O Téla Nón publica em primeira mão, o teor da nota verbal da embaixada do Brasil datada de 24 de Setembro que coloca sobre os ombros de Manuel Lopes, director do Gabinete do Ministro do Comércio, a responsabilidade na alteração dos produtos importados do Brasil, com destaque para o famoso composto lácteo. A nota verbal da embaixada do Brasil, deixa entender que o Governo, através do Ministério do Comércio participou directamente no processo de selecção dos produtos a serem importados. Produtos que como se sabe, a população são-tomense não tem hábito de consumir, tendo o sector competente do ministério da agricultura mandado suspender a sua venda, por não fazer parte da lista de géneros alimentícios inscritos no memorando de entendimento assinado entre os dois países.
Crime de alteração de géneros alimentícios, é uma das acusações do Ministério Público, contra a STP-Trading. A nota verbal da embaixada do Brasil em São Tomé e Príncipe endereçada ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação Carlos Tiny, no dia 24 de Setembro e que o Téla Nón teve acesso, confirma que houve de facto alteração de géneros alimentícios importados do Brasil.
A nota da representação diplomática do Brasil em São Tomé, deixa claro que a ordem de alteração dos produtos alimentares inicialmente acordados entre os dois países partiu do Ministério do Comércio, através do Director do Gabinete do Ministro, o senhor Manuel Lopes. «Segue em anexo à presente correspondência cópia de mensagem por correio electrónico enviada em 10/11/2008 pelo senhor Manuel Lopes, Director do Gabinete do senhor Ministro do Comércio, Indústria e Turismo de São Tomé e Príncipe, ao Banco do Brasil S/A(com cópia para o então embaixador do Brasil neste país), remetendo a lista dos produtos a serem importados do Brasil. Essa lista de produtos foi objecto de sucessivas negociações até a emissão da factura definitiva (datada de 06/03/2009, ou seja, quase dois meses antes do embarque do carregamento), relativa a operação de importação. Cópia da referida factura definitiva é igualmente anexada à presente nota verbal», diz o documento da embaixada do Brasil.
De facto na mensagem que Manuel Lopes Director do Gabinete do Ministro do Comércio, enviou ao Banco do Brasil, e que está anexa a nota verbal, lê-se o seguinte : «Caríssimos senhores BB ; Após alguns dias de paralisia, venho através deste, remeter-lhes a lista dos produtos a serem importados do Brasil, bem como os seus respectivos fornecedores, para que possamos ganhar tempo em contacta-los uma vez que todos já devem estar de acordo com os preços e os procedimentos do PROEX(programa brasileiro de exportação de produtos)», diz Manuel Lopes na mensagem, tendo acrescentado a lista dos produtos a serem importados.
Na lista enviada pelo gabinete do ministro do comércio ao Banco do Brasil, está plasmada a alteração dos produtos importados. Para além de outros produtos, destaca-se a Mistura Láctea Integral e o Composto Lácteo Semidesnatado. O tal leite de soja, que ninguém tem hábito de consumir em São Tomé e Príncipe, e que foi uma das causas da explosão do escândalo.
A alteração dos produtos inscritos no memorando de entendimento entre os dois países, fica provada quando se analisa a lista de produtos que a STP-Trading diz ter requisitado aos seus fornecedores no Brasil. Na lista da STP-Trading, inscrita numa factura PROFORMA distribuída a imprensa quando em finais de Julho último, o escândalo arrebentou, encontra-se destacada a importação de Leite em Pó Integral – cx c/12 latas 900g/cx, e Leite em Pó Magro – Saco C/25Kg.
Note-se que a Direcção da STP-Trading, chegou mesmo a acusar os fornecedores brasileiros de serem os responsáveis pela alteração dos produtos, ou melhor, que a STP-Trading tinha sido aldrabada pelos fornecedores do Brasil, uma vez que pediu leite em pó e magro, e ao porto de São Tomé chegaram milhares de sacos do composto lácteo desconhecido no país, e que por isso mesmo teve que ser submetido a exames microbiológicos em Portugal, para se conhecer a sua composição química.

Aliás na nota verbal de 24 de Setembro a representação diplomática do Brasil, acrescenta que «o produto “leite em pó”, foi então substituído pelo “composto lácteo” consideravelmente mais barato e perfeitamente adequado ao consumo humano, sendo exportado para vários países», precisa o documento.
Diante dos factos, como é que o Primeiro-ministro Rafael Branco, pôde dizer a nação que o seu governo nada tem a ver com a importação dos produtos? De recordar ainda que numa anterior nota enviada aos ministros da agricultura e dos negócios estrangeiros e cooperação, o embaixador brasileiro Arthur Mayer, tinha anunciado no documento que foi por ordem do Governo são-tomense que se alterou também a quantidade de óleo alimentar a ser importado. «Houve uma aquisição de determinados produtos em quantidade estipulada pelo governo santomense, muito superior a capacidade de absorção do mercado local. Por exemplo cerca de 20 litros de óleo por habitante do país», refere a nota anterior, enviada pela embaixada do Brasil em Agosto último.
Uma alteração que provocou a importação exagerada de óleo alimentar numa média de 20 litros por cada habitante. O mais grave é que a maior parte do óleo importado estragou.
O Téla Nón tinha anunciado num dos seus artigos, que o Governo estava a um passo do caldeirão do escândalo da importação dos produtos alimentares do Brasil. Hoje diante das provas documentais, diz que o Governo já está a arder no caldeirão do escândalo financeiro-comercial.
Abel Veiga