3 de Fevereiro – Cerca de centena e meia de prisioneiros nativos iam ser lançados aos tubarões

S. Tomé – Memórias do Massacre do Betepá (2) Cerca de centena e meia de prisioneiros nativos iam a ser lançados aos tubarões do navio António Carlos por ordem do Governador Carlos Gorgulho – Sublevação da tripulação, liderada pelo cabo-verdiano, Bernardino Lopes Monteiro, imediato desse navio, impede a monstruosidade – Obrigando o comandante a deixá-los na Ilha do Príncipe, gesto que viria a custar-lhe pesada pena no Campo do Tarrafal.

Por JorgeTrabulo Marques – Jornalista -
- Na imagem, Bernardino Lopes Monteiro, com os dois filhos, o mais novo, o Vital Monteiro, falecido em 1974, e o mais crescidote, Victor Monteiro, atual chefe do Gabinete do Presidente da República de S. Tomé e Príncipe  -É uma das raras fotos que tem de seu  pai.  Perguntou-me ele no facebook: “O meu pai gostava de vez em quando vestir esta farda: Jorge, sabes dizer-me  o que te parece?

pai de victorSim, porque eu também o conheci na Roça Rio do Ouro  da Sociedade Agrícola  Vale Flor, pois  sou mais velho de que o Victor. E tenho uma vaga ideia de o ter visto com essa farda.

Se bem me lembro, e pelo que julgo depreender (pelo simbolo do boné, onde é bem visível a letra A, pois ele nunca foi polícia nem tocou em nenhuma banda) deverá ser a farda azul e o boné dos seus tempos de imediato do navio António Carlos, que ele, mesmo depois de ter de lá saído, devido à rebelião de que ali protagonizou, vestia em certos dias, como se ao mesmo tempo fosse uma maneira de sentir orgulho por essa farda, que valorosa e dignamente soube envergar, impedindo horrível matança.

As MACABRAS OPERAÇÕES DO NAVIO ANTÓNIO CARLOS NO PERIODO COLONIAL -

navioEm Fevereiro de 1953, cerca de centena e meia  de santomenses, iam ser largados no mar  por ordem do Governador Carlos Gorgulho- Tal não aconteceu porque a tripulação, liderada pelo imediato Bernardino Lopes Monteiro,  se sublevou – Porém, alguns anos mais tarde, no caso de prisioneiros de guerra guineenses, persistem  fortes suspeições, de, que o crime tenha mesmo sido consumado, com uma parte da carga humana, engaiolada nos porões e da qual apenas chegou metade ao seu destino – Quem levanta a questão é  um tripulante, que acusa o comandante como uma figura odiada:  Foi ainda a bordo deste mesmo navio que nos deslocámos de Bissau a Cabo Verde (Tarrafal) na Ilha de Santiago) para ali embarcar supostamente 88 ex-prisioneiros de guerra, mas por razões que nunca cheguei a saber apenas 44 voltaram para a Guiné .Era então Comandante do António Carlos o conhecido e odiado pelas gentes da outra banda, o  “Herói do Barreiro”... Estou a falar-vos do longínquo ano de 1964. (***). – Pormenores mais à frente. Luís Graça & Camaradas da Guiné: Guiné 63/74

“António Carlos” – navio  de carga e passageiros,  que, anos mais tarde, ainda durante o salazarismo colonial também foi usado  para transportar presos do Tarrafal, como se poderá concluir mais adiante – E, pelos testemunhos, que aqui exponho,  depreender-se que era através dele  que, o Governador Carlos Gorgulho, em Fevereiro de 1953, quis  levar a cabo mais uma das suas macabras operações de liquidação do povo nativo destas ilha, pretendendo lançar ao mar quase uma centena da elite nativa santomense, que apelidara  de “comunistas”

Quem evitou a tragédia de cerca de centena meia de nativos santomenses foi o valoroso homem da imagem, ao lado, que era então imediato e que, com outros elementos africanos da tripulação, obrigou o comandante a deixá-los na Ilha do Príncipe, após o que o forçou também a deixá-los no Senegal. Mais tarde, tendo regressado a Cabo Verde, donde era natural, mesmo com outra identificação, foi detido pela PIDE  e levado para o presidiu do Tarrafal.

