PRESIDENCIAIS EM S. TOMÉ E PRÍNCIPE – ALGUMAS LEITURAS:

Neste espaço tive a oportunidade de opinar, num artigo de opinião – “O Fardo do Passado, 2 de Março de 2010”, sobre as minhas dúvidas em relação ao contributo que a “velha guarda” ainda poderia dar à sociedade santomense.

Cheguei mesmo a sustentar que Pinto da Costa, por tudo o que não tem feito nestes cerca de vinte anos fora da política activa, não merecia novo crédito para ser Presidente do país. Também disse, nesse mesmo artigo, e, pensando na “nova geração”, que era tempo de não ter “…medo de apostar em alternativas que possam ser efectivamente viáveis…”. Ora aí está. O veredicto da primeira volta das presidenciais em S. Tomé e Príncipe é o primeiro sinal de que eu estaria, quiçá, errado, razão pela qual, atendendo à elasticidade de pensamento (que nada tem a ver com convicções) que deve nortear qualquer ser pensante, não tenho rodeios em assumir tal possível erro.

Na verdade, estas eleições presidenciais são marcadas, desde o início, por uma correria desenfreada (com 14 cidadãos a se apresentarem a votos) facto que, de tanto que já se falou a respeito, pouco mais haveria a dizer. Porém, convém trazer à lisa algumas reflexões sobre alguns protagonistas:

Pinto da Costa apresentou-se nestas eleições com grande serenidade e humildade. Quiçá antecipando as críticas que lhe seriam desferidas, incluindo a de que nesses vinte anos de ausência pouco ou nada de relevante fez em prol da Nação, optou por um discurso sempre conciliador, evitando ataques pessoais, repetindo vezes sem conta ideias chaves como “combate à corrupção”, “combate à pobreza”, “unificação dos santomenses”. Assumiu alguns erros do passado, e manteve-se firme às previsíveis críticas, muitas vezes violentas e pessoais (lembram-se da carta aberta da Professora Doutora Inocência Mata?). Manteve-se sempre sereno, fazendo uma campanha de esclarecimento das suas ideias e aguardou pelo veredicto popular. Nesse particular soube ser “o mais velho”. O resultado é, por enquanto, aquele que todos conhecem.

Evaristo Carvalho passou claramente a ideia de que entrou nesta corrida não por vontade própria, mas por recomendação. Fiel à postura que tem assumido no panorama político nacional, mais uma vez, prontificou-se como “bombeiro” face à alegada impossibilidade de Patrice Trovoada se candidatar, também, ao cargo de Presidente da República. Sem chama nem convicção (o projecto, na verdade, não era seu), Evaristo de Carvalho lá se foi deixando levar pela corrente da circunstância, mas no fim obteve o segundo lugar que lhe permitiu passar à segunda volta. Resta saber se o mérito é de Evaristo Carvalho ou do ADI, que mostrou ainda dar cartas. Apesar de não ser candidato, Patrice Trovoada comporta-se como tal nestas eleições, ofuscando o candidato do seu partido, e, essencialmente, lançando a ideia de que não consegue separar a postura de Chefe do Governo e a de Chefe de Partido político. E, uma vez mais, se evidenciou a diferença entre a “velha guarda” e a “nova geração”: enquanto o “jovem” se esperneia, tentando semear antecipadamente um desentendimento institucional, Pinto da Costa responde com serenidade, lançando a ideia de que não será por ele que Patrice Trovoada terá razão para se demitir das suas responsabilidades de Chefe do Governo. Enquanto Patrice Trovoada desfere ataques pessoais, Pinto da Costa responde com discurso apaziguador, de concórdia, minimizando as “zangas” de Patrice Trovoada, alegando, e bem, que este não é o seu adversário nestas eleições. Uma leitura possível desta aparente disputa é a de que Patrice Trovoada se mostra ingénuo, imaturo para ser líder partidário e de Governo, na medida em que dele se esperava outra postura, já que, como se costuma dizer, “não se apanham moscas com vinagre”. Mas a posição de Patrice Trovoada poderá evidenciar igualmente outra estratégia. É que não podemos perder de vista que o ADI foi o partido mais votado nas últimas eleições legislativas (apesar de governar com maioria relativa), com o MDFM reduzido à insignificância esperada e o PCD a levar também um tombo. O MLSTP, fruto dos seus actuais dirigentes, hoje encontra-se em pantanas. Desta forma, pode ser que a estratégia de Patrice Trovoada passe por lançar desde já crispação política, para num futuro muito próximo se agarrar ao fantasma de instabilidade institucional e se demitir do cargo que ocupa, para tentar nas eleições seguintes conquistar uma maioria absoluta. Mero cálculo político. Só que Pinto da Costa já deixou claro que não irá dar ao Patrice Trovoada argumentos para tal.

