Opinião

JOÃO SERIA – O General de todos os tempos

A trajectória por que fazemos na nossa ilustre triagem nas mais pomposas universidades do Mundo, atribui-nos a capacidade de intervir, apostar na retórica do tempo sem o espírito empreendedor, desfraldarmos de preconceitos mais patéticos da própria sociedade em que nos estamos inseridos e chamamos a nós o senhor do saber sem sequer questionarmos até aonde somos capazes de deixar a marca pessoal no bem servir a mesma comunidade a que pertencemos e que nos passou a factura da intelectualidade.

Raras são as vezes em que não somos confrontados pela máquina oportunista de fala e escrita a menoscabar a clarividência do nosso ego em pôr cada coisa no seu lugar ou chamar o lugar a cada coisa no nosso inconformismo para com os licenciados, mestrados ou doutorados. Deixamo-nos ser ultrapassados por um professor universitário de cara pública portuguesa que dizia no primeiro dia de universidade dos seus alunos a licenciatura de que, a partir desse dia eram todos colegas dele. Somos todos doutores. Lá esta a mania de fato e gravata à portuguesa.

Na passada sexta-feira, dia 1 de Abril, dia das mais toleráveis mentiras, daí que o Cristiano Ronaldo mudou a sua nacionalidade para Espanhola ao fim de apoiar o Governo Português com a dinheiro arrecadado dessa operação a fazer face a dívida soberana de Portugal ou a Graça Machel ter sido nomeada a Reitora da mais prestigiada Universidade de Moçambique. Outras mais houve. O que não foi mentira não é a Sala Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa ter servido na noite de mentiras, a voz da lusofonia com uma ausência, a de Timor Leste.

Muxima de Angola a obedecer a ordem alfabética dos países e interpretada pelo conceituado Tito Paris com o coro de lindas vozes femininas da banda dirigida pelo famoso Juka Delgado deu-nos a abertura dos quinze anos da RDP-África que trouxe para os nossos álbuns os amigos da nossa convivência, do nosso amanhecer ao anoitecer de todos os dias de que cometeríamos uma imperdoável injustiça trazer um só nome a nossa montra, senão os nomes de todos eles merecedores do nosso inabalável afecto, ao bem da verdade, sem caneta e sem papel, inconscientemente estávamos metidos na gafe de errar nas figuras da noite, dos jornalistas aos músicos e bailarinos.

Cabo Verde no seu esplendor Atlântico da morna ao funaná daquele mar di sôdade a viajar nos corações dos que partiram e com o regresso na companhia para ajudarem a erguer as ilhas «di nós pobreza, é nós riqueza», trepidou a noite «di sôdade di San Nicolau até àquela terra longe di São Tomé».

«A mulher di pano preto bo tá tchora» da Guiné-Bissau cantada por outras vozes da língua universal da cultura e no caso específico da música, deu-nos a provar a mankara nas nossas andanças pelas tabancas de Bissau às ilhas de Bijagós escondida noutras vozes que não a de Tabanka Jazz.

«Elisa wê amarra saia, Elisa wá marabenta» a cadenciar o Indico das acácias numa viagem que de manhã cedo, de noite para alguns e de tarde para os outros nos hemisférios das nossas latitudes desafiou as vozes daqueles que chamaram a si a responsabilidade de nos nossos próprios olhos pregar-nos a partida da RDP-África para que nem tudo fosse mentira no dia das mentiras.

A noite era de festa, porque não ouvir as vozes africanas a cantar o fado como a de Luís Represas, merecida e apelativamente viu de pé a lusofonia dançar as canções africanas que ousou na sua voz tricotar e tirar um pé de dança? Outras vozes portuguesas cantaram a África até Brasil e vice-versa e também do Brasil até Lisboa e África ouvimos cantar a lusofonia. A nossa «Lisboa, menina e moça» a deixar o Tejo fazer dela os mais deslumbrantes postais invadida por pretos que lhe trazem a nova vida, o calor tropical com que ela não envelhece nunca mais a Tuga, embalou-nos todos, negros e brancos, de que as vozes se misturam e a lusofonia ergue longe.

