Sociedade

AS REFLEXÕES DO MARCOLINO

Fàdá mãi, lógò ‘n scá bi ê. (Diz à mãe que logo vou lá ter.Eram as palavras do pai que provocavam um contentamento pouco explicável ao Marcolino. Ele não sabia se na presença do pai havia maior sensação de protecção masculina no lar; se era pelo facto de a mãe ralhar menos quando ia o pai à casa; se era pela maior qualidade do jantar nas raras ocasiões em que via o pai…

 O Marcolino que era o mais velho entre os cinco irmãos, filhos de pais diferentes, nunca soube questionar porquê que o pai raramente aparecia; porquê que deixou de o ver para estarem presentes os pais dos outros irmãos;  porquê que ele tornou a honrar a casa com a sua visita esporádica. Lembra-se de quando a mãe lhe aconselhou a pedir ao pai algum dinheiro para comprar materiais escolares. Em plena praça central da cidade capital, o sô Blindo respondeu: 

– Não quero conversa! Vocês não estudam e depois vêm falar do dinheiro para o livro.

 A mãe teve que se esforçar, inventar meios… O Marcolino teve livros e sucesso escolar sem qualquer apoio do pai. O petiz descobriu, contudo, uma estratégia para captar uns trocos do progenitor: quando este estivesse num grupo de amigos, ele ia cumprimentar com um aberto “Bom dia pai”. O sô Blindo envaidecia-se dando ares de se esforçar por se lembrar de qual dos muitos filhos espalhados seria, e dava-lhe alguma moeda. Ria-se orgulhoso se algum dos amigos dissesse que era o problema de quem tinha muitos. 

– Quem pode, pode – respondia invariavelmente, longe do contexto referencial da frase do presidente Obama que consistia em:

– Ser Homem não é poder ter filhos porque todos o conseguem. Ser Homem é saber educá-los, o que nem todos sabem. 

Quantos anos levou o Marcolino a tentar saber de onde teria a mãe ido buscar aquele dinheiro que o pai pediu emprestado devido a “alguns problemas”. O pior é que com tanta dificuldade para se alimentarem e estudarem o pai conseguiu fazer sair algum dinheiro que seria para as emergências, sabendo que não o devolveria.

Com o esforço da mãe e com o ensino gratuito, o nosso jovem atingiu habilitações para prosseguir a carreira académica no estrangeiro com uma bolsa de estudos. Mal soube que o filho ia viajar, o sô Blindo surge num frenesi de preocupações com manifesto exagero: 

– Não podes embarcar assim! Tens de avisar com tempo! Isso vai fazer falta _ dá-lhe uma nota e apressa-o para irem comprar umas roupas.

Ao regressar do curso, o nosso jovem, vê-se envolvido com o pai e os amigos deste, tendo que gastar numa única tarde, três vezes mais do que dá mensalmente à velha e cansada mãe para lhe lavar e passar a roupa. 

O pai e o seu grupo de amigos estavam preocupados porque o Marcolino ainda não tinha filhos. Pois, “o homem tem que ser bravo”.

Quando o novo homem são-tomense, formado em país “civilizado”, anunciou o casamento com uma jovem grávida, foram outras duas no mesmo estado queixarem-se ao sô Blindo e à san Lola que também tinham promessa de casamento, sendo essa a razão de estarem grávidas. 

O pai disse que o filho era homem e elas é que deviam se guardar enquanto a mãe disse orgulhosamente que as crianças criam-se porque ela também criou os seus.

Todos se esqueceram que as necessidades da criança de um país que se queira a desenvolver são maiores, exigindo presença diária dos progenitores e planeamento dos gastos. 

Quando a mulher que “teve a sorte” de se casar com o Marcolino pediu à sogra que o aconselhasse a ser um pai mais presente na educação dos filhos, a san Cana respondeu com veemência:

– Eu não o pari só para ti. 

