OPINIÃO – Encruzilhada maldita

 

No século passado, Gerhard Seibert escreveu um livro, que, provavelmente, constitui o melhor diagnóstico, até hoje, da nossa realidade política e social dos últimos quarenta anos e deveria ser lido criticamente e servir de suporte aos conteúdos reflexivos e estratégicos de intervenção político-partidária na nossa terra.

OPINIÃO

Encruzilhada maldita

 

Amensalismo Anacrónico

 

Adelino Cardoso Cassandra


No século passado, Gerhard Seibert escreveu um livro, que, provavelmente, constitui o melhor diagnóstico, até hoje, da nossa realidade política e social dos últimos quarenta anos e deveria ser lido criticamente e servir de suporte aos conteúdos reflexivos e estratégicos de intervenção político-partidária na nossa terra.

Este não é o espaço ideal para fazer a análise exaustiva da obra em causa. Todavia nela pode-se ler coisas como estas: «… Na sequência de uma reunião do Conselho Nacional do PCD-GR, em princípios de Junho de 1994, o secretário-geral, João Bonfim, emitiu outro comunicado acusando Trovoada de “obstrução sistemática” do programa do governo e de “constituir o mais ativo opositor do PCD-GR”. (…) «…Trovoada foi reiteradas vezes acusado pelo PCD–GR de tencionar demitir o primeiro-ministro Norberto Costa Alegre.

Ao mesmo tempo, o partido no poder queixou-se de que o presidente se recusara a promulgar dois decretos governamentais que criariam duas pequenas linhas de crédito para pequenos empresários, como parte do projeto Dimensão Social do Ajustamento, chefiado por Alda Bandeira, a mulher do primeiro-ministro. (…) «…Por fim, a 2 de Julho, o presidente Miguel Trovoada demitiu o primeiro-ministro Norberto Costa Alegre. O decreto presidencial referia ser necessário “pôr fim a um mau relacionamento político, que se agravara, entre o presidente da República e o chefe do governo.”.

Trovoada, que acusou o partido no poder de ter repetidamente questionado os poderes constitucionais do chefe do Estado, justificou ainda a sua decisão com a alegada falta de lealdade institucional de algumas ações do governo…» (…) A 5 de Julho, sem ter consultado nenhum dos partidos com representação parlamentar, o presidente Trovoada nomeou para o cargo de primeiro-ministro o seu confidente Evaristo de Carvalho, ministro da Defesa no governo de Norberto Costa Alegre e membro do Conselho Nacional do PCD-GR…»

Falta dizer que tal facto fez com que Evaristo Carvalho fosse expulso das fileiras do PCD-GR, com argumento de alta traição. O PCD acusou, então, o presidente Miguel Trovoada de ter orquestrado um golpe constitucional e rejeitou a permanência em funções de um governo interino até ao fim da legislatura pelo facto de tal ato desrespeitar os resultados das eleições realizadas e a vontade popular.

Já neste século, Patrice Trovoada deu uma entrevista a um embrionário projeto televisivo, de nome STPtv, com um enquadramento temático interessante: “Estabilidade em S.Tomé e Príncipe”. Sendo um projeto editorial com recurso a plataforma da Internet, via YoTube, um amigo enviou-me o endereço eletrónico que permitiu que eu tivesse acesso ao conteúdo da referida entrevista.

Tendo em conta o enquadramento temático da mesma fiquei, naquele momento, particularmente satisfeito com a rara oportunidade de poder ouvir Patrice Trovoada dissertar sobre a estabilidade em S.T.P, objetivos estratégicos do ADI, no curto, médio e longo prazos, para a concretização desta mesma estabilidade e lições a tirar decorrentes de ações positivas e negativas, de ponto de vista institucional, do seu governo e de outros órgãos do Estado, para que, a partir de agora, todos trabalhassem de outra forma para a implementação, no futuro, desta estabilidade que o país tanto precisa para o seu desenvolvimento.

Nesta entrevista que demorou sensivelmente 1 hora, Patrice Trovoada gastou cerca 3.23 minutos para falar sobre aquilo que o seu governo fez durante o período que esteve na liderança dos destinos do país e sensivelmente 50 minutos para explicar o que ele entendeu que correu mal e precipitou a queda do referido governo. Por isso, utilizou as seguintes palavras ou expressões: “o meu governo” 4 vezes; “ADI” 6 vezes e “Presidente Manuel Pinto da Costa” 54 vezes.

