Palavreando, adaptado in Eça de Queiroz

PALAVREANDO,

ADAPTADO IN Eça de Queiroz

Em São Tomé e Príncipe, não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição, ali quem tem olho é Rei. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.

A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse. A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio.

A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva. À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (…) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espetáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.” Adaptado in Eça de Queiroz, ‘Distrito de Évora” (1867)

O país perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada, os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido. Não há instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.

Alguns agiotas felizes exploram. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. O povo está na miséria. Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprezo pelas ideias aumenta em cada dia.

Vivemos todos ao acaso.

Perfeita, absoluta indiferença de cima a baixo! Toda a vida espiritual, intelectual, parada. O tédio invadiu todas as almas. A mocidade arrasta-se envelhecida das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruína económica cresce, cresce, cresce.

As quebras sucedem-se.

O pequeno comércio definha. A indústria enfraquece. A sorte dos operários é lamentável. O salário diminui. A renda também diminui.

O Estado é considerado na sua ação fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.

In As Farpas (edição de Outubro 2004), Maio de 1871

 

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    jose Luis Afonso Responder

    Amigo
    Quem fala assim, não é gago
    Então, passa de teoria, a prática.
    Venha ao país, e dê a sua contribuição para mudar as coisas.
    STP está farto de teóricos.Queremos a pratica.
    Esperamos o mais breve por ti para demonstrares na pratica a tua teoria
    Bem haja STL
    JLA

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    João Rosário Responder

    Caro Leopoldo,este aglomerado de palavras exprime uma constatação dos malefícios que contagiam não só a sociedade são-tomense como também muitas outras.A falta de transparência na gestão da coisa pública, a falta de responsabilidade,dignidade,espírito patriótico,a desonestidade dos que compõem o poder para com os seus concidadãos leva-nos a formular as nossa opiniões,o nosso desabafo face ao que consideramos desiquilibrado,injusto que a nós nos incomoda,com o qual não podemos ser coniventes.O direito a indignação,expresso em artigo de opinião,baseada em crítica construtiva construtiva ou uma simples citação,provérbio desde que enquadrada no contexto da política atual é sempre bem-vinda para pessoas de bem,mas lá está ,na vida não se pode agradar a todos.Governar com dignidade,em função do que se promete ao povo durante as campanhas,governar para inverter a situação de pobreza que enferma a sociedade,governar para travar ou desestruturar o eixo do mal que fragiliza as finanças públicas,não é permitida a rotina de acaso,jogadas,clientilismo ,intrigas ,ódio,perseguição…O país ,o povo,a camada mais desfavorecida continua esperançoso,mas desespera.A honestidade,a credibilidade das políticas,das governações são sempre suspeitas ,até provarem o contrário,porque motivações excessivas geram ansiedade e este tipo de motivação,o povo desconfia e com razão.Governos sucessivos ,todos eles rotulados de corruptos,a justiça corrupta que permite escândalos de naturezas várias.A culpa,essa continua a não conseguir casar.Ela continua solteira porque a consciência está em debandada e os poderosos do eixo do mal se protegem e são fieis a velha máxima:não pises o meu rabo…Quero sublinhar o seguinte, a teoria e a prática forma um casal perfeito quando há humildade,reconhecimento pelas capacidades do outro.Em política e em democracia para o bem da nação só se põe em prática quando é dado a oportunidade para tal,mas muitas dúvidas ficam a pairar quando assiste-se as políticas de terra queimada,prática comum dos partidos que vencem as eleições,quer no contexto de STP e outros.Caro Leopoldo é um direito opinar sobre o que achar conveniente e com este artigo de convite a reflexão não ofendeu ninguém.É mais uma contribuição e só não é bem-vindo para aqueles que não fazem e nem deixam outros fazer.É verdade que não se pode agradar a todos nem somos o dono da verdade.Bem haja e obrigado.Pode ser um simples frase mas poderá tocar na mente de um infiel e fazer com que o mesmo repense as suas más ações.”água mole em pedra dura tanto bate que a fura.

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    João Rosário Responder

    a corrigir:formam, quando se assiste

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    João Rosário Responder

    a corrigir: uma frase

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