No dia 19 de Setembro de 1989, o Marcolino esteve sentado tranquilo na viatura estatal que lhe fora confiada para deslocações em serviço a ouvir o hino da organização das mulheres de S. Tomé e Príncipe (OMSTP). Foi a primeira ocasião em que reflectiu sobre as seguintes palavras emitidas na língua que mais lhe penetrava no seu ser:

OMSTP é uma organização que pretende união entre toda a gente

A nossa OMSTP é guia das mulheres em conjunto com os homens

Para criar as crianças no sentido de servir a nossa terra

Com satisfação e alegria. (Tradução feita pelo autor)

Como de um mau ninho pode sair um bom passarinho, o nosso Marcolino teve a superioridade de reflectir sobre si, e os seus erros. Daí, começou por perguntar:

– Que união podemos querer se a nossa formação caseira começa dentro dum seio familiar sem amizade nem honestidade? 

– Não condenando o meu pai que foi um herói do seu tempo, porquê que nós os jovens aprendemos mais e temos a mesma mentalidade que as pessoas que não tinham visão das necessidades de uma sociedade? 

– As crianças criadas depois da formação da OMSTP serão hoje homens com noção de servir o país com alegria?

– Não estarão muitos desses homens a manter o desrespeito pela própria família e pelas outras famílias?

– Alguns não estarão a usar o poder para desrespeitar a própria nação?

– Quem serão os culpados dessa falta de união necessária para criar boas crianças, futuros homens são-tomenses? Serão os homens ou as mulheres?

– Os homens criam a fragilidade à situação feminina e exploram-na.

– As mulheres que têm filhos dos homens que não sabem ser pais, acabam por ter todo o tempo para lhes ensinar a ser diferentes desses pais, mas usam-nos para se vingarem do mundo. 

– Procurar os culpados será a solução para o mal? 

Vamos todos juntos assumir a culpa e procurarmos a solução para criação de novos homens são-tomenses, glorificando a união pretendida pela OMSTP. 

VIVA 19 DE SETEMBRO

Horácio Will

    20 comentários

20 comentários

  1. Quem é a verdade?

    19 de Setembro de 2011 as 10:31

    Obrigado Sr. Horácio Will por mais uma grande reflexão.

    Quanto mais melhor pois “eles são a riqueza dos pais”. Quantas vezes ouviram isso?

    Se os filhos, por si só, fossem riqueza dos pais, hoje não haveria tantos velhos pobres e maltratados em S. Tomé e Príncipe!

    Se os pais santomenses, excepções sejam feitas, quisessem ser verdadeiramente riqueza para os seus filhos, hoje teríamos uma melhor nação, com homens valorosos e com pais mais ricos e com melhor tratamento.

    Entretanto, se decidirmos ser hoje riqueza para os nossos filhos, teremos amanhã o STP que ansiávamos ter hoje.
    Além de todo o apoio financeiro que se possa dar, o tempo, o amor, o respeito, a atenção, educação moral e literário entre outros, são as muitas riquezas que os filhos podem receber dos pais.

    Bem-haja

    • Horácio Will

      19 de Setembro de 2011 as 11:07

      Quem é a verdade,
      O que o Téla Non faz muito bem, é permitir que os leitores possam contribuir tanto com comentários de esclrecimento, de profundidade e de valorização de um artigo como foi este o seu caso.
      Muito obrigado.

  2. Teresa Triste

    19 de Setembro de 2011 as 13:15

    Estou triste porque quero me casar e ter filhos, mas sei se a pessoa de quem vou gostar saberá o que significa a alegria e o companheirismo partilhados diariamente entre todos os elementos dum lar.

    • Teresa Triste

      19 de Setembro de 2011 as 22:23

      Onde é “mas sei” devia ser “mas não sei”

    • Horácio Will

      19 de Setembro de 2011 as 22:43

      Francisco Ambrósio
      Ao dizer que depende da sociedade em que está inserido, entendi que depende do estrato social em que esteja inserido. Também ouvi um jovem recém-chegado de S. Tomé a Portugal a dizer que os jovens que regressam da formação académica no estrangeiro, têm tido um comportamento mais responsável. Se assim for, o sentido do provérbio “Como vivem os reis, vivem os vassalos” será aplicado com sucesso no nosso país.
      Muito obrigado a todos os são-tomenenses que estando em posição de destaque, passam bons exemplos para a restante camada populacional.
      Lá iremos!
      Sinto uma promoção pessoal quando alguém responde aos meus artigos dizendo mais qualquer coisa que eu não sabia. Por isso: bem-haja, Ambrósio.

