Destaques

O ataque a Charlie Hebdo é realmente uma batalha sobre valores europeus?

Ao alvejar a revista, os atacantes lograram agravar as já profundas clivagens na sociedade francesa e estabelecer uma atmosfera fértil ao recrutamento de jovens alienados. 

Myriam Francois-Cerrah*/ NewStatesman
 * Académica franco-britânica

Tradução de São de Deus Lima 

Polícias franceses montam guarda à entrada de uma mesquita em Paris, enquanto os fiéis entram para as orações da sexta-feira.Photo: Eric Feferberg/AFP/Getty Images

É crescente a constatação de que o trágico ataque à sede da revista Charlie Hebdo, na quarta-feira, talvez não tenha sido provocado pelas caricaturas, em si. Ao invés, Charlie Hebdo representou um alvo estratégico no âmbito de uma táctica mais vasta de polarização.

Informações que vão emergindo sugerem que, pelo menos um dos atiradores envolvidos, Cherif Kouachi, tinha ligações terroristas antigas ao Iraque, agindo como intermediário na canalização de fundos a extremistas e como aspirante a combatente, ele próprio.

O cadastro da sua actividade terrorista remonta a 2005, pelo menos um ano antes da controvérsia sobre as caricaturas dinamarquesas. Isto sugere que podendo as caricaturas ter constituído um factor certamente motivador, não podem ser rotuladas como o ímpeto para as motivações de Kouachi. Na verdade e tal como se verifica, Kouachi encaixa-se num padrão crescentemente familiar de jovens muçulmanos europeus marginalizados, com poucas inclinações religiosas, excepto o interesse numa narrativa político-religiosa de vingança contra ‘o Ocidente’.

Mais: embora não seja impossível, parece improvável que Kouachi tenha aguardado vários anos para exercer a sua vingança contra  Charlie Hebdo depois da publicação de imagens ofensivas – o último maior escândalo remonta a 2012, quando a revista publicou uma série de caricaturas no rescaldo dos protestos desencadeados pelo vídeo ‘A Inocência dos Muçulmanos’ no Youtube. Muito mais provável é que, tal como sugere o Journal of Long War Studies, Kouachi tenha recebido, no estrangeiro, o treino militar a que aspirava. Poderá ter jurado lealdade a um grupo terrorista, talvez a Al-Qaeda, talvez o Estado Islâmico (antes ISIS).

O primeiro tem um longo historial de seleccionar alvos para causar o máximo caos, tanto estruturalmente mas, também, simbolicamente – basta pensar no prolongado e duradouro poder dos ataques de 11 de Setembro. O alvo não foi escolhido ao acaso. A Al-Qaeda cuidadosamente escolheu os edifícios mais altos da mais icónica cidade norte-americana, um centro financeiro e um símbolo da prosperidade americana. Também o Metropolitano de Londres foi seleccionado a 7 de Julho para provocar a máxima disfunção na cidade.

Talvez o que estes homens estivessem a alvejar fosse um símbolo, uma referência europeia, convictos de que poderiam reacender acesos debates sobre o lugar dos muçulmanos na Europa. Ao fazê-lo, poderiam aprofundar ainda mais as clivagens na sociedade francesa e criar uma atmosfera fértil para o recrutamento de jovens alienados, que se debatem para encontrar o seu lugar numa sociedade crescentemente hostil à sua presença.

Porquê a França? Afinal, foram os dinamarqueses que iniciaram a controvérsia das caricaturas. Nos últimos anos, tem-se vindo a assistir a crescentes restrições à liberdade de religião em França, denunciadas pela Amnistia Internacional e por outros organismos de monitorização dos direitos humanos.

À proibição do uso dos lenços nas escolas e dos véus em espaços públicos, somam-se inúmeras controvérsias desde as salas reservadas às preces à comida halal. A ira direccionada pela imprensa contra os muçulmanos tornou-se quase incessante. Isso não passou despercebido aos extremistas que chegaram a usar estas questões para proclamar a França como uma terra iníqua onde os muçulmanos não podem realmente sentir-se em casa.

Estes temas foram, inclusive, usados em vídeos de propaganda para instar à imigração muçulmana para o território sob controlo do Estado Islâmico. Sabemos que a França tem um dos mais elevados números de combatentes estrangeiros recrutados, o que sugere que a retórica está a ter alguma ressonância.

