Opinião

A Controvérsia Presidencial e a República

Ao manter-nos o rumo com que nos fotografam aos olhos do mundo, nem cego algum imagina coisa diferente que o efeito de contágio na corrida eleitoral de 17 de Julho ter o inevitável estereótipo lá acima do outro lado do Atlântico.

Se a nossa ambição tivesse a pujança tal ao ponto da nossa imaginação entrar em competição com as oportunidades que a Natureza se nos oferece a medida que os anos se vão passando, o limite do Céu ficaria mais perto dos nossos intentos.

Com a pouca paciência em decifrar os paradigmas e deles retirar a aprendizagem, pior ainda aquela brochura de páginas contendo ordens e conceitos republicanos (competências, deveres e direitos) sem um só boneco ou uma imagem que repousasse o cérebro, ao contrário da Bíblia ou Alcorão que nos é imposta desde os primeiros cânones das nossas vidas, só quando os estudos universitários nos obrigam, pegamos a Constituição da República com os olhos de reter as direcções por que nos comandam uma Nação a que por lei natural nos impõe a nacionalidade, ausentando-se de qualquer cidadão de primeira ou de segunda (se os houver) o poder de contrariar seja lá o que for.

Sem sequer medirmos quando um Presidente da República manda em tudo fazer e quando apenas ele arbitra o jogo em nome da democracia, sem ter em mãos a sentença de ditar a prisão dos nossos famosos e santos corruptos, daí, pressupõe-se a discussão ou pelo menos os indícios neste fórum do Téla Nón, abertos a mais uma Revisão Constitucional para dar o verdadeiro poder ao Presidente da República que não deve ser apenas de um árbitro, contrariado de todas as suas decisões por todos os outros agentes da praça política e não só, senão a sua base partidária de apoio de circunstância e não de linhas programáticas.

O Presidente da República deve mandar e ponto final! Há regras basilares da própria democracia que não nos remetem a autocracia ou a subversão dos direitos do povo ou ao silenciar da minoria. A estrutura executiva do actual Governo Autónomo do Príncipe converge e dá performance ao conceito não só na sua estratégia humana de defesa dos interesses da ilha, mas como a visibilidade do projecto e da ambição de desenvolvimento.

Por mais que a economia abalada ou não, pelas finanças internacionais fosse para aqui tentada pelos prestadores do Téla Nón, nos próximos episódios e até o país conhecer o novo Chefe do Estado, a política fala mais alto. Nada mais. Pior a literatura. O Economista e professor universitário jamaicano, Horace Campbell, disse na semana finda numa Conferência aos académicos em Luanda que a África deve partir rapidamente para uma moeda única ao fim de fazer face a crise financeira internacional que subjuga a economia continental. O que dirão os são-tomenses e em especial os nossos economistas (também os associados economistas)? Antes mesmo de cumprir os antigos ensaios de entrada na moeda regional – Franco CFA – estamos preparados a partir para uma moeda continental?

As trocas comerciais devem ditar a lei dos mais fortes a avaliarmos o Euro e os países periféricos, caso específico de Portugal que a euro-moeda veio descarrilhar a economia de si conotada com o défice produtivo para a exportação. As mais recentes assinaturas (porto e aeroporto de São Tomé – concessão ou propriedade?) do Governo de Patrice Trovoada com Luanda são por si pretensiosas dos mais bizarros atropelos nas nossas opiniões que tememos a nossa soberania com que sempre o poder colonial apesar dos boons do cacau sossegou o bem-estar social são-tomense ou o sustento do aparelho do Estado com o endividamento as minas angolanas, na altura de um mesmo Estado, o português. Da monocultura não fomos para além de terra fértil e do cacau de primeira. A economia e a política confundem-se por vezes aos nossos transtornos de análise, na obediência da inter-relação que o mundo global exige numa rápida mudança dos paradigmas estratégicos do desenvolvimento macro económico.

É o mesmo que se pode auferir se Viana da Motta é ou não cidadão do mundo de pertença são-tomense. Há Povos e Estados que querem apenas saber que Deus urinou nas suas águas territoriais para chamar a si o Convento Sagrado do Senhor e nós por aqui vimos desfilar no Téla Nón a rejeição de um renome internacional, filho de mãe são-tomense, pai português e de placenta enterrada algures na Trindade, Santíssima Trindade das ilhas. Até quando a nossa miséria mental?

De nome em nome, figura a figura, desde o pedreiro olho vilô (desculpem-nos o exagero linguístico em choque com a lei natural) ou olho contra o Governo, pior ainda, sem a devida colher da arte que se propõe a cadeira presidencial até o jovem de fato e gravata, o corpo ajeita-se-lhe a postura, o carismático, o intelectual ou a dama de Estado, sinais de ganância ou simplesmente a banalização da coisa de Presidente da República, todos acham-se na pessoa de saber e de pose para o lugar.

