Opinião

Radiografia Sociopolítica da Região autónoma do Príncipe

Foi com grande entusiasmo que o povo da ilha do Príncipe lutou para institucionalização da autonomia no Príncipe, para que desta forma, pudesse escolher e decidir democraticamente os destinos da ilha. Mas, o Príncipe não começou em 29 de Abril de 1995. A autonomia foi, e é um processo longo e demorado, dependente da evolução, e do amadurecimento das instituições políticas nacional e regional, inacabado, dependente da compreensão das gerações e dos actores políticos, assente sobretudo na vontade popular.

Para fazer esta pequena reflexão sobre o desenvolvimento sociopolítico do Príncipe, decidi tomar em consideração dois períodos distintos; a autonomia de 1995 até 2006, período em que apesar da sua existência, era completamente invisível dado que os naturais da ilha por circunstâncias da altura, nunca exerceram os seus direito políticos de eleger e ser eleito os seus dignos representantes; e um outro período que se inicia em 2007 com a realização da primeira eleição regional, ganha por ainda e actual presidente José Cardoso Cassandra, (Tó Zé).

Não pretendo contar histórias, mas sim evidenciar factos ocorridos para que se reflicta sobre o mesmo, e a partir daí cada um tirar as suas conclusões.

De 1995 até 2007 todo o elenco governamental do Príncipe foi sempre escolhas e nomeações dos sucessivos governos centrais, sem se preocuparem em dar condições para que os naturais do Príncipe fizessem as suas escolhas. E como foi evidente, tínhamos um Príncipe, sem voz, sem poder, sem capacidade de decisão, em suma um Príncipe moribundo, entregue a sua sorte, deficiente em todos os sectores. Resistimos todos a este sufoco confiante na nossa fé, emanado pelo espírito patriótico que muito nos é característico. Tínhamos presidentes do governo regional que eram meros figurantes, cumprindo ao rigor o que a bíblia partidária nacional lhes exigia. Estávamos completamente entalados, sem qualquer miragem do futuro. O Príncipe só era notícia pelas suas boas bananas e peixe que ali se extraia.

Embora não sirva de desculpa, mas, se calhar, todo este marasmo em que nos encontrávamos talvez se devia ao facto de ausência de quadros qualificados e dispostos a assumir responsabilidades políticas na ilha. Por outro lado, fomos sempre vítimas do desleixo e do preconceito dos sucessivos governos central que nunca aplicou o princípio de equidade e justiça como é constitucionalmente consagrado, o que faz persistir até os dias de hoje a dúvida, se realmente somos parte integrante do território nacional da República de São Tomé e Príncipe.

Como é natural, tudo o que tem vida move-se, e a mudança havia de chegar. Foi assim que, em 2006 se deu um novo fenómenos político; “a revolta popular”, que culminou com a queda do regime instalado até ao momento, abrindo assim o caminho para uma nova Era, criando condições para que os “Principenses” pudessem votar o seu próprio destino. Uma revolta que muito nos orgulha, que apesar de existir os seus cabecilhas, foi toda ela dirigida e assumida pelos populares e sem protagonistas especiais.

Assim, em 2007 se instalou uma nova Era na nossa história, com a inclusão de mais um ícone no processo de autonomia muito importante para a nossa democracia; “a realização da primeira eleição regional”. Foi mais uma vez com grande entusiamo que a população da ilha do Príncipe regozijou com a conquista deste feito. Criou-se a União para Mudança e Progresso do Príncipe (UMPP) com a qual muitos nos identificamos, com o mesmo simbolismo do outrora MLSTP do pós-independência. Um movimento na qual todos tínhamos orgulho em fazer parte. Embora ainda não tínhamos resultados plausíveis, havia neste movimento um sentimento de pertença, e de grande expectativa para o futuro, um sonho de que a partir daí seria uma oportunidade para que todos os filhos da ilha na sua diferença pudessem viver melhor respeitando uns aos outros, e que apesar das nossas diferenças, o Príncipe estaria sempre em primeiro lugar.

