Fugifalândia e o príncipe encantado

História é história! Era uma vez… É assim que os mais velhos começavam a moldar a nossa infância com fábulas espertas da tartaruga, do gigante, do rei e da rainha, do príncipe e da princesa.

Numa altura em que devíamos estar aqui com os números de tudo quanto era impossível ou no mínimo difícil de chegar a realidade, encontrava-se só na China – dos bens essenciais aos milagres da ciência – é de enaltecermos o jogo de cintura da diplomacia são-tomense em voltar, pé ante pé e após dezasseis anos, ao vagão do Oriente sem prejudicar a já consolidada relação com a China Formosa que doravante deve ser mais atrevida, no politicamente correcto, mais ambiciosa na meta a que o país pretende atingir e ganhar aprendendo a pescar, já que pouco ou nada resta para saborear do pescado alheio.

Por vezes somos empurrados a descer as escadarias da idade na busca do fôlego necessário para melhor compreendermos e interpretarmos o mundo dos adultos. Sem sermos especialista na matéria, propomos nesta rúbrica uma viagem ao mundo dos miúdos na perspectiva de atingirmos a tão exigente e responsável idade adulta.

Era uma vez a princesa de lágrimas de fogo. Os juízes catalogados na praça pública com os actos de corrupção com que branqueavam ao trabalho honesto tinham conseguido momento sublime para romperem com a fumaça no direito.

As populações da ilha de Crer como as de Ver é que desesperavam no mais do mesmo do reino de Fugifalândia. Contava a avó ao redor dos netos como no antigamente atrás do tempo.

As de Crer mantinham reticências que um dia alguém pudesse pôr as mãos a injustiça social reinante na desgraça da ilha que não descobria o norte económico. As populações da outra ilha apreciavam ao crescimento em lento das suas vidas, pese as denúncias de que o projecto lunar não tinha posto um só tostão na ilha. Os milhões aos olhos de todos e geridos por expatriados garantiam de que a ilha tinha recebido da sua inserção nos bens classificados da humanidade.

A miopia das crenças pendia para que os barões saíssem sempre ilibados e os respectivos processos mandados a arquivar por falta de provas ou excesso delas numa acusação imparcial. As cadeias do reino de Fugifalândia eram para os gatunos da vizinhança! Afirmou a octogenária engrossando a voz desdentada.

Uma jovem formada na aplicação das leis chegada de fresco ao reino é que tinha em mãos o baptizado caso, a IDA do príncipe. Os colegas de formação, amigos e até familiares convenciam-na, sem sucesso, de que deveria abandonar ao processo. Em cada passo, ouvia aos mesmos versículos. O reino está cada um deve tratar-se da sua vida! Não é você que vai concertar a isto! Se não estiveres com eles, vão-te encostar a parede! Vês os conselheiros do príncipe, em que todos acreditavam!? Já viste as suas mansões e topos de grana?

Na noite anterior a sentença compareceu a um frente a frente num programa mais ousado da televisão. Respondeu a tudo, mantendo a sua intransigência de curvar-se aos conselheiros e companhias. Todas as tentativas da jornalista em levá-la a entrar nos processos, soube estar a altura de não expor o veredicto na praça.

À saída uma conversa em surdina matou-lhe a fome. Deu uma corrida ao encontro da mãe acamada preocupada com algo que estaria a complicar a sua já débil saúde. A progenitora chamou-lhe a convencer em não condenar a nenhum dos arguidos. Todos compaginavam-se no tecido familiar. Primos das primas dos primos.

Questionou a mãe se era decente o reino continuar infinitamente refém dos laços parentescos. A mãe contra-respondeu de que lhe haviam queixado da filha ter recebido barra de ouro dos inimigos dos arguidos para tirar-lhes os bens adquiridos na gestão da coisa pública e muito mais que isso atingir ao príncipe desaparecido.

Chamou a mãe ao pé da razão, indagando se era elegante da parte da filha ter recebido ouro algum e continuar a tê-la apresada a cama sem saúde, sem dignidade, sem poder devolvê-la um bocado do que ela dera aos filhos. Questionou ainda, se era justo o desaparecimento do príncipe continuar a ser banalmente tratado na praça pública como se de nada tratasse perante a exibição de sinais exteriores de fortuna dos seus conselheiros que rumores espalhavam tê-lo afogado e apoderado dos seus bens.

