Kê Santomé!

Na última noite estava numa conversa alongada com um amigo neo-zelandês. Uma daquelas que normalmente a gente tem, e grátis, no Skipe. Mas aquela era diferente e especial porque tinha outro teor… Dizia-me que quando se viu a braços com um problema sério de saúde, tinha muito medo dos médicos. Confessou que uma das coisas que mais o impressionou e mais temia, era o poder da medicina e dos médicos da sociedade actual. Afirmou que a má vontade de um médico é mais para recear do que se pensa, mas quando este poder sofre a ingerência do poder político, então o cidadão tem bastas razões para entrar em pânico.

Como é costume, como bons leitores, perguntamo-nos (eu e o meu amigo) qual era o livro que estávamos a ler… aconselhei ao meu amigo a ler “ The Empty  Chair “, de Jeffrey Deaver, ao qual se resume no seguinte: – o mestre em criminologia Lincoln Rhyme tendo perdido um braço e uma perna, vivia desvendando crimes, a fim de manter o seu cérebro activo; seguindo a recomendação da sua médica.

Ao deslocar-se, num dia, para tratamento, viu-se envolvido, inesperadamente, numa perseguição de vida ou de morte a um raptor conhecido como o Miúdo dos Insectos…”Chamam-lhe miúdo dos Insectos e é verdade que conhece bem os insectos. Sabe como eles vivem e como eles morrem. Sabe como iludem os seus perseguidores. E, acima de tudo, sabe como eles matam”.

E, a partir daí comecei a reflectir, finda a nossa extensa conversa.

Se criar é tão fácil, pois segundo parece basta transpirar muito, porque eu, que neste momento sou noventa e nove virgula noventa e nove por cento de transpiração, não consigo sequer os zero vírgula zero um por cento de veia para escrever um artigo que não me envergonhe nem aos meus estimados leitores. Eis senão quando abalado pela santa noite e pelas memórias daquela conversa, me veio uma repentina inspiração para escrever um artigo que dei o título de “ Kê Santomé! ”; em resposta também à uma solicitação de um conterrâneo da diáspora Alemã, pediu-me que escrevesse algo sobre a actual conjuntura socioeconómica e política, como fazia dantes, que lhe pusesse a cachimónia numa profunda actividade intelectual. Numa verdadeira e exaustiva mexida dos neurónios para os intelectuais!

Ora bem, meu amigo; aí vai, boa leitura e profunda reflexão.

Estou com medo de 2015, e isto porque quanto mais anos se conta na era de Cristo, pior se torna o mundo e mais crucificada é a humanidade: impera o terror, mata-se em nome de deuses, decapita-se por afinidades políticas, espia-se em nome da segurança dos nobres, empobrece-se em nome do capital! Vive-se temendo da doença, pobres morrem à espera da cura, jovens desesperam-se e desamparam-se os velhotes, crianças apavoram-se nas escolas, aos olhos de padres, apóstolos, pastores (que já são centenas, ou milhares no minúsculo país, nem sei!) que os possa ajudar orando nas suas lojas e pelos seus deuses, etc., etc. Não há solução, senhores omnipotentes?

É verdade que está um calor intenso, capaz de esturrar os neurónios ao mais inspirado dos génios… problemas inéditos que jamais esta sociedade conheceu e que ainda não se inventou o nome a dar a tudo isso! Um silêncio assustador e temeroso…

Para as gerações futuras, ou para aqueles a quem falta ainda muito tempo para a idade da aposentação, o drama situa-se em saber se ainda haverá dinheiro para a pensão quando chegar a sua vez, e se houver, quanto auferirão e quanto tempo lhes restará para gozar um pouco a vida, numa velhice digna e honrada. E com que qualidade gozará esse descanso?

E a propósito disso, lembro-me daquela lenda grega em que o mortal pediu aos Deuses imortalidade, fizeram-lhe a vontade, só que se tendo esquecido de pedir juventude eterna a vida tornou-se-lhe pior tormento que a morte. Será que quando a esperança média de vida seja cem anos de idade a reforma só poderá ser aos oitenta. Será que os nossos cientistas vão ser Deuses capazes de, além de adiar a morte, darem aos são-tomenses não digo a juventude eterna, mas pelo menos que aos oitenta no futuro, correspondam os sessenta de agora?

Não se desesperem porém, pois que a seguir virá 2016. É ano de eleições. E haverá, como é costume, pão e muita música.

A memória é como um armário onde guardamos tudo o que nos acontece neste exercício intelectual de existir: os bons, os maus momentos, o singular segundo do tempo que só reconhecemos como vividos, quando o tempo nos leva a esperança de fruir os instantes de que é feito o trabalho de viver. Neste armário, lá bem num canto, atiramos o que deliberadamente queremos esquecer, o que desesperadamente queremos apagar, como se não acontecido, como se não vivido.

Aqueles que sobreviveram aos ataques suicidas ou da intentona afronta da casa cor-de-rosa lembrarão, inexoravelmente, os que ficaram em pedaços repartidos. É inesquecível o retrato dos que usurpado dos afagos das crianças abusadas para fins tão criminosos, mães e avós violadas em ilícitos sem precedentes, não haverá perdão escrito nos arcanos do céu. Porque recordar não é o mesmo que lembrar: recordar é perscrutar a memória, lembrar é operar a recordação, é apertar no botão e termos à disposição o instante único, irrepetível, tal qual o sofremos, tal qual o desfrutámos.