Aurélio Martins, que começou bem a sua incursão na política activa, acabou da pior forma que se poderia imaginar. Na verdade, a estratégia (ou a falta dela) de Aurélio Martins e seus “conselheiros” revelou-se em absoluto desastrosa, a roçar o ridículo. Depois de ganhar o círculo eleitoral pelo qual se candidatou nas últimas legislativas, e, depois de ganhar o Partido (para a surpresa de muitos), pôs tudo a perder, lançando-se com tanta sede ao pote, o que resultou no seu afogamento. Faltou-lhe a sabedoria da paciência. Depois de Aurélio Martins, pessoa de quem nutro apreço pessoal, afirmar por diversas vezes (nos círculos mais restritos, assim como publicamente, incluindo na grande entrevista que concedeu a um dos mais referenciados jornais de Angola) que não seria candidato às eleições presidenciais, foi com apreensão que se recebeu a notícia da sua “prontificação” como candidato. Aurélio Martins demonstrou não ser diferente daqueles a quem se critica ter apenas sede do poder. Nesse aspecto, uma vez mais, a “nova geração” não fez a diferença. Mas o pior de tudo é o resultado alcançado por Aurélio Martins, no mínimo, humilhante. Sexto lugar, atrás das duas figuras militantes (Elsa Pinto e Maria das Neves) que, à revelia da Direcção do Partido, se candidataram ao cargo. Foi, certamente, o pior resultado de um Presidente partidário. Essencialmente, se atendermos ao facto de estar em causa o Presidente do MLSTP-PSD, incontestavelmente, o maior Partido político do país. Pena é que, também uma vez mais, Aurélio Martins desperdiçou a oportunidade de fazer a diferença, colocando o cargo de Presidente do partido à disposição logo nas primeiras horas do dia 18 de Julho, e convocando consequentemente o Congresso. Da forma como actuou a seguir às eleições, Aurélio Martins demonstrou, com pesar (pois às vezes mais vale dar um passo à ré para dar dois para a frente), ser fiel à forma de fazer política em África, onde às vezes os políticos só são arrancados do poder à bala, o que é lamentável.

No dia 7 de Agosto a vontade popular será reeditada, desta feita para escolher entre Evaristo Carvalho e Pinto da Costa. Pela postura, desde o início destas eleições, dos dois candidatos, parece não ser muito difícil prever o resultado final. O eleitorado santomense demonstrou no dia 17 de Julho que, independentemente das gincanas políticas (incluindo o “banho”, que cada vez mais parece ter menos influência nos resultados), sabe o que quer. Mas apenas uma certeza se pode retirar dessas eleições: o leitorado santomense ainda não confia na “nova geração” de políticos para assumir o mais alto cargo da Nação. Para tamanha responsabilidade, o voto popular continua a ser na “velha guarda”.

Victor Ceita – Advogado

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    jaka doxi Responder

    Meu caro Victor Ceita. O voto Santomense continua a pertencer a velha guarda porque esta mesma velha guardo com ajuda de alguns jovens oportunistas impendem a caminhada dos jovens com qualidade e capacidade.Mas acredito que toda essa manobra que infelizmente já conseguiu tentaculos fora do país tem os dias contados.
    Abraços.

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      Original Responder

      Caro jaka Doxi,ter uma visão radical à volta de um processo que só por si já deu algum sinal diferente,pode transformar em doença cujo tratamento depende de si quando passar a ver este processo num outro prima.

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        Original Responder

        Onde digo prima lê-se prisma.