Ora, decorrido estes anos todos, a pergunta que se coloca é; como está o nosso Príncipe? De que é feito o nosso Príncipe?

A resposta ficará a cargo da reflexão de cada um.

Atualmente, é inegável que quando se fala da ilha do Príncipe não se falar de Tó Zé Cassandra.

Justiça seja feita, o Tó Zé Cassandra é o grande obreiro do pouco que se fala e que se tem feito no Príncipe atualmente, ainda que tenha cometido erros graves ao longo destes anos. Erros completamente inadmissíveis, pois ele tinha, e tem todo o controlo da situação para corrigir e cortar o mal pela raiz, à semelhança de Manuel Pinto da Costa na nossa primeira república, não o fazendo, o mal perpetuou-se, e o Príncipe fugiu ao controlo do Cassandra deixando que a ignorância dos lóbis e maus conselheiros tomassem conta da ilha.

O Tó Zé Cassandra foi dos poucos que na década dos anos dois mil desencadeou um forte combate na assembleia nacional em defesa do povo do Príncipe.

Por outro lado, também pode-se dizer que o Príncipe internacionalizou a partir da chegada do Tó Zé ao poder em 2007, o Príncipe ganhou voz.

– Recusou o maléfico projeto Agripalma, que posteriormente culminou com a chegada de HBD;

– A candidatura e o ingresso do Príncipe como património mundial da biosfera;

Estes dois acontecimentos internacionalizaram o Príncipe. A ilha passou a fazer manchete nas capas de grandes revistas e jornais internacionais, despertando diversos interesses.

– A conclusão do processo de eletrificação da ilha;

– Aumento da rede de infantários, e a implementação do lunguiê nas escolas, ainda que de caracter não obrigatório; nestes dois casos, lembremos que só a cidade do Príncipe era eletrificada, e que só havia um jardim de infância em toda a ilha.

Ora, se podia ter feito mais, também creio que sim, mas, é uma questão de que não quero discuti-la neste artigo e massacrar os leitores.

Como nesta vida nem tudo é mar-de-rosa, o Tozé Cassandra deixou-se levar pelas emoções, descambou-se para populista e tornou-se num autêntico demagogo. Deixou-se aliar por maus conselheiros ao ponto de se tornar reféns dos ratos que o rodeia. Compactuando com isto, criou um Príncipe elitista ao ponto de instalar o lema de que “quem não está comigo está contra mim”.

O cassandra perdeu autoridade ao ponto do seu eterno secretário das finanças dizer na praça pública que, se o Tozé deixar-lhe cair também cairá consigo….é este mesmo secretário que desautorizou o Tozé quando pretendia demitir o seu ex-diretor de gabinete  por este ser cúmplice na falsificação do passaporte de serviço duma cidadã da ilha, este mesmo diretor teve como prémio, ser promovido ao assessor do tal secretário das finanças.

É este mesmo secretário que esbanja arrogância na rua e nas instituições públicas, que nem assembleia respeita, e que no seu gabinete só admite mulheres e sem concurso público, e que quase todas elas têm um herdeiro seu.

O Tozé já não consegue tomar medidas relacionadas com desvios de dinheiro público, e têm sido sucessivos os casos.

Perdido o controlo total do poder, já nem resta ao presidente a margem para confrontar o poder central sobre os diversos casos que têm assolado a ilha.

É incrível que só quando haja tragédia na ligação marítima com danos irreparáveis entre as ilhas, é que se lembra que os preços (200€) de viagens de avião são incomportáveis para o povo da ilha;

É incrível que o governo central com um primeiro ministro turista, anuncia o corte de verbas para o transporte de doentes entre as ilhas e o presidente submete-se num silencio nunca visto;

É incrível que depois de tanto bajular-se a custa das obras de HBD, quando esta decide despedir mais de cem trabalhadores, nem uma palavra de esclarecimento ao público; diz o seu irmão e assessor Rodrigo Cassandra que é normal, que o Estado nunca intervém nas coisas de privado;

Os cidadãos da ilha do Príncipe são alta e incalculavelmente penalizados, dado a dupla insularidade, e como se não bastasse o governo central faz questão de duplicar as taxas alfandegárias, e o presidente submete-se num silencio absurdo;

O Tozé Cassandra já não pode apostar nos quadros jovens e na sua promoção porque os seus conselheiros não o deixam; dizem eles: “estes jovens são muito novos para ganhar tanto dinheiro” 500€?

