Porto de Águas Profundas vai acabar com as celebrações do dia dos mártires da liberdade em Fernão Dias

Publicado em 04 Fev 2009
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O empreendimenpor-do-sol.jpgto no valor de 500 milhões de dólares que vai ser erguido na zona de Fernão Dias, exactamente na Praia que foi um dos palcos principais do massacre de 1953, não vai deixar espaço para guardar a mais importante memória histórica do país. Foi na praia de Fernão dias onde centenas de corpos sem vida encontraram repouso durante o massacre. O pontão construído na zona também foi regado com bastante sangue de são-tomenses. Por isso o local tem sido desde 1975, o principal palco das celebrações. Mas o desejo de transformar o arquipélago no principal centro de prestação de serviço da sub-região africana poderá demolir o edifício histórico, que sempre foi Fernão Dias.

Já a partir de 2010 deverão iniciar as obras de construção do porto de águas profundas. É sem dúvidas a maior infra-estrutura a ser construída no país desde a independência nacional. Mais de 500 milhões de dólares vão ser investidos para transformar Fernão Dias no centro de prestação de serviço para a região da África Central.

A empresa francesa Terminal Link, que assinou com o governo o contrato para a execução dos trabalhos, já está baseada na capital são-tomense, e os quadros expatriados que vão erguer o porto, estarão a caminho uma vez que o governo já anunciou a construção em Lobata de 300 residências para os albergar.

3 de Fevereiro de 2009, poderá ser a última celebração do dia dos mártires da liberdade na Praia de Fernão Dias. O local onde no passado recente foram encontrados esqueletos humanos no mar, guarda centenas de são-tomenses que pereceram no massacre de Batepá. Após a chacina dos filhos da terra, sobretudo no centro de São Tomé, as autoridades coloniais depositavam os corpos no mar de Fernão Dias.

O mesmo local onde foi construído um pontão para embarque e desembarque de mercadorias. Obra que consumiu também muitas vidas de são-tomenses. Por tudo isso, Fernão Dias foi sempre o local das celebrações do dia dos mártires da liberdade. Na noite do dia 2 os são-tomenses concentram-se na zona em vigília. Celebração que ganha maior vigor no dia seguinte, 3 de Fevereiro com parada militar e outras actividades.

O estado são-tomense acabou por construir um memorial em Fernão Dias em honra aos homens e mulheres tombados no massacre. Agora tudo vai ser demolido. O porto de águas profundas que representa o futuro, deverá passar por cima do passado heróico.

Algumas individualidades começam a manifestar preocupação face a esta possibilidade. O historiador Armindo Aguiar, que tomou parte na noite cultural em Fernão Dias, já manifestou-se a favor da protecção da memória histórica do país. Outra reacção veio do deputado João Paulo Simão, que defende o progresso do país, mas não admite a possibilidade do valor histórico-cultural desaparecer debaixo dos betões que vão dar suporte ao porto de águas profundas.

Fernão Dias passará a ser porto para fomentar o negócio de mercadorias na sub-região de África Central, ao que tudo indica abrindo portas para que Batepá e Trindade, acolher o acto central do massacre de 1953.

Abel Veiga