Mais ou menos na altura em que o actual inquilino da mais simbólica casa das nossas ilhas mandava anunciar a Nação e ao Mundo, através do seu assessor de imprensa, de que ninguém se deve queixar da nossa democracia, que com ou sem dinheiro, o calendário eleitoral não deve ser ignorado, duas notícias de índole internacional mexiam com a política que se faz por mundo fora.

A primeira refere-se aos Republicanos Americanos que não se sujeitam em ter um black a frente da maior Nação do Mundo. A segunda, por seu turno leva-nos até ao que mais seria de caricato e condenável pelas mais exemplares democracias do Mundo se acontecesse na nossa demente democracia africana. Estaríamos feitos até com o Conselho de Segurança das Nações Unidas a mandar pôr a ordem em casa alheia, em nome dos mais supremos e elementares Direitos do Homem.

Passo a passo e sem pressa para não misturarmos as coisas, começamos pela primeira.

Três chimpanzés vestidos como humanos a pousar para uma fotografia de família. Foi assim que na semana anterior, foi posta a circular via email por Marilyn Davenport, militante populista de ultraconservador Tea Party. Até aqui nada de mal se não fosse, sobre a mais pequena imagem dos três bichos, aparecer o rosto de quem? Nada mais, nada menos do homem mais caro e chick da actualidade, de seu nome Barak Obama.

A acompanhar aquela fotomontagem podia ler-se a hedionda legenda: «Agora percebemos porque é que ele (Obama) não tem Certidão de nascimento.» A polémica encarregou-se de correr o sangue dos americanos e Davenport, que é também uma das dirigentes do Partido Republicano no Condado de Orange, na Califórnia, pediu desculpas pela sua má-fé, mas recusou-se a abandonar o cargo dentro do partido. Em defesa do seu bom nome, Davenport, escreveu num pedido de desculpas oficial: «Sou uma cristã imperfeita que tenta viver o melhor que sabe sob os ensinamentos de Cristo. Nunca faria nada que pudesse prejudicar os outros, independentemente da sua etnia.»

Na quadra de Quaresma, já era do nosso conhecimento que não se podia comer a carne ao longo das sete semanas, desde a noite das Trevas até ao sábado de Páscoa em homenagem aos sacrifícios a que Jesus Cristo foi submetido pela barbaridade humana que o cruxificou mortalmente. O que não sabíamos era, passados cinquenta anos do testemunho do direito do negro ao voto e cem anos da obtenção das mulheres ao mesmo direito de votar em igualdade com o parceiro, na América, a terra prometida de todos os sonhos, uma Republicana não soubesse que Deus nos fez todos a sua imagem e que a Ciência nos seus mais aprofundados conhecimentos de investigação apelidou de que somos todos originários do macaco que se foi evoluindo ao tamanho do homem.

Na madrugada a seguir ao domingo de beatificação de João Paulo II, 1º de Maio, dia consagrado internacionalmente aos Trabalhadores, o Mundo acordou com a voz do Presidente Obama a anunciar o fuzilamento, ontem, de Osama Bin Laden, o mais procurado terrorista, acusado do atentado de 11 de Setembro de 2001 nos EUA (a maior humilhação da América no seu território) e tantos outros por este planeta com a assinatura de Al-Qaeda. Mesmo vindo da voz do Presidente dos EUA, o Mundo saiu a congratular, mas com a devida contenção, porque a ideologia do fundamentalismo islâmico ainda continua sendo uma ameaça a paz internacional.

A segunda notícia ensina-nos que na Europa, a democracia anda em paz absoluta com o Santuário da União Europeia, Bruxelas, sem que desordem alguma tome conta sequer das ruas Belgas ou as vozes de consternação levantassem movimentos além-fronteiras.

A Bélgica, pátria de Hergé, Jacques Brel e Georges Simenon, da cerveja monástica e do chocolate negro, proveniente, quiçá do nosso cacau, é o país do mundo que permanece há mais tempo sem um Governo central em funções em tempo de paz, entrando assim no Guinness Book, desde o dia 30 de Março, com 290 dias, retirando o recorde ao Iraque que esteve 289 dias sem Governo na sequência da intervenção militar e assassina de Bush, Blair e os seus aliados ocidentais em 2002. Não muito longe desse recorde também já esteve uma outra face da democracia europeia, a Holanda, que esteve 207 dias sem Governo, devido a um demasiado e prolongado impasse político.

Já imaginarão importarmos estes dois cenários que correm a democracia pelo mundo civilizado e aterrarmos na nossa santa terra ou em qualquer espaço do mais liberal da nossa África? Vejamos ao que sucede na África do Magreb.

