Opinião

A baía

por Xavier Muñoz Torrent, geógrafo

Voo curto e excitante, parte da intrépida aventura. Sempre achei que o avião é pequeno demais. Sossego os nervos de uma viagem ao rés das águas, quase a tocar as dorsais dos golfinhos e as barbas das baleias. Os motores vão travando o seu rugido, trocam de barulho, e os densos nimbos, cortinas de vapor, deixam entrever, a golpe de hélice, devagarzinho, a exuberância do manto verde que cobre a ilha.

Eis o Príncipe aos nossos pés enquanto o minúsculo avião se lhe aproxima. Nuvens e mais nuvens: um grande cúmulo de umidade que dá vida a um espesso mato equatorial, apenas interrompido por finos trilhos vermelhos, como artérias enchidas de sangue. Vida é a palavra, orvalho de vida dessa jangada esmeralda flutuando sobre o imenso lenço atlântico.

A aterragem não é simples: a pista é curta e a pouca visibilidade faz que o piloto, com suma perícia, nos obsequie com uma nova planada frente a Santo António e a sua estreita baía. Estou a olhar desde os céus o que tantas vezes consultei nos mapas, agora já obsoletos ao confronto dessa panorâmica tão real.

Nunca entrei por essa porta de mar a tão remoto paraíso e, na perspectiva aérea, as nuvens, sutis respingos pálidos, nos vão abrindo outro acesso à cidade escondida entre morros e planaltos, como se nós fossemos parte de uma nova onda oceânica a arremeter contra as pontas e os velhos cais, até chegar à praia do marginal; até quer lutar, já mansinha, contra a foz dos rios que alimentam a vila e que transferem verdor ao mar.

Desde o ar, a baía assemelha-se a uma mulher dormida entre lençóis, de pernas abertas, separadas, desleixadas, em pura transpiração orvalhada, num profundo sonho dos tempos, em admirada calma depois de intermináveis noites de paixão quente, de êxtase, contorneando a beleza de um corpo tenso, forte, feminino, a quebrar a solidão de qualquer herói impenitente.

O braço de mar desenha os interiores das suas coxas rijas e cálidas, e as contínuas ondas a suave leveza dos seus movimentos sonolentos. Adoro essa sonolência enquanto essa Kianda mexe a sua eterna sensualidade na minha imaginação, nas minhas memórias.

Lá em baixo cai um chuvisco fino, mas que, in crescente, vá calando as nossas roupas. Santo António nos receve cheio de poças e alagadiços, mas com o cheiro intenso a mato próximo, a fruta madura e a óleo de palma a queimar em múltiplos candeeiros; esse cheiro à África outrora perdido. É o meu novo reencontro com a África dos bosques.

Aspiro profundamente esse perfume cálido, esse fôlego que os deuses esqueceram nesse cantinho do mundo tocado de sublime beleza. Aspiro o tempo, aspiro o espírito da densidade arbórea a aranhar o firmamento, do capim recém cortado, das chalelas a ferver, do carvão ardendo nas cozinhas, do cacau a fermentar… Os ouvidos se destampam, por momentos, para espiar vozes: todas as da minha consciência.

A atmosfera fresca da manhã nos acompanha até uma varanda, privilegiadamente elevada, no Bairro dos Trabalhadores, ao outro lado do rio Papagaio, lá onde parece que do nome talvez pudesse explodir uma revolução em qualquer momento. Sum Osório, de áspera cordialidade, nos tem alugado alojamento na sua casa de passagem, e, severo, quase sem palavras, nos indica dois quartos no primeiro andar, simples, mas suficientes… quando podemos usufruir dessa areada visão sobre as casas, palhotas e quiosques, sobre a rua desmanchada e lamacenta, embaixo de grande número de cabos elétricos que, aéreos e desordenados, se entrecruzam.

Outra vez prestes a nossa vista, gentes modestas com simples guarda-chuvas, roídos de tanto suportar trovoadas, encaminham-se para as suas ocupações, não sem cumprimentar os forasteiros com um sorriso amável e uns olhos bem abertos à novidade, tão expressivos que falam por si próprios. É essa imersão de humanidade que dificilmente se vive num apartado resort. Quero viver lá perto da vila e mergulhar entre as almas nobres do povo!

