Oito em cada dez jovens africanos consideram que as alterações climáticas afectam negativamente as suas vidas

Marraquexe, 19 de Dezembro de 2016 - Por ocasião da 22ª Conferência das Partes na Convenção das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, o Comité Directivo da COP22 realizou o primeiro estudo pan-africano sobre o aquecimento global. O estudo incidiu junto dos jovens nascidos entre 1980 e 2000, os ‘millennials, de 19 países africanos. 

Esta pesquisa revelou que os millennials:

-          consideram-se directamente afectados pelas alterações climáticas e observam os seus efeitos todos os dias (86%);

-          consideram o acesso à água (73%) e o desenvolvimento das energias renováveis (71%) como as iniciativas mais relevantes para combater o aquecimento global. Mais de metade (53%) acusa os governos de não lutarem o suficiente contra as suas consequências;

-          querem fazer parte da luta contra o aquecimento global e consideram que podem alcançá-lo separando os resíduos (69%).

Já sentimos as consequências do aquecimento global, em particular em relação à nossa saúde e ao nosso acesso a alimentos e água. “O tempo está a esgotar para atingirmos, a longo prazo, as metas de temperatura”, advertiu Aziz Mekouar, embaixador para as negociações multilaterais na COP22, “mas a mobilização política está lá, como ficou provado pela Proclamação de Marraquexe, declarada por 197 partes na Convenção”, acrescentou no encerramento da COP22, a 18 de Novembro de 2016. Na verdade, esta COP foi um verdadeiro sucesso, com a participação recorde de 29.000 participantes na Zona Azul e mais de 35.000 participantes na Zona Verde.

Marrocos, o país anfitrião da 22ª Conferência das Partes, está profundamente empenhado na luta contra as alterações climáticas, não só na sua própria região, mas também no continente africano, tendo feito da economia verde um importante objectivo estratégico. “Todo o nosso ecossistema económico, do desenvolvimento ao consumo e à distribuição, deve ser transformado para o nosso bem-estar coletivo”, acrescentou Aziz Mekouar.

Conforme estipulado no Acordo de Paris, que já foi ratificado por 113 países, e que representa 78,96% das emissões globais, o aumento da temperatura global deve permanecer abaixo dos 2°C. Caso contrário, corremos o risco de condenar uma geração inteira: os millennials, nascidos entre 1980 e 2000. São eles que irão sofrer mais com as consequências do aquecimento global. Portanto, o estudo, realizado pela CG Consulting e encomendado pelo Comité Directivo da COP22, “Mudança climática, Tempo para a ação”, procurou as respostas com os millennials. Este é o primeiro estudo com opiniões dos millennials em África, sobre o tema das mudanças climáticas, que inclui os seus receios e preocupações, bem como a sua vontade para agir e identificar os meios que necessitam para fazê-lo. Eles são a mais recente geração, capaz de travar as alterações climáticas.

África: primeira vítima do aquecimento global

Secas, incêndios, inundações, tempestades violentas: o aquecimento global é responsável por mudanças consideráveis no nosso ambiente, especialmente em África, um continente particularmente vulnerável às mudanças climáticas. Millennials africanos são directamente afectados pelos seguintes fenómenos:

-          86% dos jovens entrevistados observam chuvas mais frequentes e imprevistas

-          79% relatam o aumento de doenças nas culturas e na pecuária

-          77% notam o progresso da desertificação

-          73% observam o aumento dos incêndios florestais

Estas consequências têm um impacto na agricultura e na segurança alimentar. A África terá de triplicar a sua produção agrícola até 2050 para satisfazer as necessidades de uma população que irá duplicar. Daí a importância da iniciativa para a Adaptação da Agricultura em África (AAA), iniciada por Marrocos, que visa assegurar o financiamento para a adaptação da agricultura africana e aumentar a produtividade agrícola no continente, garantindo 30% do plano de investimento a partir de 2020, para a adaptação dos países em desenvolvimento. Tal representa $30 mil milhões por ano para o desenvolvimento de África.

“Historicamente, a agricultura não tem sido uma prioridade na luta internacional contra as mudanças climáticas, sofrendo de uma considerável falta de financiamento, apesar de ser o sector mais vulnerável”, disse Salaheddine Mezouar, presidente da COP22.

Os governos devem agir

Para 76% dos millennials africanos, são os governos que devem ser os primeiros a agir contra o aquecimento global, mas mais da metade (53%) criticam-nos por não fazerem o suficiente. Deste modo, as alternativas encontradas são a nível supranacional, através dos esforços da União Africana (para 75% deles), e mais genericamente por organizações internacionais (73%), e a nível subnacional graças aos actores privados (69%) e organizações não governamentais (68%).

A este respeito, Salaheddine Mezouar congratulou-se com o facto de a COP22 ter sido marcada por “três momentos políticos muito importantes: a realização da primeira reunião das Partes do Acordo de Paris (CMA1), a cimeira dos líderes a 15 de Novembro, e a dos países africanos na liderança da luta contra as alterações climáticas. Consciente de que nenhum país pode lutar sozinho contra o aquecimento global, e que a África, responsável por apenas 4% das emissões de gases do efeito estufa, é o continente mais afectado pelas consequências, a 16 de Novembro durante a COP22, Marrocos organizou a primeira cimeira da acção africana para promover a cooperação continental.

