Contestação de Osvado Abreu

Publicado em 09 Fev 2009
Comentários; fechado

O comentário do cabo-osvaldo-abreu.jpgverdiano, José Luís Hopfer Almada, no programa “Debate Africano” da RDP-África, sobre a relação entre os ex-contratados cabo-verdianos residentes em São Tomé e Príncipe e a posse da terra, mereceu contestação do engenheiro Osvaldo Abreu, tendo apresentado vários aspectos que contradizem as palavras do comentador cabo-verdiano.

  Caros Apresentadores do Programa Debate Africano

Caro Apresentador Cabo-verdiano Dr.  José Luís Hopfer Almada

Escrevo esta mensagem como uma forma de protesto em relação aos comentários do Comentador Cabo-Verdiano José Hopfer Almada sobre a relação entre os ex-contratados Cabo-Verdianos residentes em São Tomé e Príncipe e a posse ou direito á terra, comentários estes feitos no programa Debate Africano do último domingo dia 1 de Fevereiro.

Fazendo menção ao livro do Augusto Nascimento, o Senhor comentador Dr. José Hopfer Almada  teceu vários comentários sobre temas como:

  • Reforma Agrária/Direito às Terras; Que aos ex-contratados Cabo-Verdianos não lhes foram reconhecidos direitos á terra em STP por serem estrangeiros e que não foram tidos nem achados no processo “privatização/parcelização de terras” em benefício dos que trabalhavam as mesmas.
  • Expropriação/Nacionalismo; Que os Nacionalistas Santomenses (Forros) recuperam as suas terras num processo de ajustes “histórico”de contas com os colonizadores
  • Pinto da Costa: O único que reconheceu e concedeu direitos aos ex-contratados Cabo-Verdianos
  • Lágrimas; As lágrimas do Primeiro-ministro José Maria Neves.

Devo confessar que tive que reescrever esta mensagem 3 dias depois tentando espoliar da mesma os traços de sentimentalismo e tentar também ser mais objectivo apesar da minha revolta e do meu desagrado pelo tamanho desconhecimento registado nas palavras do comentador.

Mesmo não sendo um ouvinte habitual deste muito bem conseguido programa, o certo é que não é a primeira vez que o mesmo comentador faz referências a coisas de STP manifestando um grau inaceitável de desconhecimento dos assuntos em debate. Sem dúvidas que nenhum dos comentadores aceitariam uma situação destas em relação aos seus respectivos países.

Tal como ficou demonstrado, o comentador fundamenta os seus comentários com base numa obra do Augusto Nascimento. Assim sendo, poderia também afirmar que o autor citado sabe muito pouco sobre esta questão ou pelo menos sustentou as suas investigações sobre bases muito pouco científicas. Investigações desta natureza deve ir muita mais além de entrevistas á pessoas/autores com profundo sentimento de sofrimento e vivendo em condições quase desumanas. Mas, não tenho o direito de fazer semelhantes afirmações em relação ao A. Nascimento apenas pelos comentários do comentador e sem ter lido a obra.

Meu caro José Hopfer Almada, meus caros comentadores do programa Debate Africano. Não vou fazer desta mensagem uma exposição de infinitos exemplos e factos que demonstrem justamente o contrário daquilo que Almada apresentou. Mas porque este programa é sem dúvida de uma audiência global e porque é vossa/nossa obrigação transmitir a verdade, vejo-me na obrigação de fazer alguns reparos e se me permitirem, recomendações:

1.       Os ex-contratados/serviçais SIM tiveram acesso às terras no processo de “parcelização” das Grandes Roças. Os dados e informações sobre este processo não são segredos em STP e os protagonistas existem. Entre os contemplados também figuram a maioria dos descendentes (filhos dos contratados). Uma boa parte das críticas derivadas deste processo prendem-se com o facto de muitos moradores das roças (não só os contratados, mas também os fôrros) se queixarem de que parte das terras no centro/sede das roças eram distribuídas á pessoas influentes ou a políticos que pouco ou nada tinham a ver com tais terras, enquanto que os residentes eram enviados para terras mais distantes e de difícil acesso.

2.       Muitos dos contratados e principalmente os descendentes, têm vendido as “suas terras” para viajarem para Angola, Gabão, Cabo-verde ou Portugal ou simplesmente para se mudarem para Cidade Capital. Estes casos têm mostrado o grande risco de uma política desta natureza, pois as pessoas com melhores meios económicos fazem ofertas “irrecusáveis” aos novos proprietários que a troco de pouco ficam sem nada. O dinheiro cedo acaba.

3.       Ainda sobre os direitos acho importante indicar alguns exemplos:

a.       Pessoas (fôrras) que nasceram e viveram na roça Agostinho Neto, por exemplo, não tiveram direito a terra por não serem “trabalhadores da terra”

b.      Cheguei a passar partes das minhas férias escolares na referida roça e hoje é triste ver como as pessoas que foram beneficiadas com terras desflorestaram boa parte da roça, venderam toda a madeira e abandonam as terras. Agora consideram-se revoltosos e acusam o Estado de não lhes darem apoios. Muitos dos descendentes assaltam as terras trabalhadas dos seus próprios progenitores que apesar da visível pouca saúde e “sem apoios do Estado” trabalham as suas terras.

c.       É irónico observar que quando todos reconhecem que STP tem todas as condições naturais para uma agricultura, pelo menos doméstica, de sucesso, como uma boa parte dos proprietários queixam-se de tudo e culpam o Estado de tudo para não trabalharem as suas terras. A falta de política, desgovernação e a má gestão dos Governos de STP não podem constituir a única razão para justificar o abandono das terras, nem deveriam influenciar tanto na vontade e determinação individual de trabalhar. Esta passagem aplica-se a todos os que vivem e trabalham em STP.

