Opinião

Solidariedade guineense ao Adeus de Wiston Rodrigues

Tudo parou por cada pancada de barro ruidoso, dolorido e desesperante de inundar as batidas dos corações confrangidos e sem mais alternativa de demora, ninguém resistiu a devolver o corpo juvenil à terra do Tejo para que a ondulação chorosa viajasse o rio lacrimal ao Atlântico de São Tomé e Príncipe por onde persiste a dor do interior, Trindade, antes a coroa rebelde da Corte.

O caixão da sentença fatal do Wiston transportado pela viatura fúnebre e vigiado pela cautelar contingência sanitária, foi seguido pela multidão magoada e não colorida ou léguas distantes das manifestações contra a violência policial americana que convergiu e despejou a Humanidade de joelhos no chão pelas praças dos EUA e do mundo em reivindicação da justiça racial.

No proveito da boleia americana, por ocasião de mais um aniversário da Declaração da Soberania de 1776, 4 de Julho, o Encarregado de Negócios dos EUA, em Libreville, o senhor Robert Whitehead, desigual de dirigentes do povo pequeno, sem complexo e com elevação tocou na ferida racial: “Sem essa cooperação entre as pessoas, sem protestos pacíficos e discussões sobre a raça, privilégio e preconceitos inconscientes, nem a América nem o mundo pode prosperar.”

Não restam questões pelo ar fastidioso de que a opinião pública portuguesa cedeu ao tribunal da Record TV e do jornal Correio da Manhã que na corrida desenfreada à audiência imoral e sem pejo sentimental acusaram as famílias são-tomenses de “narcotraficantes” tombados no combate em público com uma baixa mortal e dois feridos graves, cidadãos massacrados de jeito horrível.

Nesta altura com o avultado número de finados a girar o mundo que em meio ano passou de meio milhão de vitimados pela Covid 19, não deveria constar de mais um túmulo, o de brilhantismo solidário e juvenil assassinado pelas famílias ciganas, portuguesas, na desmedida violência de Maio passado. Portugal deveria, sem exclusão nem timidez, lamentar mais um crime bárbaro no panorama em que a imprensa tem dado espaços para debates em torno de homicídios entre a juventude.

Mas a acuidade civilizacional entregue à penitência vendeu, uma vez mais, aos olhos da Grande Lisboa o leve-leve de mulheres e homens que, ao seu contributo, engrandecem Portugal e Europa passando ao lado de confronto com os malfeitores da violência desproporcional que assassinou o prazer da vida de um jovem nascido no Dia de Camões e que se afirmava socialmente pela força do seu trabalho.

Nos 45 anos de soberania, não há muito tempo, o país uníssono de canetas, teclados e vuvuzelas havia saído à rua e para lá de portas em revolta santa contra a ciência que ilustrava os são-tomenses tingidos num quadro alcoólico, incluindo as inocentes crianças desnutridas e assediadas pelas canecas matinais da “cacharamba” para enganar o mata-bicho ao invés de tradicional “comida-gajada”, chá ou leite.

Com todas as dependências infringidas aos estados africanos, o aniversário da independência nacional ocorre num momento excecional e na inexistência de anti-corpos, a pneumonia viral veio complicar os neurónios dos governantes das ilhas, impulsionando-lhes a trair à embaixadora Maria Amorim, uma figura de gabarito internacional, caráter recomendável e alma grandiosa, recentemente maltratada e jogada ao lixo fedorento a oferecer a outra face para a cuspidela menos dolorosa. Que raio, os governos são-tomenses não acertarem na cantiga à sua diáspora!?

Enquanto andamos a trocar a flauta, Cabo Verde nos seus quarenta e cinco anos do triunfo soberano e por reconhecimento ao contributo da sua diáspora, recebeu em simultâneo dois troféus internacionais. A antiga ministra das Finanças, Cristina Duarte, de 57 anos de idade, é a coroada nova Conselheira para a África do Secretário-geral da ONU, o português António Guterres. Em simultâneo, uma outra cabo-verdiana, Elisabeth Moreno, de 49 anos, emigrada com os pais desde os dez anos de idade para França, é a atual Ministra para a Igualdade do Género, Diversidade e Igualdade de Oportunidades do governo de Jean Castex, o novo Primeiro-ministro francês da equipa presidencial de Emmanuel Macron.

Mas a pequenez da geografia territorial, por si só, não deveria e num incidente tão chocante, de tristeza e luto, compor a máscara pandémica de homens entretidos no trocadilho da mendicidade mental e credibilização escalonada da morte.

Cartas de amor, colóquios extemporâneos e contos tóxicos como cenários maquilhados de escamotear um corpo assassinado que a justiça portuguesa, sem trafulhices nem o eventual rugir de um velho curandeiro quisesse trocar voltas ao fantasma, guardou quase dois meses no sepulcro frigorífico da Medicina Legal.

