A FIGURA DO ANO 2008

Publicado em 12 Jan 2009
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Victor Ceita,victor.jpg advogado são-tomense radicado em Angola, tece comentários a respeito da eleição da figura do ano 2008 em São Tomé e Príncipe.

A FIGURA DO ANO 2008

Muito se de tem dito, escrito e especulado sobre a figura do empresário Aurélio Martins e do Grupo que lidera, Gibela. Para uns, a pessoa e a empresa são apenas representantes de interesses diversos num S. Tomé e Príncipe apenas menosprezado para alguns dos seus filhos. Outros, mesmo de forma disfarçada, afirmam que o que está em causa são as ambições políticas da pessoa, que se afirma no espaço social e político santomense, através da empresa que lidera. Alguns há que não querem saber se existem razões ou motivações (não são capazes de pensar), apenas acham mal, ou, pelo menos, não vêm com bons olhos aquilo que levianamente apelidam de esbanjamento de dinheiro.

Confesso que não me interessam quaisquer destas considerações, pelo simples facto de pensar por cabeça própria e preferir fazer uma (pessoal) leitura factual do que foi até aqui a actuação da dupla que, segundo os órgãos de comuicação local, foi distinguida pelos ouvintes da Radio Nacional de S. Tomé e Príncipe, como a figura e a instituição mais importantes do país em 2008.

O artigo que noticia o facto dá-nos conta, em traços gerais, das actividades desenvolvidas pela dupla Aurélio Martins-Gibela: no âmbito do desporto, realizou duas edições do torneio gira-Ilhas, em que foram atribuídos prémios nada simbólicos como se possa pensar. Por outro lado, foi construído um campo de futebol na cidade das Neves, a par da distribuição de materiais e equipamentos desportivos um pouco por todo o país. No campo da cultura, a dupla apoiou quer publição de livros, quer músicos santomenses. Além disso, a dupla patrocinou o concurso MISS São Tomé e Príncipe 2008/2009. No capítulo da assistência social, refere a notícia que a dupla materializou acções de solidariedade a favor dos idosos, crianças e jovens em várias localidades do país. A culminar, encontra-se prometido um barco para assegurar a regularidade de ligação entre as duas ilhas do arquipélago.

A fazer fé nas notícias publicadas, não admira a frustração/agitação de alguns “políticos” que operam na sociedade santomense.

Não conheço nem tenho a obrigação de conhecer as reais intenções da figura do ano, apesar do acerto do velho ditado segundo o qual ninguém dá nada sem receber ou, pelo menos, esperar receber. Mas este problema (o das reais intenções) só à figura do ano diz respeito, o qual certamente, no timing próprio, será forçado a esclarecer a opinião pública a propósito.

Mas a actuação do Grupo Gibela pode não representa senão aquilo que se tem vindo a fazer nas sociedades desenvolvidas, ou seja, aquilo a que se convencionou chamar “responsabilidade social das empresas”. Ou seja, uma empresa que se prese, apesar de perseguir o seu objectivo último, que é o lucro, deve ter preocupações sociais, nomeadamente, ambientais e com o apoio social aos mais desfavorecidos. E os empresários (se bem que, com o desenrolar do julgamento do escândalo do GGA, cada vez mais tenho sérias dúvidas em sustentar que em STP haja comerciantes dignos desse nome) que viajam minimamente sabem ou deviam saber que hoje já não basta facturar. É preciso um pouco mais.

O facto é que a actuação desta dupla é inédita em STP tanto nos projectos apoiados como na abrangência desses apoios. Ou seja, até aqui estávamos habituados a meros oportunistas, que em determinados momentos apareciam na sociedade com alguns trocados no bolso e entravam na competição casuística do “banho” para alcançarem um lugar na assembleia nacional ou noutro recanto de tacho garantido. Nada mais. Tanto bastava para serem confudidos pelos desgraçados cidadãos votantes como políticos ou “senhores importantes”.

Com a dupla em análise parece ser diferente. Na verdade, quem pode acusar a figura do ano de perseguir mera ambição política se as obras que vem desenvolvendo iniciaram-se a um período muito distante de qualquer campanha ou pleito eleitoral? E qual é o mal de uma ambição política, de resto legítima de todo? A questão é que os pseudos políticos ou os oportunistas que sempre viveram num determinado sistema hoje se vêm certamente nostálgicos, pois, quiça, se tivessem plantado de semelhante forma uns anos antes (abdicando um pouco do seu a favor de projectos sociais), não seriam considerados pelo seu povo como fruta putrificada que hoje se revelaram ser.

É no mínimo vexante ver a diferença percentual entre a votação das pessoas na dupla em causa e a votação nas principais (???) figuras institucionais do arquipélago. Realmente, sem comentários. Mas era de esperar que assim fosse. Num país onde as pessoas vivem e convivem apenas com as frustrações diárias, sem qualquer espectativa de futuro; onde os jovens estão proibidos de sonhar e as crianças estão votadas ao apenas hoje e agora, o pouco feito pela dupla, tocando concretamete as pessoas, só podia ter este retorno em termos de popularidade.

E se essa popularidade vier a ser capitalizada no futuro em termos políticos, a nós nada nos repugnaria. Tomara a STP que todos os que até agora viveram e vivem do erário público (quer do GGA que hoje conhecemos, quer doutros GGAs ainda por vir à baila) tivessem feito a favor da sociedade santomense um pouco do que tem vindo a fazer a dupla. Se assim é, que venham mais empresários fazer trabalho semelhante, pouco importando as suas legítimas motivações, políticas, sociais, profissionais ou outras.

Apenas esperamos que, independentemente das motivações da figura do ano e da concretização (ou não) dessas motivações, a dupla continue a apoiar a sociedade santomense nestes e noutros projectos sociais, quanto mais não seja, no âmbito da “responsabilidade social da empresa”. Esta seria a forma mais elengante e descomprometida de provar ao sacrificado povo santomense que ainda é posível acreditar…

Victor Ceita – Advogado (Luanda – Angola)