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3 de Fevereiro – São Tomé recorda os seus mortos caídos em 1953

Massacres dos Batepá (3) Hoje S. Tomé recorda os seus mortos caídos no 3 de Fev.1953 – Manuel dos Ramos – “Mata ali e vai pôr junto desses tamarinos e tapa com chapa”. Manuel Carmona “Vi muitos corpos, que foram pegados vivos , num bote grande que os lançava ao mar” – Bartolomeu Cravid “Governador Gorgulho tinha na ideia escravizar todos os naturais de S. Tomé.” – Entrevistas feitas em 1974, aqui reeditadas.

Por : Jorge Trabulo Marques / blog – odisseiasnosmares.com

batepá - massacres -s. tomé.._0201Foi precisamente há 62 anos mas a lembrança  desses ignóbeis acontecimentos permanece ainda bem viva na memória dos escassos sobreviventes, ainda vivos mas não esquecida na memória coletiva de um Povo, que hoje recorda as largas centenas de mortos que barbaramente foram espancados no Campo de Concertação de Fernão Dias,

Para este ano 2015, contrário dos anos anteriores, o acto central terá lugar nas imediações defronte a Museu Nacional e não na histórica Praia de Fernando Dias, entretanto para este ano, não será realizado a habitual e tradicional marcha 3 de Fevereiro com destino a Praia Fernando Dias. – Excerto do  Jornal Transparência – Diário de São Tomé e Príncipe

Manuel dos Ramos – guardador de porcos em Fernão Dias “. O meu pai era o Manuel João da Graça das Neves. Tinha o número 430. Vi chegar aqui um senhor que trabalhava na Câmara. Veio ao meio dia e meio e à uma hora morreu. Era o Sr. Tini da Câmara   – Pormenores mais à frente. 

Manuel Carmona, trabalhador na Ribeira Peixe – Todo o individuo que trabalhava  na brigada, nesse tempo vivia porque era Deus que queria. Comia feijão feito com milho sem pisar. E desde manhã até há uma hora, com esta comida, corno podia um homem aguentar? – Pormenores mais à frente. 

2- Batepá  - bartolomeu Cravid 058267Bartolomeu Cravid  – – Bartolomeu Cravid “Bateram-me. Puseram-me numa cela, incomunicável, durante 45 dias  -Pormenores mais à frente. 

Um local pantanoso, infestado de mosquitos, embora a escassos metros da praia, onde muitos presos, ou  eram imediatamente acorrentados e lançados ao mar ou, ainda sob o peso de fortes grilhetas,  obrigados a carregar pesadas tinas de água ou grandes blocos de pedra, por forma a que o seu extermínio ainda fosse mais doloroso, porque física e psicologicamente mais sórdido e lento, quando não sufocados pelo terreno movediço da lama para onde também eram atirados ou mortos vivos em valas abertas pelos próprios prisioneiros, que eram obrigados a cavar a sepultura, sob as prepotências e as arbitrariedades de um contratado angolano, um tal Zé Mulato, um inqualificável verdugo que  que as autoridades foram buscar à cadeia,  onde  cumpria pena de assassínio, para chefiar o dito campo de morte.

Em 1974, entrevistei algumas das vítimas para a revista Semana Ilustrada, de Luanda, uma das quais ainda  com feridas por sarar numa das pernas, com que foi acorrentada – . Trabalhos jornalísticos esses que me haveriam de custar graves dissabores, violentas reações por parte, de alguns colonos. Mas os pormenores ficam para outro dia, hoje do que venho falar especialmente é apenas de alguns comoventes  testemunhos, que então pude recolher, dois dos quais em Fernão Dias, no local do famigerado campo de Concentração.