Sum Osório nos observa desconfiado. Por acaso noutro tempo foi já a mais alta autoridade da ilha, e parece não ter sucumbido nunca à reforma, para ficar bem disposto em face de assegurar essa revolução da que falávamos. Agora a supre com orações cristãs, talvez esperando que os hóspedes sejam tão educados como para apoiar qualquer revolta, a sua.

Mas a revolta é a minha própria! Quis visitar os amigos e penetrar no país, e, desafiando lamas e aguaceiros, chegar até São Joaquim e avistar as Agulhas, banhar na praia Évora e na Banana, e passear de novo pela Sundi, pela sua sanzala, pelo seu terreiro, e admirar aquele vestígio da ciência que elevou a Albert Einstein à categoria de deus indiscutido, ao ter sido aquele lugar palco para as mais doutas constatações da sua Teoria da Relatividade. Com tudo, quase ninguém lá sabe o que isso significa: talvez uma nova forma de considerar a verdade das coisas, que, desde então, nem sempre é absoluta, nem categórica, nem tão sequer para as leis da física, nem para os namoros e menos ainda para a política e os líderes dos nossos dias.

A relatividade para aqueles fica como sempre foi: uma vida relativamente pacata, relativamente resignada, relativamente hostil, relativamente dura às vezes, e, controvertida, subjetiva, relativamente feliz, relativamente intensa,… Como a que se goza num jantar de maravilha no “Passô”, junto aos bons colegas, onde o de menos é o excelente molho no fogo e o de mais é o convívio. Falamos da tranquilidade da ilha, das vantagens e desvantagens do duplo isolamento, do infortunado navio “Príncipe” (aquele que foi capaz de viajar veloz desde longínquos estaleiros na Catalunha), dos negócios turísticos que todo o capitalizam, do irreparável aquecimento global, do portentoso cacau de Terreiro Velho e do futuro das comunidades de roça.

Lá ouvimos as notícias da ilha através do Firmino, o grande feitor, homem discreto, incombustível, que é acúmulo de conhecimento, permanente atualizado, nunca superado ainda por nenhum arquivo nem pelas novas tecnologias da informação. Tiramos do esquecimento as terríveis histórias que, como soias, contava o seu sogro (já falecido), degredado em tempos da colônia, arrancado as pancadas da sua Angola natal, da sua família lá, à qual nunca mais voltou a ver.

E, com tudo, exaltamos a excelsa paz que reina na ilha; que ainda agora parece rejeitar essas violências pretéritas, mesmo absorvendo o matagal as ruínas dos temidos baluartes de Ponta Mina e Santa Ana que antanho defenderam a boca da baia; mesmo despenhando os antigos canos, alguns dos quais, testemunhos do passado, ainda reposam ferrugentos nas praias e escarpes.

Mas também debatemos com interesse as ideias frescas do Núnú, sempre entusiasta com o seu trabalho nas florestas e do seu aproveitamento sustentável, a melhor imagem de um futuro bem-intencionado e enormemente estimulante… Rimos das relatividades do destino que nos aguarda, tão emaranhado como aquelas nuvens no céu, que, ameaçantes, fechavam o luar.

Resguardados em aquele único alpendre, a sorver cervejinhas fresquinhas, como quem beija à amada, desfrutamos, sem pressas, da conversa na brisa da baia, na baixa-mar, mais sensual ainda e inspiradora. E a chuva promíscua e insistente foi a melhor escusa para alargar a reunião até bem entrada a noite, entre brindes, cafés e uma sobremesa de bons desejos.

No regresso devagar junto ao rio, continuamos a partilha de múltiplos pensamentos, agora de charuto acendido, a resgatar passadas experiências, pesadas tradições, a devolver ao tempo os minutos que o esquecemos, para transportar-nos junto a tantas águas (de rio, de mar, de chuva, de orvalho, de transpiração…) às imagens de uma sorte entre aqueles lençóis mexidos pela nossa melhor amante, a procurar sempre o melhor amar.

 

 

    1 comentário

1 comentário

  1. Evaldo Wickerhauser Nogueira

    19 de Setembro de 2015 as 20:22

    Bela narrativa
    Espero que um dia meu sonho se cumpra e eu possa visitar São Tomé e Principe

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