Carta de Rafael Branco

Pela primeira vez desde que existe o jornal Tela Non dou a minha opinião sobre um assunto. Louvo a coragem do Abel Veiga, que por sinal nem sempre foi simpático em relação a minha pessoa, mas é um jornalista cujo profissionalismo respeito. Se me abstive até hoje foi porque, embora reconheça que algumas opiniões assinadas são verdadeiramente interessantes e esclarecedoras, não acredito em debate sério quando as pessoas se escondem no anonimato para insultar, difamar, ofender outras pessoas. Faço-o hoje por uma questão de coerência, de integridade e honestidade intelectual.

Subscrevo a tomada de posição de São Lima. Merece o meu aplauso. Primeiro, porque se há uma crítica fundamentada que faço a este Governo é a sua posição sobre a utilização dos meios de comunicação social para apresentar uma narrativa oficial da realidade do país que não é, não pode ser contrariada, questionada ou simplesmente comentada.

Segundo porque eu sempre defendi na 2ª República a liberdade de expressão e mais do que a liberdade de expressão o direito de exprimir publicamente opiniões sobre os assuntos do país.

Em 2014, enquanto dirigente político, critiquei em directo na TVS o facto dos órgãos de comunicação social estatais não terem dado cobertura a chegada triunfal e mediaticamente bem arquitectada de Patrice Trovoada à São Tomé. Aquilo foi, a todos os títulos um acontecimento de relevância nacional e não devia ter sido ignorado pelos órgãos de comunicação social.

Enquanto Primeiro-Ministro fui acusado na primeira página de um jornal nacional, de estar a preparar um golpe de Estado contra o Presidente da República, Fradique de Menezes. Recorde-se que na altura o Governo tinha uma maioria absoluta na Assembleia Nacional, o Ministro da Segurança Interna pertencia ao partido MDFM, partido do Presidente Fradique. Não agi contra o jornalista em causa e terei comentado que este era um assunto para ser tratado pela Procuradoria-geral da República. Que eu saiba a Procuradoria nada fez então, ou se fez não tive conhecimento. Tratava-se de uma manobra política e como tal assim foi tratada por mim. Enquanto fui Primeiro-ministro nunca interferi nos órgãos de comunicação social e as minhas entrevistas eram colectivas, abertas a todos os órgãos de comunicação sem discriminação. As entrevistas mais difíceis, mais acutilantes e mais críticas em que estive envolvido foram conduzidas por São Lima.

Se escrevo hoje é, repito por coerência. Eu critico a política de comunicação social deste Governo. O que é lamentável é que muitos intelectuais críticos desta sociedade não tenham tido uma posição pública sobre esta matéria. Não se trata de criticar outras políticas do Governo, sendo elas criticáveis como muito se ouve nos pequenos grupos. Trata-se de defender um direito fundamental que garante a existência e a perenidade de uma democracia. Silêncio nesta matéria, revela muito do que somos, da maneira cínica como nos comportamos, para não dizer cobardia e falta de carácter.

Não sei escrever melhor que a São Lima por isso deixo aqui extractos de um texto de um teórico, Robert Dahal, que durante vários anos e em mais de vinte obras, escreveu sobre a democracia:

Dahal faz a seguinte pergunta: Porque a democracia exige a livre expressão?

Resposta : “Para começar, a liberdade de expressão é um requisito para que os cidadãos realmente participem na vida política. Como poderão eles tornar conhecidos os seus pontos de vista e persuadir seus camaradas e seus representantes a adoptá-los a não ser expressando-se livremente sobre todas as questões relacionadas à conduta do Governo? Se tiverem de levar em conta as ideias de outros, será preciso escutar o que esses outros tenham a dizer. A livre expressão não significa apenas ter direito de ser ouvido, mas também ter o direito de ouvir o que os outros têm para dizer. Para se obter uma compreensão esclarecida de possíveis actos e políticas do Governo, também é preciso a liberdade de expressão. Para adquirir competência cívica, os cidadãos precisam de oportunidades para expressar seus pontos de vistas, aprender uns com os outros, discutir e deliberar, ler, escutar e questionar especialistas, candidatos políticos e pessoas em cujas opiniões confiam – e aprender outras maneiras que dependem da liberdade de expressão. Por fim sem liberdade de expressão, os cidadãos logo perderiam sua capacidade de influenciar o programa de panejamento das decisões do governo.

Cidadãos silenciosos podem ser perfeitos para um governante autoritário, mas seriam desastrosos para uma democracia (meu sublinhado).

Dahal pergunta ainda:

Porque a democracia exige a existência de fontes alternativas e independentes de informação?”

