Um Primeiro-Ministro, dois Chefes de Estados e três eleições

Portugal vira a direita

Nas últimas quatro semanas os portugueses depois de conviverem amargamente com a Troika e as medidas que virão por aí para supostamente tirar o país do fosso económico a exigir mais trabalho, mais rigor nas contas públicas e menos regabofe na política e nos mais aconchegados ao sofá das decisões dos políticos, mergulhou-se nos bombardeamentos com os discursos que reclamavam para si o direito da defesa dos maiores interesses do povo.

Desde a pré-campanha que se confundia com o período oficial eleitoral, os cinco partidos representados a direita e a esquerda do parlamento propuseram-se a correr Portugal de lés-a-lés pedindo ao povo para não errar no dia 5 de Junho quando for convocado a colocar uma cruz no folheto do eleitor. Outros partidos também surgiram e não se cansaram, principalmente com o período de campanha aberto a reclamar os votos dos eleitores portugueses, desde os que defendem os direitos dos animais e do ambiente até os que defendem uma maior representatividade dos interesses do Norte industrial na assembleia parlamentar ou aqueles que propalam a rejeição dos trabalhadores imigrantes na entrada e na participação económica do país.

Como não podia deixar de ser os imigrantes por outras vozes e razões foram ainda chamados a entrar nos discursos políticos. O Presidente da Federação do Baixo Alentejo do PS, o deputado Luís Pita Ameixa, extremou o seu discurso achando que o partido de José Sócrates podia recolher mais votos ao chamar o Presidente do PSD, Passos Coelho de “Africanista de Massamá”. Recordemos que a esposa do líder do PSD é de origem guineense, eventualmente, filha de um português e de mãe afro-Bissau e o casal vive em Massamá na região da Grande Lisboa. Enquanto isso, nos cafés, nos trabalhos e nos lugares onde a comunidade estrangeira podia levantar vozes com os colegas portugueses, dizendo da sua verdade quanto ao pensamento do momento político, não faltaram as acusações de que uma eventual vitória ou um resultado eleitoral razoável do PS mesmo caindo para a oposição parlamentar, devia-se aos votos de que os malfeitores estrangeiros, africanos, brasileiros e leste-europeus iam colocar nas urnas ao favor de José Sócrates, não obstante a ausência destes nas correrias, arruadas, jantaradas, passeatas e nos comícios, piqueniques e banquetes.

Perante os resultados eleitorais, as medidas anti-sociais do PS que colavam o partido as políticas da direita e ao descrédito do que o seu ideal social, terá o eleitorado português sancionado a esquerda, a Troika, ao José Sócrates, ao desgaste do poder ou apenas os portugueses pretenderam uma mudança?

Os comentadores políticos, como sempre, compararam a campanha eleitoral a lavagem de roupa suja, acusações pessoais e tudo do mais que desvalorizasse a política menos a apresentação de programas, discussões e soluções objectivas de saída do país do estrangulamento e da recessão económica. A Troika com os seus prazos e as suas exigências, andou repousada nas prateleiras. Por seu lado, as várias sondagens que, inicialmente, colocavam o PS e o PSD na frenética luta taco a taco, na última semana, Pedro Passos Coelho num último fôlego e após o debate televisivo que conquistou os indecisos, descolou-se de José Sócrates, chegando primeiro a meta. O CDS-PP de Paulo Portas que, salamurdo no seu conforto, soube aproveitar da zanga das duas comadres, elegendo como a alternativa ao poder e pronto, se necessário, a dar nó quer com o PS (esquerda) ou PSD (direita), aguarda o convite para entrar no Governo. O PCP de Jerónimo Sousa e o Bloco Esquerda de Francisco Louça, com perca de votos da esquerda, o eleitorado colocou-lhes no lugar de costume para fazerem o barulho contra as injustiças sociais.

Pela primeira vez na democracia portuguesa, Portugal vira a direita com um Presidente, uma maioria e um Governo do PSD que ditarão o futuro do país entregue aos compromissos com a Tróika. Enquanto isso, José Sócrates no seu discurso de agradecimentos aos eleitores, como manda a regra do jogo democrático, assumiu a derrota eleitoral e demitiu-se da liderança do Partido Socialista com a maior das grandezas.

II – São Tomé e Príncipe boiado até as presidenciais

O leve-leve dos santomenses há muito que vem confraternizando com um dilema oficial da compra das consciências, inaugurado nas ilhas com a implantação da democracia contrariando a oferta inicial de esperança no desenvolvimento. Passados os 20 anos dos primeiros actos eleitorais livres e democráticos – 20 de Janeiro e 3 de Março de 1991 – na altura, sem qualquer visibilidade do banho eleitoral, o povo, mais uma vez e em cumprimento de um dos mais atributos do direito democrático, é convocado a eleger no próximo dia 17 de Julho, o novo Chefe do Estado para um período de cinco anos.