Escasseava a  mão de obra barata..E o governador planeava construir grandes edifícios à custa do trabalho forçado nas ilhas e  mandou o ajudante de campo armado em soldado nazi a comandar um grupo de milícias para  ordenar o trabalho obrigatório.. Num verdadeiro retorno aos primórdios do ignóbil e duro esclavagismo, até que,  numa remota aldeia perdida no mato,  algures pela Vila da Trindade, alguém se encheu de coragem e reagiu sobre o fogoso e arrogante alferes, que teve a reação popular que merecia  e à altura da leviandade e do desprezo como olhava a  população  e impunha  a sua vontade .

A partir daí o Governador  Gorgulho –  para salvar  a face dos seus desmandos e  prepotências, e, como os grandes erros, nunca vêm sós, para justificar uns cometia outros, cada vez mais graves.  passou acusar os “rebeldes” de comunistas, através da imprensa e da rádio.   E não tardou que os colonos – incentivados  ao ódio à  dita   “hidra comunista”, respondessem ao apelo dos muitos boatos propalados.

Há notícias de que foram avistados submarinos soviéticos ao largo e descarregadas armas para apoiar a revolta  dos negros insurretos contra a integridade desta província ultramarina!”  – Foram detidos e presos vários suspeitos. O governo promete firmeza  e mão pesada aos criminosos! . Por toda a ilha mobilizam-se milhares de voluntários.

– E, quilo que  poderia ter sido um caso isolado, depressa é rotulado de rebeldia comunista.

Face a tais atoardas e  falsos alarmes, as roças  passam ao ataque: empregados de mato e dos escritórios, feitores e administradores – e até capatazes negros -partindo em jipes de todas os cantos da colónia, concentraram-se na Trindade, e, fortemente armados,  dirigem-se através dos caminhos do mato ao Batepá, descarregando  tiroteio forte e feio, (naquela e noutras aldeias) sobre as populações indefesas e pacíficas – mães com os filhos às costas,  homens,  mulheres e inocentes criancinhas, e até porcos, cabras e galinhas -, tudo é imediatamente alvejado e varrido!

Tudo quanto é vivo e apanhado pela frente,  é vítima das maiores  atrocidades e dos disparos mortíferos das velhas máuseres alemãs hitlerianas – herança do nazismo.  A  fúria assassina só terminou, quando, em escassos cinco dias, rapidamente todas as munições se esgotaram na ilha- Para trás, ficava um autêntico banho de sangue, aldeias totalmente queimadas e destruídas e inúmeros cadáveres estendidos sobre o chão fértil e verde  da luxuriante floresta. E a paz , que ali reinava dantes, dava lugar a um autêntico cenário de horrores:

VISITA AO LOCAL DOS TRÁGICOS ACONTECIMENTOS – EM 1974 – 20  ANOS DEPOIS  – TENDO COMO GUIA DOIS SOBREVIVENTES: Manuel dos Ramos e Manuel Carmona

Este o relato – “O local fica perto da. sede da de pendência Fernão Dias, à Roça Rio do Ouro, à frente de um’ mar azul  imenso, bordado de viçosos coqueiros e de um capim que cresce exuberantemente  e, por entre vestígios e recortes de antigas construções, em tempos utilizados para servir a ponte de cais acostável para  os- barcos de longo curso que ali atracam.

A ponte destinada então, aquele porto, encontra-se em ruínas, e o sítio onde se localizavam as tais construções, são boje, praticamente, ligares de abandono, preenchidos, apenas, na pequena planura que ali se ergue, por uns tantos pés de coqueiros, que após terem servido de palco aos tristes como lamentáveis acontecimentos no ano de  1953, ali foram plantados, talvez para quebrar a aridez e tristeza ambiente.

Há dias deslocámo-nos ali. Íamos com o propósito de fazermos’ algumas fotografias do local. Quando chegámos, pedimos a um natural de S. Tomé, que guardava uma vara de porcos, para nos indicar onde tinha sido, precisamente, o sitio, em que haviam decorrido os massacres de 1953. Tratava-se do Sr. Manuel dos Ramos, de 62 anos, por sinal, também, uma das vítimas. Não pudlamos ter tido melhor interlocutor e pessoa mais bem informada para nos acompanhar e nos apontar os sítios onde  foram concentradas largas dezenas de santomenses e, sem dó nem piedade, torturados e mortos.

