ENTREVISTA COM ANTÓNIO DIAS, COORDENADOR DA FILEIRA CACAU BIOLÓGICO

Publicado em 18 Nov 2009
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quebra.jpgProdução do cacau biológico renova a esperança dos agricultores num futuro melhor. António Dias, coordenador da fileira cacau biológico, explicou ao Téla Nón, os segredos do sucesso. 

Téla Nón (TN) – Após 8 anos sobre a introdução da cultura do cacau biológico, qual é a avaliação que faz desta cultura?

António Dias (AD) – Hoje estamos orgulhosos porque o cacau biológico de São Tomé e Príncipe é um dos melhores do  mundo. É a confirmação que recebemos a nível internacional. O próprio comprador também diz que é um cacau de renome.

TN – É uma produção que respeita critérios rígidos de alta qualidade.

AD – Temos a nível nacional uma equipa de inspecção, que faz o seguimento da produção, e prepara todo o dossier. E depois temos uma equipa internacional da ECOCER que faz a certificação a nível europeu que regularmente vem a São Tomé para visitar as parcelas, analisar tudo para depois emitir o certificado de qualidade. Desde 2005 que o certificado nacional continua válido apesar da inspecção anual.

TN – Esse cacau tem mercado garantido.

AD – Sim. Desde o arranque deste programa em 2001 que contamos com a assistência técnica de uma sociedade francesa denominada KAOKA, que é especialista no âmbito da produção do cacau biológico. É alguém que tem experiência nesta produção noutras paragens do mundo como Equador, Vanuatu, etc. Ele trabalhou connosco, e hoje podemos dizer que temos algo que é sustentável e inédito a nível do país. É a mesma empresa francesa a KAOKA que nos ajudou a introduzir esta cultura que compra toda a produção. A empresa em causa fabrica chocolate biológico em França.

TN – Quantas comunidades agrícolas estão envolvidas neste projecto?

AD – São no total 40 comunidades agrícolas, distribuídas por 29 associações. Isso envolve 1500 famílias.

TN – O preço de venda é satisfatório?

AD – Sim. Não tem nada a ver com o cacau convencional. Os agricultores que não produzem cacau biológico têm um rendimento por quilo de 6 mil dobras. Mas os que produzem cacau biológico recebem por volta de 34 mil dobras.

TN – Este sucesso tem muito a ver com o trabalho em cooperativa, ou não?

AD – É uma grande vantagem. Porque é a própria cooperativa dos agricultores que compra os insumos, como o sulfato, e distribui para os agricultores. As cooperativas têm uma equipa sócio técnica composta por agricultores líderes das comunidades que têm a missão de prestar assistência social, sobretudo a nível da saúde. Quando um agricultor está doente é a cooperativa que lhe assiste a nível de medicamentos. Quando um agricultor ou a sua família morre é a cooperativa que assegura todas as despesas.

TN – Isto quer dizer que o valor do cacau vendido, uma parte vai para o rendimento do agricultor e a outra parte vai alimentar as acções de apoio social.

AD – Não só questões sociais, mas também questões de investimento. Por exemplo este ano a cooperativa comprou um tractor de 800 milhões de dobras, estamos a falar de cerca de 40 mil euros. Mais ainda, a própria cooperativa comprou um gerador de 22 cavalos para o secador térmico. A própria cooperativa através do fundo das associações adquiriu por volta de 700 quites de materiais nomeadamente machim, bota, lima etc. Neste momento já reembolsaram mais de 95% do valor gasto e os outros 700 agricultores deverão beneficiar brevemente destes quites.  Nós vamos revolucionar o mundo rural.

TN - Qual é a produção actual do cacau biológico?

AD – Este ano tivemos uma estimativa de 400 toneladas e pelos vistos vamos ultrapassar. Temos uma estimativa trienal. 2009 com 400 toneladas, 2010 com 475, e 2011 perspectivamos 525 toneladas. Mas pelos sinais que temos acredito que este ano deveremos produzir cerca de 425 toneladas.

TN – Sente que os agricultores estão motivados?

AD- Para lhe dizer que quando começamos em 2001, o cepticismo tomou conta das comunidades produtoras do cacau biológico. Porque as pessoas diziam que as coisas dos agricultores em São Tomé e Príncipe não avançam. Nada em colectividade funciona. Mas hoje demonstramos o contrário. E muitos que lideravam o cepticismo vêm nos dizer que afinal o projecto é bom. E o que assistimos é que todas as comunidades agrícolas de São Tomé e Príncipe, estão interessadas em enfileirar na produção do cacau biológico.

TN – Então a fileira do cacau biológico e a cooperativa de exportação do produto, a CECAB, estão satisfeitos com o nivel  de produção.

AD – Não. Ainda há muito a fazer sobretudo no que concerne ao aumento da produção e da produtividade. Por isso estamos a implementar novas técnicas de enxertia das plantas, com vista a nos próximos 4 anos duplicarmos a produção e consequentemente quadruplicar o rendimento do produtor de cacau.

TN – O que é esta técnica de enxertia de cacaueiros?

AD – Ao nível nacional na produção do cacau biológico, verifica-se que os agricultores estão motivados, porque têm melhor rendimento e consequentemente as suas terras são bem trabalhadas, mas mesmo assim podemos dizer que a nível nacional a produção é baixa. Já fizemos um diagnóstico da situação e a nível do cacau biológico, temos 1/3 de pessoas que ainda não são agricultores profissionais, mas estamos a trabalhar com eles no sentido de melhorarem, porque actualmente só vão colher, não trabalham a terra. Temos 2/3 destas 1500 famílias, que trabalham correctamente. O segundo factor de fraca produção, tem a ver com a densidade cacausal. Num hectare deve existir 900 a 1100 cacaueiros. Mas assistimos parcelas com 400 cacaueiros em um hectare de terra. Há até agricultor com 250 cacaueiro. Logo queremos trabalhar no aumento da densidade cacausal. O terceiro factor tem a ver com a idade dos cacaueiros. Um cacaueiro começa a produzir no terceiro ano após o plantio. Aos 15 anos atingem o pico de produção e depois a produção começa a reduzir.

TN – Qual a solução?

AD – A solução é a enxertia. Através desta técnica já começamos a ter agricultores com boa produção. Já identificamos 4 viveiros clonais, vamos formar alguns agricultores na produção de plantas enxertadas. É um trabalho científico. Temos já 1000 plantas enxertadas, que vão produzir material vegetal, ou seja, a gema de plantas que produzem bastante. E assim estamos convencidos que dentro de 5 anos vamos duplicar a produção, que é como quem diz atingir 800 ou 1000 toneladas de cacau por ano.

FIM ….