Os jovens despistados no reino vadiante, pouco ou nada lhes preocupa a escuridão por que submetera a princesa. Nutrem simpatia aos conselheiros do príncipe, não para serem empreendedores da economia, mas para fotografarem-se a sua imagem. Tornarem-se ricaços de dia para noite. O vírus de maledicência tem de ser varrido do reino de Fugifalândia! Ela, em silêncio, escutou ao desabafo e trouxe a filha ao seu peito. As duas confluíram-se em lágrimas perante as crianças que se contagiaram em risadas desvairadas sem consciência do choro de gente grande. Prosseguiu a idosa sorridente.

Prometera a mãe que decidiria na imparcialidade da lei e no orgulho que ela sempre vendeu as mães vizinhas a dar escola aos filhos rotos, descalços ou de calções e camisas, de saias e blusas amor-pedaço. Pedaços de amor com que ela e as mães heroínas à mão e, no candeeiro fusco cosiam pobreza para ser vestida na manhã seguinte como a roupa de loja. Esclareceu a anciã.

O desaparecimento do príncipe tinha de ficar, de uma vez por todas e para o bem do reino esclarecido para também dar sossego a princesa que estava exposta as bocas do mundo. Despediu-se da mãe com beijo na testa.

A cidade do Rei acordou em segurança rija. Dois grupos de manifestantes fizeram-se anunciar ainda no desabrochar do dia. Um defendia aos réus, exigindo a juíza a libertação dos conselheiros do príncipe. O outro exigia o contrário. A condenação dos réus com mãos de ferro que servisse de abertura de uma nova página no reino.

Um terceiro grupo de manifestantes sem se fazer anunciar pela legalidade democrática apareceu de rompante. Após os membros serem interpelados pela polícia, veio ao nu de que não eram contra nem ao favor do que se passava no tribunal. Apenas estavam aí para alertar a jovem juíza em não assumir a reabertura de nenhum dos processos lesivos ao reino já mandados a arquivar, mas que a opinião pública recusava terem sido justos. Porquê, avó?

Conta a lenda de que os barões vinham, há anos, corrompendo aos juízes e andavam a exibir os mesmos sinais exteriores de fortuna contrariando a um reino há décadas sem saúde, sem hospitais, sem medicamentos, sem saneamento, sem tudo. Sem o Estado social, os velhos viam a morte antecipar-lhes ao destino. As mulheres, não só continuavam a dormir no canto da cama como também eram parapeitos a selvajaria dos parceiros. As crianças estáticas as frustrações dos adultos pagavam por tudo e por nada deste mundo. De flores em crescimento, transtornaram-se em vítimas irracionais da violência física dos familiares, já há muito banido do vocabulário da educação e formação de identidade infantil.

Corria na boca da rua de que aquando de um Eclipse Total do Sol, o príncipe pôs-se em fuga com os seus conselheiros levando todas as barras de ouro do reino de Fugifalândia. Tudo tinha acontecido ao meio do dia quando o príncipe lançava as pedras da construção do maior túnel do mundo. Mais de cem quilómetros debaixo do Atlântico a ligar as duas ilhas do reino. Uma obra com que pretendia pôr fim ao duplo isolamento da ilha de Ver.

Deu-se uma escuridão a luz do dia jamais imaginada que levantou as ilhas. O príncipe balou-se com os seus na Arca de Noé deixando órfã a sua princesa. Após uns dias, os náufragos foram recolhidos nas belas praias das ilhas. Mas, nenhum sinal do príncipe.

A princesa chorava de noite ao amanhecer, de manhã ao anoitecer. A dor e a miséria convergiram-se num sentimento de desespero da princesa no seu povo. Desemparada, de beco em beco vasculhava algum sinal do amor da sua vida. O príncipe é mau, fugiu da sua princesa! Desenhou um dos netos.

O desaparecimento do filho do rei conta a lenda, que tinha inspirado dizeres nas ilhas com duas correntes de escritas. Escreviam de tudo e reinventavam contos a rimar com umas ilhas a baloiçar no meio do mundo.