Navio de carga e passageiros a motor, construído de aço, em 1946-1947. Nº (…)no Estaleiro Naval da A.G.P.L. em Lisboa, pela CUF – Companhia União Fabril (construção nº. 120), para a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes. (…)  quilha do ANTÓNIO CARLOS foi assente a 14-02-1946 e o navio foi lançado à água a 27-07-1946 pelo Presidente da Republica António Óscar Fragoso Carmona. Entregue ao armador a 24-11-1947 e registado em Lisboa a 6-01-1948. Saiu de Lisboa na primeira viagem a 12-01-1948, para Leixões (13-01/ ) e Casablanca (21-01/ ), regressando ao Tejo a 1-02. Em 14-02 largou de Lisboa na primeira viagem a Cabo Verde e à Guiné. A 31-08-1950 teve a arqueação rectificada para 1.814 toneladas de arqueação bruta e 985 toneladas de arqueação líquida. Em 1959 o navio esteve fretado ao ministério do Exército para transporte de tropas e material de guerra (portaria nº 17.299 de 18-08-1959). A 10-12-1969 sofreu uma colisão com o navio holandês BOVENKERK (8.670 TAB/1960) no rio Elba, quando seguia viagem de Lisboa para Hamburgo, registando-se avarias graves a meio navio. – mais pormenores em DICIONÁRIO DE NAVIOS PORTUGUESES
Victor Monteiro - S. tomé . CORONEL VITOR MONTEIRO, FILHO DE BERNARDINO LOPES MONTEIRO – ELE CONTA O QUE LOGROU APURAR DE SEU PAI – OUÇA AS SUAS PALAVRAS  E REFLITA

Nascido na Ilha do Fogo, em Cabo Verde,  mas foi em S. Tomé que, Bernardino Lopes Monteiro,  acabaria por viver a maior parte da sua vida, tendo falecido em 1971, com 63 anos de idade, como que ostracizado  na enfermaria geral do Hospital Central, devido a problemas de saúde, contraídos pelos trabalhos e vicissitudes por que passou, sobretudo quando esteve preso no Tarrafal e também por nunca  virara a cara às adversidades e ainda devido às  constantes labutas e revezes da vida.

O Dr. Leão, seu amigo, que conhecera em Cabo Verde, ainda diligenciou para que fosse internado   na enfermaria onde ele prestava assistência, na da 2ª classe, mas não foi autorizado, com alegação de que, “esse senhor tem a cor branca mas não é branco e trabalhou na roça.”

Nunca confessou, publicamente o seu feito heroico  – Nem mesmo aos seus filhos, que apenas vieram a saber, quase de surdina, quando ele recordava essa façanha (passada a  bordo do barco António Carlos), a sua mãe , que namorara no Tarrafal., onde ia levar água aos presos.  No entanto, a  quem confidenciara, foi ao seu parente e grande amigo (por parte da esposa), o Sr. Domingues Martins,  conhecido por “Pômpi”quando ambos se encontaram  no Tarrafal.

Mesmo assim, pese o facto do segredo ter ficado  restringido aos  seus familiares e amigos mais íntimos, ainda chegou a estar na mira das autoridades coloniais, ignorando, porém,  por que artes diabólicas lhe haviam passado essa informação. Pois  só  não o prenderam ou não mandaram de novo  para o Tarrafal, graças aos bons ofícios do português, Dr. Boticas e da médica santomense, Dr. Julieta.

REVELAÇÕES DE DOMINGOS VAZ MARTINS – CONHECIDO POR PÔMPI”

Atualmente a morar no Pantufo, onde o conheci, na comonhia do Coronel Victor Monteiro, aquando do meu regresso a S. Tomé. E é realmente espantosa a sua revelação, pois vem desfazer algumas dúvidas acerca dos designios que levara Gorgulho a embarcar tantos presos num barco! – Diz ele o seguinte, referindo-se  às confissões que lhe fizera o seu amigo, Nhô Novo:

Ele  disse-me que o branco queria jogar os presos no mar. Então ele não aceitou. Nhô Novo  não ficou contente com aquilo”, opôs-se: “Disse que é gente como nós. Não pode atirar ao mar, é pecado! Talvez seja por isso que puseram na cadeia de castigo. Discutiu e disse-lhe que não podia jogar os homens ao mar dessa maneira.

