Democracia de dentro para fora

Sou da geração da liberdade. Felizmente, faço parte dos que nasceram em liberdade e tiveram o privilégio de assistir à afirmação e consolidação de São Tomé e Príncipe enquanto Estado de direito e democrático. De todo um conjunto de direitos e liberdades constituídos pela Democracia, destacaria a conquista dos direitos civis e políticos, que entrega aos cidadãos de São Tomé e Príncipe o poder de decidir sobre os desígnios do seu presente e futuro – nomeadamente através da escolha dos seus representantes e do escrutínio da ação governativa.

Em democracia, e num regime pluripartidário, é incomensurável a relevância dos partidos políticos para a transformação social, económica e política num país como São Tomé e Príncipe. Os partidos políticos são essenciais para o exercício da cidadania e para a participação na vida pública de todos os homens e mulheres santomenses; são igualmente necessários para o debate plural e aberto sobre os caminhos que devem conduzir o nosso país para o progresso económico e a coesão social.

Porém, a par desse contributo em prol da prosperidade da nossa nação, os partidos políticos têm concorrido para a disseminação de fenómenos menos positivos que acabam, inevitavelmente, por conduzir os cidadãos para uma progressiva descrença no sistema político nacional. As promessas eleitorais não cumpridas, o, persistente, afastamento dos propósitos de representação dos eleitores, bem como o profundo desconhecimento da realidade social de São Tomé e Príncipe estão na origem da insatisfação dos cidadãos relativamente ao funcionamento dos órgãos governamentais. Não podemos esquecer que, a estes factores, soma-se um aumento generalizado da corrupção, do nepotismo, do caciquismo…

A passividade dos partidos políticos perante este cenário de degradação dos valores democráticos deturpa aquele que deve ser o compromisso e a missão de servir os cidadãos santomenses. Cabe aos partidos políticos representarem os cidadãos, defenderem os seus interesses em sede parlamentar, nas autarquias e no Governo central, sob pena de que a insatisfação popular dê lugar a fenómenos de abstencionismo generalizado, ou até mesmo à insurreição popular.

Nos últimos anos temos assistido ao aumento de abstenção eleitoral, nos vários níveis de representatividade política. Acredito profundamente que os abstencionistas são cidadãos insatisfeitos com o funcionamento da democracia, pessoas que deixaram de se identificar com os partidos e perderam a confiança nos agentes políticos que, talvez devido a alguma imaturidade democrática que ainda possa existir na sociedade santomense, não têm sabido cumprir o seu papel: defender uma ideologia, ideais ou uma causa em prol do interesse geral, de um colectivo, de um povo ou de uma nação.

Entendo o MLSTP como o baluarte da democracia e da participação civil santomense, sendo o partido que conduziu o país à Independência e, depois, à Democracia. E cumpriu um importante papel. Mas, aqui reside uma grande responsabilidade, e como partido histórico que é, o MLSTP tem que estar na linha da frente do combate a tudo aquilo que vai afastando os nossos cidadãos da vida democrática.

O MLSTP tem que ser o garante do povo santomense no que se refere à defesa dos seus mais superiores direitos: a saúde, a justiça, a educação, o emprego, a habitação… Tem de ser o primeiro a levantar a voz contra a corrupção e contra o servilismo nacional aos poderes estrangeiros e ao grande capital. E isto não tem acontecido.

É o MLSTP, um partido do arco do poder, que o cidadão santomense identifica como aquele capaz de promover as mudanças necessárias para garantir a sustentabilidade do Estado, sem que seja necessário sobrecarregar, ainda mais, os contribuintes. E o MLSTP tem de responder a essa confiança, actuando como o partido que defende os grupos mais vulneráveis da nossa sociedade, e que é capaz de promover a melhoria de vida dos cidadãos santomenses mais pobres, a iniciativa privada, bem como garante que os jovens não são descriminados com base na sua idade e que as mulheres não são descriminadas com base no seu género.

O cidadão santomense tem que olhar para este partido como a sua esperança e não como uma instituição que se aproveita do Estado para defender o interesse de alguns, dos mais poderosos, e não de todos, e sobretudo dos que menos têm.

Contudo, muito lamento que o MLSTP não esteja a ser o partido inclusivo que deveria ser. Continuamos a ver a mesma cúpula dirigente no partido há mais de trinta anos, poucas foram as mudanças reais visíveis na liderança partidária. Está envelhecida, distante das suas bases e não soube ainda abrir-se ao contributo dos mais jovens e mais dinâmicos militantes. Esta é uma realidade que os afasta do partido, os mais jovens em particular, que não se revêem nesta estrutura. Por outro lado, deixa sem alternativa os que acreditam numa forma diferente de fazer política partidária, ou seja, desilude aqueles que acreditam numa verdadeira democracia pluralista e inclusiva, especialmente os que acreditam que o MLSTP é o partido com o qual se identificam com o seu ideal.