O rei acusado de intromissão no desempenho do príncipe e de molestar a democracia aconselhou-se dos sábios da época para fazer face as controvérsias. O príncipe tornou-se em encantado. Alguns sábios fizeram-se cúmplices do príncipe e de tempo em tempo para o desconsolo da princesa promoviam rumarias a sua ressurreição ao terceiro dia, centésimo dia, ao trecentésimo dia, a um dia qualquer com acolhimento de pintar as principais ruas. Desatinados, criaram uma emissora que transmitia três vezes por semana para enxugar as lágrimas da solitária e deprimente princesa. Os críticos a fuga do príncipe foram indiciados de lambe-botas a ajustar a língua.

A magistrada do julgamento mais mediático de todos os tempos tinha rejeitado como provas as gravações e os jornais da época com aparições do príncipe, cujos sábios com olho leve viam e ouviam as suas directrizes para a companhia atrofiada. A princesa não dispunha de visão e audição avançadas para decifrar as aparições do seu amado.

Na sala de audiências, uma reviravolta murmurou ao silêncio. O magistrado de meia-idade entrou e predispôs-se a ouvir um dos acusados, antecipado a perder todos os bens não esclarecidos. Prometera então a colaborar com a justiça repondo a verdade ao anterior depoimento. Todos, os juízes, os advogados, as ilhas, a Sua Majestade Rei da Fugifalândia e até a princesa no tribunal ou com as orelhas nas telefonias puseram-se a escutá-lo.

Já no alto mar, depunha o réu, o príncipe deu uma barra de ouro a cada um de nós amarado as bóias de salvamento. De seguida lançou-nos ao mar. Na treva aproximaram-nos dois petroleiros cujos comandantes reconheceram dois de nós e puseram-se a salvar a todos. Rogamos-lhes que procurassem a Barca de Noé a algures com o príncipe. Tranquilizaram-nos. Ele estava a salvo num cruzeiro.

Mas avó, o mar das ilhas tinham petróleo? Inquietou o outro dos netos. Sim! O reino situava-se num lençol desse produto que cá em baixo torna pobre aos seus povos. Pobre? Não é ouro negro? Perguntou o outro. É ouro, brilhante, riqueza, desenvolvimento, lá em cima. Cá em baixo é negro, escravo, derrame, doença, guerra, penúria… Lia-se água no canto dos olhos da contadora de histórias.

O juiz quis ser elucidado como mais de uma dezena de homens teria lançado ao mar sem confronto com o príncipe. O réu voltou a defesa. Tínhamos o cabaz de ouro e fé de que haveria barcos piratas por perto para salvar-nos. O Salvador, o príncipe ordenou-nos a nadar, não nos mandou afogar!

O magistrado mandou aos inocentes sair em liberdade e bateu o martelo na mesa deixando a princesa traumatizada em chamas de lágrimas sob o risco de colidirem com os barris de pólvora.

Avó! Tenho muita pena da princesa! Minha neta. Ah! Comia-vos um pedaço da história. Relata a lenda de que a princesa não amava ao príncipe. Era louca pelo banho de ouro com que para a estranheza do reino o príncipe a consolava.

E o príncipe encantado!? Questionou a neta que o rato tinha comido os dentes de frente. O mistério permanece. Até aos dias de hoje ninguém sabe ao certo o paradeiro do príncipe.

Conta a lenda, na última aparição o príncipe encantado ter deixado aberta a janela do seu regresso perto do dia do reino para um novo casamento com a princesa mais bela do mundo. Construiria um castelo maior que o reino para sempre viverem felizes no paraíso de Fugifalândia.

José Maria Cardoso

14.11.2013

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    deixe-nos trabalhar Responder

    Sóia Cútu dá malá.
    Eu gostei da história.Está bem contada.
    Conta mais!

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    Jornalista Amador Responder

    Moral da Historia?
    Meu caro amigo, arranja uma ocupação mais aceitavel…. deixa as paginas em aberto para coisas mais uteis…..

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    CEITA Responder

    é impressionante como esses senhor escreve, por favor deixa seu endereço preciso estar em contacto com sigo, pfv

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      Juvê Responder

      Isto é para rir!!!!!!

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