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O Dito do Desdito ou do Interdito

Compatriotas, leiam os seguintes excertos: «As contribuições dos nossos parceiros, algumas falharam»; «Saímos de um período eleitoral relativamente longo»; «Reflexos também a nível das nossas relações económicas e comerciais com eles, nomeadamente algumas situações que surgiram no país, relativamente a circulação de divisas e de capitais. Todos esses elementos levam a algumas dificuldades nomeadamente na arrecadação de receitas»; «Agora… que a situação está difícil está.»; «O importante é que a situação está controlada. Temos um programa com o FMI, estamos a ser seguidos e controlados e não há razões para pânico»; «Temos que fechar algumas torneiras, as poucas que ainda pingam», avisou, para depois ditar a sentença. «É preciso um pouco mais de sacrifício» «Vamos tentar ultrapassar esta fase difícil dentro de 1 a 2 meses».Riam. São palavras do senhor Patrice Trovoada.

Caros leitores, a semelhança não é uma realidade apenas na esfera política, mas sim, em toda vida em sociedade. É na semelhança que as representações ficam conhecidas, e uma vez sendo comparadas, analisadas e combinadas é que se criam as identidades. A semelhança também se apresenta como ponto positivo no sentido de que, quem se assemelha, desfruta de uma forma de conhecimento. Num contexto político, o “parecer diferente” pode significar o “ser igual” por meio de uma maquilagem ideológica. Diante de tais reflexões é preciso reflectir se a semelhança não é esse monstro, por qual motivo ela é vista com olhos tão ruins? A resposta pode ser simples. Em tempos de controlo a sociedade tem confundido a extração da ideia essencial com a cópia fiel. A história de um país, por exemplo, exige que qualquer indivíduo obedeça a um discurso-padrão, pois, o cenário mundial já nos mostrou que quando há uma desconstrução discursiva muito abrupta, o fim, pode ser uma guerra ou uma dissonância ideológica mundial.

Nesse sentido parece haver um aparente paradoxo no caso citado, isto é, enquanto São Tomé e Príncipe enfrenta uma das mais altas taxas de desemprego de sua história, um candidato à reeleição (!) prometia que iria acabar com o desemprego. Mas o desemprego que ele prometia acabar, tinha sido deflagrado na primeira gestão de seu governo e o mais engraçado é que a máquina administrativa na sua totalidade foi utilizada para pintar um quadro diferencial da situação, mostrando que isto era apenas um período de transição, de ajuste para que o plano real se consolidasse na segunda gestão. Mas a verdade é que entre o final de seu primeiro mandato e começo do segundo, o país registrou o recorde histórico de falta de emprego e desta forma, o discurso declarado foi tão bem articulado e veiculado pela equipa governamental e pela comunicação social, ao seu completo serviço. Fazendo revés ao nossa memória, me desculpem trazer recordações doridas, com tudo isso, conseguiu reeleger-se (!?!) com 50,1% dos votos na segunda volta. Desconsiderar ou ignorar este processo é querer começar outra história (!) ou contar uma história diferente (!) utilizando-se uns óculos de lentes cor-de-rosa, é afirmar “inocentemente” que um gato que brinca com um novelo de lã não o tornará intrincado.

Entretanto, com o passar do tempo, tomando-se partido em benefício desses “poucos” ocorre à negação das premissas idealistas e a incorporação e materialização dos pressupostos do Príncipe de Maquiavel, como direitos inalienáveis de governante. Ora, a mudança de discurso do antes e depois é deixada na avenida de Vidjá Ubuê Bô, com entroitos a começar pelo título heróico do livro: “Sacrifício e a reconstrução da democracia em STP”. É interessante se observar que pelo menos o título é coerente com a realidade sócio-económica do país do autor e sobre o objecto de interesse do mesmo, cuja incorporação da visão neoliberal de anteriores gestão não pode ser objecto face à explicitação difundida pelo próprio governo e seus partidários, como o grande momento do apocalípse do também chamado país real, como verdadeiro marco do milagre africano. Nesse sentido há que se entender melhor o governo Trovadista por ele mesmo, isto é, a partir de seu próprio discurso, especificamente, acerca das principais linhas de acção ministeriais e sectoriais e as respectivas formas de fomento.

Para sermos donos do nosso próprio nariz e do nosso futuro, temos que ser capazes de definir com clareza o que queremos ser como sociedade, como nação e como democracia, e, sobretudo, como vamos realizar o que queremos.

Caros leitores, estão, certamente, de acordo comigo que queremos uma sociedade mais solidária, justa e livre das inseguranças económicas e sociais que infelizmente nos tem sido negado. Queremos uma nação unida para trabalhar, crescer e eliminar as brutais desigualdades sociais nacionais, com cidadãos aptos a resolver seus próprios problemas e, assim, ajudar a resolver os do país.

Nós agouramos uma nação soberana, com fronteiras seguras e uma política externa competente para defender os nossos interesses em benefício do nosso povo. Pretendemos uma democracia consolidada, em que todos os são-tomenses exerçam plenamente a sua cidadania, com imprensa livre, independente, sem tutela extrovertida do Estado sobre a sociedade, com dirigentes e partidos políticos capazes de exercer com firmeza e probidade a vontade política de que forem investidos.