Resposta: “Como a liberdade de expressão, diversos critérios democráticos exigem que fontes de informação alternativas e relativamente independentes estejam disponíveis para as pessoas. Pense na necessidade de compreensão esclarecida. Como os cidadãos podem adquirir a informação que precisam para entender as questões se o Governo controla todas as fontes importantes de informação? Ou por exemplo, se apenas um grupo goza do monopólio de fornecer a informação? Portanto os cidadãos devem ter acesso a informação que não esteja sob controle do Governo ou que seja dominada por qualquer grupo ou ponto de vista.

Pense ainda sobre participação efectiva e a influência no planeamento público. Como poderiam os cidadãos participar realmente na vida política se toda a informação que pudessem adquirir fosse proporcionada por uma única fonte – governo digamos – ou por exemplo um único partido, uma só facção ou um único interesse”.

Estas são as razões desta minha tomada de posição.

Coragem São e obrigado pela tua verticalidade.

Rafael Branco

 

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    pascoal de carvalho Responder

    O reconhecimento tardio, não inibe a importância do mesmo, pese embora diminua a importância em si mesmo. Contudo é de salientar a falta de apuramento da veracidade dos fatos em altura própria e dos respetivos responsáveis. Gato por tudo até mesmo pela ausência tangível de apoio a essa classe.

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    Homem Grande Responder

    Nunca é demais Agradecer ao Telanon!
    Muito Obrigado a São Deus Lima pela sua coragem , e a todos que estão impedidos de expressar as suas opiniões de uma forma clara e aberta por causa da política de perseguição adotada por esse governo.
    Não é porque temos medo ou receio de o fazer, mas tememos represalias as nossas famílias.
    Subscrevo Sr. Rafael Branco ao que disse na sua carta aberta, onde ressalto o seguinte:
    O Sr. Rafael disse que não sabe escrever como a São Deus Lima, tomara muito de nós saber escrever como São Deus Lima.
    Isso para dizer que devemos usar o que temos em mão, sendo que o senhor tem conhecimentos, Sr. Já foi embaixador e conhece muitas pessoas influentes por esse mundo fora! Mas não vou citar só o seu caso, Posso Falar de Olegário Tiny, Filinto Costa Alegre, Guilherme Posser, Maria das Neves e muitos mais nomes de políticos que sempre que posso acompanho as suas ideias independentemente de serem de partidos diferentes, isso para dizer que poderiam fazer mais, muito mais, usando o meio que têm!
    Então o que está em causa é uma nação de nome S. Tomé e Príncipe, é sério o que está acontecer em S.Tomé.
    Então não se espera outra atitude vossa que são políticos no activo ou não, que não seja firme e de Acção, sobretudo muita acção…

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    Victor Manuel Évora de Ceita Responder

    A democracia é feita exactamente deste exercício. Pena é que alguns, ditos, circunstancial e oportunisticamente, democratas, recusem esta realidade.

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    Homem insignificante Responder

    Meus camaradas, o que se tem passado em S.Tomé podemos dizer que é a “consequência da indefinição”;quando nós não definimos o que queremos fazer, um dia chega alguém que nos define a vida, que consequentemente lhe chamaremos de “ditador”. Mas, não! O que as pessoas não podem ter é medo das represálias. Ora,tais represálias não é de hoje e sempre sobrevivemos. Camaradas, o que se tem acontecido hoje em S.Tomé é fruto de uma árvore que foi plantada outrora. Falar da liberdade de expressão não é, para nós, uma nova colecção da nossa moda. Este assunto conheceu o seu apogeu há uns tempos atrás, se somamos a partir da independência. Ainda bem que temos o “Tela non”!
    Viva a liberdade de expressão! Viva a democracia, o poder do povo!
    Viva STeP!

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    rapaz de riboque Responder

    Só agora é que reconheces? Quando estavas no poleiro não te convinha reconhecer, porque graças ao Abel Veiga é que estamos informados de muitas coisas portanto acho que o Abel devia ser reconhecido por todos nós principalmente os que vivem foram do pais que graças a ele podem acompanhar o que se passa por cá. Força Abel não tenhas medo de desmascarar estes ladrões destes politicos desenvergonhados.

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      seabra Responder

      Muito bem doit,rapace de riboque . O senhor Rafael Branco Fez parte do sistema e beneficiou énormément de todos os privilégios…ele tb contribuiu para o que STP é hoje. Qualquer dos nomes citados desde o Gabriel da Costa,os Tiny ,o Costa Alegre e corja ,já mostraram quem são eles na politica, na direção e na responsabilidade de um país…nenhum obteve nota superior à 10/20…que fazer com individuos como os da lista? Hoje há muitos jovens quadros inteligentes,com qualificação para gerir e dirigir STP com capacidade,competência,talento e eficacidade…a eles é que deve ser entregue e confiar o destino de téla non…todos os veteranos são CADUCOS e fracotes. Podem servir,TALVEZ (?),de conselheiros,isto é,apenas alguns poucos deles…O resto deve retirar -se definitivamente da cena política porque são simplesmente ridículos,corruptos,larápios,mentirosos,des-honestos,falsos e traidores( o Gabriel da Costa que o diga ).