Lá se encontravam ainda, junto à praia conforme nos disse, os dois ta marinheiros onde diariamente eram estendidos os cadáveres e dali transportados, por uma camioneta, para uma vala comum, no cemitério da cidade.

Mostrou-nos, igualmente, o sítio onde ele também esteve estendido no chão duro, cercado então por arame farpado, e onde ficavam a aguardar o momento do interrogatório ou da pena capital.

Acompanhou-nos ao lugar, onde ficava a casa que o chefe da brigada do campo de concentração e de trabalhos Forçados utilizava para pro ceder às torturas, aos interrogatóri0.e: e julgamento das inúmeras pessoas que para ali iam presas.

Por último, trouxe-nos ao lugar onde os presos partiam brita para construção de uma pista para o aeroporto que a partir de ali se pretendia iniciar e apontou-nos o pântano onde eram também forçados a trabalhar. Na berma do mesmo, encontramos ainda uma argola de uma corrente de ferro, com que eram amarrados.

“Mata ali e vai pôr junto desses tamarinos e tapa com  chapa”.

Tudo isto lhe ouvimos contar com palavras de emoção e tristeza , ao  recordar aqueles horrendos episódios  de que foi vitima e assistiu

No final, regista mos o seguinte depoimento:

 J. M. O sr. também foi, portanto, das pessoas que aqui esteve no campo de concentração, não é verdade?

– M.R. Sim senhor. Estive aqui a trabalhar.

– J. M. Foi muito mal tratado:

– M. R. Bateram-me com um  pau na cabeça e outro na nádega. Mas o ruim da minha vida era  a carga muito pesada que tinha de transportar.

– JM. O sr. viu bater em  alguém?

– M. R. Sim senhor! Vi chegar aqui um senhor que trabalhava na Câmara. Veio ao meio dia e meio e à uma hora morreu. Era o Sr. Tini da Câmara   

– J.M. Disse-me que o seu pai também aqui esteve.  Ele morreu cá?

– M.R. Morreu em casa.

– J.M. Mas também foi morto durante os massacres do Batepá?

– M. R. Não senhor. O meu pai veio  de castigo. Tiraram depois o meu pai e mandaram-no para casa, ·mas depois morreu devido à doença que  aqui apanhou. . – J. M. Com é que se chamava o seu pai?

– M. R. O meu pai era o Manuel João da Graça das Neves. Tinha o número 430.

 – J.M. Já havia aqui muita gente condenada?.

 – M. R. Sim. Muita pessoa a trabalhar.  Mas para eu dize a quantidade de pessoas  que aqui estavam a trabalhar  é que eu não posso dizer.

– J. M. Aquele lugar ali era para o julgamento. Que é que o Sr. .José fazia lá  –

– M. R. Tudo. Com cacete e outras pancadas. Quem não morreu, ficou. Quem morreu, morreu! Qualquer pessoa que vinha, ia  para o Sr. José, fazer perguntas. Depois de perguntar ele fazia conforme entendia.

– J. M. E ali, junto daqueles tamarinos, que se fazia?

– M. R. Lá! Mata ali e vai pôr junto desses tamarinos e tapa com  chapa.

– J. M. E depois os cadáveres  eram enterradas ou lançados ao mar?

– M. R. Os que estavam em baixo de chapa, o carro, por volta das três ou  cinco horas da  tarde, carregava- os para cidade. Lá é que se iam sepultar.

– J. M, Mas outros eram atirados ao mar, não eram?

– M. R. Dizem que atiravam ao mar, mas nunca vi porque de noite ia dormir outra pessoa ficava a trabalhar. Mas dizem que morreu muita gente no mar e outra foi enterrada.

