Cuba – a diplomacia da saúde na era do Ébola

Eduardo J Gomez*/ King’s College of London/ BBC

Tradução de São de Deus Lima

No momento em que se assiste ao mais grave surto de ébola de sempre, tem sido a pequena ilha de Cuba a providenciar a mais impressionante resposta.

Ao invés de oferecer assistência financeira aos países necessitados da África Ocidental, o governo cubano está apostado em fornecer agentes de saúde qualificados e empenhados em ajudar as vítimas do Ébola.

A resposta cubana baseia-se numa combinação do seu comprometimento com a garantia de cuidados universais de saúde, o estabelecimento de um sistema de educação que enfatiza o serviço aos outros e os esforços de Havana em reforçar a sua reputação internacional.

Diplomacia da Saúde

O governo cubano tem um longo histórico de prestação de cuidados universais de saúde enquanto direito humano, uma convicção plasmada na Constituição de 1976. Consequentemente, empenhou-se sempre em ajudar outros países necessitados, prolongado a filosofia política governamental além-fronteiras. Estes esforços foram parcialmente inspirados por Ernesto Che Guevara, o médico argentino que combateu ao lado de Fidel Castro durante a revolução cubana. Che Guevara encorajou insistentemente os seus colegas médicos a colocar os seus conhecimentos e competências ao serviço dos outros.

Nas décadas de 70 e de 80 do século XX, Cuba ofereceu assistência médica à África do Sul, à Argélia, ao Congo e ao Gana. Mais recentemente, médicos cubanos deslocaram-se ao Sri Lanka em resposta ao tsunami de 2004. Prestaram auxílio, igualmente, às vítimas do terramoto de 2005 no Paquistão e do sismo que devastou grande parte do Haiti, em 2010.

No ano passado, Cuba enviou 4.000 (quatro mil) médicos para o Brasil para garantirem assistência médica em remotas áreas rurais. Neste momento, mais de 50.000 médicos cubanos trabalham em mais de 66 países.

 

‘’Solidariedade’’

CUBA -BOLAA inscrição de uma frase de Fidel Castro na parede da mais prestigiada escola de medicina em Cuba, a Escuela Latinoamericana de Medicina, resume esta filosofia:

‘’Esta será a batalha da solidariedade contra o egoísmo’’, diz a inscrição.

Isto significa que antes da sua chegada à África Ocidental, os agentes sanitários cubanos acreditavam que era seu dever sacrificarem-se pelos outros, assumindo-se como verdadeiros servidores públicos e voluntariando-se empenhadamente, com risco das próprias vidas, no combate ao vírus em relação ao qual não possuíam qualquer experiência.

‘’Sabemos que estamos a combater algo que não compreendemos totalmente…mas é o nosso dever. Assim fomos educados’’, disse à agência Reuters Leonardo Fernandez, um médico de 63 anos momentos antes de ter partido para a Libéria .

A estratégia geopolítica de Cuba

Cuba encara também o seu envolvimento na África Ocidental como uma oportunidade para fortalecer a sua reputação internacional, apresentando-se como um país capaz e empenhado em ajudar os outros.

Essa estratégia do governo de Havana parece ter dado os seus frutos.

A Directora-geral da Organização Mundial da Saúde, Margaret Chen, aplaudiu recentemente os esforços cubanos, sublinhando que estava ‘’extremamente grata à generosidade do governo cubano e dos profissionais de saúde do país por contribuírem para conter o pior surto de Ébola de sempre.’’

 

Sylvia Brian, directora epidemiológica da OMS e o chefe do Programa das Nações Unidas contra o Ébola, David Nabarro, saudaram igualmente a pronta resposta do governo cubano. Várias organizações humanitárias internacionais foram também pródigas em agradecimentos a Havana e manifestaram-lhe o seu apoio, reforçando a reputação internacional de Cuba.

Cuba encara igualmente o surto de Ébola como uma oportunidade para estabelecer uma parceria mais forte com os Estados Unidos da América. Num artigo publicado no diário oficial cubano, Granma, Fidel Castro disse recentemente que trabalharia de bom grado com os Estados Unidos na contenção da epidemia, pondo de lado as diferenças políticas entre os dois países para ajudar os países afectados pelo Ébola. Embora os EUA não tenham formalmente concordado em trabalhar com Cuba, o Secretário de Estado norte-americano, John Kerry, felicitou Havana pelos seus esforços na África Ocidental. E a embaixadora norte-americana nas Nações Unidas, Samantha Power, renovou os elogios, dizendo que estava ‘’muito grata’’a Cuba pela sua resposta.

Grandes lições

A reputação internacional de Cuba saiu largamente fortalecida dos seus esforços para garantir a tão necessitada ajuda, em recursos humanos, no combate ao Ébola.

Até agora, a nação insular forneceu o maior contingente de agentes sanitários na luta contra o Ébola – um total de 256, incluindo médicos, enfermeiros, cirurgiões e pediatras. Mais 200 deverão chegar proximamente à África Ocidental. Os Estados Unidos da América forneceram 3.000 efectivos militares, nenhum dos quais presta assistência médica, concentrando-se na construção de unidades de tratamento à doença.

Além de garantir tratamento, os agentes sanitários cubanos ajudam ainda a localizar as vítimas do Ébola, conduzindo-as às clínicas onde podem ser assistidas. Ao garantirem sempre um bom tratamento e bons cuidados, os voluntários cubanos desempenham um papel crucial ajudando as vítimas a superar o seu medo de procurar ajuda médica.

A forma empenhada e apaixonada como localizam, encorajam e tratam os doentes do Ébola na África Ocidental, reflecte a inabalável convicção dos agentes sanitários cubanos de que devem tratar os seus pacientes de uma forma desinteressada, com afecto, dignidade e respeito.

Nesta medida, a pequena ilha de Cuba dá grandes lições a outras nações. Sendo a ajuda financeira importante, a assistência sanitária qualificada e com paixão em ajudar os outros é igualmente e, talvez, mais importante para ajudar a erradicar o Ébola.

Governos que, no passado, se mostraram ideologicamente empenhados em trabalhar de perto com os pacientes e assegurar acesso universal ao tratamento médico, deverão batalhar por imitar os esforços de Cuba, estabelecendo a sua reputação como parceiros pacíficos e atenciosos na luta global contra o Ébola.

 

  • Eduardo B Gomez é Professor de Desenvolvimento Internacional e Economias Emergentes no recém-criado Instituto Internacional do Desenvolvimento do King’s College of London.

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    Silvia Dionísio Responder

    É realmente notável a atitude de Cuba em relação ao combate ao Ébola.
    Nós, os são-tomenses,como muitos outros africanos, já conhecíamos o grande espírito solidário dos cubanos.Mas não se pode deixar de reconhecer, saudar e aplaudir.

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    Eurico Guevara Responder

    VIVA CUBA!

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    João sem terra Responder

    A África e o mundo devem agradecer a Cuba.
    Excelente artigo.

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    Zmaria Cardoso Responder

    O numero de infectados e mortos aos milhares pelo virus do Ebola = mais uma praga contra a Africa = é realmente demonstrativo o alcance humanitario da ajuda médica e profissional cubana.
    Uma verdadeira diplomacia pela vida.
    Bem=haja!

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