As formalizações das candidaturas por parte de alguns candidatos já deram a sua entrada no Tribunal eleitoral ou seja no Supremo Tribunal da Justiça. Gilberto Gil Umbelina, Pinto da Costa, Evaristo Carvalho, Aurélio Martins e Maria das Neves não quiseram perder a carruagem e já deram cara aos juízes que em cumprimento da lei eleitoral devem aceitar mais candidaturas, dentro do período legal para pronunciarem-se na aceitação ou na rejeição, consoante o cumprimento das regras a que estão sujeitos os perfis dos concorrentes presidenciais.

As novas tecnologias de comunicação e de informação têm servido para a apresentação dos candidatos e das suas intenções e principalmente para os apoiantes disputarem os seus fundamentos ao favor ou contra, mesmo quando uns por ignorância da história, propósitos obscuros ou pelo mero acto de contrariar, preferem trazer ao debate conversas de feira má-língua para apenas gozar do seu tempo de antena facilitado pela internet. Os discursos com que temos de lidar por estes dias por mais que nos presumem a afastar do passado, os testemunhos anunciam um reavivar de memórias sem a qual parece não haver a reconciliação e a concentração no debate que possa pôr fim a guerra corrompida que mata diariamente a Nação são-tomense e os seus filhos com a usurpação desenfreada dos bens públicos por políticos e seus correligionários de má índole.

A juventude, detentora da maior franja eleitoral, que em Agosto de 2010 apostou no jovem Patrice Trovoada para dar um novo rumo ao país, menospreza veementemente o candidato do partido da Acção Democrática Independente as eleições presidenciais, preferindo manter acesa a chama da renovação. Os jovens não dão sequer ao esforço de esfolhear as páginas constitucionais ou aproximar-se do papel do PR no novo cenário legal que é mais de um conselheiro e alguém que possa usar a magistratura de influência com que deve recolher dividendos para o país, já que, é o Governo que dita o papel da política governativa.

Será que alguns nomes dos mais novos que se propuseram a cadeira do Chefe de Estado não reúnem os pressupostos necessários para um bom democrata e actuante Presidente da República? Por outra. Será que os mais velhos, porque fizeram parte do passado não estarão a altura de congregar esforços e iniciativas para arrancar o país que a todos nós é pertença?

Até 17 de Julho, esperamos ainda pelas novas caras que os partidos indecisos ou que ainda refinam figura a apresentar a corrida eleitoral. Até lá, todos os debates, muito mais do que o banho, são necessários para reflectirmos no candidato ou na candidata certa que possa trazer rapidamente o nome de São Tomé e Príncipe a ribalta do estatuto contrário a má interpretação ou a usurpação abusiva da democracia por parte de alguns figurantes da nossa praça económica que preferem sujeitar ao povo.

Para nós, os santomenses, mais que riscar e depositar os nossos votos na caixinha, temos que assumir a responsabilidade com o futuro. Esse futuro não deve ser aventureiro mas sim, o da eleição de São Tomé e Príncipe no Concerto das Nações, lugar este que os 20 anos de democracia transtornaram numa visão se quisermos olhar sem preconceitos e assumirmos todos e sem heróis nem malfeitores, que as nossas escolhas não têm retribuído os ensejos da mudança tão necessários para o virar das nossas páginas.

III – Cabo Verde entre a continuidade ou a viragem

Os 20 anos da democracia cabo-verdiana que têm elegido o país como o espelho para a nossa África ainda mergulhada em conflitos e ditaduras por vezes com a marca democrática, convocam os cabo-verdianos as novas eleições marcadas para o próximo dia 7 de Agosto.

A data incomoda as maiores forças políticas como a menos consensual para um acto eleitoral, já que Agosto é mês de férias. Pedro Pires, o actual inquilino da casa presidencial no seu último mandato, é que foi a riscas com a lei eleitoral e apressou-se a desconvocar aqueles que lhe pudessem vir a acusar de um incumpridor ou acomodado na cadeira de Chefe do Estado.

Três candidatos já se meteram na corrida oficial. Manuel Inocêncio Sousa, a contar com o apoio oficial do PAICV do actual Primeiro-Ministro, José Maria Neves, que vai no seu terceiro mandato consecutivo a frente do executivo cabo-verdiano, é o candidato da continuidade e não se prevê qualquer má interpretação ou intervenção na esfera governativa. O MPD de Carlos Veiga, por sua vez, elegeu Jorge Carlos Fonseca, para disputar a cadeira presidencial e devolver ao partido o lugar que conquistou e exerceu durante dois mandatos na estreia democrática do arquipélago de Sotavento e Barlavento. Aristides Lima, antigo e respeitado Presidente do Parlamento da família do PAICV, excluído pelos desejos dos votos internos, acha-se no dever de também concorrer a corrida presidencial e pelas declarações de alguns responsáveis do partido do poder, acredita-se vir a roubar alguns votos a escolha partidária.