DEPOIMENTO DE MANUEL CARMONA

Chama-se Manuel Carmona. Tem 42 anos de idade. E natural de S. Tomé e, actualmente, é trabalhador rural na Roça Ribeira Peixe. Disse-nos que também tinha sido uma das vitimas sobreviventes aos massacres do Batepá

Respondeu-nos  do seguinte modo:

 M. C. Estava na minha casa deitado. Eram sete horas da noite, e apareceu o carro, cheio de polícias, e com o Sr. José Mulato. Fui pegado na minha casa, às sete horas de noite. Levei muita pancada por ordem do Sr. José. Entre os que matavam destacava-se o cabo Rodrigues e outro homem que parece que ainda se encontra em S. Tomé. E os capatazes, que mandavam nesse tempo, e mataram bastante por ordem do Sr. José. Era o Gonçalves, Cidade, Massêca, Jamba. 

J. M. que lhe fizeram, quando chegou à tal brigada de trabalhos, em Fernão Dias’?

– M. C. Padeci bastante Levei pancada demais.

– J. M: Quanto tempo esteve nessa· tal brigada ?

– M. C. Cinco meses. Vi muitos mortos, que foram pegados vivos , num bote grande que os lançava ao mar.  Eu próprio é que vi, com a minha vista, em Fernão Dias, matar por ordens do Sr. José. 

– J. M. O Sr. acha que se deve fazer justiça a esses indivíduos que o trataram mal e mataram outras pessoas e que ainda não foram julgados?

– M.C. Acho . Ficaria muito satisfeito até …

– J. M. Conhece  muitas pessoas que o tararam mal e que ainda cá estão?

– M.C. Bem, outros morreram, os capatazes ainda cá estão. Até o que foi o chefe, o autor da justiça , ainda está a viver  e outros ainda estão em  S. Tomé.  Eu conheço-os…

– J.M. Que lhes davam de comida , nessa briga ? 

– M.C, Todo o individuo  que trabalhava  na brigada, nesse tempo vivia porque era Deus que queria. Comia feijão feito com milho sem pisar. E desde manhã até há uma hora, com esta comida, corno podia um homem aguentar? ·

– J. M. Você  dormiam normalmente, ou dormiam muito mal?

– M. C. Dormíamos  uns em cima,  outros em baixo, como arrumação de saco.

– J. M. Acha que os tais senhores deviam ser julgados e estar presos?.

– M. C. Não deviam estar, sequer, livres por um dia. Porque, nessa altura,  em 53, esse senhor autorizava  a colocação de marcas nos que  iam .ser mortos em Fernando Dias, com tinta vermelha na camisa. E de madrugada, quando vinha a camioneta eram esses que a família perdia. Não duravam  nem meia hora. 

– J. M. Então ele não obedecia a ordens? Fazia aquilo, sua ‘por vontade própria? ·

– M. C. Recebia ordens de Sua Excelência que governava. ·

– J. M. Mas ele é que mandava lá?

M. C. E1e é que mandava. Na secção da brigada.

BARTOLOMEU CRAVID  

– J.M._ Diz-se que o Sr. Cravid também foi uma das pessoas afectadas pelos acontecimentos do 8atepá. Que se passou então em relação à sua pessoa?

– B. C. – Lembro-me que fui preso e que estive na cadeia 45 dias. ·

– J.M. -Por que é que o prenderam?

– B. C. – Não sei explicar; o certo é que houve a ideia de arranjar mão-de-obre gratuita. E daí’ surgiram as prisões, mais prisões mas sem quaisquer razoes para isso.

 Procurava-se emprego e não sé encontrava. No entanto, as rusgas sucediam-se e as pessoas que encontravam, eram presas. E claro, ao fim ao cabo houve um ou outro que reagiu sobre esses atitudes. Mas a  verdade é que nem chegou a existir reaccão nenhuma.

– J.M – Na altura, trabalhava em quê?

– B.C – No Tribunal.

– J.M. – Portanto na altura em que foi preso. Mas em que suspeitas se basearam para o prenderem?

