MAIS ALTO QUE A LEI

Façamos circular a BONDADE pois, mesmo quem não a pratica também desejará senti-la vinda dos outros“. É a introdução de mais um artigo de Horácio Will(na foto), que suscita reflexão profunda em torno da actualidade política e social de São Tomé e Príncipe.

Façamos circular a BONDADE pois, mesmo quem não a pratica também desejará senti-la vinda dos outros.

Tentei, sem sucesso, comprar um bloco de notas na tabacaria da estação de comboios. Comprei um jornal para ler durante a viagem. A vontade de escrever este artigo impulsionou-me a fazer rascunhos nos minúsculos espaços livres do jornal. Uma senhora que viajava ao meu lado, ao ver as minhas dificuldades, ofereceu-me algumas folhas que rasgou do caderno em que estava a escrever. Ao ver como estavam a ser rapidamente preenchidas, ofereceu-me um caderno novo que também levava.

Fiquei a saber que a atenciosa senhora é Adjunta da Secretária Internacional do Escutismo Católico Português que tem criado laços com os escuteiros de STP. Espero que essa pessoa visite o meu país.
- Abramos alas para que passem as boas pessoas. Com elas o mundo ficará melhor.
Cultivemos a DETERMINAÇÃO para que nossos princípios de boa conduta não se transformem em inutilidades.
Como forma de convergir os nossos raciocínios, costumo criar uma base de onde partamos todos juntos. É, habitualmente, uma história simples. Hoje falo-vos da Dona Paula.

Imaginem uma empregada de limpeza num hospital, admirada e respeitada pelos utentes, colegas, Enfermeiros e Médicos. De fato era admirável ver todos os superiores hierárquicos à procura de uma justificação aceitável para a Dona Paula quando ela se manifestasse inconformada com o modo menos humano com que um Enfermeiro ou um Médico tratasse um utente ou outrem ou desrespeitasse a conservação patrimonial do estado.

Levei anos a pensar naquela pessoa mesmo depois de deixar de a ver. Se as outras pessoas do seu nível profissional só diziam “sim senhor” com um sorriso para serem toleradas e granjearem alguma atenção, porquê que aquela senhora conseguia manifestar que não concordava com as coisas menos dignas e merecer explicações claras e tão respeitosas?

Existem autores que afirmam: “quando alguém sabe para onde quer e deve ir, tudo se afasta abrindo-lhe o caminho”.
Acredito que a força da Dona Paula provinha da crença naquilo que todos dizemos para parecer bem.

Dizemos que devemos ser honestos; ser solidários; que merecemos e exigimos justiça; que queremos igualdade de direitos… ela não dizia para parecer bem. Mas sim, fazia porque acha bem ser sincera na aplicação de prática de valores de modo a poder exigi-lo aos outros. Ela descobriu também que, usados de forma correcta e frontal, os valores que defendemos constituem armas irresistíveis diante de quem queira desrespeitá-los.
Quando penso na Dona Paula, concluo que ela não tinha mais valores que os outros: tinha sim determinação em impô-los.

Evito pensar nos nossos dirigentes como simples malfeitores porque isso me faria esquecer que são apenas humanos como qualquer um de nós, com necessidades, dificuldades, limitações e impossibilidades de ordem vária, necessitando da nossa compreensão, do nosso apoio e do nosso controlo.
Foi nessa ordem de ideias que solicitei apoio unânime dos são-tomenses com vista ao sucesso do nosso Presidente da República (PR), assim como dos outros políticos, aquando da tomada de posse da Sua Excelência, considerando que seria também nosso sucesso na luta contra a pobreza multifacetada que nos atinge.

Acreditei e aguardo sinais da prometida preparação dos cidadãos para se aproximarem dos sectores das decisões de interesse nacional.
Temos compatriotas descrentes do nível de influência do PR devido ao esvaziamento do poder que se verificou na última constituição. Alguns afirmam que pouco poderá fazer para além das atividades representativas. Terão razão?

No dia 17 de Fevereiro, este jornal valorizou o recado do PR em relação às querelas na Assembleia Nacional que se sobrepunham aos interesses da nação e faziam perder mais do tempo que devia ser dedicado ao desenvolvimento do país. Tendo como uma das funções assegurar o regular funcionamento das instituições e conhecendo o rumo do nosso desenvolvimento, poderemos considerar suficientes os ditos recados?