Estamos sempre esperançosos por um projecto de desenvolvimento que apresente respostas ao presente e futuro desafios do país como Estado e Nacão soberana. Não queremos uma resposta tecnocrática, fria e mal acabada. Mas sim, competente, com resultado – aberto a novas contribuições – de um esforço colectivo de repensar em STP, num ângulo democrático e social, ouvindo a sociedade e procurando responder os seus anseios.

Caros leitores, mas o que de facto se tem constatado nestes últimos dias foi uma negação, não “dialéctica”, mas totalmente autoritária no sentido positivista mais aprofundado, pois embora suas justificativas tentassem explicar o quadro de dissabor económico e estrutural do país, suas acções denunciavam o oposto, ou seja, ‘tertius gaudet’ de grupos empresariais, deambulando privatizações de estatais sem uma consulta mais acurada da população ao nível de propósitos, retornos e investimentos a partir de indeterminadas verbas angariadas. O quadro acima é apenas uma pequena ponta do “iceberg” da condução desse governo, que mais do que nunca se caracterizaria, desde o primeiro mandato, com uma grafognosia e prática mordaz, arrogante e mendaz.

Percebe-se ao longo desta gestão, que o neoliberalismo do proclamado glorioso Dubai não se trata apenas de uma instância teórica e destituída de aplicação, muito pelo contrário a adesão explícita a este ideário se faz sentir pelos compromissos assumidos com os organismos internacionais (BM, FMI) e a operacionalização dos mesmos, sentidos concretamente pela população são-tomense, que ainda com o som ritmado do Fegúla Dançu nutre promessa de contenção da inflação e com ganho real do salário, iriam contribuir para a inauguração de sua hipotética segunda eleicão..!
Seria consensual, na minha opinião, se as metas propostas do governo fossem os pontos fundamentais para resgatar a imensa dívida social de São Tomé e Príncipe. É preciso combinar acções imediatas e reformas profundas. Tudo para garantir condições de vida digna para o mais humilde cidadão deste país. Mas será impossível garantir os avanços sociais se não formos capazes de definir e levar adiante um novo projecto para este país, que combina desenvolvimento com justiça social, crescimento com melhores salários, progresso com liberdade de expressão e manifestação, saúde e educacão gratuita e contínua. Chegou o momento de colocarem as pessoas em primeiro lugar. unir São Tomé e Príncipe, travar a inóspita peeira e tresmalhada social. Já é tempo para se inaugurar um país melhor e mais justo conforme o prometido – o doce Dubai.

Neste sentido, embora os discursos, à semelhança dos anteriores, explicitem até a preocupação com o bem-estar social, o que vai predominar nas economias é exactamente a ortodoxia neoliberal por meio do controlo social, expansão do capital, mercado abundante de mão-de-obra (neutralizando as acções sindicais), medidas que não atenuam ou deixem de enfatizar o pleno emprego, concessões fiscais àqueles que detêm o capital financeiro e a contínua politização dos sectores da administração pública estatal.

E é a partir desta perspectiva que se debruça o governo do senhor Patrice Trovoada, como tem sido constatado nos tópicos apresentados. Entre as palavras e as acções pode ou não haver lacunas, pode ou não haver intenções implícitas e/ou explícitas; o facto é – sendo verdade – que em determinado momento o que está oculto pode desvendar-se e desvendando-se serão iniciadas leituras distintas aproximando a comparação do discurso à sua operacionalização, o dito do desdito ou do interdito.

E, assim vai a governacão da amada terra da poetisa Alda do Espírito Santo! Que Deus do alto e todos os Santos, tenha piedade de nós..! A ver, vamos.
São Tomé, 01 de Novembro de 2016.

Júlio Neto

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    Sérgio dos Santos Responder

    Obrigado pelo brinde. Já tínhamos saudades suas. Dispensa, mais uma vez, palavras para elogiar. Apenas, dizer que seu trabalho para além de ser de opinião é, de facto, um grande trabalho académico, sr Júlio Neto. Parabéns.

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    João Barbosa Responder

    Meu Caro
    Desde quando o povo santomense não foi submetido ao sacrifício.
    Tu esqueceste num passado bem perto que o senhor Delfim Neves foi pedir arroz a um país vizinho dizendo que o povo santomense estava faminto? Naquela altura onde é que o senhor tinha a boca, as mãos para escrever e a critica para fazer.
    Esqueceu dos 500 milhões que o Brasil nos deu, e que o mesmo senhor foi comprara carne podre, leite podre etc?
    Onde é que o senhor tinha as mãos e que não escreveu nada.
    Considero que as criticas são boas para fazer, mas quando se nota uma parcialidade na forma de ver as coisas deixa de ser sério
    Por isso aconselho-o a ir trabalhar mais para ajudar a vencer a crises que o país sempre conheceu.
    Força e trabalha e deixa de falar a t^^oa como doido
    JB

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    Mau Sinal!! Responder

    «Temos um programa com o FMI, estamos a ser seguidos e controlados e não há razões para pânico»- Palavras do Primeiro Ministro, Patrice Trovoada. Confesso que não gosto de ouvir os meus governantes a falar assim, numa atitude de subalternidade perante uma instituição financeira internacional.

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