– B.C. – Naquela altura só se ‘tratava de boatos, mais boatos. O individuo era apontado de estar metido em reuniões. Mas a verdade é que nem sequer havia reuniões.

– J.M. – Durante o tempo em que esteve preso foi muito mal tratado?  

– B.C – Fui. Bateram-me. Puseram-me numa cela, incomunicável, durante 45 dias.

– J.M. – E a alimentação? De que constava?

– B. C – De fuba com feijões, sem um mínimo de higiene. Enfim, tratavam-nos piores que escravos. 

 

– J.M. –‘Tinha fá muitos companheiros? .

– B. C.. -· Sim. Tinha lá muitos companheiros. Muitos funcionários públicos. ·

 –  J. M. – Eram todos submetidos a igual tratamento?

 – B. C. – Sujeitavam-nos aos mesmos tratos. Puseram-nos descalços. Bastiam-nos …

– J. M. – Com que é que os castigavam?

– B.C. – Com pauladas. Chicoteadas. Palmatoadas. Enfim…

– JM –  Depois acabaram por o soltar, porque? · Como é que chegaram à conclusão que não havia motivo para o terem preso? · 

 

– B. C. – Não sei se foi o Juiz que trabalhou Como. Não sei explicar como é que isso se passou. O certo é que um dia qualquer chamaram-me e soltaram-me.

– J.M. – E aos outros seus companheiros?

– B.C. – Um outro colega meu foi solto um dia  antes: o Sr. Martins Fernandes de Castro.

– J.M.  – Como é que o Sr. Cravid interpreta a origem desses acontecimentos ? ·

– B. C. – Dá-me a entender que o Governador Gorgulho tinha na ideia escravizar todos os naturais de S. Tomé. Não os queria, até, como funcionários públicos. ‘Deu-me· a entender que só os queria na situação de contratados. De verdadeiros escravos.

– J.M. – Mas falou-se numa sublevação comunista ? Que diz a este respeito? ·

– B.C.  — Que eu saiba, não houve nada.

 

– J. M. – Não seria talvez uma forma de ocultar ou tentar justificar os actos cometidos nesses acontecimentos ? ·

– B. C. – Penso que o que ele queria era ter qualquer justificação. Qualquer coisa para poder defender-se; justificar, talvez, ao Governo Central, de que tinha havido qualquer coisa que lhe desse razão para proceder assim.

– J. M. – Qual é a opinião que tem acerca desse Governador? Há quem diga que ele fez muitas obras. Para além de todos esses actos que permitiu, que fez realmente vastas obras em S. Tomé.’ Qual o pensamento com que ficou acerca dele?

 

– B.C.  – Inicialmente começou por trazer obras à terra; tento mais que até  chegou a ser conduzido a nosso pedido. Chegámos  até a oferecer-lhe uma espada. Mas de um momento para outro virou-se totalmente. Porque é que mudou ? Não sei. O certo é que também estava muito mal orientado. Tinha maus colaboradores.

– J.M. –  Acha, portanto, que essa tal mudança de atitude se deveu a uma actuação  dos seus colaboradores?..Elementos da cúpula governativa ?

– 8. C. – Não. Foi mais dele. Se fosse bom· isso nunca teria acontecido. Se fosse individuo sensato, e que também  se interessasse pela vida dos outros, que eram tão humanos como ele, não’ se davam essas coisas; nada disso teria acontecido.

– J.M. – Esses acontecimentos tiveram inicio a 3 de Fevereiro de 1953. Prolongaram-se a t é quando? 

 

– B. C. – Sim. Tiveram início nessa altura. Depois fui preso, mais ou menos no dia 7 de Fevereiro. Fui solto 45 dias depois. ‘Mas antes de ser solto, chegou, o inspector   Falcão da ex-PIDE. ‘Esse senhor é que fez com que a situação se suavizasse bastante. E mais tarde com· a vinda do Dr. Palma Carlos.