Ao fechar-se sobre si mesmo, o MLSTP tem prestado um mau serviço à democracia santomense. Para contribuir para uma democracia de qualidade em São Tomé e Príncipe, o partido tem que se adaptar às novas realidades, não aceitar uma política subserviente ao status quo. Acredito que o MLSTP precisa de recuperar a sua relação afectiva com os militantes e com os eleitores, mostrando seriedade e empenho e apresentando ao povo santomense uma estratégia clara para o desenvolvimento humano das nossas populações e para a consolidação do progresso económico.

O povo demanda por uma estratégia que aponte um caminho em que faça o país viva de acordo com a sua condição financeira, sem ter de andar sempre de mão estendida a pedir ajuda. Uma estratégia que defina uma política de investimento que conduza o país rumo a uma maior auto-suficiência e independência dos actores externos. O MLSTP tem que ser o partido que apresenta ao povo santomense um caminho que leve ao aumento do investimento estrangeiro e ao fortalecimento do tecido empresarial nacional. Um caminho que mostre que a justiça funciona para todos e não apenas para alguns, um caminho que signifique saúde de qualidade para todos, educação de qualidade para as nossas crianças e jovens, segurança para os cidadãos e para os investidores, acesso à habitação e ao trabalho digno.

No meu entender, o MLSTP tem que ser capaz de promover, desenvolver e dinamizar a intervenção dos cidadãos ao nível local, regional e nacional. Tem de constituir-se como uma verdadeira plataforma de diálogo, intercâmbio de posições e pontos de vista entre as diferentes estruturas do partido.

Quando o MLSTP for um partido inclusivo e capaz de apresentar uma estratégia que se traduza num país verdadeiramente independente, então voltará a contribuir para uma democracia de qualidade em São Tomé e Príncipe.

É este o partido em que acredito e que espero ver capaz de se regenerar, para manter a confiança dos cidadãos santomenses.

Negesse Pina

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    Pedro Sequeira de Carvalho Responder

    Meu caro e muito amigo Negesse, eu fico orgulhoso por ver um santomense que tenha adquirido a lucidez suficiente para extrair todas estas conclusões, que eu concordo plenamente, sobre o MLSTP, porém este partido é feito pelos seus derigentes, militantes e simpatizantes e se quizermos alguma modança no seu seio, terá que parte no seio de uma dessas franjas ou de todas, é neste sentido que eu apelo o teu regresso para que junto com os outros possas fazer as mudanças desejadas e necessárias. Saudações juvenis !

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    conobia Responder

    Incopitente…. Se vê que é do MLSTP…..

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    tudo o vento levou!... Responder

    verdade nua e crua !..
    sera que eles sao intelente
    ao ponto de mudar o sistema
    daquela instituicao?…
    se eles fossem capazes da mudanca
    pois sim seriam conotado de salvadores
    da patria…
    Mais repare ;
    este partido MLSTP tem um dono…
    sera que o mesmo esta intressado
    na tal mudanca benefica para todos
    santomenses?
    o broblema e esse….

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    Barão de Água Izé Responder

    Pode-se dizer que STP é um País democrático quando a esmagadora maioria da população vive na pobreza, na desocupação, sem visão de futuro passados mais de 30 anos após a independência?
    Partido importante na nossa Terra será aquele que tiver a coragem de:
    - Alterar as Leis da Terra, privatizando as terras que estão nacionalizadas e possam a vir dar lugar a economias de escala;
    - Abrir concursos públicos internacionais para (com acesso a investidores nacionais)
    para exploração agrícola dessas terras;
    - Abrir concursos públicos internacionais para a construção e exploração de resorts turísticos, e exploração de zonas pesqueiras
    - Revisão da Constituição para o sistema Presidencialista (democrático) e em conjunto com a revisão do código penal.

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      Rui Responder

      Meu caro Barão de Água Izé!