Nhô Nôvo – Estava preso no Tarrafal com outros presos, na construção de estradas

Domingos Vaz Martins, 75 anos, com habilitações muito acima da esmagadora maoira Natural da Ilha de Santiago. Veio para S. Tomé, como contratado para trabalhos nas plantações da Roça, nos porões do navio Ambrizete e por cá ficou, até hoje.  Conheceu o Nhô Nôvo na colónia Penal do Tarrafal, no local onde iam “apanhar água”, Soube, então , como ele era mais instruído de que outros presos africanos, com os quais trabalhava na construção de estradas, que lhe deram o posto de cantoneiro. Mais tarde, reencontraram-se, ambos  na Roça Rio do Ouro.

O SORTILÉGIO DE S. TOMÉ – FASCINARA NHÔ NOVO

Nnhô Novo, quando passou a primeira vez por S. Tomé,  disse que “conheceu um país onde se mete uma mandioqueira e três meses depois tira-se  a mandioca” – Nas ilhas de Cabo Verde, chove muito pouco e a fertilidade e a exuberância de S. Tomé, fascinou-O desde logo.

E, as voltas da vida, assim o ditaram. A sair da cadeia, quando foram soltos os presos, em S. Tomé (que, ,as arbitrariedades  do Governador Carlos Gorgulho, tinha mandado prender, além das centenas de mortes que provocou), curiosamente, dois anos depois, em 1955, é nesta Ilha que  acabará por se fixar.

Inicialmente, na  Roça Rio do Ouro (atual Roça Agostinho Neto), onde também o conheci, quando ali trabalhei, como entregado de mato.

E, na verdade, nunca mais me esquecerei  daquele homem magro, alto, quase com perfil de europeu mas, contrariamente à frieza de quem recebia as ordens, ele transmitia outra humanidade – sempre  muito aprumado (postura que porventura na Marinha) mas evidenciando uma expressão de simpatia para com toda a gente com quem falava ou o abordava. Era o leiteiro da roça, que tomava conta da vacaria e das cabras.

Contudo, muito embora o não quisesse demonstrar ) ele era mais culto de que o patrão e de que outros empregados, já que aprendera a falar várias línguas – E foram esses conhecimentos que lhe possibilitaram a entrada como imediato do navio António Carlos.
Porém, 13 anos depois de trabalhar na roça grande, um dia o patrão descobriu que  ele tinha “um sobrado” na cidade, mandou-o chamar  e disse-lhe:  - “Sr. Bernardino! O Sr. vais ser transferido para Fernão Dias”

 Não, Senhor Patrão! Eu não vou para Fernão dias

 -Porquê!?

 -Porque lá tem muito mosquito e não tem luz

- Diz o patrão: olhe Sr. Bernardino! O Sr. parece branco mas não é branco

Nisto, após um curto silêncio, responde:  – pergunta o patrão:

– Então que eu faço consigo?

- Olhe, Sr. patrão: trabalhei durante 13 anos, a dizer, sim senhor. Pois, eu hoje, digo  nao Senhor! Ponha-me fora da roça !

- É mesmo isso que vou fazer: e só queria duas coisas. Uma camioneta da roça que me levasse as minhas bagagens para a cidade….

- Diz  o patrão: “Eu sei que o senhor tem um sobrado na cidade”. E outra coisa que o senhor quer?

Que levasse as minhas limárias – os seus  animais – a  Guadalupe para ali ser vendidos

Responde o patrão: lá não vais vender nada. É tudo vendido a mim por 23 escudos cada peça, seja porco, galinha, vaca ou peru. 

Seu pai deixou lá tudo e veio para cidade. E, quando seu pai, vem para a cidade, lembra-se de que ele queria comprara Roça de Santarém e Cantanhede por 380 contos (1968) e até uma pequena lojinha mas os colonos, não lho permitiram”

Morreu ainda novo porque, embora nunca voltasse a cara ao trabalho, mesmo com a pele clara, como são muitos cabo-verdiano, para o regime colonial ele era negro – E estes, salvo um caso ou outro, eram escravizados.

 

ISTO PASSAVA-SE EM 1948 MAS EM 1953 E NOS  ANOS SEGUINTES ERA A MESMA COISA

Leia-se o que disse um alto funcionário da Administração do Ministério do Ultramar, nos finais dos anos 40: (…) “Este assunto merece, porem, uma particular observação, em face de leis gerais que condicionam o trabalho nas colónias. Assim os trabalhadores cabo-verdianos foram transitoriamente colocados sob a fiscalização da Curadoria Geral dos Serviçais e Indígenas por comodidade da administração, em face de trabalharem nas roças em igualdade de circunstâncias com os Indígenas serviçais  sujeitos á tutela curadorial, o que pode acarretar algumas complicações no meio dos agregados  trabalhadores. Por outro lado os nativos de S,Tomé  foram considerados sob a lei do europeu, isto é, retirados de sob a tutela curatorial, quando perante a Carta Orgânica do Império Colonial Português, al’tigo 2462, § Único, devem estar sujeitos ao regímen de índ1genato, na sua acepção legal. 