Em segundo lugar, porquê Charlie Hebdo? A revista foi, é claro, o ponto focal de várias controvérsias envolvendo representações incendiárias do Profeta Maomé. Em consequência da sua opção de publicar imagens que muitas outras publicações consideraram gratuitamente ofensivas, foi elogiado por apóstolos do ódio anti-muçulmano, os quais recorreram ao assunto para definir um confronto fundamental entre ‘o Islão e o Ocidente’, em termos monolíticos que recusam reconhecer ocidentais muçulmanos ou ocidentais críticos do Charlie Hebdo, não com base na religião mas em preconceitos.

Embora as anteriores controvérsias tenham sido polarizadoras, permitiram um meio-termo tanto para muçulmanos que ou não objectavam à linha doa revista ou se recusavam a dar importância ao que consideravam uma publicação ávida de dar nas vistas e ainda várias outras vozes, incluindo a de Olivier Cyran, um antigo funcionário do Charlie Hebdo que denunciou a revista por agravar uma atmosfera já de si tóxica para os muçulmanos franceses.

Ao terem alvejado Charlie Hebdo, a nuance desta discussão perdeu-se inteiramente e os atacantes foram bem sucedidos na sua tentativa de polarização. No Twitter, os posts ‘’Je suis Charlie’’ e ‘’I am Charlie’’, que exprimem um apoio acrítico à revista ao invés de simpatia para com os assassinados, apenas contribuíram para alargar o foss0.

Claro que é inteiramente possível ter pouca simpatia por uma publicação que muitas vezes resvalou para o racismo e ter total simpatia e solidariedade para com os indivíduos assassinados. Para muitos muçulmanos, estes posts constituem um alienante desafio resumível a ‘’ou estás connosco ou estás com os terroristas’’.

Alguns responderam com os seus próprios hastags, para manifestar a sua solidariedade para com os assassinados e o seu total repúdio pela acção dos assassinos. O escritor e activista Dyab Abou Jahjaj lançou o ‘’’Je suis Ahmed’’ (Ahmed foi o polícia assassinado com os jornalistas), dizendo:

Eu não sou Charlie. Eu sou Ahmed, o polícia assassinado. Charlie ridicularizava a minha fé e a minha cultura e eu morri defendendo o seu direito a fazê-lo.

Para ele, tal como para muitos muçulmanos e críticos do Charlie Hebdo, o princípio fundamental é precisamente evitar cair no tipo de dicotomia que o ataque parece ter sido concebido para criar.

Várias referências foram feitas ao facto de Charlie Hebdo ter parodiado ‘’fanáticos’’- sim, é verdade que o fizeram, parodiaram os símbolos sagrados de vários grupos, mas, em relação aos muçulmanos numa base frequente e com um tom distintamente racializado.

Não que isso deva em circunstância alguma provocar uma resposta violenta, mas a glorificação da revista como uma espécie de referência superior da tradição satírica europeia é uma forma de branquear o seu historial bem como uma capitulação à narrativa simplista segundo a qual ‘’ou estás com os racistas satíricos ou estás com os terroristas’’.

Esta narrativa serve apenas os extremos de ambos os lados que querem perpetuar a noção de que os muçulmanos não têm lugar na Europa. Parecem agora estar a trabalhar com o mesmo fim de tornar a vida difícil aos muçulmanos, com os simpatizantes da Al-Qaeda e os atiçadores da extrema-direita convergindo para criar o fosso que validaria a sua narrativa.

Se se confirmar que estes homens eram adeptos do culto que é o Isis ( a última caricatura no Charlie Hebdo foi do líder do Isis, Abu Bakr a—Baghdadi), então, em vez de usurpar a tragédia como uma forma de BERATE- os muçulmanos pela sua alegada incompatibilidade com ‘os valores europeus’, muito mais terá de ser feito para garantir que essa  grande alienação – a mesma que gera identificação com grupos de contra-cultura – não se aprofunde.

Devemos assegurar que os slogans de solidariedade se tornem mais do que um estreito e questionável apoio à publicação alvejada e se transforme em resistência a todas as vozes que pretendem dividir a França e endurecer as divisões já existentes. Mesquitas e muçulmanos em França começaram já assentir os impactos e é tempo de se responder ao ódio por detrás do crime congregando-nos numa solidariedade comum – a solidariedade enraizada na aceitação da diferença, nos respeitos pelos outros e no compromisso de derrotar todos os que estão empenhados em destruir os tecidos da nossa sociedade.