4.       Acredito que STP deve estar entre muitos poucos países que reconhece o Direito a Terra á pessoas que não são cidadãos de origem, independentemente dos factores que possam sugerir tais direitos.

5.       Acredito que STP deve estar entre muitos poucos países que nomeia ou elege para o exercício de altos cargos políticos como Primeiro-ministro ou Presidente da República, cidadãos nacionais com ascendências (pai ou mãe) estrangeiras. Permita-me aproveitar esta passagem para manifestar a minha maior satisfação e o meu orgulho por estas vitórias democráticas e constitucionais de STP.

6.       STP deve estar entre muitos poucos países onde a origem, cor, religião, raça, ascendência/descendência, não constituem factores de divisão da sociedade nem tão-pouco são problemas reais “não me refiro a oficiais”para que um cidadão ou um estrangeiro se sinta integrado. É um facto de grande orgulho para todos os santomenses e amigos de STP. Hoje em STP falar de “fôrro”, “angolar”, “tonga” ou “gabon” é parte do nosso folclore cultural e “tempero saudável” para as nossas convivências e conversas.

7.       Atrevo a dizer-lhe que as lágrimas de PM Cabo-verdiano, foram mais lágrimas Eleitoralistas do que Sentimentalistas. Esta questão foi até levantada no Parlamento Santomense. Não quer dizer que as pessoas (ex-contratadas ou não), que habitam nas roças não vivam em situações precárias e quase desumanas. Nós os Santomenses sentimos até vergonha por uma situação que com pouco recurso poderia ser transformada em atracão e não esta triste e deprimente realidade. Ver os exemplos de favelas Brasileiras. Lamentavelmente a vontade política não tem permitido. Pessoalmente acho que tanto as lágrimas do senhor PM de Cabo-verde assim como as acções que se seguiram, mais do que de solidariedade aos Cabo-verdianos contratados pareciam estar dirigidas a atingirem em toda dimensão os santomenses e STP. Acreditem que muitos santomenses ficaram com essa percepção e lamentaram que não houvesse nenhuma tomada de posição por parte de quem de direito. Felizmente ou infelizmente para os autores da campanha os seus objectivos foram conseguidos. Mas é bom que tenham presente que a história existe para que as coisas não sejam esquecidas.

8.       Igualmente, deixou-me muito triste a posição do comentador Santomenses no mesmo programa radiofónico. Contudo, prefiro deixar este tema para um outro espaço.

9.       Tendo em conta que este assunto tem vindo a causar vários e divergentes pontos de vistas e levantado numerosas polémicas ao longo dos anos, e considerando que o mesmo tem uma abrangência transfronteiriça ao nível da CPLP, proponho a directoria da RDP-África promover alguma coisa que ajude a trazer toda a verdade á superfície. Pode ser debate, recolha de documentações, convite a pessoas/pesquisadores/técnicos, etc. de vários quadrantes e nacionalidades que estiveram envolvidos neste assunto, para trazerem ao público “melhores verdades” assim como recomendações para uma solução global de um assunto que todos admitimos deve ser de resolução tripartida e assim evitar mais lágrimas nos momentos de campanha. Sei que o assunto já foi abordado nas antenas da RDP, mas me parece que sempre foi feito numa perspectiva de um autor.

10.   Por último, recomendo ao Senhor Dr. José Hopfer Almada que leia o livro Camaradas, Clientes e Compadres do historiador Alemão dos assuntos de STP Gerhard Seibert ou que se entreviste com ele sobre estes assuntos. Embora o livro do Gerhard não debruça necessariamente sobre este assunto em particular, a abordagem feita sobre a relação ex-serviçais/fôrros, é bastante elucidativa. Como pode observar, lhe estou recomendando o Gerhard e não outros vários autores santomenses porque o mesmo não é santomense e tem a fama de ser muito ou demasiado crítico em relação a tudo que tem a ver com STP. Pelo menos parece ficar garantida a imparcialidade.

Não poderia terminar sem antes reconhecer e felicitar a rádio RDP-África pelo trabalho excelente de informação e formação em prol dos cidadãos dos PALOP e não só.

Um enorme elogio também vai para os habituais comentadores do programa Debate Africano e em especial ao Cabo-verdiano José Hopfer Almada, pela forma como debate, defende e apresenta os assuntos de Cabo-verde. Esta sua espontânea atitude deveria constituir uma lição de escola para nós os santomenses. Meus Parabéns.

Osvaldo Abreu

de São Tomé e Príncipe.

Obs: Por favor, façam um esforço para se referirem ao país STP como São Tomé e Príncipe e não São Tomé.