111 – Várias razões têm levado a manter-se este estado de cousas, mas parece-nos necessário saÍr dele, pois que com a evolução civilizadora do indígena, que é o próprio progresso· de colonização, podem estes arranjos de conveniência administrativa, concluído! á margem da lei, acarretar dificuldades e dissabores, se com o adiantamento to dos povos vierem, como é previsível, os agitadores sociais. No caso dos caboverdeanos isto não tem importância de maior, dado que a sua permanência em massa na colónia é sempre temporária’.

112 Mas quanto aos nativos já assim não é, trata-se de um povo em adiantado estagio de crescimento na civilização do colonizador a quem não pode impor. Não é um regresso a estágio anterior, desmentindo-se com isso o objetivo máximo da nossa obra de colonização. Afigura-se-nos que a via mais adequada para resolver este problema, e a mais legal, será a promulgação de medidas destinadas a reconhecer ao nativo, individualmente, a sua capacidade de cidadania portuguesa, e nessa cidadania fazer entrar logo de início a grande maioria da população, impondo-lhe a satisfação de certos mínimos de sociabilidade , em especial, a comprovação de meios da vida e de trabalho, admitindo de entrada uma minoria, maia ou menos reduzida, de nativos que ficariam sujeitos á tutela curatorial e regímen e indigenato, até comprovação para entrada no grémio do civilizado. Isto seria o caminho para a situação nítida, perante a lei. 

(…) 120 – ouvi também referências á execução de trabalho compelido para serviços públicos, imposto aos nativos, do que não há conhecimento na Inspecção Superior dos Negócios Indígenas, nos termos do artigo 295• do Código do Trabalho do Indígena , de 6 de Dezembro de 1928.( Do c , 3.4 -, ) 

Constou-me também que na execução desses trabalhos e do trabalho correcional os trabalhadores são entregues á condução de outros preso, muitas vezes criminosos de nomeada, que sobre os trabalhadores exercem grandes violências, 0 que já provocou a intervenção dos médicos do hospital em vista de ali aparecerem gravemente feridos ou contusos dos naus tratos e até por esse estabelecimento correu um processo por e8tupro na pessoa de uma menor de 11 ou 12 anos, presa ou filha de uma presa, que obrigou a tratamento hospitalar da vitima, praticado por um desses capatazes, preso por assassinato de um filho, tendo o processo sido mandado arquivar, sem qualquer procedimento”

AINDA HÁ MUITO POR DESVENDAR

Dos hediondos episódios,  que ocorreram a partir do dia 3 de Fevereiro de 1953, que ficariam conhecidos por  “Massacres do Batepá, ainda há muito por contar! – Muita matéria  a necessitar de atenção por parte de estudiosos e historiadores, que, de modo algum, pode ficar no esquecimento.

E é, pois, também a razão deste artigo, a dois dias da triste data histórica, sobre a qual passam, depois da amanhã,  62 anos – Sim, este o motivo pelo qual trago  ao conhecimento público, o gesto abnegado e corajoso de   Bernardino Lopes Monteiro, que, com a colaboração de outros tripulantes, por se ter oposto a que,  quase centena e meia de homens, fossem selvaticamente lançados ao mar, acabaria  por pagar cara a sua heroicidade, com uma humilhante e duríssima pena de trabalhos forçados (como calceteiro) no temível campo de concentração do Tarrafal, também conhecido pela “frigideira” – O presídiu para onde o regime fascista-colonialista de Salazar enviava os presos políticos.