Uma terceira notícia, esta que chegou aos noticiários das ilhas também deve ser para aqui chamada no remate da nossa análise. Na semana passada, Portugal, somente Portugal assinalou o marco de 37º aniversário de 25 de Abril, dia da Revolução dos Cravos que abriu a auto-estrada da independência aos PALOP que, por sua vez, teve o efeito dominó na África Austral e até o fim de Apartheid Sul-Africano. Perante a difícil situação por que atravessa o país social, económico e politicamente, o Presidente Cavaco Silva convidou todos os seus antecessores (Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio) eleitos democraticamente a cadeira de Belém para consigo usarem a data e dirigirem uma mensagem de esperança aos portugueses. É um momento de reflexão cuja imagem deve ficar retida por nós, os são-tomenses, a imaginarmos no próximo dia 12 de Julho, aniversário da maior data da Nação, os três Presidentes da República (Pinto da Costa, Miguel Trovoada e Fradique Menezes) discursarem na tribuna da Praça da Independência, num encorajamento aos desafios a assumir pela Nação pós 17 de Julho. A fotografia, por si só, ocuparia de todo o resto da memória.

Já muito se sataniza o nosso Presidente da República, Fradique Menezes, claro, com a cara encoberta do mais hilariante nome, mas seria ultrapassarmos toda a educação caseira de outros tempos não limitássemos a nossa liberdade aonde tem início a liberdade dos outros, por mais que a ausência de conhecimentos e de transparência na gestão da coisa pública nos obriguem muitas das vezes a confusão de liberdade ser barafustada de libertinagem. Seria de igual modo inconcebível andarmos na maquilhagem de anunciar ao Mundo que no dia 17 de Julho, o país estaria impedido de honrar a democracia que, por cá, convoca a apetência pelo poder, pelo mero espanto de não termos dinheiro para as eleições.

Com quase vinte pretendentes, aceleradamente entramos no Book Guinness de mais pré-candidatos ao palácio presidencial por cada metro quadrado habitacional da santa terra. Que venham mais! E mais! Até chegarem ao Tribunal Superior das Eleições, alguns figurantes ficarão pela estrada a não conseguirem as assinaturas exigidas e as outras formalidades processuais a entrada oficial na corrida, sem menosprezarmos aqueles discursos de «para o bem da nossa democracia e da estabilidade política, retiro-me da corrida eleitoral ao favor do meu adversário. Os meus apoiantes?! Que se danem!» Mas até lá, ninguém (cabo-verdianos, angolanos e moçambicanos de origem que na identidade são-tomense nasceram e connosco há muito e sempre mastigaram e mastigam o pão amassado pelo diabo) deve ser excluído do seu intento patriótico de pretender assumir a tão bonita cadeira da casa cor-de-rosa.

Somente um cidadão são-tomense, maior de 35 anos de idade, em pleno exercício de faculdade mental e social, está impedido de assumir por lei mãe a rebeldia de dizer ao mundo: «Eu, Fradique de Menezes, sou candidato as eleições presidenciais do dia 17 de Julho de 2011.»

«No final, o valor de um Estado é o valor dos indivíduos que o compõem.» Jonh Stuart Mill, 1806-1873

02.05.11

José Maria Cardoso

    6 comentários

6 comentários

  1. Vigário

    3 de Maio de 2011 as 13:30

    Parabéns

  2. Tio Castro

    3 de Maio de 2011 as 14:24

    Falou bonito, mas não convenceu!!!
    Faltou base mais sugestiva nesse discurso.
    Mas, foi bonito…sim!!!!

  3. Bodon Culu

    3 de Maio de 2011 as 18:11

    20 canditatos? Credo!
    Porque será que temos necessidade das duas figuras, PM e PR?
    A democracia pode funcionar muito bem apenas com PR e um parlamento eficaz.
    Acontece que vamos ter 3 ex-PR a receber reforma.

  4. voz do povo

    3 de Maio de 2011 as 20:05

    Este comentário não tem nada á ver com a notícia em epígrafe; Mas peço toda a vossa colaboração para solucionar o problema dos dois irmãos gémeos filhos de S.Tomé e Principe de modo à evacuá-los para exterior a fim de um tratamento especializados.Isso é um fato,não é um dito….

    A saude está acima de tudo!
    E não se limitam na decisão de amputar as pernas dos jovens.Que segundo os especialistas será a última hipotese

  5. Lentlá piá

    4 de Maio de 2011 as 2:27

    É isso que patriço sabe fazer, o bobo da corte, faz graça para outro aplaudir, qual foi afinal o objetivo deste artigo?
    Quero coisa mais pragmática,, ponha essa sua ciatividade ao serviço do paaís, ao invés de ficar aí mandando bocas.

  6. Roberto Carlos

    4 de Maio de 2011 as 11:43

    Ter 20 ou mais candidatos são clausulas não previstas na democracia.
    Precisa-se dar outro dinamismo a democracia.
    Para próximas eleições quer Legislativas, autarquicas ou msm presidenciais ainda iremos apreciar coisas extranhas que não prevemos.

    Quem viverá vera…

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