A mobilização do MPD a volta do seu candidato contando ou não com o confronto de um outro candidato da casa, é para vencer as próximas presidências. Numa hipotética vitória da oposição nas presidenciais, pela primeira vez os cabo-verdianos terão a possibilidade da convivência simpática ou não entre o Chefe do Estado de uma corrente política a arbitrar o jogo político democrático com um executivo chefiado por outra corrente política, ou seja, do maior rival nos 20 anos da democracia cabo-verdiana.

Nas redes sociais, como a moda veio para ficar, figuras próximas dos dois candidatos do PAICV, espalham as brasas a queimar quer um, quer o outro, o que pode precipitar a eventual segunda volta eleitoral para a eleição do próximo Chefe de Estado cabo-verdiano.

IV – A lusofonia eleitoral

Numa agenda eleitoral que vem desde o Verão passado com Brasil e São Tomé e Príncipe e que ainda espera Angola em 2012 com a nova e recente constituição, muitos dos eleitores lusófonos são chamados uma vez mais a decidir no futuro, no mínimo duas vezes, num período entre Junho e Agosto. Gozando da dupla nacionalidade, os residentes em Portugal quer os santomenses, quer os cabo-verdianos, aqueles que vêm os actos eleitorais como mais do que um dever, um direito de cidadania, são convocados num período de mês e pouco a colocar a cruz por duas vezes no sítio das suas consciências conforme os discursos mais convincentes ou pelo acto de agradecimentos para decidirem por cá e por lá.

Mais do que actos eleitorais, os portugueses, são-tomenses e cabo-verdianos, têm a oportunidade de colocar na esfera das decisões políticas caras novas ou não, mas com a legitimidade dos respectivos povos sempre com a esperança que os dias de amanhã serão mais risonhos que o de ontem ou pelo menos criam as bases para acreditar que as dificuldades do presente serão ultrapassadas desde que conjugados os esforços de todos.

A crise económica, financeira e política começa a dar sinais evidentes da crise social, levando os jovens europeus desempregados ou com trabalhos precários a sair a rua. Portugal recentemente viu nas ruas os jovens da “geração a rasca” que congregou todas as gerações na manifestação e reivindicação social e agora tivemos a concentração dos jovens espanhóis na Puerta del Sol, mesmo no período eleitoral e nos dias de reflexão, o que alastrou a outras cidades europeias com maior ou menor simpatia. A carga policial para repor a ordem pública ou limpar a sujeira das ruas espanholas, quase que contrariavam os ideais de liberdade e de livre pensamento do velho continente. A Europa vê-se assim assaltada pelo domínio dos jovens nos grandes movimentos das redes sociais onde a informação corre mais rápida que os tradicionais meios de comunicação social, que mobilizam e desmobilizam tal e qual os jovens da Primavera Árabe na Praça Tahrir e noutras concentrações que destronaram os ditadores do Norte de África e continuam a exigir mudanças democráticas no Mundo Árabe, pagando para tal com a própria vida no derramar de sangue que as imagens vêm trazendo as nossas casas com milhares de percas de vidas humanas.

Na Europa os jovens não exigem a morte das ditaduras dos tradicionais ditadores de mãos de ferros de outro mundo, mas interrogam o cepticismo na política e no capitalismo escondido nas alternâncias democráticas que cada dia fazem desaparecer as protensões sociais e a nobreza humana dos mais desfavorecidos com o crescimento do desemprego e da precariedade no trabalho, até no seio dos que perdem anos e tempo na cadeira dos conhecimentos.

Ao reflectirmos nas teorias migratórias, os cabo-verdianos ocupam em Portugal o lugar maior em número de estrangeiros. Em Cabo Verde os são-tomenses (por humildade que lhe é característica apesar da crioulização, muito pouco falados nem representados por um consulado), depois dos guineenses e senegaleses, já são os terceiros em números estatísticos. Por sua vez, os portugueses, os últimos números do Serviço de Migração e Fronteiras de STP, ditavam como a maior comunidade estrangeira nas ilhas do Equador. A sustentabilidade do mundo quase que é ditada pelo movimento migratório com alguns dos países a premiar as grandes cabeças sem medirem as origens e outros ainda conservando em nome da cultura, os primeiros depois os outros.

Até ao dia 17 de Julho, nós os são-tomenses temos tempo de discussão, auscultação e reflexão na melhor escolha para trilharmos juntos nos tempos de crise global que pode ser de oportunidade para encontrarmos o caminho económico para o desenvolvimento.

