Política

José Carlos Fonseca ex-Presidente de Cabo Verde recorda São Lima

Morreu Conceição Lima, a São, melhor, a Ção Lima. Conhecemo-nos em São Tomé, quando ela apresentou na Casa do Cacau uma obra escrita minha, em 2015, com raro brilhantismo. Altura em que me ofereceu «O útero da casa», com uma dedicatória de «poética fraternidade». Depois disso, não me lembro por que caminhos e dias, escrevemo-nos, num certo tempo de uma forma quase torrencial. Literatura, sobretudo poesia, mas também política, heroicidades, nomes, prémios e desígnios. Em pouco divergimos, talvez quanto a heróis e glórias. Esteve para, no Sal, apresentar o meu «O albergue espanhol», mas a saúde traiu-lhe a intenção e o gesto. o Filinto advertiu-me quase véspera e houve que apressar uma solução alternativa. Falámos, depois, sobre uma tal ausência. Era 2017, creio.

Sobrevieram pausas num relacionamento feito de crescentes cumplicidades, de diálogos intensos e fundos. Falhou, mais uma vez, em São Tomé, anos depois – suponho que em 2025, ou finais de 2024 – a oportunidade de ela me fazer a «leitura» de Escritos Ucranianos. Esteve tudo acertado, o texto remetido em modo virtual, o glossário, o palco, mas quase nas vésperas… o cancelamento ou adiamento, não por omissão ou falha da ilustre apresentadora. Outras razões, muito mais prosaicas, que ora não cabe sublinhar. Ficou triste, desencantada, também eu, porque caíra, mais uma vez, a ocasião do reencontro.

Das últimas vezes que conversámos – curioso o facto de, mesmo depois de terminar o exercício da função de PR – me tratar invariavelmente por Excelência – foi para a felicitar por prémio internacional atribuído a uma tradução inglesa de uma antologia de poemas seus, e para que ela me remetesse cópia de uma review do Professor Robert Patrick Newcomb, na revista Portuguese Studies, publicada nos EUA, sobre a poesia dela. Muito elogiosa. Igualmente para me falar da saúde frágil e do vigor da poesia.

A notícia da morte abala, é certo. Surpreende. Mas sabemos que, lembrando-nos de Hölderlin, o que permanece os poetas o fundam.

Sabemos que «As águas varrem a distância/entre os cabos/ e as ilhas dançam/ Uma a uma as conheces/as nomeias/ A reverberação do mar a / tua voz permeia./ Mas moras em todos os continentes/ Que tribo acolhe o baile / das vogais / A irreverência do verbo na/ tua tenra pele de papiro?/ Porque dissolves, ao / alvorecer, as fronteiras / E te ergues, múltiplo, no / topo de cada página em / branco?»

Soberana, bela e nua voz! Grande, de verdade, a Ção. Não morreu, pois.

Mensagem publicada na página do ex-Presidente de Cabo Verde na rede social facebook

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