A entrevista em causa pareceu-me pobre e mais compaginável com o espetáculo de um “Tempo de Antena” do que uma entrevista, no sentido restrito do termo, que permitisse ao público refletir criticamente sobre o seu conteúdo e importância, relacionando-a com pertinência temática, “Estabilidade em S.Tomé e Príncipe”, inserida nos propósitos de desenvolvimento do país, tendo em conta, até, que Patrice Trovoada deixou o governo há mais de um ano.

Daí que os cometários, mais ou menos públicos, a jusante, estivessem todos relacionados com o desempenho do entrevistado e do entrevistador em detrimento do conteúdo da própria entrevista. Pudera! É pena que tenha sido assim. Este, portanto, não era o momento para ajustes de contas inapropriados, depois de Patrice Trovoada ter deixado o governo há tanto tempo e, do ponto de vista político, estar-se a viver um contexto mais convidativo à expressão de esperança do que declaração de guerras.

Patrice Trovoada preferiu insistir na guerra, até como forma de motivar as suas tropas, em total contraste com a situação social de passividade indiferente ou depressão do contexto. Só que em S.Tomé e Príncipe, de acordo até com experiências do século passado, que relatei acima, sempre que os partidos e agentes políticos decidem encetar este caminho de guerra ou hostilidade máxima, em contraste com as intenções dos grupos sociais, quem paga a fatura, quase sempre, é o povo.

Isto faz-me lembrar um provérbio que a minha avó, Maria Preta, repetia exaustivamente lá em casa: quando dois elefantes lutam quem sofre é o capim. Este provérbio traduz, somente, na linguagem ecológica, a expressão de uma relação biótica chamada amensalismo. Neste caso, os elefantes, não sofrem quaisquer prejuízos nesta luta e o capim é o único prejudicado.

Se este comportamento de agentes políticos e partidos, no século passado, era tolerável, neste século parece-me um anacronismo incompreensível sobretudo porque não há relações políticas e sociais sem história. Se os partidos e os agentes políticos existem na nossa Terra somente para declararem e fazerem guerras entre si, negligenciando as consequências e os problemas existentes, acabam perdendo a sua relevância como orientador da sociedade transformando, eles mesmos, em problemas políticos. E a fatura deste amensalismo anacrónico acabou de chegar.

O imbróglio político e jurídico relacionado com o secretismo na assinatura dos contratos entre o governo do ADI e um consórcio internacional, reiteradamente negado por membros do referido governo, conselheiros políticos, analistas, militantes e simpatizantes do referido partido, relacionado com negócios na área do petróleo, é um indício das consequências desta guerra para os interesses nacionais. Quem faz isto tem legitimidade política para reclamar dos outros falta de sentido de Estado ou conduta imprópria sobre a coisa pública?

A mentira, reiteradamente expressa, de que não existia contratos assinados naquele âmbito, somente memorandos de entendimento, para além de patética e indiciar a forma leviana, irresponsável e privada como os interesses de todos nós era tratado, denuncia um propósito de transformação desta mesma mentira numa verdade, típica daquilo que se verifica na ascensão e queda dos totalitarismos.

Por isso, por mais que esta mentira era repetida, até a exaustão, havia nas redes sociais, nas rádios e nos jornais, segundo me dizem, quem estava disponível a acreditar que essa era a verdade, apoucando o atual governo e sobretudo o primeiro-ministro num exercício de retórica baixa, inqualificável e típico de seitas religiosas, recusando ver a distância entre o anunciado e o realizado.

Agora, esta mesma mentira, que era o prenúncio de uma guerra, momentaneamente anunciada, foi substituída pelo silêncio vergonhoso de todos aqueles protagonistas que resolveram hibernar esperando pelas novas notícias do tempo para voltarem a sair das respetivas tocas. Quem decide, politicamente, sob pronunciamento público da mentira em detrimento da verdade, com objetivo de favorecimento político-partidário, de grupos de interesses ou de outra natureza, sem obedecer aos condicionalismos da responsabilidade de quem exerce o poder, num contexto de fragilidade institucional como o nosso, não é um decisor político é um usurpador de um lugar de decisão política por muito que nos queira demonstrar o contrário.

