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Poluição do ar anula os benefícios do desenvolvimento e do crescimento na Índia e na China 

À medida que o inverno se instala e a fumaça cobre ainda mais o cinturão do norte da Índia, um novo estudo enfatiza a necessidade urgente de resolver o problema da poluição do ar naquele país e na China.  O relatório do Greenpeace Índia [1] descobriu que a poluição do ar causada pelo uso contínuo de combustíveis fósseis (carvão em particular) em ambos os países causou 1,6 milhões mais mortes do que o número projetado com base na taxa de crescimento do PIB para o ano 2015.

“A poluição do ar devido ao uso contínuo de combustíveis fósseis nega tanto à Índia como à China os frutos de uma economia florescente”, disse Lauri Myllyvirta, do escritório do Greenpeace na Índia. “O relatório coloca um grande ponto de interrogação sobre a qualidade do desenvolvimento econômico que esses dois países estão oferecendo à suas populações. Geralmente, a poluição do ar tem uma relação inversa com o PIB do país; verificamos que, à medida que os países se tornam mais ricos, geralmente desenvolvem indústrias menos poluentes. Mas no caso da Índia e da China, a tendência tem sido exatamente oposta: apesar de seu crescimento econômico, esses dois países têm uma qualidade do ar particularmente sofrível. É claro que uma economia fortemente dependente do carvão só pode significar a fatalidade para o seu povo “. 

Explicando a aritmética por trás dessa cifra alarmante: segundo o relatório, para o ano de 2015, o PIB per capita da Índia e da China foi calculado em US$ 1.582 e US$ 7.925, respectivamente.  De acordo com a tendência global, isto deveria ter significado menos mortes devido à poluição em comparação com países com um menor PIB per capita. Mas as taxas de mortalidade por poluição atmosférica na Índia e na China continuaram a subir: em 2015, a poluição deveria ter causado 94 mortes por 100.000 pessoas na Índia e 41 mortes por 100.000 pessoas na China, mas, na realidade, os números foram de 138 e 115 mortes por 100.000 habitantes na Índia e China. Segundo a Global Burden of Diseases (GBD), o número real de mortes na Índia foi de cerca de 1,8 milhões e 1,5 milhões na China. O número esperado de mortes com base no PIB da Índia e da China foi calculado em 1,2 milhões e 558 mil, respectivamente.

Isto sugere que há mais de um milhão de mortes por ano na China e quase 600.000 mortes por ano na Índia a mais do que se a taxa de mortalidade por poluição do ar em ambos os países seguisse a média de outros grandes países com renda média com seu nível de PIB per capita.

Desempenho da Índia decepciona

“As taxas de poluição do ar caíram na China e na Índia desde 1990, mas são ainda piores do que na maioria de países semelhantes. O que é mais desconcertante para a Índia é o fato de que as taxas não melhoraram desde 2010”, disse Sunil Dahiya, ativista do Greenpeace Índia. A Índia ultrapassou a China em mortes devido à poluição do ar, conforme apurou o Greenpeace ao analisar os dados coletados pela Global burden of Diseases (GBD) [2].

“A taxa de mortalidade por poluição do ar melhorou muito lentamente em comparação com outros países similares. Entre 1990 e 2015 a taxa caiu 14% contra 28% em outros países que, em 1990, tinham taxas de mortalidade acima de 100 por 100.000. Desde 2005, houve muito pouca melhora na taxa de mortalidade por poluição atmosférica da Índia: ela caiu de 141 para 138 por 100.000 apenas”, acrescentou Dahiya.

Poluição por combustíveis fósseis é culpada

O relatório considera que o uso contínuo de combustíveis fósseis é o principal culpado pela qualidade deteriorada do ar nos dois países. Com o apoio de relatórios científicos [3], o Greenpeace Índia também, em um relatório anterior intitulado “Fora da vista” [4], destacou o papel crucial desempenhado pelas usinas térmicas na disseminação de partículas na atmosfera.

A China adotou padrões de emissão estritos para as usinas térmicas em 2011 e um plano de ação coordenado em 2013, o que levou à redução dos níveis de poluição, acabando por travar o aumento das mortes causadas pela poluição atmosférica. “Mas na Índia, a situação não está sendo levada a sério pelas autoridades. Em vez disso, há conversas sobre a flexibilização dos prazos para a implementação dos padrões notificados de emissões para usinas a carvão. O desenvolvimento futuro de usinas termelétricas não só criará riscos para a saúde, mas também terá um efeito paralisante sobre a economia “, disse Dahiya.

Com o crescimento econômico vem a adoção de políticas energéticas melhores e mais limpas. Mas, infelizmente, a Índia e a China parecem estar seguindo uma tendência inversa. O governo deve abordar a necessidade urgente de abordar a poluição do ar como uma emergência nacional e reconhecer as usinas a carvão como uma das causas. A necessidade da hora é criar um plano de ação regional [5] cobrindo áreas extremamente poluídas do Punjab a Bengala Ocidental. Já é tempo de o governo parar de dar mais concessões à indústria de combustíveis fósseis poluentes, que precisam ser responsáveis, dados os perigos para a saúde que eles representam para uma fatia enorme da população indiana.

Notas:

[1] Link para o relatório do Greenpeace:

http://www.greenpeace.org/india/Global/india/2016/docs/Final-Coal%20and%20dirty%20development%20in%20China%20and%20India.pdf

[2] Análise GBD: https://secured-static.greenpeace.org/india/Global/india/2016/docs/Deaths-due-to-outdoor-air-pollution-in-India-and-China—Greenpeace-India-report.pdf?1

[3] Relatório IIT sobre poluição do ar: http://delhi.gov.in/DoIT/Environment/PDFs/Final_Report.pdf

[4] Fora da Vista: http://www.greenpeace.org/india/Global/india/cleanairnation/Reports/Out%20of%20Sight.pdf

[5] Clean Air Action Plan: – http://www.greenpeace.org/india/Global/india/2015/docs/nationalcleanairactionplan.pdf

 

 

 

    1 comentário

1 comentário

  1. Ralph

    15 de Dezembro de 2016 as 5:03

    Estes dois países de Índia e China enfrentam um problema grande em que percebem bem a necessidade de reduzirem os seus níveis de poluíção por duas razões – a primeira concerne a redução das mudanças climáticas e a segunda relaciona-se à saude das suas populações. Mesmo então, querem continuar a crescer as suas economias. O problema é que precisam de alimentar os seus povos e produzir a eletricidade necessária para abastecer as suas economias, algo que é feito mais baratamente pelo uso de combustíveis fosseis. Por isso, os governos têm de balançar um desejo de melhorar a saúde dos seus povos e minimizar os efeitos das mudanças climáticas com outro desejo de propiciar enegia barata, necessidando a queimar continuado do carvão. Não será uma equação fácil de resolver.

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