  3. Malanza

    19 de Setembro de 2011 as 15:05

    Muito obrigado pelas palavras, a verdade nua a crua. Precisamos mesmo mudar a forma de pensar.

  4. Francisco Ambrósio

    19 de Setembro de 2011 as 16:22

    A falta de lealdade
    O homem do nosso País é caracterizado por ter muitas mulheres, e consequentemente muitos filhos. Como é sabido, prevalecia o machismo, só que, às mossas mães não tinha a forma de se defender portanto, subordinavam-nas. -“ As crianças criadas depois da formação da OMSTP serão hoje homens com noção de servir o país com alegria?
    Respondendo a pergunta, digo-lhe que existe muito ou se não a maioria dos Jovens florescido nessa data que são verdadeiros homens; com o sentido de responsabilidade, capaz no desempenho da actividade para à qual é indigitado. O 19 de Setembro fechou uma porta, mas abriu outra, que é a emancipação das mulheres. Nota-se que a mulher hoje em dia, é independente ou tende à sê-lo cada vez mais. O filho ela só terá se tiver a necessidade de o ter, nunca pela à imposição do marido. A mediocridade de certos homens referente a matéria, é corrida pela sociedade em que este estiver inserido.
    Bem haja

  5. vice

    19 de Setembro de 2011 as 17:24

    isto sim, é reflexão!! adoro ler o que este homem escreve com muito prazer, de frase em frase…

  6. HLN

    19 de Setembro de 2011 as 20:25

    Parabéns.
    Horácio por mais uma vez nos brindar com esse grandioso artigo.

  7. Quem é a verdade?

    19 de Setembro de 2011 as 21:24

    Você já ouviu de algum pai santomense que tenha abandonado os filhos por problemas com a mãe dos mesmos?
    Você já viu algum pai santomense que tenha deixado o filho a sua sorte porque brigou com mãe do filho?
    Será você um pai que nem quer saber se o seu filho comeu hoje pelo facto de a mãe já não querer mais continuar uma vida consigo?

    Como pode um pai assistir deliberadamente a desespero, angustia, solidão e todo o resto que possa acontecer ao seu próprio filho por desavenças com aquela que é ou era a sua mulher?

    Talvez ainda vá a tempo de recuperar o seu filho e trata-lo com estima.

    Note que recuperar o seu filho não implica retira-lo do amor e ou da presença da sua mãe mas sim dar-lhe o você esperava receber de um bom pai.

    Melhores cumprimentos.

  8. Filipe Samba

    20 de Setembro de 2011 as 5:49

    No ranking global de competitividade do Fórum Económico Mundial das nações, São tome e Príncipe não fez parte da lista
    Por falta de uma economia estável.
    Recomendações:
    É urgente que elaboremos e implementemos , um projecto coerente para o desenvolvimento do país e que a diáspora desenhe , um plano de acção

  9. MALÉ POÇON

    20 de Setembro de 2011 as 9:18

    Obrigado Sr. Oracio Will, por mais essa obra de rerflexão ferecida ao povo santomense.
    Resta o povo consciencializar e lembrar de que estamos no Sec.XXI…pois acho que ja é tempo de deixarmos dos êrros do passado.
    A OMSTP tem ainda um longo trabalho pela frente,… elas devem com corragem e sabedoria dizer os homens: BASTA.
    Basta de ser homens abelhas que pousam em várias flores, porque as abelhas levam os poléns de uma à flor,… mas os homens levam as DST (doença sex. transm)
    Muitos homens ainda acham que o titulo de pistoleiro é bonito nome, mas na essência não é. Quantas mulheres, quantas crianças não são mortas por esses ditos pistoleiros que andam impunes e vergonhosamente de ombros levantados nas nossas praças?… Se as mulheres não têm o direito nem de pensar quanto mais dizer) fádá pái lógó ~scá bí ê… Porquê que os homens continuam tendo esse direito?
    São as mulheres que devem dizer com determinação, basta a esse estado de coisas; se é que queremos realmente a igualdade de direitos e o desenvolvimento do nosso país.
    Sejamos pais no verdadeiro sentido da palavra.
    Viva OMSTP, viva STP.
    Felicidades.