O conjunto de elementos que compõe a Assembleia Nacional (AN), tem também como função controlar os programas do governo. Tendo em conta a evolução do país ao longo dos anos desde a constituição da AN, devemos considerar eficaz a atuação desse organismo? Devemos  pensar que precisam de mais legitimidade para exercer as funções que lhe são atribuídas?

Quantos Governos tivemos desde a independência até aos nossos dias? O nível de desenvolvimento do país deve ser justificado pela carência de recursos? Sabemos que os países em que o Índice de Desenvolvimento Humano é mais elevado, não são necessariamente os países com mais recursos naturais. Também temos visto países com recursos geridos sob desconhecimento do povo e este a passar por dificuldades extremas. O que faltará para que tenhamos um aeroporto digno de um país, um hospital que responda às necessidades mais elementares dos utentes…?

Que projectos de longo prazo têm sido apresentados e realizados para que se alcance a estabilidade social?
Qualquer governo triunfará com força, orientada, da determinação do povo. O povo são-tomense já deu provas de entrega total quando acreditou. A correção das falhas na atuação dos diferentes poderes, fará com que o povo volte a acreditar. Quem deverá ter em mãos essa árdua tarefa, a da reconstrução da consciência social?

Se algo estiver a ser feito, peço ao Téla Nón e aos outros órgãos de comunicação social de STP que nos transmitam também as boas notícias.
Relativamente aos Tribunais, afirmo que foi para mim um espanto ler que o Sr. Procurador-geral da República (PGR) afirmou que existem dois pesos e duas medidas nas decisões judiciais. Está acrescida à causa do meu espanto o desconforto manifestado neste jornal pelo do SR Presidente do Supremo Tribunal de Justiça (PSTJ) em relação à conduta social de alguns dos nossos juízes.

Talvez nessas afirmações se tenham esquecido da gravidade da tomada de consciência de um povo acerca da conduta duvidosa de quem seriam os reguladores da conduta social. O que fará crescer uma sociedade quando o povo não acredita na qualidade ou no controlo da aplicação da orientação geral?

O senhor PGR e o senhor PSTJ terão esgotado os meios e a influência de que dispõem para remodelar as situações que vieram tornar públicas?
Lembrando-me daquela empregada de limpeza do hospital em que trabalhei, vem-me à memória o confronto que teve numa tarde com um médico quando este lhe perguntou por que estaria ela a se imiscuir na atividade médica se era apenas uma profissional de limpeza. Pois, a senhora tinha-se insurgido contra o modo como estava a ser atendido um paciente. A resposta ficou, para mim, célebre:

- Senhor doutor, não falei das técnicas médicas porque não é da minha formação. Falei do humanismo com que está a tratar este senhor. Apesar de não ser ele da minha terra, é um humano e como humana que sou, sinto legitimidade para contestar a falta de humanismo.
Pergunto aos representantes dos mais altos órgãos de soberania do meu país:

Se a Dona Paula, empregada de limpeza, baseia-se no simples facto de ser humana para contestar a falta de humanismo na prática de medicina, o que faltará para que contestem abertamente as situações passíveis de correção que vão ocorrendo no país que é vosso e se encontram sob a vossa orientação?
Ao tentar adivinhar a resposta, perguntava, a mim mesmo: Faltará mais poder? Escassear-se-á o esclarecimento? A bondade e a determinação estarão ausentes?

Quanto à primeira hipótese, o exemplo da Dona Paula revela que o poder que detêm é ilimitado para exigir a inversão do rumo que a nossa terra está a seguir. Relativamente ao esclarecimento, os vossos discursos que vamos lendo deixam bem claro que se tratam de pessoas muito esclarecidas quanto às necessidades do país.

Se o obstáculo for por falta de bondade, entenderei que de facto não é próprio da nossa formação cívica manifestar determinação em prol da causa comum. Temos inclusive exemplos de pessoas que envenenavam rios para apanharem mais facilmente os camarões. Nunca souberam dar ouvidos a quem lhes dissesse para não “matar a galinha dos ovos do ouro” e menos ainda ouviam os apelos ao respeito pelo benefício dos outros que quisessem apanhar camarão nos outros dias.

Os idosos que aconselhavam a evitar a destruição de frutos verdes em função da colheita de alguns maduros, morreram ou tornaram-se inactivos pelo desdém que lhes é dedicado na sociedade atual.