TARRAFAL – OUTRO CAMPO DA MORTE LENTA – NÃO MENOS ESCABROSO QUE O DE FERNÃO DIAS, CRIADO PELO FASCISMO COLONIAL

Do qual  - diz-se – “Os presos, quando não estão na Frigideira, estão nas celas. Estas são separadas, também elas, por portões de ferro, que tudo têm semelhante entre si. Carregam sobre o dorso do metal a dor de seres humanos que transportam a liberdade no seu espírito. Alguns pagam o elevado preço da liberdade com a vida. A morte abraça-os. A frigideira é construída a uma distância considerável de qualquer outro compartimento da “casa da morte”, para que a sombra não proteja os seus habitantes do calor infernal que lá se faz, ficando permanentemente exposta ao raio solar durante o período diurno. No seu interior, só há dois companheiros: a solidão e o silêncioCampo de Concentração do Tarrafal – Nós Genti Cabo Verde –

Foi precisamente nessa tenebrosa prisão, onde esteve desterrado,  Bernardino Lopes Monteiro,  (pai do coronel na reserva, Victor Monteiro, Director do Gabinete do Presidente da República Manuel Pinto da Costa) – Curiosamente, anos depois, quis o destino que  viesse para S. Tomé, na condição de contratado, onde se fixaria até ao seu falecimento, em 1972. Não perca mais à frente os pormenores.

BATEPÁ OU MATA-PÁ – A MAIOR NÓDOA DO COLONIALISMO NAS ILHAS VERDES DO EQUADOR

Quando o Governador de S. Tomé e Príncipe, Carlos Gorgulho, e os seus acólitos inventaram a tenebrosa história da conspiração dos negros contra os brancos, que apelidara “ de indivíduos desafectos à atual situação política, conhecidos como comunistas”, principiava uma das maiores tragédias, do período colonial, que vitimaria várias centenas de naturais destas Ilhas – Era como que o macabro epílogo que  surgira na sequência da morte do seu ajudante-de-campo, o qual,  numa atitude provocatória, viera juntar-se às  famigeradas rugas conduzidas por soldados armados e lideradas por  um dos presos de delito comum, um tal facínora Zé mulato, rusgas essas que,  todas as manhãs, deixavam a cidade e partiam para o mato para cercaram esta ou aquela pacata e pacifica povoação,  arrastando à força quem encontrassem, fora ou dentro de suas humildes casas de madeira, obrigando os nativos a trabalhos forçados nas obras do Estado ou para serem enviados para as roças, a onde a mão-de-obra dos contratados, vindos de outras colónias, escasseava –  Todavia, o local para onde imediatamente eram conduzidos, eram os miseráveis barracões imundos da cadeia, junto à  cidade, onde os pobres santomenses eram presos nas condições mais humilhantes e degradantes.

QUAL DAS PIORES MORTES – ENTRE MORRER ASFIXIADO POR GÁS NOS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO DE AUSCHWITZ  OU SER ATIRADO VIVO PARA UMA VALA, AFOGADO NA LAMA DE UM PÂNTANO OU NO FUNDO DO MAR?

“A forma como o Governador durante o tempo do meu Comando tratava e dirigia a sua obra, “com dinamismo – que o tinha -sob os aspectos de desenvolvimento material e económico era, sendo bem observado, em vários detalhes, como um ditador à maneira da gestapo no tempo de Hitler na Alemanha. Era ele e só ele quem tudo mandava. 

(…) Como ir arranjar- trabalhadores?!…Muito  facilmente pá: como já do antecedente: forma que era já do tempo em que ele tinha tomado posse daquela Grande Propriedade que era do Estado mas que .ele governava à sua maneira de conseguir homens para  trabalho, E como era ? Por meio de RUSGAS! Tratando-me por TU, como aliás a toda a gente daquela terra, dizia-me abrindo o mapa, a planta, da Ilha. Tratas de cercar com os teus soldados a zona’ tal e tal … e de manhã vais apertando o cerco e trazes-me para a Cidade essa gente que for saindo de suas casas. Assim se fazia e se entre as mulheres vinha alguma cachopinha bonitinha em isca para o homem grande”– Estas palavras são Capitão Salgueiro Rêgo, que serviu, Carlos Gorgulho, que, por não concordar com os seus procedimentos, acabaria por ser castigado disciplinarmente. Tendo depois, no seu regresso a Portugal, a seu pedido, escrito dois livros de memórias, onde denunciava os abusos e arbitrariedades do referido Governador, a cuja obra conto vir a referir-me, mais detalhadamente.

Embora  não haja comparação possível com o nazismo hitleriano,  sobretudo quanto à dimensão dos crimes, porque, no tocante ao nível do requinte, não me parece que tenha havido grandes diferenças: nunca faltaram nem vão faltar  Hitleres a   ordenarem atos de extrema violência e  sadismo.  Ou não é o que nos mostram os telejornais, na atualidade?