Depois de Cavaco Silva, em Portugal, que neste ano renovou a cadeira presidencial, temos dentro de pouco tempo, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde que devem mostrar ao mundo o novo homólogo a altura dos novos desafios da globalização.

O que os PALOP esperam do novo líder do PSD num tempo de crise internacional ditado pelas balizas do acordo de resgate económico com a Tróika?

José Maria Cardoso

05.06.11

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    Carlos Ceita Responder

    Meus amigos
    Este senhor venceu mas não convenceu. Não fosse a crise económica e financeira internacional e o desgaste do José Sócrates a direita teria uma longa travessia do deserto. Será que o PS fará esta travessia para recuperar a confiança dos portuigueses se as coisas correrem bem para o PSD e CDS? Vamos a ver se o PSD estará a altura das circunstâncias.
    Mas com um país em crise profunda e possivelmente em bancarrota um partido de posição nestas condições tinha de ter no mínimo uma vitória esmagadora como aconteceu noutros países da EU. Ma isso é lá com os portugueses só não gostei das banalidades desse senhor na campanha eleitoral ao dizer que era o candidato mais africanos que os outros e que está casado com uma africana como se nós fossemos estúpidos.
    Aqueles que criticavam o Sócrates porque fazia negócio com Hugo Chaves porque é ditador como Chaves etc quero ver a cara deles quando o Primeiro-ministro Pedro Passos Coelho disser que os negócios e a exportação têm de continuar.
    Por outro lado a onda vitoriosa da direita na Europa não me surpreende para mim a Europa para todos efeitos é um continente conservador. Mesmo os partidos como o PS português ou Francês ou PSOE Espanhol não são muito diferentes dos partidos de centro direita. Ao contrário da América Latina em que parece que a esquerda é quem mais ordena.
    Abraços

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      MAKITA Responder

      Hoje em dia faz-me muita confusão quando oiço falar em direita e esquerda.Diga-me por favor, qual é a diferença entre a direita e a esquerda hoje em dia?

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    Pateta Responder

    Portugal vira a direita, povo de STP vai dar um voto de confiança a uma mulher para governar o nosso STP, tal como na Libéria e no Brasil, vamos dar uma lição ao mundo relativamente a liderança feminina…

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      E.Santos Responder

      Acho sim que vamos dar liderança a corrupção no país. Que ninguém venha reclamar mais tarde.

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    Taa-Sossegado Responder

    Não conheço o Passos Coelho, mas, pelo que me consta é um homem com a coluna vertical no lugar e sem preconceitos raciais. O mesmo não posso dizer do Paulinho das Feiras que em tempos idos já demonstrou claramente que é avesso aos Imigrantes. O resto o tempo dirá!

    Viva Portugal
    Tenho pena que o Sócrates tenha sido derrotado.

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    santa catarina Responder

    Mais uma vez chamo a atenção para estabilidade. Portugal confirmou a logica um PR da Direita e um Governo de Direira. Quero dizer da mesma linha de pensamento.
    Em STP espero que o povo seja inteligente ou melhor não cometer os erros do passado.A solução éum governo do ADI e um PR apoiado pelo ADI. Assim temos a estabilidade garantida e o desenvolvimento estará mais proximo.Do contrario voltaremos aos bufados,aos golpes de estados, as crises forjadas, os ninjas, aos bufalos etc..
    Vamos abrir uma nova pagina sendo um governo e um PR da linha do partido do governo.
    Desejo força a Passos Coelho que tenha muita sorte. A coisa está dificil!E a coisa quanda aperta em Portugal tambem apanhamos pela tabela.

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      A Responder

      Sera essa a solucao?
      Ja tivemos um presidente ( Fradique de Menezes) e um primeiro ministro do MDFM/PL ( Tome Vera Cruz). Houve estabilidade governativa naquele momento?
      A estabilidade depende da consciencia e maturidade politica dos decisores politicos e depende tambem de muitas icognitas a serem consideradas na equacao politica, como por exemplo um presidente suprapartidario e isento.

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        santa catarina Responder

        O caso de FM é um exemplo infeliz.

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    J. Maria Cardoso Responder

    A grandeza com k Sócrates confrontou a derrota na noite de domingo, já não restam dúvidas k é o mais conceituado socialista a concorrer a cadeira de Belem em 2016.
    Caso a direita não venha a se libertar o mais depressa da monstruosiodade da Troica e o seu desgaste eleitoral, em 2016, temos o José Sócrates, Presidente da República Portuguesa.
    Está iniciada a sua contagem decrescente até ao Palácio de Belem, se tivermos em conta a bagagem e a convicção desse k foi até 5 de Junho, o líder socialista.
    Anotem!

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