    • Horácio Will

      20 de Setembro de 2011 as 17:18

      Malé Poçón
      De facto, falamos muito dos valores que queremos recuperar. Ser pistoleiro era um grande valor de homem são-tomense. É tempo de fugirmos dos seguidismos culturais, e outros, para passarmos a seleccionar novos valores que se adequem à mentalidade constrtutiva.
      A determinação das mulheres é funadametal. Sabemos que, de um modo geral, as mulheres pertencentes a estrato social menos instruído têm muito mais dificuldades em se afirmarem pelos seus argumentos e pela agressividade dos companheiros/maridos. O pior é que se abandonarmos as pessoas com essas dificuldades, elas produzirão para a sociedade crianças e homens com quem teremos grandes dificuldades de formar um bom país.
      Se conseguirmos orientá-las a conduzir os filhos com nova mentalidade, poderemos ter um futuro mais cómodo.
      Malé Pocón, ainda não vi um comentário seu que não acrescnte algo aos artigos que comentta. Como são-tomense, sugiro que apareça mais vezes e deixo já os meus agradecimentos.

  10. MALÉ POÇON

    20 de Setembro de 2011 as 9:21

    oferecer onde se lê ferecer

  11. MALÉ POÇON

    20 de Setembro de 2011 as 14:47

    Onde se lê Oracio deve ser Horácio
    rerflexão reflexão
    ferecida oferecida

  12. Joel Tinychenko_7

    20 de Setembro de 2011 as 17:40

    Gostei muito do seu comentário sr.Horácio Will, temos que falar o que é verdade, e o que disseste é extremamente verdadeira e que muitas mulheres santomense estão a viver nessas condições!!!!!!!!!!!!!!

  13. edmar willchenco

    20 de Setembro de 2011 as 20:59

    Saí recentemente do país e constatei que infelizmente a situação ainda é atual em São Tomé e Príncipe. Foi bom que o Sr.Horácio Will tenha lembrado desse forte aspeto. Li a sua reflexão com muito gosto e espero que todos nós comecemos a refletir sobre este artigo sem receios, mesmo que a realidade nos toque.

  14. gaby

    20 de Setembro de 2011 as 21:37

    Não conheço a realidade santomense mas conheço a realidade do mundo – o papel da mulher na educação dos filhos não só é fundamental como em algumas sociedades lhe cabe toda a responsabilidade. É necessário mudar mentalidades, não só do homem mas também da mulher: o homem tem que se responsabilizar pelos filhos que deita ao mundo, criando-os verdadeiramente e a mulher não pode aceitar passivamente esta situação, exigindo partilha da responsabilidade do criar e principalmente, educando os filhos para novos comportamentos e atitudes. Não só em São Tomé como em Portugal, tem que haver mudanças. Cá a verdadeira partilha das actividades domésticas deixa muito a desejar e os homens já são “bons” quando ajudam!! Lá e cá, os filhos são do homem e da mulher!

  15. Malébobo

    21 de Setembro de 2011 as 16:53

    Em relação a reflexão do Sr.Horario Will, é excelente não palavra para agradecer este aspecto importantes

  16. Domingos Viegas

    21 de Setembro de 2011 as 21:22

    OH caro amigo e colega de infancia. O teu texto emociona-me e leva-me aos velhos tempos de criança onde convivemos com com colegas que por ironia do destino foram espostos a esta situação. Enfim são mesmo memorias. Por outro lado, sabias que ja não me lembrava do 19 de setembro. No tempo do partido único (pondo de parte a sua face menos boa), estas datas tinham um em realce a na nossa sociedade de então. Com as ditas mudanças que não passam senão de promeças esvaziaram o sentido ideologíco de certas datas histórias. Contudo, foi bom voce deixar aqui estas linhas. Hoje é 21 de setembro, ou seja, o 19 de set. já la foi. todavia. vou gritar baixo e grande assim (VIVA 19 DE SETEMBRO)

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Recentemente

Topo