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    Antonio Rocha Responder

    Oh Sr. Rafael Branco. Até que enfim o senhor despertou. O seu sono já ia muito longo. Admiro como pessoas com responsabilidades com este país, mas grandes responsabilidades, como o senhor, o Guilherme Posser, o Carlos Tiny, Olegario Tiny, Pinto da Costa, Fradique Menezes, Daniel Daio, Norberto Costa Alegre, Alda Bndeira, Gabriel Costa, Francisco Pires, Dioniso Dias,Maria do Rosario, os irmaos Romão e Amaro Couto, Filinto Costa Alegre e tantos outros vão assistindo de forma serena e impavida todo esse desfile carnavalesco do Patrice Trovoada, do ADI, do Diogo Baluba sem dizerm nada. Meus senhores, quem cala consente e os senhores criaram essa situação que estamos a viver hoje. Por favor ajam e tentem salvar este país. Não basta vir dizer que gostou do que a São escreveu e que a São escreve melhor que o senhor. Nada disso! Aparecça, dê a cara, fala e contribua para que a nossa democracia volte a tomar o seu curso normal. São Lima escreveu, muito bem, ela deu uma opinião, emitiu seu ponto de vista, questionou sobre um assunto que aflige o país e periga a democracia, e por isso vão os parabéns para ela, mas eu esperava de si e dos demais cujos nomes acima referi, contribuições idênticas em vez de simples parabéns a uma iniciativa. O senhor vale mais do que apenas “parafrasear”.
    Abraços, tenho dito!.

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      seabra Responder

      ….principalement o Gabriel da Costa e os irmãos Daio ,que fizeram toda a campanha interesseira para o regresso da família Trovoada. Estes individuos têm uma grande responsabilidade na situação actual de STP…Gabriel da Costa tinha muita ambição do PODER que traiu o MLSTP e o Pinto da Costa, em detrimento do seu interesse pessoal. Saiu-lhe o tiro pela colatra e bem merecido…ele prejudicou e destruiu o futuro de muita gente pensando unicamente nele egoistamente…não se pode contar com um individuo com tal profil…é FRANGANOTE!!!

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    maria de nazare Responder

    A coisa é tão séria , que temos que deixar de reflectir apenas, sabemos que actualmente reina o pânico e o temor de perder o ganha pão, mas o facto é que, este será o nosso final, se não tomarmos uma posição firme.
    Não interessa quem é o culpado de o país cair nas mãos dos salteadores, mas, cabe a cada um dos actores políticos deste país deixarem de meter o rabo entre as pernas e pelo menos tentarem consertar os estragos do passado…O povo precisa que façam alguma coisa, até porque o que têm hoje é fruto da contribuição do povo de STP….
    Dê força e sabedoria aos jovens, para juntos salvarmos a democracia…
    Bem aja

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    Raul Cardoso Responder

    Subscrevo na íntegra a sua carta senhor Dr. Rafael Branco.
    Enquanto um ex-Primeiro-ministro, parabéns por ter nos brindado com o seu testemunho no exercício desta nobre missão.

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    Trindadense Responder

    O artigo é bom mas não era necessário algumas justificações do passado.
    Gostei.
    Abraços
    Trindade

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    Dionisio Ramos Responder

    S Tome e principe,tem homens inteligentes e muitos bonsnomes ja foram citados.Alegro me pelono desafio do Rafaeldo Branco e no meu pensamento peculiar diria que a democracia e a tentativa do homemdo para viver segundo a razao.Por isso voadores nao deviam nunca e jamais derrotar os poderosos tubaroes

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    luxemburg Responder

    Uma carta de solidariedade con a actitud e carácter de Sao. Uma carta a favor da liberdade e do direito a informar e ser informado. Uma carta para reivindicar as causas da verdadeira democracia. Sen recurso a ofensas nem bla-bla-bla. Falta agir no mesmo sentido.

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    Homem Grande Responder

    E agora srs e sras deputados(a)!
    E agora srs e Políticos!

    Vosso actual Primeiro Ministro mandou fazer um procedimento de revista aos deputados de Assembleia Nacional! E quem fez a revista ou quem encabeçou a operação de revista? Tropas Ruandesas!

    Isso será motivo ou não para envolver a comunidade internacional?

    E depois lá está; sempre com a farça ou desculpa de que foi um exercício. Exercícios que foram realizados,não foram suficientes!
    Estamos ou não no bom caminho?

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