Depois de tanto confronto político entre Tozé Cassandra e Patrice Trovoada, hoje a residência do Tozé Cassandra é pensão favorita do Trovoada quando este vai ao Príncipe; dir-me-ão, a discórdia na política não significa inimizade, mas, entre estes dois é como diz o ditado:  diz-me com quem andas, e eu digo-te quem és…

Em suma, esta é uma pequena radiografia do Príncipe atual. A pergunta que se coloca é: qual é o Príncipe que o Tozé pretende nos deixar quando abandonar o poder? Quererá o Tozé deixar-nos o mesmo legado do ex-presidente Manuel Pinto da Costa? Em que passou de herói ao vilão?

São 11 anos de governação, tem de haver prestação de conta.

Elias Ananias

Estudante de Administração Pública na Universidade de Aveiro

Contacto: 962919321/967156682 – efa@ua.pt

    7 comentários

7 comentários

  1. Aneliy Rodrigues

    27 de Abril de 2018 as 17:41

    É uma reflexção e tanto caro compatriota Elias Ananias, e se fizermos uma análise análoga podemos estrapolar a sua refexão para a ilha de São Tomé em diversos periodos da história.Atrevo me mesmo em dizer que, o que se vive nas nossas ilhas( São Tomé e Príncipe),é consequencia de uma cadeia de ponzi de fraudes política e instituicional planeado de forma maquiavélica com objetivo de enriquecer uns a custa dos outros.

  2. Mussolini Quenque Cremildo

    27 de Abril de 2018 as 19:29

    Bem falado caro colega…

  3. EliseuNobre

    28 de Abril de 2018 as 8:55

    Que tem que ter auditoria da conta publica isso vai ter uma coisa que não estou de acordo é da luz é política do governo central.Pedreira bomba de gasolina em que ele faz parte como socio não deveria ser como governno.

  4. Elias Ananias

    29 de Abril de 2018 as 20:34

    Obrigado pelo vosso feedback.

  5. Paguê

    30 de Abril de 2018 as 10:44

    O Secretario Hélio faz e desfaz, esbanja o erário público com mulheres alheias. Tozé já perdeu pulso não tem coragem de o substituir, Hélio pelo bem da nossa jovem democracia, se és homem de carácter e ética, demita-se. Muitos jovens da ilha do Príncipe estão com futuro comprometido, enquanto o sistema mantiver, Elias, Silton e outros jovens que gostam de escrever a verdade, continuarão excluídos. Viva a democracia, viva a ilha do Príncipe!

  6. Ayres Moreira

    19 de Maio de 2018 as 12:11

    Meus caros Senhores, como disse o Elias Ananias na sua publicação, isso trata-se de uma reflexão sobre a Ilha do Príncipe deixando algumas questões como:qual é o Príncipe que o Tozé pretende nos deixar quando abandonar o poder? Quererá o Tozé deixar-nos o mesmo legado do ex-presidente Manuel Pinto da Costa? Em que passou de herói ao vilão?
    Contudo não estou a defender os interesses de ninguém muito menos de alguém directamente, por isso digo, Vamos deixar de criticar Individualmente mais sim comentar o que ainda falta de acordo a todos esses anos de governação de um só partido…
    Não estou contra ninguém, mas sim, a favor de uma boa REFLEXÃO Sobre a actual Ilha do Príncipe….

  7. olivio

    8 de Junho de 2018 as 13:20

    Acredito que es um bom historiador e nao sabe nada sobre a ilha de principe, qual foi o seu contribuito para esta ilha ,se calhar estas a denigrir a imagens do secretario Elio Lavres e da ilha, clasifico-te como um doido

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