Opinião

O Medo Paralisa

Atualmente, tem-se difundido uma cultura de medo, isto é, alguns líderes pensam que para serem bons líderes é necessário que todos tenham medo deles, ou seja, pensam que impor uma atmosfera de medo na sociedade vai ajudar as suas governações.

No entanto, esquecem eles que o medo paralisa; o medo não une, separa. Uma atmosfera de medo não favorece o amadurecimento de nenhuma ideia nova, mas sim, impede que se trabalhe de modo criativo e efetivo. Dito de outra forma, se um dirigente tiver o medo e o controle exagerado como instrumentos mais importantes de governação, é certo que a criatividade e a imaginação serão reprimidas, a vontade e a alegria de trabalhar acabarão e, mais cedo ou mais tarde, a governação estará numa situação ruim.

Ora, o medo faz que cada indivíduo procure somente apresentar-se bem para que não possa ser criticado, para não perder o seu emprego.  Nesta atmosfera, cada um combate o outro, isto é, surge um clima em que as pessoas deixam de trabalhar umas com as outras para passarem a trabalhar umas contra as outras. O único interesse comum é a união contra os fracos. O fraco torna-se o bode expiatório. Assim que este é abatido, busca-se o próximo bode expiatório para dar o mesmo fim. Numa sociedade onde impera este tipo de atitude, cria-se um clima de desconfiança e de suspeita recíprocas, ou seja, as pessoas são vistas através do prisma da suspeita e da desconfiança do líder.

De um líder deste padrão não pode partir nenhuma liderança verdadeira, uma vez que ele se encontra desassossegado, preocupado, inquieto consigo e com o que os outros poderiam aprontar ou dizer sobre a sua pessoa.

Todavia, acredito que já chegou o tempo de os nossos líderes mudarem de tática se, de facto, quiserem ter uma boa governação. É necessário voltar a sentir que precisamos uns dos outros, que temos uma responsabilidade para com os outros e o mundo, que vale a pena ser bons e honestos. Vivemos já muito tempo na degradação moral, baldando-nos à ética, à bondade, à fé, à honestidade; chegou o momento de reconhecer que esta alegre superficialidade de pouco nos serviu. Queremos uma pátria para todos. Onde todos tenham lugar. Que não haja “excedentes”, excluídos ou explorados. Que esta pátria a todos nos consolide como irmãos na herança patriótica dos nossos antepassados. Que o rancor, esse jugo amargo que mata, não deite raízes no nosso coração.

Pontanto, meus caros senhores, liderar significa assumir responsabilidade por esta sociedade. E somente poderá ser confiada uma tarefa de liderança àquele que estiver disposto a estender a sua responsabilidade ao mundo como um todo. Um líder que cuida do seu povo é um semeador de esperança, ou seja, é a imagem daquele pai que desperta a vida nos seus filhos, que os apoia, que lhes dá a coragem para seguir os próprios caminhos, para procurar soluções.

Diz Anselm Grun que, se vocês quiserem educar seus filhos dentro de princípios louváveis, precisarão dar-lhes na mesma medida a pressão da disciplina e o alívio da brandura e afabilidade paternas. No fundo, se o governante adotar a tática deste pai, existirá um outro tipo de liderança, diferente daquela que é tão pregada hoje.

Vicente Coelho

    5 comentários

5 comentários

  1. Qintério

    6 de Julho de 2018 as 14:49

    Muito bom. Gostei. Um bom recado ou recomendação para alguns nossos dirigentes que estão a estragar este país que sempre teve uma cultura de tolerância como bandeira. É muito triste aquilo que este DITADOR está a fazer ao país. A culpa não é dele. Nunca esperei que os Sãotomenses ficassem como bobôs a verem este homem a maltratá-los desta forma.

  2. Zé cangolo

    6 de Julho de 2018 as 16:13

    Bom artigo meu caro. O continente africano ainda continua muito aquém do desenvolvimento porque a maior parte dos nossos líderes são arrogantes, querem ser sempre o primeiro violino da orquestra.

  3. Yhan

    6 de Julho de 2018 as 16:33

    Certamente, o artigo é muito pertinente.Um líder a quem não podemos criticar não é nenhum guia.Ele não segue à frente,mas antes se esconde atrás do muro que vai construindo.

  4. Hmbor

    6 de Julho de 2018 as 19:30

    Boa reflexão,um olhar crítico e construtivo.

  5. Tombe

    7 de Julho de 2018 as 9:12

    A cada dia acredito que aqueles nossos dirigentes se quiserem assumir uma tarefa de liderança têm de passar primeiro pelo exercício de auto-conhecimento. Isto é, terão que saber lidar com seus pensamentos,sentimentos, paixões e suas necessidades. Quem sabe assim, eles poderão tomar consciência das suas missões.

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