– J.M. -Acha então ser verdade que um dos trabalhos mais válidos que a ex-PIDE fez em S. Tomé, foi precisamente esse?

– B.C.  Pois, se não tosse-a sensatez no lnspector Falcão, isso seria um caso muito sério. Se tivesse cá vindo outra pessoa a investigar o assunto, nós estaríamos muito mel. Correria tudo à vontade do Sr. Governador e a coisa piorava. 

 

– J.M. –  Quantas pessoas calcula terem morrido, nessa altura? · · ·

– B.C- Ao certo não sei .Mas umas centenas de pessoas morreram <,

– J.M . Em que condições essas pessoas pereceram?

– B. C. – Uns asfixiados, outros com pauladas em Fernão Dias. No mato, a tiro de espingardas. Enfim houve pessoas mortas e torturadas nas mais bárbaras condições.

– J.M. – Além desses mortos que provocaram, que outros danos mais  terão causado  à população? 

 

– 8. C. – Muitas casas incendiadas. Muitas pessoas roubadas e saqueadas. Muitas mulheres violentadas. Muitas crianças desonradas. Enfim, desumanidades.

– J.M. – Um natural, na altura, era todo olhado da mesma maneira, ou havia, digamos, certo sector que era respeitado?

 

– B. C. – Chegou-se a uma altura que não se respeitava ninguém: só se respeitavam os criminosos: 0 José Mulato, o Chico … e os capatazes das brigadas e mais ada. Com os naturais não havia um tratamento de gente. Faziam-lhe pior que a um bicho.

– J.M. – Como é que interpreta o comportamento desses indivíduos, de resto   também naturais de S. Tomé? Eram simples peças da máquina ? · Ou actuavam conscienciosamente ?

– B. C. – Bom, naquela altura, só cumpriam as ordens e mais nada:

– J.M.-Mas eles não terão também culpas? 

 

 – B. C. – Nenhumas. Não houve culpes nenhumas por parte desses indivíduos.

– J.M. – E os que colaboravam mais activamente?

– B. C. – A alguns, pelo menos, não se pode atribuir-lhes propriamente culpas … mas também foram maus. Deviam ter sido  mais benevolentes.

– J.M. – Antes de 3 de Fevereiro de 1953, o povo já era  mal tratado? Ou só foi a partir dessa data 7

– B. C. – Era. Então havia só rusgas, sem necessidade nenhuma. E muitas prisões. Quer dizer, queriam mão-de-obra gratuita.

– J.M. – Quanto pagavam em 1953 ao trabalhador?

– B. C. – Não me lembro ao certo. Talvez cinco ou dez escudos. Na altura era funcionário do ·Tribunal e não ‘estava a par disso.

– J.M. -Actualmente está a colaborar no processo de inquérito. Em que consiste o seu trabalho?

– B. C. – Ouvir as pessoas lesadas, que ficaram  sem as suas casas, para se saber depois o que se vai fazer. – Ao certo não sei.

– J.M. – Há muitos processos?

-B. C. – Talvez muito mais do que uma centena.

– J.A. –  Acha que isso foi uma coisa que marcou o povo de Tomé ? .

– B . C. – Bastante. Foi uma tortura! Uma  coisa inútil!

– J.M. –  Diz-se que, de uma maneira geral, todos os brancos que havia na altura em S. ‘Tomé foram forçados a tomar parte nos acontecimentos de 1953. Foram realmente todos ou houve alguns que não quiserem ? 

 

– B.C. – Houve alguns que não colaboraram. Lembro-me de um Carlos Soares, da Roça Montalegre. Esse, então, padeceu bastante .’Esse branco da Roça Santy também esteve preso.

– J.M. – Portento, os brancos que não colaboravam eram mal vistos ?

– B. C. – Sim: Houve alguns que foram perseguidos e mal vistos.

 

– J-M  Houve brancos que compreenderem o problema e recusaram-se a colaborar nesses acontecimentos?