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    E.Santos Responder

    Uma análise lúcida, sem dúvida.
    No entanto, ao referir-se ao sexto mais votado, podia ter apresentado a análise sobre os outros 3 que estão pelo meio. Significativos pelos votos obtidos e que também não são propriamente “velha guarda”. Mais a mais pelas posições que assumiram pós 1.ª volta.

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    JOSE TORRES Responder

    Estou de acordo contigo camarada. Foi uma analise pertinente e bombastica. Acredito q voce ira ser um politico serio com cabbeca para ajudar o nooso Povo., MAS, ATENCAO ASSOCIE A pINTO DA cOSTA

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    Observador Responder

    Excelente leitura e análise dos acontecimentos. Parabéns!!

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    Terra nossa Responder

    Ja ha algum tempo que eu nao encontrava neste forum, um artigo que desse gosto em ler. Parabéns, e de quando em vez vai nos brindando com artigos coerentes como este. O Aurélio Martins esta a fazer fincapé para manter-se presidencia do MLSTP/PSD, mas ja é mais do que evidente que ele nao reune requisitos para ocupar o cargo de presidencia de um partido como o MLSTP/PSD. Neste momento a preocupacao é a eleicao do candidato que devia ter sido apoiado desde inicio pelo partido.Mas, assim que passar as eleicoes, tudo sera feito para tirar o Aurélio a pontapés, caso ele continue com a teimosia.Se ele sair por inicitiva propria, ainda teremos por ele alguma consideracao. Viva a Democracia, viva o povo de Sao Tomé e Principe.

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    Eusébio Pinto Responder

    Meu Caro Amigo Victor,

    Melhor do que essa leitura, nem na China!
    Parabéns!

    Eusébio Pinto

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    Rose Souza Responder

    meu cumpadre sou tua fã,,mandou bem!!!!teu artigo é 10,DEZZZZLUMBRANTE!! parabéns

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    Uelba Ceita Responder

    A isto é que se chama artigo de primeira. Parabéns pela reflexão coerente com relação aos candidatos. São desses comentários que precisamos ler no Téla Non.Espero que continues brindando-nos com a tua inteligência e poder de argumentação e que dês a tua contribuição para o avanço desta nossa amada terra, pois ela bem precisa. viva o Pinto da Costa com a sua humildade, serenidade e maturidade e que a lição seja dada aos que não são privilegiados com estas virtudes.
    Um abraço da mana.

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    lino Responder

    parabéns, amigo!
    Foi muito bem sucedido na sua análise e exposição.
    Claro que ne “àgua”…como se costuma dizer.
    Quanto ao aurério martins, está de facto a enveredar pelo caminho mais complicado.
    Já devia ter-se demitido.
    É muita teimosia!
    De facto, como o meu amigo disse e bem…só aos pontapés.
    Ou arrancado do poder “A bala”.
    Nosso país despensa pessoas com este caracter.

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    Emilio Pontes Responder

    Parabéns!

    Esta tudo dito.
    È simplesmente correcta esta visão do analista. Não há ideias e programas eleitorais criveis dos candidatos da nova geração que andou a reboque dos actuais actores politicos.

    Emilio Pontes

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    Telma Responder

    O problema é que pensamos que somos grandes intelectuais mas na essencia não passamos de grandes ladrões e egoistas. Quando cada um de nós mudar o país mudará. Acredito que uma democracia e progresso não se faz de um dia par o outro, mas o nosso voto no geral tem sido errado, temos votado sim em quem nos paga mais no momento, temos votado sim em compadrios e interesses pessoais em detrimento do colectivo.

    Tanto é certo que estamos na eminência de eleger um antigo ditador, insólito num país que se queira desenvolver.

    As justificações de que Evaristo Carvalho entrou forçosamente nesta campanha não fazem sentido pq Evaristo Carvalho como presidente da Assembleia Nacional é realmente o homem que reúne consenso entre os vários partidos e poderá unir os Santomenses, já o demonstrou em diversas ocasiões.

    Votar em Pinto será dar um tiro no próprio pé.

    Apelo aos intelectuais de STP que influenciem o povo a optar pela democracia, pela liberdade, pelo futuro, e escolham o voto útil em Evaristo Carvalho.