 

    6 comentários

6 comentários

  1. Miss

    12 de Janeiro de 2015 as 9:11

    Li atentamente o seu longo e bom artigo, sobre os ACONTECIMENTOS destes ùltimos dias: oS ataqueS terroristaS, que tiveram lugar em Paris.
    De facto, a situaçao tem-se degradado bastante, hà jà longos anos, quanto as condiçoes de vida das geraçoes de filhos de emigrantes, em todos os paises, particularmente na Europa.
    Quero apenas situar, brevemente em que contesto, tem evoluido esta degradaçao dos jovens…
    – sem dùvida que sao estigmatizados pela sociedade, porque foram atribuidas às familias destes jovens , um grupo de casas comunitàrias, onde vivem ùnicamente pessoas mais desfavorecidas da sociedade francêsa,
    – o desemprêgo é “maioritàrio” nesta comunidade, devido a discriminaçao…
    Hà jovens de 20 anos e mais, que nunca viram os pais levantarem-se de manha para ir trabalhar. Nao têm nenhum exemplo, do que é uma vida professional.
    O ensino ocupa-se muito pouco do “échec” destes jovens(aliàs, fazem tudo para que nao tenham possibilidades de fazer estudos prolongados, porque custa ao estado, visto que a escola francêsa é gratuita…).ETC!!!
    Consequência desta situaçao, é que os jovens têm tendência a se derraparem, em busca de algo lhes permite de sair desta situaçao MEDIOCRE e PRECARIA.Caiêm na deliquência (ligeira ou da pesada)!:
    – tràfico e consumo de produtos ilicitos,
    – organizaçao em bandos para assaltos,
    – refugiam-se num paraiso “prometor” que é o integrismo islâmico com tudo que inspira esta ideologia,
    a seguir , passam ao acto, que constatou-se por vàrias ocasioes, cujo o ùltimo, foi o caso francês com os ataques no local do jornal satirico CHARLIE HEBDO e o super mercado CACHER, provocando 17 mortes (incluindo os três terroristas, os irmaos Chouaki e o maliano Coulibally).
    Foi preciso que a situaçao chegasse a esta tamanha catàstrofe em França, para finalmente fazer agir os dirigentes politicos mais a sociedade civil, ora que foi uma CRONICA anunciada hà muito tempo!!!
    Doravante, espero que os responsàveis e civis…todos , possam levar em consideraçao o perigo que pode ocasionar a NEGLIGÊNCIA, de nao prestar atençao ao mal-Estar dos jovens na sociedade.
    Quero denunciar, pela mesma ocasiao, a HIPOCRESIA de certos dirigentes politicos que participaram à MARCHA DA LIBERDADE nas ruas de Paris, ontem domingo dia 11 de janeiro de 2015…o corrupto Ali BONGO, que teve descaramento de DAR à CARA junto dos outros dirigentes + democràticos do que ele, ora que hà coisa de um mês e poucos, houve repressao no GABAO, que resultou a alguns assassinatos (mandados por ele Ali), entre eles um estudante, simplesmente por causa de um livro escrito pelo jornalista françês Pierre Péan, onde denuncia o Ali BONGO e os seus crimes etc. O livro foi proibido de venda no GABAO. Começam as vozes a levantar-se contra o Ali BONGO, para denunciar que o pais onde hà menos liberdade de expressao, de presse e média é o GABAO dirigido por um DITADOR.
    Hoje passarà uma emissao às 14H, na ràdio FPP, 106.3, que vai denunciar o ALI BONGO e outros dirigentes africanos…islamistas , corruptos e criminosos!!! Nao é o que falta no nosso continente AFRICA.