– B. C. – ·Sim, realmente, houve muitos que não tomaram parte. · · · ·

– J.M. – Houve naturais que tiveram de fugir de S. Tome, ou conseguiram escapar? .

B.C – Aqui não tinham possibilidades de sair. Como sabe, S. Tomé é uma Ilha.

Por : Jorge Trabulo Marques / blog – odisseiasnosmares.com

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4 comentários

  1. josé

    3 de Fevereiro de 2015 as 19:57

    Pelo que observei realmente foi uma cruelidade enfim sem palavras : foi uma vergonha para o povo Portugues e para o pais assim como cá o antigo regime matou muito inocentes e mandavam muitos filhos que custaram os pais a criar para uma guerra injusta na Guiné, em Angola e em Moçambique como cães raivosos muitos regressaram com traumas e com grandes dificiencias outros por la ficaram enterrados e outros vieram encaixotados realmente foi uma vergonha como portugues que sou sinto-me envergonhado pelo que fez o governo doa antigo regime isto só plantou odios e rancores são feridas que as secatrizes nunca desaparecem mas ja esta feito infelizmente agora vamos todos ter a consiencia de que tudo mudou e que quem mandou ja não cá esta e as mentalidades mudaram somos todos irmãoe vamos dar as mãos em união um abraço a todos.

  2. Jorge Trabulo Marques

    4 de Fevereiro de 2015 as 17:51

    Quero agradecer a gentileza que tiveram pela transcrição dos relatos. Pena as várias gralhas: que ficaram a dever-se ao processo de reconhecimento dos caracteres, da cópia digitalizada, nem sempre ser fidedigno. Todavia, no meu site já fiz, as correções, se bem que constate, ao relê-lo aqui, ainda tenha que lá voltar – Um abraço amigo e solidário.

  3. Fausto Aguiar

    4 de Fevereiro de 2015 as 23:46

    Gostei bastante. E bom que demos o valor tudo que faz parte da nossa cultura. Qualquer povo mundo e identificado pela sua cultura. Senhores politicos que setem e analizem bem pelo mal que estao fazendo ao povo da terra. Fico muito decepcionado com actuacao do senhor president da republica de Sao Tome e Principe Manuel Pinto da Costa, perante uma data historica marcante de um povo que ele representa como a figura principal do pais.

    Nao deixem morrer dos melhores que temos e que ainda restam. Chegou a hora de unirmos e trabalharmos para o bem estar do pais, pensando na geracao futura.

    Nao queremos oportunistas mais no pais que pensam so nos interesses pessoais, esquecendo das pessoas que lhes poseram para trabalhar e procurar melhorar as condicoes de vida da populacao.

    De oportunidades a jovens e pessoas com vontade de desenvolver o pais. Com projectos concretos e viaveis.

    So assim poderemos orgulhar do nosso pais.

    Meu abraco para todos coterranos.

    Viva Sao Tome e Principe e a democracia…

    Fausto Aguiar

    00447831829474 -London

  4. Zmaria Cardoso

    6 de Fevereiro de 2015 as 6:01

    Entretidos com o calulu que virou guizado pelo facto de confiar a uma plêgida mufuku, uma aventureira qualquer até prova em contrario, a tao almejada panela de festa, arrisca-se a dizer que estes subsìdios a nossa “identrindade” massacraada em 1953 passam ao lado do jovem director e de comentaristas com a sorte de ainda termos sobreviventes vivos de narrar os factos sofridos.
    Vindo de um jornalista estrangeiro, investigador e amigo da terra quiça, o governo nao tenha matéria para se desculpar aos sao-tomenses?
    Estao aqui depoimentos – mmerecedores de agradecimentos dos sao-tomenses – para o director da cultura correr atras e escrever mais paginas para o nosso museu.
    Ao jornalista Jorge Trabulo Marques, expresso aqui os meus reconhecidos agradecimentos.
    Bem-haja!

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