«Leve leve, não é entrar na repartição a hora que Deus quer» ouvida pela sonoridade que não é do nosso luchan, apressou a noite a fechar com a «Aninha muê» (A minha Aninha). As minúsculas ilhas confundidas nas makas de mulheres pequenas que insistem em ouvir-lhes a voz falada, perdidas num Atlântico e adormecidas pelo tempo dos homens, «Aninha muê» cantada por um outro lusófono, Guto Pires, nos terá dado a universalidade da música que não tem nacionalidade? Quantas vezes o Gapa, o Filipe Santos, o Juka e o Tonecas, teriam dado gargalhadas na moldagem das palavras melódicas da «Aninha muê?»

Em tempos e numa mesa de santolas a matar a nossa barriga do meio-dia e as saudades da terra, o saudoso e embaixador da nossa voz cantada, Camilo Domingos, que Deus o tenha no mais eterno descanso, testemunhava-nos do seguinte:

«Recentemente numa das minhas digressões de lançamento do meu disco em Boston, EUA, na discoteca passaram a “Aninha muê” a mesma sem tirar nem pôr, de João Seria da África Negra. Não foi fácil eu convencer a lusofonia americana e tantos mais a dançar e aos gritos do bis de que a música não era angolana. “Aninha muê” é da minha terra, São Tomé e Príncipe.»

Na semana que fechou com a sexta-feira de mentiras, a língua portuguesa chamou a si a responsabilidade de trazer até Portugal um dos mais carismáticos e pensador da actualidade, o homem que mudou o Brasil, o operário de 4ª classe, para lhe atribuir o prémio de Doutor Honoris Causa. A lusofonia quer mais. Propõe o nome de Lula da Silva ao mais alto e universal galardão.

João Seria, muito mais discreto nos outros agrupamentos musicais em que fez a sua escola musical até subir a tribuna de África Negra, é para nós os são-tomenses, o embaixador dos embaixadores da nossa voz musical, o artista do palco na dimensão maior da palavra. A nossa memória ainda conserva a multidão em manifestação eufórica que correu os labirintos da nossa capital no início dos anos 90 com a grande festa de recepção ao João Seria comparável mesmo somente a chegada de Onet e do Governo de Transição em 1974 e o regresso de Miguel Trovoada em 1990.

A música é a cultura, a cultura é o bilhete de identidade de um povo. João Seria deu-nos a conhecer nos anos 70 e daí em frente, no momento mais fervoroso, esperançoso e discutível da nossa História de país independente de que não se deve medir os homens ao palmo. A nossa universidade em São Tomé não menospreza nem ensombra qualquer pensamento intelectual quando institucionalizar os mais enciclopédicos testemunhos daqueles que serviram e servem a Nação, antes mesmo dos políticos, vir a chamar o João Seria, o nosso General de todos os tempos para receber o merecido galardão nacional.

«Aninha muê» de João Seria, é a voz dos são-tomenses, é com ela que a RDP-África, (impôs-me um dos protagonistas dos meus ensaios a rejeitar a sua insígnia real e a chamar-lhe Rádio de Pensamento Africano) fechou com a chave de ouro a noite dos quinze anos de notícias, de cultura, de literatura e de tudo mais que nos transporta até lá onde sepulta a nossa placenta e trazer-nos ao mais recôndito lugar as saudades da nossa Aninha para dizermos parabéns a RDP-África.

A noite foi curta aos nossos olhos ávidos de energia a queimar até a madrugada, mas a memória está gravada e é longe a tertúlia que nos viaja a alma as canções de lusofonia que ficaram mais bonitas ouvindo o fado no batuque africano, a semba na voz do fado ou ainda a brasileira samba na África ou ainda se quisermos «já tive mulheres de todas as idades, de todos os tipos, mas nenhuma dela me fez tão feliz» como São Tomé e Príncipe.