Esquecemo-nos que os camarões dos rios envenenados são, embora de fácil captura, também envenenados. Esses esquecimentos são demonstrativos que mais leis e mais poder nunca constituirão por si só a via para a fuga das nossas dificuldades.

Congratulo-me com o facto, observável neste jornal, de muitos dos comentários dos leitores estarem a surgir no sentido de uma mudança de mentalidade. Se mais insistirmos ela chegará. Sem ela de muito pouco nos adiantará a gestão de poderes ou o amontoar de leis.

Pois, mais alto que a lei é a determinação dos homens.

Horácio Will

Portugal

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    gabriela almeida Responder

    se cada um de nós, comuns mortais, nos preocuparmos com a justiça social no nosso pequeno mundo, aos poucos “o mundo pula e avança” – daí o concordar em pleno com o artigo públicado

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    Fijaltao Responder

    Em muitas ou quase todas as sociedades, o homem é pacifista até ao extremo, os homens são pacificistas até ao extremo! A presença da contestação de um só homem, no meio de muitos homens desperta atenção da multidão para mudança que também pode ser pacífica ou não! Em S.Tomé existe muitas Donas Paulas, mas que infelizmente ainda não apareceu a D. Paula de coragem para uma agitação pacífica ou não!

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    BOA OPORTUNIDAE Responder

    Meu caro e grande amigão Horácio. não val a pena massares tanto em escrtever artigos porque não estão a nos repeitar para nada.
    Veja só que até com salário dos trabalhadores se brincam. Pagam quando quizerem e a rir.Veja de que perante uma grande festa de Pascoa, alguns trabalhadores ficam sem receber o seu e pouco salário para contentadamente passagem a festa de Pascoa. Uns passam bem, outros razoáveis e outros mesmo a trabalhar não recebem salário, e o Sr. Ministro das Finanças anuncia pela televisão e pela rádio que o atrazo de salário 2 ou 3 dias é normal sem esquecer os juros que os Bancos aplicam as pessoas quando não pagam as suas obrigações.Pergunto:- Quanto teremos que cobrar de juros ao estádo de não nos pagarem os salários no prazo.
    Como o estado explica os 30 dias úteis de trabalhos em cada mês?
    Se tivermos a fazer bem as contas vamos ver que o esdtado é o grande devedos de todos os tempos.Sempre e sempre a dever….
    Seja feita…………
    fui

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    BOA OPORTUNIDAE Responder

    Quero corrigir:

    Estado e devedor.

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    O Analista e Censurador Responder

    A presente Introdução,do nosso conterrâneo acima em epígrafe servirá de lição para os nossos políticos e não só.
    Nós Santomenses temos capacidades suficiente mudar de uma vez para sempre a mentalidade fragilizada que ainda reina no nosso seio.
    Numa análise exaustiva,o teor da Introdução,busca o principio de uma união entre o nosso povo e a compreensão entre as famílias ricas ou pobres.
    Exemplo:
    Deixar da discriminação social,ser mais prudente com aqueles que compartilham com a mesma consanguinidade,deixar de ignorância,luxaria e principalmente a Corrupção activa que reina no País.
    Senhor Horácio Will,parabéns pela sua Introduçao e continue escrevendo nesse espaço Internacional que TÉLA NÓN reservou para o efeito.
    Um Abraço.

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    O não preconceituoso-rosario Responder

    Artigo excelente,de convite a reflexão.Tenho a certeza que este artigo será lido por todos ou melhor alguns que têm acesso a internet em S.Tomé e Príncipe e que sirva para mudanças de comportamento,pq STP convive com uma crise de valores de nivel alto.Que o humanismo ,a determinação,esforço conjunto ,solidariedade sirvam para construir uma socidade melhor para todos.

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    O não preconceituoso-rosario Responder

    Olá amigo Horácio ! Felicito-te por mais um artigo excelente de convite a reflexão. Espero que a ação da dona Paula(que serviu de nota introdutória ou base do teu artigo para fazer muitos repensarem as suas ações) contribua para que a determinação,o humanismo,a solidariedade,a unidade façam parte do convìvio entre todos.Vive-se numa sociedade em que os valores divorciaram-se dos homens.(?? )Uma sociedade equilibrada é uma condição para o progresso.O “eu” nunca pode existir sem os “outros”,portanto é urgente que asocisdade em geral se envolva no projeto de crescimento de STP,que os orgãos de soberania se unam por um objetivo comum,o desenvolvimento social .Faço votos que este artigo seja lido pelos senhores da classe política são-tomense e maior numero leitores em STP. Que a determinção e valorização da pessoa humana estejam sempre presentes em ações futuras. Que a mentalidade da Paula expressa neste artigo seja contagiante,um exemplo a ter sempre presente.Bem haja.