Afinal, está tudo estragado. Nós rimo-nos. Mas é verdade…no meu tempo… E começa-se a desfiar recordações…

Sabemos que esta coisa de dividir o tempo em anos, apesar do fundamento científico inerente a um novo ciclo que se repete na marcha democrática, não passa de um pretexto para esquecer o que de mau tem o presente, e uma oportunidade de exercício da promessa de que no porvir, é que se há-de encontrar a salvação. E apesar de se continuar (fingindo que não!) pedindo paciência e de os são-tomenses estarem prestes a perdê-la, de nos continuarem a prometer paraíso após purgatório, alheios à aventura, do velho e do já experimentado, no fim e indiscutivelmente, estaremos todos no desafio de construção do futuro!

Mesmo carregada de utopia e de ingenuidade, a crença nas virtudes de um ano 2015 reflecte a vontade dos homens e das mulheres são-tomenses purificar, se refazer e de renascer das próprias cinzas.

Agora, lembro-me sobretudo do filho do meu amigo que queria ser médico, príncipe e noivo (risos!). E eu que queria vê-lo crescer, singrar, segurar no colo os filhos dele… Também é inesquecível os que todos os dias suicidam o futuro na ponta de uma seringa televisiva, quase que escravizado pela mais abjecta miséria moral da humana condição.

Assim, só nos restará nos arquivos da memória um cacifo vazio onde buscar a lembrança dum futuro consumido na voragem da iniquidade. Contrariamente ao que parece ser verdade, mais importante que ter dinheiro é saber o que fazer com ele. O dinheiro é só um dos meios ao enriquecimento, por vezes nem o mais importante.

Felizmente, pelas minhas origens, sei que o povo são-tomense não precisa de rever em nacionalista, pois ninguém será suficientemente grande para representar a grandeza das suas gentes que demonstraram determinação, coesão, prontidão, harmonia, perspicácia e espírito de luta, no seu passado histórico. Infelizmente, os descendentes destes ilustres homens a quem, merecidamente, todos temos um grande apego, respeito e consideração, viram suas memórias vaiadas, senão insultadas e enxovalhadas. Que falta de patriotismo!

Paradoxalmente, são muitas e fortes razões que ouvimos apregoadas para combater as sem razões faraónicas, e para nos fazer acreditar que o sacrifício traz no ventre a felicidade, que preencherá os dias vindouros sem fim, de gozo e fruição das delícias terrenas que encontraremos nos corredores de talvez mais um centro comercial ou uma mesquita (risos!), ou numas abençoadas férias nos ainda agora proibitivos paraísos turísticos.

Caros leitores, mais uma verdade inquestionável, filha do tempo e das mentalidades, emerge neste ano 2015: – o Deus já não é o que era!

É tempo de férias e antes que nos dê a crispação ilusionista, o melhor é esquecer as agruras da vida. E entre uma cerveja e um mergulho, gozemos a volúpia da preguiça e a impassibilidade daqueles a quem devemos aliciar como nosso potencial guiador. E quando um médico se decide por um internamento ou uma cirurgia, significa que o pobre Jesus Cristo está mesmo doente e não lhe resta outra solução: ou se trata, ou bate a caçoleta.

Como vêem, meus amigos, é só para intelectuais.

Essa lembrança, é que não se esquece nunca!

Trindade, 14 de Abril de 2015.

Júlio Neto

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    Atento Responder

    Fabuloso texto meu caro.
    Imprimi-o e sedente de boa leitura, devorei-o em papel, sentado junto ao mar.
    Assim vale a pena ler, meditar e embebedar-me na profundidade do mesmo.
    É divinal quando aborda da mitologia grego-romana a figura da ave FÉNIX no parágrafo em que escreve: “Mesmo carregada de utopia e de ingenuidade, a crença nas virtudes de um ano 2015 reflecte a vontade dos homens e das mulheres são-tomenses purificar, se refazer e de renascer das próprias cinzas.”
    Simplesmente adorei!!!!!
    Meus parabéns.

    Um forte abraço.

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    Ma Fala Responder

    Um texto rico e eivado em subtitela com Aforismos profundos, porem recheado de veritas, bastante apelativo e de teor reflexivo.
    Meus aparabens!

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    Fernando Santos Responder

    Impressionante..! Confesso que adorei ler e saborear o texto.
    Sinceramente, é preciso acreditar que em STP, há intelectuais!
    Felicitações.

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    ideiafix Responder

    Profunda, interessante e muito concreta reflexão. Parabéns ao Autor.

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    seabra Responder

    Senhor Júlio N., apreciei o seu bonito ESCRITO…li-o como se se tratasse de um romance, tão delicioso é. Mas o que mais gostei, foi a boa e forte mensagem, muito pertinente,delicada / suave e com muita classe.
    Alinho e agrada-me o seu jeito de combater, com uma EXCELENTE arma : a inteligência e a caneta.
    Júlio, proponho-lhe formarmos um exército de LETRAS ….no fim triunfaremos. É um NOBRE combate.
    Continue …força!

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    Carlos MENEZES cabe Luanda - batepa Responder

    Que bom . A varias razoes para eu estar feliz com seu texto . Soo seu vizinho voo a s.tome todos meses por razoes familiar e negocios . Estou a 7 anos a trabalhar em Angola
    Deus crio o mundo os homens criaram a misérias .
    Uma das razoes do nosso fracasso em s.tome e principe e que temos
    Muitos sábios e poucos burros ou seja quem vai trabalhar si somos
    Todos foro ou aforriados . Patronos e políticos. Doutores quem vai
    Trabalhar no nosso pais ? Ate já

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      Julio Neto Responder

      Agradeço a sua nobre contribuição; e meus sinceros agradecimentos

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