  2. luisó

    12 de Janeiro de 2015 as 12:17

    É tudo muito bonito o que escreve caro(a) Miss.
    Mas também devo dizer-lhe que em França e noutros países europeus há milhares de imigrantes (pais) que saem todos os dias para trabalhar e pensando em dar uma melhor vida aos filhos para não repetirem a sua e estes faltam ás aulas, vivem nos bairros e dedicam-se ao crime e só quando é tarde é que os pais dão conta porque estão a trabalhar para lhes pôr comida na mesa. Ninguém os obriga a esta vida porque então também os pais a faziam.
    Depois o viverem nesses ditos bairros não é tão mau assim, seria bem pior viver em barracas de madeira sem energia e água com em quase todos os países africanos e na Europa ou não pagam ou pagam uma ninharia pela renda, por isso são bairros sociais.
    Isto para não falar dos subsídios para crianças, rendas, comida e roupas, etc, coisa que não há em Africa.
    Por isso nem tudo é mau porque senão não faziam filhos e não viviam lá, porque ninguém é obrigado em viver na Europa.
    Não há continente no mundo que dê tantas oportunidades para viver, trabalhar, estudar, condições de vida, de religião, etc, como a Europa, por isso são aos milhares que tentam a toda a hora ir para lá e depois falam mal de quem os acolhe, dizem-se excluídos, traumatizados, e metem bombas ou fazem ataques contra pessoas que nunca lhes fizeram mal, tipo cobardes e em nome de algo tão supremo como DEUS.
    Desculpas de maus pagadores que são apenas criminosos.

    • Miss

      12 de Janeiro de 2015 as 21:41

      Luiso, você evocou alguns aspectos justos. Mas acredite-me q não é assim tao evidente de passar ao acto, sem se ter uma profunda ferida interior, uma tormenta atroz q conduz a cometer o irreparavel.
      Embora nao se trata de uma desculpa( q ñ existe neste caso…), pq é um acto CONDENÁVEL e complexo.
      Não existe acto + bárbaro do q este sucedido…houve morte de homem! 17 vidas ceifadas, viúvas, órfãos etc.
      Deve-se reflectir , seriamente, sobre este novo terrorismo …quando à tensão baixar, os Espíritos voltarem em nós, poderemos analisar com a cabeça fria. Lembro aos leitores, q os irmãos Kouachi cresceram de familia em familia, porque ficaram órfãos muito cedo.

  3. Mali

    12 de Janeiro de 2015 as 13:53

    Um artigo que faz reflectir.

  4. Zmaria Cardoso

    13 de Janeiro de 2015 as 8:37

    Ha quem encontre armas para combater ao inimigo, alias, foi o que condenamos nos ataques do Ocidente ao Iraque e a Libia seguido de assassinato dos seus lideres Saddam e Kadhafi.
    Na altura do assassinato de Kadhafi, rapidamente Estado africano de linha da frente em indices de democracia correu a apoiar o Ocidente e ao Conselho Revolucionario Libio.
    O que fizeram os Estados que comeram as maos de Kadhafi?
    Um a um foi aplaudindo os factos consumados. O que é feito da Libia que tinha com o seu petroleo um ambicioso projecto para a Africa?
    Uma coisa é uma coisa, outra coisa é…
    Infelizmente, ainda existem muitas Africas ao sabor dos ventos do mundo.
    Ha quem encontre lapis para caricaturar Deuses ou até Papa com preservativo no nariz.
    A França expontaneamente saiu a rua em milhoes sem estar a espera de Deus ou Salvador.
    Por mais que andemos em conhecimentos académicos o mundo real é aquele onde pisamos os pés e se possivel lavarmos na lama.
    O mundo nao é justo. Muito longe disso mesmo em sociedades ocidentais.
    Manter as maes desses “meninos” armados para matar, fechadas em casa numa França de Liberdade, algumas mais de 30, 40 anos na Europa, sem direito do marido para falar a lingua francesa, com um unico canal televisivo “islamita” em casa e nao pisarem aos cafés e sitios sagrados deles e dos filhos machos, é por culpa de discriminaçao do acolhedor?
    As jovens colegas francesas, portuguesas ou até africanas de outras culturas, nao poderem levantar vozes em defesa de certos assuntos de aulas em detrimento dos rapazes sob o risco de apanharem na sala ou la fora, apenas por terem contrariado ao colega-homem, é culpa do acolhedor?
    La em casa a mae nao fala, as irmas mesmo mais velhas nao contrariam aos irmaos porque esta assim escrito.
    O bom é que como em bairros de barracas de Lisboa e de outras cidades da nossa lingua, vao saindo doutores entre os “islamitas” na Europa.
    O mundo anda rapido demais para alguns.
    Poupem aos menos eesclarecidos.

  5. Pavlov

    13 de Janeiro de 2015 as 15:51

    Artigo interessante, profundo e que levanta muitos aspectos dignos de reflexão.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Recentemente

Topo