Adelino Cardoso Cassandra

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    Adalio Responder

    Muito bom. Tinha lido no jornal. Os nossos jovens politicos devem aprender com estas incongruencias.

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      Juvem sem Natal Responder

      Miguel foi o que foi e o filho repete a mesma coisa. Quem ouviu as pessoas deste governo do Patrice Trovoada a mentir acreditaria no que eles falavam. Mentirosos compulsivos.

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    Eu e Ela Responder

    A mentira tem penas curtas meu caro.Todos estes nossos governantes mentem e sempre mentiram. O Patrice Trovoada e sua corja continuam a a receita dos outros. Triste a nossa sina.

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      Misse do Nosso Pais Responder

      desde quando este senhor abilio neto sabe dar entrevistas. um lacaio de Patrice Trovoada.

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      Fradique Responder

      Este caso de mentira de navios tem de ir para tribunal. Membros de um governo nunca pode mentir ao povo. Patrice e seus ministros mentiram neste caso. Devem responder no Tribunal perante este caso.

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      Riboque Livre Responder

      Desde quando Abilio Costa Neto sabe dar entrevistas. Um garoto de recado de Patrice Trovoada.

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        Ponha Boca e Tira Responder

        Patrice Trovoada deve voltar para o pais para justificar estas coisas que andou a praticar. Como disse o senhor do artigo, quem mente nunca deve governar. O pais merece respeito dos governantes.

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        Nunca Esquecerei Responder

        Este caso dos barcos estava esquecido. O pais ficou muito mal nesta fotografia ainda bem que este artigo nos vem relembrar esta aldrabice de alguns politicos. Onde fica os tribunais para julgar esta coisas e outras que nos tem atrasado como pais. Eles comem tudo e o povo fica a ver navio.

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        Eles Comem Tudo Responder

        Gostei bastante do artigo. Muito bom e bem escrito. Estas coisas devem ser lembradas para que o povo saiba com quem lida e quais as manias dos nossos politiqueiros que enriquecem enquanto o povo fica mais pobre. Meus sinceros agradecimentos senhor que escreveu o artigo.

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        Jaca de Vigoso Responder

        Patrice e Vila Nova tem de vir responder por estas coisas todas. Uma vergonha.

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        Rua 3 de Fevereiro Responder

        Quando que Patrice Trovoada vem para o pais para responder estas coisas todas. Enganou-me com mentira dele, disse que ia faer isto e aquilo, e fugiu para portugal. Muito triste estas coisas. Eu nunca mais confio nestes politicos de nosso pais. Jorge Amado continua a escola de Patrice.

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        Tia de Almeirim Responder

        Neste natal todos deveriam refletir sobre os seus atos politicos e mudar porque o pais nunca mais vai endireitar assim. Quem mente nunca deveria ir para governo nenhum. Tenho dito. Titia de Almeirim

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    Trindadense Responder

    Meu caro, verdade pura. Quando os bois lutam capim sofre. O povo sofre por causa disto e eles ficam mais ricos. Patrice vive hoje em Cascais numa grande casa com filhos numa escola para ricos com criados pagos a peso de ouro. Ele nunca mais quer saber do ADI para nada. Ele usa o ADI algumas pessoas para seu interesse pessoal.

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    zeme Almeida Responder

    Propagandas tambem fazem bem as nossas mimorias.Nós os saotomenses somos mesmos assim,quando temos reservas de alguem,fazemos de tudo contra esta pessoa,é o caso que deve estar a passar com este senhor Adelino Cassadra.Este senhor Cassandra nos seus artigos só direcionados ao partido ADI e os Trovoadas.Será que os Trovoada deve alguma coisa a este senhor?Queremos coisas concretas com opinoes valida para tirarmos este STP do poco que se encontra.

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    LSA Responder

    Adelino, os seus artigos são bem estruturados e fundamentados. Mesmo que se possa não concordar com a sua linha de argumentação – o que não é o caso presente – há-que reconhecer que o senhor concorre de forma saudável para o contraditório. Já tinha lido este artigo no jornal Kê Kua. Continue a escrever. Obrigado.