«Aninha muê, ante kê d’já ê? Gina bô fadamu bô iska bá tela …» (Minha Aninha, até quando? Desde o dia da comunicação da tua viagem…) João Seria, África Negra.

02.04.11

José Maria Cardoso

    19 comentários

19 comentários

  1. benavides pires sousa

    4 de Abril de 2011 as 8:47

    Belíssimo o texto! Fiquei emocionado a ponto de buscar no youtube a música Aninha mué para acompanhar a leitura do texto. Mas cómico é que quase sempre e por meio do mesmo site, escuto dita cancao, mas hoje soube-me ainda melhor escutá-la!

    Parabens, José Maria Cardoso!

  2. Celsio Junqueira

    4 de Abril de 2011 as 9:11

    Meus Caros,

    Cada povo, país e/ou nação tem o seu cantor imortal, nós temos o General.

    Devemos estima-lo e agradecer sempre que possivel o quanto nos fez feliz e alegres.

    É o nosso patrimonio cultural e musical “vivo”.

    Um Grande Abraço e um obrigado ao autor do artigo,

  3. Vigario

    4 de Abril de 2011 as 10:10

    Que linda matéria, simplifiques fenomenal, parabéns, Sao Lembrancas como essas musicas que ainda me fazem amar esse meu pequenino STP. Que DEUS nos proteja

  4. Voz do povo

    4 de Abril de 2011 as 10:45

    Parabens Joao Seria és e sempre Sera a representatividade do nosso STP

  5. Filipe Samba

    4 de Abril de 2011 as 12:28

    Recordar é viver
    A cultura é o espelho da nação

  6. iadalziza viegas

    4 de Abril de 2011 as 14:48

    que bom; mas deverian fazer um livro ou um ducomental como se merece.Uma voz imortal , uma trajectoria expetacular. Viva a mulher que o deu a luz.Estaras sempre na mimoria da nossa ilha.( STP)

  7. edy

    4 de Abril de 2011 as 15:28

    Hummm,na realidade nao sei o que dizer, mas acho que ha forma de torna o texto menos confuso,ao nao ser se conheces bem o grau academico de todos os leitores do Tela Non.(corta as palhas e deixa os conteudos mais importante).

  8. JESS FLANDER

    4 de Abril de 2011 as 16:00

    este é sem duvida o melhor de todos os tempos.

  9. JESS FLANDER

    4 de Abril de 2011 as 16:01

    este é sem duvida o melhor de todos os tempos
    o general e o africa negra são bi de stp na diaspora

  10. Peneta

    4 de Abril de 2011 as 19:01

    Joao Seria e o Africa Negra sao sem sombras de duvida a expansao musical Santomense dos anos 80.
    Estudei na Africa do Sul e ouvi a musica do Africa Negra “Alice” na Radio SAfm e nos “bodas angolanos” maya mue”

  11. Virtual

    4 de Abril de 2011 as 20:33

    O texto aborda um assunto realmente importante, quem não se lembra da música “Tira mão da minha xuxa”? Esta música também foi indicada ser originária de Guiné-Bissau pelo facto de Tabanka Djazz ter remixado o original da nossa música! E muitos até hoje se convencem que é música guineense.