      O Senhor sistematicamente faz estes comentários, sobre textos dos outros e, como é lógico, tem o direito e legitimidade para o fazer. Agora, também com legitimidade, pergunto-lhe: se o senhor tem estas ideias, aparentemente consolidadas, por que razão não escreve o senhor sobre estas coisas ou, em alternativa, crie um partido político que sustente ideologicamente estas suas ideias? É que, parece-me a mim, que são boas ideias, ricas de ponto de vista político e ideológico, aceitáveis em democracia, e que podem dar conteúdo a qualquer projeto político. O que eu lhe peço, e não me leve a mal, é que organize estas suas ideias e mostre-nos no papel, através de um texto ou artigo de opinião, a sua importância e pertinência para o nosso país neste momento. Deixe, por isso, de estar constantemente a implorar os outros que escrevam ou opinem sobre estas coisas que o senhor acha que é melhor para S.T.P. Não me leve a mal, por favor. Muito pelo contrário. Até acho que algumas ideias soltas sobre aquilo que diz são pertinentes e importantes para o país. O que me faz alguma impressão é que o senhor está sempre a insinuar que sejam osn outros a escrever ou opinar sobre aquilo que são as suas ideias para o país. Nós vivemos em democracia e o senhor não deve ter recei de se manifestar publicamente sobre as suas ideias.
      Bem haja
      Rui

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        Barão de Água Izé Responder

        Caro Rui, limito-me lançar pistas,a sugerir ideias gerais, para que políticos que exercem essa actividade a tempo inteiro tenham mais algumas sugestões de como inverter o “estado de coisas” no nosso País. Sei que algumas sugestões abanam com o posicionamento ideológico de muitos políticos, mas para se tirar STP da pobreza há que ter coragem e procurar outros caminhos. Implorar, não implorava, mas gostava que políticos que já passaram por quase todos os cargos governativos, ousassem, por que essa é sua responsabilidade, romper com o “pensamento correcto” do
        pós-independência.

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          ferpenapandopo Responder

          O problema é que os Marxistas/Leninistas
          que têm governado S:Tomé e Principe,nunca vão sair daquela linha ideológica,e isso é o verdadeiro desastre do Povo Santomense.

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    carlos Responder

    Caro colega eu subscrevo na integra. as tuas conclusões.

    Más n pude deixar de reparar a terminologia muito esquerdista”Grande Capital” termo muito usado pelo Lideres esquerdistas de portugal PCP,BE e mesmo o CGTP.
    força ai

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    arroz podre Responder

    Caro Negesse Pina, muito obrigado pela sua mentalidade.
    Sabes muito bem que os nossos camaradas não têm esta ideia, porque:
    1º. Gostam de vida fácil (preguiçoso).
    2º.Gostam de lugares que têm altos salários.
    3º. Não gostam de pensar no desenvolvimento para o País (só para eles(Grupinho)).
    4º.São maus gestores.
    5º. Não gostam de dar oportunidades aos jovens.

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      no limao Responder

      eu concordo com tudo o que foi escrito mas estendo essa apreciaçao a todos os partidos politicos snatomenses,Tenho 37ano e quando sai de s,tome a vinte anos atras as mesmas pessoas que eram ministros e governantes continuam a se lo ate hoje alguns em partidos diferentes ,ha governantes em s.tome que fazem disso sua profissao ,ora pergunto o obvio ;uma pessoa que a vinte anos esta no poder num pais supostamente democratico porque ate tem que se pagar para o povo votar ne ,nao sei que raio de democracia mas pronto,ESSA PESSOA SE EM VINTE ANOS NAO FEZ NADA EM PROL DO DESENVOLVIMENTO DO PAIS VOCES ACHAM QUE ELA ALGUMA VEZ FARA?essa e a minha questao e gostaria que os experts na materia me explicassem ,pois nao entendo como e que com tantos quadros jovens formados e dinamicos em s.tome esses tubaroes e que continuam a dominar com a mesmapolitica de partido unico

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    fg-RESUMO Responder

    Negesse o que está a buscar é tacho repentino, porque pensa em regressar.

    Tal como encostou-se outrora, na pré juventude ao Posser e outros tantos, e d repente, de medida da ONG verde, de limpar parque popular e marginal, passou de repente a andar de mota de água alugada e de súbito foi parar a Portugal.

    Meu caro, assim nao vais lá. toma é juizo e volta sem estar a professar simpátias visando tachos e encostos.

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    sum pochi Responder

    Querido Negesse, devo considerar que as tuas ideias sao magnicas para um desenvolvimento prospero se STP. Mas te aconselharia a nao identificar-se a nenhum partido porque ate posso acreditar que queiras o bem de STP mas o que acontece e que a maioria nao lhe importa a situacao em que a naioria da populacao vive. Muito particularmente acredito que com as tua capacidade genial serias muito mais bem sucedido a ajudar este tao necesitado povo particularmente do que encostarse a algum partido. Mas a forma como faze-lo cabe a tu mesmo pensar.

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    nicra sousa Responder

    não concordo com o primeiro paragrafo, pq qualquer ser humano nasce livre

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    budo budo Responder

    Parabéns! Genial! Isto é começo do rejuvenescimento do MLSTP.

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