Quem são os islamitas nigerianos do Boko Haram?

Farouk Chothia/ BBC Africa

Tradução de São de Deus Lima

O grupo militante islamita nigeriano Boko Haram, que tem causado devastação no mais populoso país africano através de uma série de atentados bombistas, assassinatos e raptos, está a combater para derrubar o governo e criar um Estado islâmico.

Os seus seguidores são referidos como sendo influenciados pela frase corânica que diz: ‘’ Qualquer um que não seja governado pelos preceitos revelados por Alá encontra-se entre os transgressores’’.

O Boko Haram promove uma versão do Islão que torna proibido (‘haram’), para os muçulmanos, participar em qualquer actividade política ou social associada à sociedade ocidental. Esta proibição inclui votar em eleições, envergar camisas e calças ou receber uma educação secular.

Parra o Boko Haram, o Estado nigeriano é governado por infiéis, mesmo quando tem um presidente muçulmano e o grupo ampliou a sua campanha militar para alvejar Estados vizinhos. Fundado em 2002, o grupo desencadeou a insurgência em 2009, tendo atacado várias escolas no norte da Nigéria e atingido tanto alvos civis como militares. Em 2013 foi classificado como grupo terrorista pelos Estados Unidos da América e, no ano seguinte, designou como califados as áreas sob seu controlo.

O seu líder – fundador, Mohammed Yusuf, foi morto em 2009, quando se encontrava sob custódia da polícia.

O nome oficial é Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad, significando, em língua árabe, ‘’Pessoas comprometidas com a propagação dos ensinamentos do profeta e a Jihad.’’

Contudo, os residentes da cidade nordestina de Maiduguri, onde o grupo tem instalado o seu quartel-general, baptizou-o como Boko Haram. Em Hausa, a língua da região, Boko Haram significa ‘ Educação ocidental é proibida.’

Contra a administração britânica

Desde que o califado de Sokoto – que governou partes do que é agora o norte da Nigéria, o Níger e os Camarões – ficou sob controlo britânico em 1903, tem havido resistência, em áreas muçulmanas, à educação ocidental. Os resistentes recusam-se a enviar os seus filhos às governamentais ‘escolas ocidentais’. Contra este pano de fundo, o carismático clérigo muçulmano, Mohammed Yusuf, formou o Boko Haram em Maiduguri, em 2002, montando um complexo religioso que incluiu uma mesquita e uma escola islâmica.

Muitas famílias pobres muçulmanas da Nigéria e dos países vizinhos matricularam os seus filhos nessa escola. Mas o Boko Haram não estava apenas interessado na educação. O seu objectivo político era criar um Estado islâmico. Em 2009, o grupo lançou uma sucessão de ataques a esquadras da polícia e outros edifícios governamentais em Maiduguri, provocando a ocorrência de tiroteios nas ruas da cidade. Centenas de apoiantes do Boko Haram foram mortos e milhares de residentes fugiram da cidade.

 

Escarificações

As forças de segurança da Nigéria acabaram por capturar o quartel-general do grupo. Vários combatentes e o líder, Mohammed Yusuf, foram mortos. O corpo de Yusuf foi mostrado na televisão estatal e as forças de segurança federais declararam que o Boko Haram estava erradicado. Porém, os combatentes reagruparam-se sob o comando de um novo líder, Abubakar Shekau, e intensificaram a insurgência.

Shekau é citado como tendo dito que ‘’O nome Nigéria nada nos diz. Não acreditamos nesse nome.’’’

Em 2013, os Estados Unidos da América classificaram o Boko Haram como organização terrorista, entre receios de que tivesse estabelecido ligações a outros grupos radicais como a Al-Qaeda no Magrebe Islâmico, para lançar uma jhad global. A imagem de marca inicial do Boko Haram eram combatentes armados em motorizadas, matando polícias, políticos e qualquer crítico, incluindo clérigos de outras tradições muçulmanas e padres cristãos. O grupo realizou, igualmente, ataques mais audaciosos no norte e centro da Nigéria, incluindo o bombardeamento de igrejas, estações de autocarros, bares, quartéis militares e até os quartéis-generais da Polícia e do exército na capital federal, Abuja.

