Análise

Carta aberta à Sociedade

Argentinopires-dos-santos.JPG Pires dos Santos, engenheiro agrónomo, antigo secretário de estado da agricultura, pescas  e desenvolvimento rural, manifesta-se revoltado com o desaparecimento dos barcos de pesca espanhois que foram confiscados pelo estado são-tomense.

 Carta aberta à Sociedade

Num instinto de desabafo de e de preocupação, tomo a liberdade de rabiscar essas breves linhas como desabafo de desespero.

Num primeiro impulso, pensei endereça-las a alguém especificamente, mas pensando melhor, percebi que se trata de algo que nos diz respeito a todos, por isso ele merece uma reflexão de todos. Faço isso na qualidade de cidadão pois, nessa qualidade todos temos uma quota-parte de responsabilidade pela situação que o país passa hoje. Alguns por acção, muitos por omissão.

A falta de uma massa critica que sirva de barómetro às acções de Governação e a excessiva passividade da sociedade civil em relação a actuação da classe politica na governação do país, fazem com que os dirigentes não se retratem perante os seus actos.

A verdade é que depois de três décadas de existência, marcada de sobressaltos, sou de opinião que a classe politica de S.Tomé e Príncipe devia ter acumulado experiências suficientes para poder discernir o bom e o mal para a população desse país e adoptar comportamentos dignos da confiança do povo. Quanto mais não seja para não cometer os mesmos erros de forma cíclica.

De tal forma que, ser politico em S.Tomé e Príncipe passou a ter uma conotação pejorativa…

Nos últimos dias, temos vindo a assistir a uma discussão pública de “surdos” a volta dos barcos espanhóis que ficaram abandonados na nossa baía, resultante da falência de uma empresa espanhola de pesca, facto que culminou com a confiscação dos referidos barcos por parte das autoridades nacionais.

Depois de variadas denuncias públicas feitas sobre a falta de actuação do Governo em relação aos barcos confiscados, muitos dos quais encalharam nas nossas praias, eis que surgem notícias do desaparecimento de dois deles!

A noticia de desaparecimento dos barcos por si só não espanta, pois já estamos habituados ao fenómeno de desaparecimento e/ou usurpação de bens públicos. Em S.Tomé e Príncipe, o fenómeno de desaparecimento de bens públicos é “normal”. Sobretudo, na administração pública esse fenómeno que envolve fundamentalmente, equipamentos informáticos, nunca tem solução, nem se conhece o resultado das investigações, quando isso tem lugar. O preocupante é o facto de não se ouvir da parte do Governo, qualquer pronunciamento sobre o assunto.

Qual é a leitura que se pode fazer sobre o desaparecimento dos barcos, depois de variados apelos feitos pelos antigos marinheiros dessas embarcações e factos tornados públicos sobre manobras recentes detectadas com o objectivo de retirar os barcos do local onde se encontravam ancorados!?

No momento quando os barcos já foram confiscados e que o Estado poderia arrecadar alguma receita, quanto mais não seja para ressarcir-se dos prejuízos ambientais causados a nossa baia, ao ambiente envolvente, regista-se o desaparecimento!

Qual é o sector responsável por esta área? Quem é o responsável por este sector? Qual é o papel e a responsabilidade do Governo nessa matéria?

Se as nossas instituições estatais não são capazes de tomar conta de uns barcos ancorados numa praia, o que podemos esperar delas quanto a nossa protecção?!

Não será o caso para questionarmos quanto a consistência dos argumentos utilizados para interpelar o grupo de cidadãos acusados de preparar um alegado golpe de estado?

Para que esses barcos pudessem estar em condições de navegabilidade para abandonarem o local onde estavam, os raptores teriam que necessariamente desenvolver uma serie de acções preparatórias o que inclui forçosamente o abastecimento com combustível. Como poderiam ter feito tudo isso sem que alguém tivesse dado conta?

Tudo aponta para que haja envolvimento de muita gente no “negócio”. È pois urgente que se chame às responsabilidades a quem as tem.

Não podemos continuar nessa contínua irresponsabilidade, sobre pena de estarmos a hipotecar o futuro da nova geração.

O Governo não pode continuar a fazer de conta que governa, enquanto meia dúzia de personalidades a encoberto de interesses inconfessados, defendem os seus interesses pessoais e dos seus aliados e continuam a viver às custas da desgraça da maioria da população.

É imperioso que se instaure um inquérito para apurar as responsabilidades pelo desaparecimento dos dois barcos.

Num país onde a pobreza se espalha a um ritmo acelerado, onde mais de 54% da população vive abaixo do limiar da pobreza, assiste-se a uma manifestação expressa de riqueza exterior por parte de meia dúzia de cidadãos, que colide com as reais capacidades do país.

Enquanto isso, como contraste, cultiva-se a incompetência, a arrogância, o oportunismo e o “deixa andar”, elementos indispensáveis para o encobrimento do enriquecimento ilícito.

É chegado a altura para se dizer basta a esse tipo de situação e que os sectores competentes tomem medidas adequadas para por termo a tudo isso, de forma que possamos finalmente tomar o rumo desejado no processo de desenvolvimento desse país.

È preciso que deixemos de retóricas e passemos definitivamente a acção.

È em nome dessa nova postura que desafio os governantes dessa terra a uma maior responsabilidade e respeito para com a população que os elegeu.

Argentino Pires dos Santos

Eng.º Agrónomo/MSc

 

Maio/2009

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