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    Martelo da Justiça Responder

    Meu Governo……………..4 vezes
    ADI…………………….6 vezes
    Manuel Pinto da Costa…….54 vezes

    Esta estatística extraída da entrevista do Patrice Trovoada é de certo modo curioso e deve levar a uma reflexão profunda para avaliarmos a postura dos políticos que nos governam.

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    ej«««« Responder

    Cassandra é um louco nao sabe nada da vida politica nao é falar mal dos outro.

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      Cabo Verde Responder

      Tomara Deus que muitos dos Saotomenses fossem loucos como ele. Muita gente tem medo da verdade. Deveriam ver para o exemplo de Cabo Verde. Artigo muito bem elaborado.

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      Cabo Verde Responder

      Tomara Deus que muitos dos Saotomenses fossem loucos como ele. Muita gente tem medo da verdade. Deveriam ver para o exemplo de Cabo Verde.

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      BBB Responder

      Granda Cassandra!!!!!!!! Muito bem meu caro.

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    pantufas Responder

    Este Sr. é mais um comissário politico da troica.

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      Martelo da Justiça Responder

      Por dizer a verdade????!!!!
      A verdade dói mas tem que ser dita.

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      Porco Responder

      Quem pensava outra coisa destes politicos nacionais estava enganado. Artigo bem fundamentado. Muito obrigado.

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      Santana Grande Responder

      Muito obrigado senhor Adelino Cassandra.

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      Santana Grande Responder

      Quem acreditou no Patrice Trovoada que veja o que ele andou a praticar quando esteve no governo. Os seus seguidores que leiam estas coisas. Deus ajuda S.Tome.

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    Joao Ramiro Responder

    Eu também vi aquela entrevista do Patrice Trovoada. No inicio estive muito curioso e emocionado para ouvi-lo como alternativa para salvar STP, mas muito cedo fiquei decepcionado com o seguinte:

    (1) Patrice nao consegue falar com coerência. Ele tem uma capacidade de reflexão muito pobre e esta sempre a repetir a mesma coisa

    (2) Ele passou muito tempo a mencionar Pinto da Costa e nao fala nada da sua intenções ou visão para o pais que ele quer governar

    3) as vezes me parece que Patrice nem conhece STP mas esforça-se a convencer as pessoas de que ele e’ santamente. Isto parece tao ridículo para quem conhece Patrice.

    4) Patrice nunca falou sobre os acordos do barco, das lavagens e outras coisas que estão a sua espera no tribunal. E’ como se tudo fosse mentira. Sinceramente que ele parece um individuo a delirar, fora do real.

    No fundo a entrevista foi tao pobre que eu desliguei o programa. Confesso que fiquei muito decepcionado. Espero que ADI aconselhe Patrice a propor outra cara para salvar o partido ou estudar mais a estrategia, se na verdade querem fazer alguns deputados na sua bancada.

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      Pantufo Livre e Independente Responder

      Gostei muito do fim do artigo. Bom final conclusivo. Bom ano a todos.

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    Vitor Belchior Responder

    Boas Festas, afinal como é k fica tudo isto? a imagem k passa cá p fora,( Europa ) nao é a melhor, precisavam de aprofundar todas estas duvidas e nos locais próprios serem julgadas. Como amigo e apaixonado por STP fico um pouco dececionado com este Léve… Léve. Atitude.

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      Gibela Responder

      Muito dificil caro senhor. Os politicos deste nosso pais envergonha-nos. O Patrice Trovoada foi o ultimo a ter este gesto. Ele fugiu e vive a grande e francesa em Portugal com filhos na escola americana pagando muito dinheiro cuja origem desconhecemos. Muito triste…

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      C.O.O Responder

      Todos mentirosos estes politicos do nosso pais.

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    Barão de Água Izé Responder

    Neste texto, o povo até apareceu, só que disfarçado de capim, mas mais nada se lhe referiu.
    Dos políticos referidos, STP sabe qual é o seu pensamento politico; em que corrente ideológica se integram? Ou não serão mais uns candidatos ou possuidores de lugares de topo na Adm. Pública de vidinha bem orientada
    O povo de STP está farto de intrigas, , conflitos institucionais, ciumeira, corrupção, “banho” e telenovelas cordel de politica.

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    Eu quero Tcha Responder

    Vocês vão morrer a falar do Patrice Trovoada.
    O Homem é famoso.

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