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    Malé Poçon Responder

    Mais um artigo para reflexão de todos os filhos da terra.
    Obrigado pela grande oferta.
    Há um ditado santomense que diz:
    Vivê na ca custa fá, setá çó tê matxí. (Viver não custa nada, o mais difícil é saber viver.)
    No passado, a boa maneira de estar, o saber viver, faziam parte do dia-a-dia dos santomenses. Por isso, agradeço pelo artigo que vem de certa forma nos refrescar a memória.
    Na Bíblia sagrada há um texto no livro de Tiago 4:17 que diz o seguinte:
    “Aquele, pois, que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.”
    Deixemos pois de cometer o pecado e mãos a obra.
    “Façamos circular a BONDADE pois, mesmo quem não a pratica também desejará senti-la vinda dos outros“.
    Deus connosco

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      Wê Béto Responder

      Sun Malé Poçon ; qual é a religião do Senhor ?

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    cyborwill Responder

    Nesse pequeno texto que acabei de ler pude crer que, as pessoas mesmo sem puder ou melhor dizendo,sem influencias podem fazer algo para alterar aquilo que acham que está errado…

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    Dos Santos Responder

    Este artigo é muito excelente para reflexão de todos nós. É pena que a nossa classe política não têm tempo de ler este artigo,por estarem mais preocupados em enriquecer de forma ilícita.Gostaria que o Tela nón oferecesse um exemplar a nossa classe politica.

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    Aristides Barros Responder

    A verdade é que as nossas “donas Paula” de hoje já não houvem nada e por isso mesmo não falam pura e simplesmente.São surdas e mudas porque temem represálias.Não, não é por causa do Sr Dr Pinto da Costa que parece ter ultrapassado as querelas dos 15 anos.
    As causas são outras. São de pessoas que ontem falavam da liberdade de imprensa e hoje já não conhecem a palavra liberdade; pessoas que ontem falavam do combate à corrupção e hoje para elas a corrupção só é praticada por aqueles que não são seus amigos;aqueles que falaram da reconciliação e hoje semeiam ódio e vingança.Já não existe solidariedade,irmandade, do kitembú já nem se fala.Precisamos criar uma nova sociedade com novos valores, nos valores da dona Paula. Por essa razão temos que investir seriamente em novos valores, nos valores de patriotismo, de trabalho, de seriedade e de solidariedade.

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      Abúbé & Gíquitxi Responder

      Boa, Aristides. Estou consigo
      Aristides falou e pareceu que há pessoas que querem o povo dividido e na miséria para reinarem melhor.Quem precisa de ver isso acabado é próprio povo.
      Se essas pessoas querem semear a miséria como é que o povo faz?
      Por isso mesmo é que cada pessoa devia ser uma dona paula aqui na nossa terra.

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      Coitado De Mim Responder

      Estou com Aristides Barros.
      Essas pessoas querem povo dividido e na miséria para reinarem melhor.
      É povo que precisa de defender sua cabeça.
      Por isso mesmo cada pessoa devia ser uma dona Paula aqui nessa terra. Mais medo de represália que podemos ter, mais fracos ficamos mais fortes ficam os que nos querem mal. Temos de ter coragem não é para dizer que está mal. É para dizer pára senão a gente faz chatice.

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    O Viana Responder

    Caro Will
    Felicito-te por mais esse artigo, no espaço do Jornal Tela Nom, artigos esses com visão de realidade e apelo a consciência humana e em particular a dos santomenses, sejam eles com cargos sociais ou cidadãos anónimos, pois contrariamente de que se possa pensar haverá sempre consciências que se moldam e reflectem sobre algo que por uma ou outra razão, não foram capazes de a perceber e analisar tão pertinentemente como o fazes, elevando a tua atitude contributiva para a sociedade.
    Força amigo e podes contar comigo
    Grande Abraço

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    Barão de Água Izé Responder

    Parabéns Horácio Will! No meio de tanta desorientação e oportunismo politico, é bom ler palavras que acalmam o coração dos que anseiam por justiça social e que ela pode ser atingida pela bondade, pela compaixão, pela Paz.

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