado africano com potencial para emergir, em meados deste século, como poder global significativo, com uma economia na lista global dos primeiros 20 e a terceira maior população do mundo.

A estabilidade interna assegurada por uma administração transparente e responsabilizável deverá permitir tanto um reposicionamento geoestratégico como uma projecção geoeconómica no palco mundial.

Assim, uma alta prioridade económica para Buhari deverá ser ressuscitar o projeto de Lei das Indústrias Petrolíferas a amarelecer no parlamento há cerca de dois anos. A lei será vital para limpar a opaca indústria petrolífera, principal fonte de divisas e de financiamento do governo.

Em conclusão, estas eleições assinalaram um ponto de viragem para a Nigéria. A questão que agora se coloca é: irá a nação tirar partido da presente vantagem para reconquistar o seu lugar nos assuntos globais e reassumir o seu papel como peça-chave em África?

Oladiran Bello é graduado pela Universidade Obafemi Awolowo, Nigéria, e pela Universidade de Cambridge, Grã-Bretanha. Chefia o Programa de Recursos da Governação em África no Instituto Sul-africano de Relações Internacionais.

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    Castilho Sousa Responder

    Artigo esclarecedor. Desejo muita sorte ao povo da Nigéria e sucessos para o Presidente Buhari.

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    Tango Responder

    Afinal a energia electrica também deu cabo do presidente Jonathan? Patrice Trovoada que tome cuidado então, porque o povo santomense também já está a ficar farto dos cortes de electricidade desde que ele começou a governar. Só está a piorar, apagão todos os dias. Assim não dá.

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