Por isso mesmo, se bem que   concorde com o investigador Gerhard Seibert  ….,(um dos estudiosos mais qualificados de variadíssimas questões africanas, nomeadamente de S. Tomé e Príncipe, a quem se deve também um interessante trabalho sobre os Massacres do Batepá),ao dizer-me que “não se pode comparar Auschwitz com Fernão Dias nem Gorgulho com Himmler “. E, de facto, sendo cidadão alemão, tal como diz, conquanto não querendo “minimizar as atrocidades de Gorgulho, mas como alemão conheço minimamente a dimensão do mal dos KZ da Alemanha nazi.” –

Palavras que teve a amabilidade de me expressar, por e-mail, em relação  ao anterior poste , a que dei o título “Memórias do Batepá: -  Auschwitz, em S. Tomé também existiu: no campo do extermínio de Fernão Dias e nas cadeias da morte lenta das duas Ilhas. Governadas por “um ditador à maneira da gestapo no tempo de Hitler “ - Acusações do seu ajudante de campo e comandante da Policia .  Naturalmente que não vou discordar da da respeitável opinião de quem estudou profundamente os dois casos. 

Mas, no fundo, tal como também reconhece, a dimensão do referido massacre continua desconhecida   - Durante o fascismo, existia o problema da censura, e, mesmo agora, quanto não haverá ainda por revelar! -. Pois diz no seu extenso e criterioso estudo, publicado em francês, logo na parte introdutória que “ a Polícia (ICC) e civis voluntários nativos foram responsáveis ​​por uma enorme onda de violência contra a população nativa de São Tomé” – E que. “devido a o isolamento da ilha e da censura, em Lisboa, o mundo recebeu  pouca informação sobre estes acontecimentos sangrentos.”, Citando de seguida alguns dos trabalhos que foram publicados. Reconhecendo, no entanto,  que, apesar dessas publicações, os massacres continuam desconhecidos, e também muito  mal-entendidos LE MASSACRE DE FÉVRIER 1953 À SÃO TOMÉ -

“Por indivíduos desafetos à actual situação política, conhecidos como comunistas”

Cerca de meia centena e meia de naturais de S. Tomé,  foram carregados no Cais de Fernão Dias para serem atirados no alto mar aos tubarões mas nunca chegaram a saber por que razão acabaram por ficar presos nas masmorras de uma prisão na  Ilha do Príncipe e muito menos quem lhes poupou a vida  - Quando partiam acorrentados, daquele Cais, junto do qual se situava o famigerado “Campo de Concentração, próximo da praia mas junto a um local pantanoso e infestado de mosquitos, todos tinham consciência do  horrível destino que os esperava, ou seja, um atroz afogamento, longe da sua ilha, atirados à voragem dos tubarões, sem a menor ponta de esperança que alguém os pudesse salvar – Foram poupados dessa horrível morta mas nem por isso deixaram de passar por um doloroso calvário.

Bernardino Lopes Monteiro, mais conhecido por Nhô Novo, nasceu na Ilha do Fogo, onde estudou, tendo, mais tarde ingressado na Marinha Mercante, onde acabou por desempenhar as funções de imediato.  Nessa qualidade, o destino levou-a S. Tomé, em 1952 , a bordo do barco, António Carlos, que ali voltou no ano seguinte, ou seja, em 1963, em trânsito para Angola, precisamente na altura em que ocorriam os massacre do Batepá de 3 de Fevereiro.

Deu-se a circunstância de,  a abordagem desse navio, coincidir com os massacres de 3 de Fevereiro. Em que, centenas de santomenses, uns   imediatamente mortos, às balas assassinas das milícias ou forças militarizadas, outros presos e enviados para a cadeia ou para o campo de concentração de Fernão Dias, onde foram acorrentados e vítimas das maiores barbaridades e espancamentos.  A pretexto de estarem implicadas num suposto “movimento revolucionário.

Um dos macabros planos passava por  destruir a elite santomense – E, se possível da forma mais prática e disfarçada – Entendeu o criminoso Gorgulho, que essa via seria a do afogamento no alto mar, longe das vistas de toda a gente e acorrentados para que nem ao menos pudessem proferir uns gritos de revolta contra os seus algozes. E deveria ser isso o que pretendia: sabendo da existência daquele barco, entendeu que a maneira mais fácil de se desembaraçar desses presos era carrega-los no tal barco e lança-los ao mar.

