Nauédji, o imortal

 

por Xavier Muñoz Torrent, geógrafo

Se alguma coisa interessante permite internet é adentrar-se num imenso arquivo de documentos à livre disposição, que possibilitam tirar do fio dos aconteceres da história, das suas imagens registradas em antigas placas fotográficas e mesmo divulgadas em forma de cartões-postais.

Nas que deviam ser as postais impressas mais antigas de São Tomé e Príncipe (há mais de 100 anos), aparecem as imagens fotografadas (ou inicialmente publicadas) pelo editor Manuel Lança, que se interessava pelas paisagens urbanas e de engenhos do progresso econômico das ilhas, mas muito especialmente pelos tipos humanos.

Uma dessas postais históricas –para mim a mais peculiar (extraordinária pela informação que transmite)­– reproduz em três imagens diferentes (fotografias circa 1900) a figura de um personagem concreto: “O Nauédji, serviçal da Casa Salvador Levy & Ca. S. Thomé”, como reza no título gravado em vermelho [a imagem para este artigo corresponde a uma versão colorida do original em branco e negro, publicada então pela própria Casa Salvador Levy].

Nauédji, talvez de idade próxima aos 30 anos, não muito comprido mas robusto, mostra-se descalço, ataviado com uma saia própria da vestimenta dos serviçais daquele tempo. Na primeira imagem, altivo, com as roupas de trabalho, com a rude camisola de ráfia e portando na mão direita uma longa vara a modo de azagaia [provavelmente com gancho para apanhar cacau ou banana]; e a outra de punho fechado, como de quem está pronto para o serviço (ou para o ataque).

Nas duas seguintes viste camisa branca e um velho casaco à européia (numa com boné), e comparece fumando, possivelmente na lassidão de um dia feriado de gravana e num espaço mais urbano, frente aos olhares de conterrâneos. Nas instantâneas, Nauédji também exibe colar no pescoço e argolas de metal nos tornozelos (malungas), que, junto ao seu nome e à época das fotografias, podem situar a sua origem em Angola, talvez na região dos maungos, n’golas ou gingas. Também é preciso observar que nas três imagens Nauédji aparece com a boca ligeiramente aberta.

No entanto uma das peculiaridades dessa postal comercial é que deve ser uma das únicas dessa época nas quais se identifica a pessoa fotografada, que, além disso, é um africano. Conseqüentemente, é de pensar que Nauédji não era pessoa qualquer na Casa Salvador Levy (o editor), senão por acaso alguém realmente singular.

Sobre a Casa Salvador Levy se dispõe de muita referência. Judeu e de nacionalidade inglesa, Salvador Levy, foi um dos grandes pró-homens da colônia no final do século XIX e inícios do XX; negociante e roceiro, muito presente no renascer do regime das plantações depois da abolição da escravatura, e a provisão de nova mão de obra pelo sistema de contratação. Aparece citado na monografia de Francisco Mantero [“A mão-de-obra em S. Tomé e Príncipe”, 1910] como um dos protagonistas do que aquele autor considera o primeiro período de renascimento da colônia (1855-75), adquirindo tanto prestígio entre o clube dos roceiros e comerciantes de São Tomé como para integrar o 14 de novembro de 1907 a comissão delegada que devia conferenciar com William A. Cadbury para tratar da ameaça de boicote inglês ao cacau santomense.

Também foi o impulsionador eficaz da primeira linha dos caminhos-de-ferro, entre a Cidade e a vila de Trindade (1908-1913), para o qual contratou os serviços do insigne Ezequiel de Campos (1874-1965), engenheiro que tanto conhecimento aportasse para o desenvolvimento de São Tomé. Trata-se por tanto, no momento da circulação do cartão-postal, de um proprietário de reconhecida solvência, bem aposentado e influente.

De Salvador Levy escreve Teresa Nunes [na sua tese de doutoramento, ao analisar precisamente da vida do eng. Ezequiel de Campos, 2011] que, na altura da sua morte, ocorrida repentinamente o 19 de Junho de 1919, os seus investimentos repartiam-se entre Lisboa, onde estava sediada a Casa Salvador Levy & Ca, da qual era proprietário, e a ilha de São Tomé, onde possuía as roças Ribeira Palma, Plateau, Milagrosa e Praia Grande [às que poderíamos adicionar Pedroma e outras tantas dependências; vid. anexos em Mantero, 1910], cuja exploração agrícola motivou a constituição de firmas agrícolas lideradas por ele próprio (Companhias Agrícolas de Ribeira Palma, das Roças Plateau e Milagrosa, da Roça Guayaquil e de Praia Grande). Levy era também parceiro da Sociedade Indústrias e Adubos Limitada e da Sociedade Tinoca Limitada.  Além disso, se apresentava em Lisboa como banqueiro e presidia o Conselho Fiscal da Empresa do Jornal do Comércio e das Colônias. Reputado membro da comunidade israelita, destacou-se como benemérito, mas também como Presidente da Mesa da Assembléia Geral do Comitê de Lisboa (1906-1916); e foi um dos entusiastas promotores do projeto de colonização israelita do Planalto de Angola (1912).

Podemos adicionar a todo isso que Salvador Levy foi pai do poeta santomense Herculano Pimentel Levy (1899-1969).

