Sem palavras!

delfim.jpgSem palavras!

Sem explicações, doença maldosa!

 

A maldita enfermidade que me tirou o melhor amigo e companheiro de todos os tempos!

Com a morte do Francisco Silva, S.Tomé e Príncipe e o seu povo perderam uma parte da esperança de ver o nosso país melhor. Os sonhos e projectos que ficaram por concluir!

Francisco Silva foi, durante muito tempo, uma estrela que andava escondida no céu, até que em 2006, após as eleições legislativas e a sua consequente eleição ao cargo de Presidente do Parlamento santomense, surgiu o clarão a resplandecer as luzes da estrela e mostrar a capacidade de diálogo, a competência, a honestidade, a humildade, o saber e a imparcialidade que a sua figura retinha em si.

O Silva não foi para mim apenas um amigo e companheiro do PCD, partido que efectivamente nos ofereceu a oportunidade de nos conhecermos, devendo acrescer a esta relação um grau parentesco na nossa amizade, o de um verdadeiro “irmão”. Desde o primeiro dia em que nos conhecemos, após uma longa conversa atravessada por confidências e intimidades, concluímos que tínhamos muitas coisas em comum e as nossas ideias eram em quase tudo convergentes. Por isso, considerávamo-nos assessores ocultos um do outro.

A única matéria contraditória entre nós era o futebol português. Ele era um fanático benfiquista e eu um sportinguista de gema. Mas as nossas acesas discussões sobre o desporto e o futebol, em especial, mesmo quando se referiam a confrontos entre as nossas duas equipas, eram sempre animadas por sorriso, através do qual nos dávamos a entender que acima de todas as polémicas estava esse elo muito forte que nos unia e compartilhava os destinos.

A família do Francisco e a sociedade santomense não perderam apenas o marido, o pai, irmão ou um quadro dirigente político. Perdemos, sim, um ídolo, uma cabeça cheia de experiência da vida, um homem com amor pela vida e pelas pessoas, um conselheiro e sensato mediador. Por tudo isso, irei fazer a parte que me cabe relativamente a um homem, uma personalidade que tanto merece, partilhando a dor e suprir, na medida do possível, a falta que, dele, a família irá sentir eternamente.

A minha consideração pelo Silva irá perdurar para todo tempo da minha vida. Tenho muitos motivos para preservar a memória deste belíssimo homem. Vou citar apenas dois de tantos outros:  O Silva foi o primeiro aluno santomense a matricular-se na UNISUL – Universidade Sul de Santa Catarina – Brasil, com a ajuda de um ex-colega Secretário-Geral do Parlamento Brasileiro, onde concluiu os seus estudos superiores em Administração Pública. Logo após a confirmação da matrícula e porque ele era um homem que queria sempre o bem dos outros, ajudou-me a conseguir, no ano seguinte, a matrícula na mesma universidade. Hoje, embora tenha ainda uma cadeira em atraso, que garantidamente irei concluir ainda este ano, se me posso considerar um homem formado com curso superior na Gestão do Comércio Internacional, devo-o efectivamente ao Silva. A sua abertura e o seu espírito de entreajuda e solidariedade fizeram com que muitos outros santomenses se formassem e actualmente alguns continuem a estudar nessa universidade.

Quando estive no governo tinha, como é obvio, um gabinete apetrechado de quadros super-competentes que eram os meus assessores oficiais. Mas o Silva era o meu assessor principal e conselheiro especial oculto em todos os momentos de grandes decisões. Ele era um homem de muito saber. Só aconselhava para bem e quando os seus conselhos dessem para o torto ele nunca fugia, assumia parte das suas responsabilidades e ajudava a resolver ou corrigir com qualidade e sabedoria. Nestes e em muitos outros aspectos as qualidades do Silva eram ímpares na sociedade santomense.

 Por tudo quanto sinto pela morte do Francisco Silva, só me resta apresentar os meus profundos sentimentos de pesar à família enlutada, bem como preservar e prestar a mais merecida homenagem à sua memória, na certeza de que a sua alma descansará em paz.

Delfim Santiago Neves

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