“Mas o pobre não morre sem vela.” Aquando da passagem de um mês da agressão mortífera por tiro ao alvo humano, a jovem ativista guineense, Salli Seidi, em nome da comunidade radicada, em Portugal, num direto na oficina do malogrado e partilhado nas redes sociais, subiu ao palco melancólico lisboeta para dar a cara africana às famílias Rodrigues. Em manifesta solidariedade de tocar as consciências silenciadas no meio do mundo, condenou o ato bárbaro, clamou urgência ao final do luto físico e exigiu justiça contra os homicidas à solta, demonstrando uma sensibilidade “top” para com os são-tomenses enlutados. Obrigado Guiné-Bissau!

Nenhum suspiro formal para o “são-tomense ver” e provindo da terra que viu nascer Wiston Rodrigues desafiou ao vergonhoso túnel para demonstrar a inquietude ao banho de sangue humano ou solidariedade às vítimas. Uma traição à diáspora que ansiava a partilha de um comunicado oficial reclamando a execução de um jovem estilista e o ferimento brutal de outras duas vítimas do massacre de Seixal ocorrido na véspera do Dia da África. Qual a próxima bofetada para a pulverização mental?

Em dúvida criminal, no mínimo e mesmo na baixeza do espírito democrático, qualquer Estado digno de nome chocaria com as cruéis imagens difundidas nas redes sociais e na imprensa e, avançaria com a condenação ao hediondo ato e injustificável na civilização sem que tecesse valor acrescentado à brutalidade racial contra os filhos da terra. Vida humana banalizada!

Nada de convincente justifica o conformismo ilustrativo do sentimento de inferioridade de toda uma Nação que mal arriscou a dar um passo vertical em frente e dois atrás, caso a perícia forense viesse a atraiçoar às famílias são-tomenses.

O slogan STP (Somos Todos Primos) que nos sujeita ao redor de um mesmo quintal, São Tomé e Príncipe, vem sendo testado desde 24 de Maio com revés e para o desânimo familiar “Rodrigues”, o assassinato brutal e racial contra o filho na diáspora não sensibilizou a sociedade são-tomense mergulhada na banalização da crise sanitária respiratória e fatal que tem à espreita o aprofundamento da aromatizada crise ecológica, económica e política, em nada abonatórias à democracia social.

No fundo, o cabisbaixo de padrão nacional a notificar ao “salve-se quem puder” poderá ser escrutinado no estilhaço de suicídio coletivo – a não desejar – de destruir as ossadas de um jovem baleado mortalmente e na assembleia pública para despistar o rasto criminal, mas não apaga, nunca, o sangue da alma humana que escorre a mancha ardente pelo chão de Seixal, o epicentro do crime ignóbil e condenável contra Wiston, um pai de menores.

Os órfãos de modelo persistente deverão trocar as voltas ao ato horroroso e impulsionar a rota de conhecimentos para que cada treva da ausência do progenitor não se apressará como obstáculo intransponível, mas sim, as etapas a ser moldadas rumo ao êxito, lá aonde haverá o painel fúnebre e inconsolável atestado no tempo por uma única tribuna das ilhas de maravilhas, o digital Téla Non.

Finalmente, o ÚLTIMO ADEUS! No soberbo desígnio de metro e meio fechar a cortina de ansiedade, sem piedade de ceder ao choque de “kidalê”, quase dois meses passados do assassinato no solo português de um são-tomense, a quem de ação criminosa roubaram a preciosa vida juvenil, por fim, no último sábado, véspera de 12 de Julho, na batida das três pás individuais de barro, o leve chão de Santa Marta de Corroios, na Grande Lisboa, engoliu para a digestão natural os restos mortais de Wiston Rodrigues.

A justiça será feita!

José Maria Cardoso

16.07.2020

    3 comentários

3 comentários

  1. Assunção Cravid

    17 de Julho de 2020 as 13:41

    não consegui conter as lágrimas

  2. Zagaia

    17 de Julho de 2020 as 14:24

    Tudo isso,”morreu” como se costuma dizer por não haver uma imprensa nacional de investigação que interesse em saber ao certo o que se passou, enfim….. é a mentalidade pobre Sãotomense a funcionar.

  3. Seabra

    18 de Julho de 2020 as 4:29

    É triste que possam arrebatar a vida d’autruí súbitamente e violentamente.
    Cada VIDA CEIFADA por num crime bárbaro, rompe o meu coração, pois que me vem logo à memória o atroz assassinato do meu inesquecível amigo Jorge Pereira dos Santos, economista mestiço, vulgo Barboy…é difícil poder-se contar com uma JUSTIÇA correta contra os criminosos assassinos, à altura do ato que cometeram. Se em STP, um país pequenino, onde todos se conhecem, o assassinato do Jorge Pereira dos Santos que date de 03/06/2018 , ainda não foi possível a PJ fazer um inquérito corretament ( com todos os elementos que tinham ao alcance inclusive os cabelos que estavam nas mãos do malogrado ), de comunicar informações sobre os criminosos junto do Tribunal, os VADIOS assassinos ainda circulam livres…imagino, que para o jovem Winston , poderá ser mais complicado, porque a cidade de Lisboa é grande e podem desviar as pistas dos assassinos, embora sejam competentes em termos de organização e de equipamento.
    Que Deus recebe o jovem Winston e lhe dê paz nos esplendores da luz perpétua.
    Consolação e conforto aos familiares.

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