Entre crescentes preocupações face à escalada da violência, o Presidente Goodluck Jonathan declarou o estado de emergência em Maio de 2013 em Borno, Yobe e Adamawa, os três estados do norte onde o Boko Haram é mais forte. Milhares de reforços foram enviados para Maiduguri, mas os ataques continuam.

Recrutamento

 

O Boko Haram recruta fundamentalmente os seus combatentes no seio do grupo étnico Kanuri, maioritário nos três estados. Muitos kanuris têm o rosto marcado por escarificações que, associadas ao sotaque Hausa, os identificam facilmente, perante outros nigerianos, como nordestinos.

O envio de tropas forçou muitos dos combatentes do Boko Haram a abandonar Maiduguri, a sua principal base urbana, e a recuar para a vasta floresta do Sambisa, que se estende ao longo da fronteira com os Camarões.

A partir daí, grupos de combatentes têm lançado ataques massivos contra aldeias e cidades na Nigéria, pilhando, matando e incendiando propriedades.

E mudaram de táctica, permanecendo muitas vezes nos territórios atacados ao invés de se retirarem logo a seguir a um ataque. Simultaneamente, prosseguiram com as campanhas de bombardeamento nas zonas urbanas e iniciaram incursões pelo território camaronês.

Em Agosto de 2014, o líder do Boko Haram declarou califado as áreas sob controlo do grupo e elogiou o iraquiano Abu Bakr al-Baghdadi, o auto-proclamado califa (chefe) mundial dos muçulmanos.

‘’Somos um califado islâmico’’, disse Mr Shekau, ladeado por combatentes mascarados e empunhando uma arma.

O Boko Haram incrementou também as suas acções contra a educação ocidental que, segundo o grupo, corrompe os valores morais dos muçulmanos. As raparigas passaram a ser um alvo especial desses ataques.

Pobreza crónica

Em Abril de 2014, o rapto de mais de 200 alunas de uma escola na cidade de Chibok, no estado de Borno, provocou ultraje e condenação internacionais. Os raptores disseram que iriam tratar as raparigas como escravas e força-las a casarem-se – referência a uma antiga tradição islâmica, segundo a qual mulheres capturadas em conflito são parte do espólio de guerra.

Ameaça idêntica havia sido proferida em Maio de 2013, quando o Boko Haram divulgou um vídeo, dizendo que tinha feito reféns mulheres e raparigas, incluindo adolescentes, em resposta à prisão de esposas e filhas dos seus combatentes.

Houve posteriormente uma troca de prisioneiros, com os dois lados a libertarem mulheres e crianças. Analistas no Norte da Nigéria dizem que a região possui um histórico de emergência de grupos islâmicos radicais, mas o Boko Haram sobreviveu a todos e provou ser muito mais letal, com uma agenda jihadista global.

O grupo tem uma força de combate composta por milhares de homens e células especializadas em bombardeamentos. Por via dos seus ataques a bases militares e a bancos, acumulou vasta quantidade de armas e de dinheiro.

Segundo analistas, a ameaça representada pelo Boko Haram apenas irá desaparecer se o governo nigeriano conseguir reduzir a crónica pobreza da região e construir um sistema de educação capaz de conquistar o apoio dos muçulmanos locais.

 

 

 

 

 

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    Ma Fala Responder

    Comeco do fim! Saturacao,resseca ao egocentrismo Europeu de serem o Alpha e Omega de tudo quanto e “Humanizado” enventores e conhecedores de tudo que apriori e benefico para Humanidade numa prespectiva de disimar a Historia de outras civilizacoes,sera o medo da fraca pigimentacao que os mesmos sofrem? Infelizmente os Haram tem estado a lutar contra a lavahem celebral e formatacao mental no lugar errado e com pessoas inocentes, pois matar os comtemporaneos para protestar por esta causa e uma covardia que tem que ser combatida.
    God Bless Nigeria.

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    Duda Responder

    Gente perigosíssima e sinistra. É preciso encontrar uma estratégia global para a combater porque pretendem transformar a região num inferno. Já bastam os problemas que a incompetência dos governos cria ou não resolve.
    Cuidado com eles porque estamos muito perto da Nigéria. E mais não digo.

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    Liz Responder

    Os islamitas nigerianos do Boko Haram são uns criminosos que têm de ser travados. Senão, a região estará muito mal. Fui.

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