    Espero que os que se dizem com visão saibam que o voto útil é o voto pelo colectivo em detrimento do particular.

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      Helves Santola Responder

      Será mesmo que o argumento de que Pinto da Costa “é” um ditador é a melhor?? Tudo bem que ele se afastou da vida política por mto tempo, mas quem garante que ele não sabe como se comportar em democracia, sabendo-se que “Pinto da Costa foi o primeiro Presidente africano a acabar com a ditadura”?? Não nos esqueçamos que somos hoje tão pacíficos (a ponto de tolerar esses desmandos políticos há décadas) porque o nosso primeiro PR criou um clima de paz nacional, o que pode muito bem ser entendido como o reconhecimento dos erros e desejo de fazer diferente. Outra coisa, estamos há muito tempo nessa luta pelo desenvolvimento, pela democracia disfarçada que temos no país…..quem melhor do que o que eu chamo de “pai da democracia são-tomense” para saber realmente o que falta na nossa democracia, o que está errado e como corrigir? Eu ñ tenho nada contra Evaristo Carvalho, mas tenho contra o facto do primeiro-ministro ter dado provas de que quer monopolizar o poder político, usando o argumento desnecessário, a meu ver, de estabilidade…….desculpe por te contrariar, saiba que sou novo e tem muitas coisas que ñ entendo….se assim o achares, perdoe a minha ignirância…..abraço irmão! Tudo de bom…adorei a parte que escreveste que “o país só vai mudar quando cada um de nós mudar”.

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    voz do emigrante Responder

    Emilio pontes onde andas quando é que iras tanbem concorer para presidenciais ja esta na hora de deixar de enganar os angolanos em angola e regressar a tua patria meu caro amigo

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    Francisca Cara Linda Responder

    Gostei do artigo. Demonstra que Pinto da Costa tem feito uma campanha que tem convencido muitos que não apostavam nele. Sinal que o seu objectivo em unir todos os santomenses em torno de um único objectivo é alcançável.
    Saudações de Santa Tecla

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    valentim cravid Responder

    Excelente análise!

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    SOS Responder

    Parabens pelo artigo Victor. É desse tipo de artgos/refleções que se precisa neste espaço, pois ele é acessado por milhares de pessoas dentro e fora do Pais. Esse tipo de artigo demostra que os antomenses sabem fazer politica de forma civilizada e de alto nivel- Espero que isso sirva de exemplo a pessoas que em vez de dar contributos validos, só trazem crispações e linguagem de baixo nivel aqui a este espaço.
    Gostaria de chamar a atenção do Téla Nón para uma maior rigor naquilo que se deixa publicar neste espaço
    Viva a Democracia

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    edmar barros Responder

    SOS,eu tambem,vou na vossa ou sua linha de pensamento. As leis têm e devem funcionar.

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    edmar barros Responder

    Quero é apelar aos Santomenses que votem no dia 7 de Agosto,que é um dever cívico . Cuidado com os tais chamados banhos e promessas falsas,assim intrigas em. Sabos que num país pobre de dia p noite não muda. Queremos um presidente de perfil. Esqueçamos da era do partido único. Este ou aquele que aponta dedo ao Pinto da Costa é o mais falso. Quando falam da ditadura,etc. . .saibam que os reponsáveis são esses que hoje apontam dedo ao Pinto.Educção,repeito,disciplina e trbalho é precisamos. Alguns só querem viagens,dinheiro,carro,casa nova e zombar do povo. Pergunto eu; depois dos tais 15 anos, em plena democracia,todos que hoje falam dos 15 anos e que ainda são políticos o que fizeram? será ainda culpa do Dr. Manuel Pinto da Costa ? é preciso que o povo abra os olhos .

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    Pedro Lima Responder

    Este texto traduz bem os motivos que levam o nosso país a ser uma ilha de miséria. Abrir mão do direito de escolher um jovem que comprovadamente fez muito pelo povo, mesmo sem ter ocupado cargo público, para escolher um velho (Evaristo ou Pinto da Costa) significa dizer que o povo de São Tomé e Príncipe tem medo de mudar.
    É esse o destino de quem vende o voto.

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