Em contraste, sobre o tal Nauédji mais nada se sabe. Não encontrei mais nenhuma referência que outras reproduções daquele cartão-postal guardadas em arquivos e bibliotecas; também profusamente à venda em diferentes sites alfarrabistas na rede, alguns dos quais chegam a pedir mais de 60 euros por um exemplar em bom estado. A existência de bastantes cópias disponíveis e em diversas edições faz-nos pensar que a tiragem foi considerável.

Esse protagonismo inusual faz que agora possamos reiterar sem dúvida que o Nauédji não era um serviçal qualquer. Devia ser muito popular na altura, mesmo tido em grande estima pelo patrão, pois não é habitual nas postais de correios dessa época concretizar o nome da pessoa, nem justificar uma edição tão especial sem ser um rei ou um governante.

E ademais com três retratos da mesma pessoa –três, e não apenas um–, como para quer salientar a figura, mesmo que tomasse movimento de efeito quase seqüencial… Ou talvez a procura de um tipo de recordação pitoresca para os europeus que enfatizasse o caráter exótico e aculturizado do personagem, com tudo singularíssimo na comunidade santomense. Mas talvez também para mostrar uma traça de humanidade no regime roceiro, duro e às vezes brutal sucedâneo da escravidão.

Nauédji aparece nos três retratos de boca aberta. De aí um fundado indício sobre a sua função social, pois o fato, intencionado, é bem iconográfico: ou foi um cantor célebre na ilha, ou um dançarino (na terça foto parece dançar, ao levantar uma perna), ou um grande falador, ou mesmo um tipo de griot ou jogral (contador de lendas, de tradições ancestrais ou mesmo de piadas)…, ou um pouco de todo isso.

Fica, por tanto, na incerteza até não aparecerem mais referências que o confirmem, levantando, entretanto, um novo mistério para os entusiastas da memória histórica das ilhas. Com tudo, a imagem do Nauédji, o simpático serviçal fumador, ficará para sempre imortalizada por esse esquisito feitiço digital; talvez mais imortal ainda e extraordinária que as daqueles que promoveram a sua interessada difusão.

Bibliografia

** Postal “O Nauédji, serviçal da Casa Salvador Levy & Ca. S. Thomé” (ca. 1905), disponível no repositório do Arquivo Científico Tropical do IICT, Lisboa. Edição original em branco & negro de Manuel Lança, ainda que reproduzido depois diretamente pela Casa Salvador Levy & Ca.

DINIZ, José de Oliveira [Secretário dos Negócios Indígenas e Curador Geral da Província de Angola], Populações indígenas de Angola, Coimbra, Imprensa da Universidade 1918.

MANTERO, Francisco, A mão-de-obra em S. Tomé e Príncipe, Lisboa, 1910.

NUNES, Teresa Maria e Sousa, O ideário republicano de Ezequiel de Campos (1900-1919), Tese de doutoramento, Lisboa, repositório da Universidade de Lisboa, 2011.

NUNES, Teresa Maria e Sousa,, “Desenvolvimento santomense na perspectiva de Ezequiel de Campos (1900-1910)”, em Actas do Colóquio Internacional São Tomé e Príncipe numa perspectiva interdisciplinar, diacrônica e sincrônica Lisboa, Centro de Estudos Africanos (CEA-IUL) + IICT, 2012, pp. 191-206.

VIEIRA, Salomão, Caminhos-de-ferro em S. Tomé e Príncipe, São Tomé, UNEAS, 2005.

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    Trindadense Responder

    Bom contributo para a compreensão da nossa história. Obrigado senhor Xavier.

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    Liberdade para Todos Responder

    Boa reflexão. Mais um herói nacional. com certeza.

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    Miki Responder

    Gloria eterna aos nossos heróis.

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    Gerhard Seibert Responder

    Caro Xavier,

    Interessante!

    Um outro roceiro judeu dos tempos de Salvador Levy foi Jacob Levy Azancot, natural de Marrocos e proprietário da Roça Java. Ele foi pai da Aída Ramos Azancot, esposa de Ayres de Menezes (1889-1946), o primeiro médico são-tomense. O filho de Aída Azancot e Ayres de Menezes foi Hugo José Azancot de Menezes (1928 – 2000), também médico e um nacionalista são-tomense que, mais tarde, se juntou ao MPLA.

    Nos anos de 1960, Hugo Azancot de Menezes esteve em Conacri, onde foi interlocutor de uma rádio e médico da família do presidente Sekou Touré (Veja em Mário Pinto de Andrade, As Origens do Nacionalismo Africano, Lisboa 1997).

    As campas de Jacob Levy Azancot e de um outro judeu (Salvador Levy?) ainda se encontram no cemitério de São João de Vargas em S.Tomé.

    Suponho que também na Enciclopédia Fundamental de São Tomé e Príncipe, de Carlos Espírito Santo “Bené”, deves encontrar alguma informação sobre estes dois homens.

    Um abraço

    Gerhard

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    Elena Responder

    Qué interesante y qué bien escribes Xavier!!!

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    Xavier Responder

    Obrigado pelos elógios, mas foi um prazer partilhar convosco essa anécdota documental

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