  12. Olhos Vivos

    4 de Abril de 2011 as 22:05

    Olhos Vivos – 04.Abril.2011 – Concordo perfeitamente.O músico João Seria é um espoente máximo da nossa música e representa o Património Cultural de S. Tomé e principe. Pela sua dimensão humana, o País ganhou muiito com isso, em termos de projecção e muito honestamente penso que deve-lhe homenagens, enquanto artista, musico e porque não, o poeta maior e merecia uma categoria de embaixador do ritimo escaldante que vem aqui bem perto da linha do Equador e da Àfrica central,não esquecendo do Aider India, o Pepê lima, o grande Gapa, o Camilo Domingos, o juka, o Mé Pombo,o Mina Malé da Puita de S. Marçal, entre outros, só para não sitar uma longa lista. Pela parte que me toca e toca a todos ele merece todo o nosso aplauso,carinho e reconhecimento.É no mínimo aquilo que podemos fazer por ele e, é uma pena que o Estado Sanntomense,sobretudo a nossa Direcção de Cultura não ter sensibilidade para lidar este assunto,dedicando especial atenção a personalidades e celebridades deste calíbre que de maneira sábia elevou o nome do País aos quatro cantos do Mundo. Viva o General.Os meus parabens ao actor do texto.Viva Africa Negra e STP agradece todos os seus filhos que de alguma forma comtribuem para engradecer a nação! Olhos Vivos.

  13. Cabo Verdeano

    4 de Abril de 2011 as 23:50

    João Seria, para mim, é o Príncipe de São Tomé.Desde a minha infância, na Praia, nunca deixei de ter uma cassete, e depois um Cd dos Africa Negra e do João Seria. E por esse mundo fora que tenho andado trago sempre essa música comigo.João Seria não é apenas General de S.Tomé, mas de toda a África. Cabo Verde também. Bem haja!

  14. Osvaldo Monteiro

    5 de Abril de 2011 as 9:00

    Falar de uma figura como essa emociona, engrandece a alma viva e não só, daqueles que como eu tiveram o prazer de nascer, crescer e quiçá morrer escutando a voz de ouro do General João Seria. É com muita alegria que o temos cá em Angola nesse momento por uma jornada de espectáculos por essas terras angolanas. OCM

  15. ADELINO DOS SANTOS

    5 de Abril de 2011 as 10:56

    Isso que disseste da musica tira mão da minha xuxa muitos penção que é da Guine Bissau mas estão muito enganados porque esta musica nasceu no Distrito de Mé-Zochí na Roça Quinta das Palmeira o nome do grupo não vem agora a memoria.Parabens José Maria Cardoso

  16. Pumbu

    5 de Abril de 2011 as 14:34

    Viva Jose Maria Cardoso!

    Precisamos de mais Artigos como este para sublinhar que temos coisas muito boas, podemos fazer muito mais coisas importantes e com perfeicao. Acho que artigos dessa naturesa devem fazer-nos sentir mais orgulhosos pela nossa patria, servem para encorajar os mais jovens rumo ao sucesso. Adorei!
    Obrigado senhor Jose Maria

  17. Carlos Ceita

    5 de Abril de 2011 as 16:00

    Parabéns pelo artigo.
    Quanto ao general João Seria
    Não há palavras para qualificar um poço de talento sem limites como é nosso compatriota musico João Seria. Se João Seria fosse americano seria James Broun ou Michel Jackson.
    Só encontro duas figuras do mundo da musica em Africa ao mesmo nível que ainda me dão entusiasmo em ouvir musica o Samanguana e o saudoso Franco Luambo da orquestra Ok Jazz.
    Abraços

  18. José Tavares

    5 de Abril de 2011 as 18:05

    Atenção todos os santomenses que residem em Luanda, África Negra e o General João seria, irão representar STP no festival que se realizará na cidadela desportiva, no dia 22 de Abril.

  19. blaga pena

    6 de Abril de 2011 as 15:46

    Concordo com os comentários proferidos sobre João Seria. Para mim, ele é um dos melhores, senão, o maior músico são-tomense de todos os tempos, quer pela presença no palco como pela melodia potência vocálica da sua voz. A sua música é, ao meu ver, intemporal, para a delicia de todas as gerações.
    Que a justiça seja feita em ralção ao nosso General! Onde andam os nossos dirigentes, será que têm memória curta, porque não se interessam com os nossos heróis? Como João Seria, há mais figuras em São Tomé e Príncipe que já nos fizeram muito felizes. É tempo de dizer basta a todos aqueles incompetentes que, por anos a fios vêm dirigindo o país, se esqueceram da cultura e da educação.

    Um bem haja

    Blaga Pena

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