Durante este período, os estados africanos reafirmaram o seu compromisso de trabalhar coletivamente para um continente africano resistente às alterações climáticas e manifestaram a sua ambição para construir um modelo de desenvolvimento inclusivo e sustentável, que salvaguarde os interesses das gerações futuras. Estes consolidaram os seus compromissos para enfrentar os efeitos das alterações climáticas e acelerar a implementação de iniciativas já identificadas ou lançadas, com base nos seus recursos, e também através da mobilização de empresas e actores não estatais.

O desenvolvimento das energias renováveis e o acesso generalizado à água: iniciativas-chave para a África 

O continente africano, particularmente vulnerável aos efeitos do aquecimento global, carece das infra-estruturas básicas necessárias ao desenvolvimento económico e energético sustentável. 

Em África, nove em cada dez (94%) millennials considera uma prioridade as energias renováveis, sendo esta a primeira fonte de energia utilizada em África. Marrocos também iniciou projectos que lhe permitirão aumentar a quota das energias renováveis para 42% e melhorar a eficiência energética em 12% até 2020. Até 2030, a quota de electricidade produzida pelas energias renováveis deverá ser de 52%. 

Para 92% dos millennials africanos, a luta pelo clima também requer acesso a água potável para consumo. O lançamento de “Água para África” na conferência internacional sobre água e clima – realizada a 11 e 12 de julho em Rabat – é um primeiro passo neste sentido. Chama a atenção para a necessidade e o verdadeiro empenho da comunidade africana para responder à urgência dos problemas colocados pela água no continente e a sua relação com as mudanças climáticas.

Assegurar o financiamento para garantir o futuro dos millennials

Nem a disseminação de energias renováveis, nem a água potável para consumo é possível sem financiamento. Este último é um dos elementos-chave para a transição energética. Assim, o Acordo de Paris reconhece que, até 2020, serão necessários $100 mil milhões (em empréstimos e subvenções) por ano para projetos que permitam aos países adaptarem-se aos efeitos das alterações climáticas ou diminuam as emissões de gases de efeito estufa. Espera-se que estes fundos aumentem gradualmente e alguns países em desenvolvimento, de forma voluntária, também possam tornar-se doadores para auxiliar os países mais vulneráveis.

Durante a COP22, os países desenvolvidos e em desenvolvimento lançaram uma nova parceria no âmbito do Acordo de Paris: a Parceria INDC. Esta parceria INDC (Contribuições Nacionalmente Determinadas) constitui uma nova aliança de países e instituições internacionais mobilizadas para assegurar que os países recebam o apoio técnico e financeiro, de que necessitam para atingir seus objectivos climáticos e metas de desenvolvimento sustentável o mais rapidamente e eficientemente possível.

Na conferência de imprensa de encerramento da COP22, Salaheddine Mezouar salientou que “a dinâmica de Marraquexe e o trabalho que faremos em 2017 permitirá que o financiamento se torne mais fluído” e acrescentou que “a Declaração de Marraquexe foi adoptada por unanimidade e a liderança de Sua A Majestade, o Rei Mohammed VI, e outros chefes de estado africanos acelerarão a implementação destes projectos, a fim de aliviar as dificuldades de transformação do continente. África deve agir rapidamente “.

Millennials, actores na luta contra as alterações climáticas

Apesar do poderoso papel que confere aos estados, os millennials africanos também querem agir pelo meio ambiente. 69% dos jovens inquiridos consideram a gestão de resíduos como a forma mais eficaz de combater o aquecimento global. Eles também defendem a propagação da reciclagem (65%) e o limite do uso de recipientes de plástico (64%). Em Marrocos, por exemplo, a campanha “Zero Mika” foi lançada em Junho de 2016 com o apoio da COP22, a fim de contribuir para uma verdadeira mudança no comportamento quotidiano e, assim, adoptar uma atitude de desenvolvimento sustentável.

As escolas e universidades não fornecem informação suficiente sobre as alterações climáticas

A luta contra o aquecimento global também envolve o conhecimento. Os media tradicionais (televisão, rádio e jornais) são a principal fonte de informação para os millennials africanos (47%), muito à frente da Internet e das redes sociais (15%). Deve-se notar que as escolas e as universidades parecem ter apenas contribuído para a educação de 13% dos jovens africanos sobre as questões climáticas.

É em parte para compensar essa lacuna que Sua Majestade, o Rei Mohammed VI, criou a Fundação Mohammed VI para a Protecção do Meio Ambiente, da qual ele confiou a presidência a Sua Alteza Real, a Princesa Lalla Hasna. A Fundação coloca as questões de educação e de sensibilização no centro da sua missão, de acordo com os objectivos fixados pelas Cimeiras do Rio, de 1992 e 2012, e de Joanesburgo, em 2002, em termos de educação para o desenvolvimento sustentável, que Marrocos defende.

O estudo foi realizado de 7 a 16 de novembro de 2016 pela CG Consulting, em nome do Comité Directivo da COP22, em 19 países africanos: Argélia, Angola, Camarões, República Democrática do Congo, Egipto, Etiópia, Gana, Costa do Marfim, Quénia, Malawi, Marrocos, Moçambique, Nigéria, República do Congo, Ruanda, África do Sul, Tanzânia, Zâmbia e Zimbabué.

Amostra:

- 1,156 respostas

- Áreas urbanas e rurais

- Homens (53%) e Mulheres (47%)

- Faixa etária: 18-22 (25%), 22-26 (36%) e 27-30 (39%)

 

Metodologia:

- Questionário online e móvel

- Sete questões

 

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