ÍNDICIOS HISTÓRICOS DO BARCO “ANTÓNIO CARLOS” VÃO AO ENCONTRO DA MOSTRUOSIDADE PERPETRADA  PELO GOVERNADOR CARLOS ORGULHO

Procurei ver nos arquivos o que se podia saber do passado “histórico” deste barco mas apenas deparei com informações técnicas e das viagens que fazia, entre a “metrópole” e as colónias.

Todavia, através de uma pesquisa na Internet (que cada vez mais se vai revelando o maior arquivo informativo planetário) pude também ficar a saber que não foi apenas o cabo-verdiano, Bernardino Lopes Monteiro, que ali chegou a prestar  serviço como imediato, houve outros seus patrícios, que também por lá andaram na estiva. De resto, depreende-se que talvez tenha sido por esse facto, que,  juntamente com outros cabo-verdianos da mesma generosidade  e valentia, haja conseguido sucesso  com a sublevação a bordo,  levando o  comandante a demovê-lo de tão macabras intenções, obrigando-o a alterar a rota: em vez de se dirigir para sul, rumo a Angola (e despejar os pobres desgraçados), logo que perdesse a ilha de vista e quem sabe se mesmo a horas mortas,  a passar primeiro pela Ilha do Príncipe, e a deixá-los ali.

Atente-se neste comentário no blogue  FINISTERRA – acerca do barco “António Carlos”

Anónimo disse…

Há muito tempo queria conhecer este navio, foi dali que veio o meu nome de nascimento, Em 20 de Dezembro de 1966 quando o meu pai trabalhava como estivador, no cais de Pedra de Lume – Ilha do Sal Cabo Verde, e prometeu que se eu nascesse naquele dia e se fosse um homem , o meu nome seria António Carlos, hoje tenho grande orgulho deste nomhttp://cabodofimdomundo.blogspot.pt/2008/03/navio-de-carga-antnio-carlos.html

NOUTRO BLOGUE O COMENTÁRIO   AINDA É MAIS RELEVANTE

Ou seja, a confirmação de que o barco era também usado para transporte de prisioneiros e que deixara atrás de uma das suas viagens  uma gravíssima onda de suspeição:

Pois é dito o seguinte: “Foi a bordo deste navio que melhor conheci Bissau, e o seu “Tanque de água” onde registei um dos inesquecíveis momentos na vida de um marinheiro. Foi ainda a bordo deste mesmo navio que nos deslocámos de Bissau a Cabo Verde (Tarrafalna Ilha de Santiago) para ali embarcar supostamente 88 ex-prisioneiros de guerra, mas por razões que nunca cheguei a saber apenas 44 voltaram para a Guiné (***).

Era então Comandante do António Carlos o conhecido e odiado pelas gentes da outra banda, o  “Herói do Barreiro”… Estou a falar-vos do longínquo ano de 1964.

 

 

Notícias relacionadas

  1. img
    Zmaria Cardoso Responder

    Mais um subsidio para os jovens e o governo reflectir e nao “violarem” a historia, apenas pela cara dos seus fazedores, uns pobres homens, coitados relegados a sua sorte.
    Por outra margem, Victor Monteiro, um alto quadro da elite sao-tomense – de quem ja ouvi na primeira pessoa o amor do seu velho pelas ilhas ter sido a chuva que canta todos os dias – ainda pode receber do governo a “estatueta” do pai Bernardino Lopes Monteiro pela causa digna e humanitaria de salvar vida a mais de uma centena de pessoas condenadas a morte.
    Na terra ainda temos depoimentos vivos que deviam chamar responsabilidade a Portugal pelo genocidio, mas entretidos nas zangas de comadres, la nao pomos os pés.
    Sem honra nem gloria, um dia profissional dos finais de oitenta, o meu apelido levou-me a barra dos tribunais de um sobrevivente de 1953, morador em Capela-Trindade, quem baptizou-me desde essa altura de amigo.
    “Temos dividas para com o teu avô. Em 1953 era ele o feitor ca da roça. Um bom branco, grande homem, com a ajuda da tua avò escondeu muitos de nòs pretos procurados a caçar por Gorgulho que nem macacos. Nem sei como ele nao foi parar a cadeia.
    Que é feito deles?”
    Ao jornalista Jorge Trabulo Marques, uma vez mais, os agradecimentos de um sao-tomense.
    Bem-haja!

Deixe um comentario

*