Opinião

“Vozes Femininas masculinizadas”

Infelizmente não pude assistir em directoao «Debate: Violência doméstica em São Tomé e Príncipe” que teve lugar na RSTP, no passado dia 18 de Junho. Fiz alguns comentários à posteriori, mas dada a importância do assunto, decidi retira-los e sintetiza-los no texto que se segue:

Abordarei apenas três pontos que me pareceram pertinentes:

  • A herança do sistema patriarcal e o comportamento das mulheres
  • “Homens Bons” vs. “Homens Maus”
  • Violência doméstica contra os homens

A sociedade, são-tomense é marcada por extrema valorização do género masculino em detrimento do género feminino. Assim a concepção do masculino como sujeito de sexualidade e o feminino como objecto do primeiro é um valor arraigado numa história longa da construção da sociedade de STP.

O patriarcado, enquanto sistema social que atribui aos homens um lugar central de chefes de família, assim como uma posição hierárquica de relevo no seio da sociedade ( na esfera politica, económica, cultural e social), é o lugar  de acção, decisão e chefia das relações sociais.  Daí resulta a valorização do género masculino, inclusive pelas próprias mulheres que interiorizam práticas e discursos masculinos. A mulher torna-se um objecto, unicamente   valorizado através do olhar masculino. A mulher não existe fora desta logica de poder masculino e masculinizado.

Na sociedade são-tomense em que é tacitamente consensual os homens terem mais do que uma mulher ao mesmo tempo estima-se “normal” o facto de elas afrontarem-se entre si para serem valorizadas pelo homem. Assim sendo, infelizmente é corrente que algumas mulheres preocupem-se mais em manterem as suas relações com os homens do que cuidarem dos seus próprios filhos. Exemplo: quando os homens decidem tomar a refeição na casa de uma das mulheres, esta serve-lhe os melhores manjares. Os seus próprios filhos contentam-se das sobras.

Em consequência a sororidade, enquanto a união e a aliança entre mulheres, baseadas na empatia e no companheirismo, em busca de objetivos comuns dificilmente tem lugar entre as mulheres são-tomenses. Isto confirma-se através das “vozes” de várias mulheres que intervieram no debate entre as quais, Celiza Deus Lima,Ederlai Assunção, Jessica Neves.  Vania de Sousa Santos, por exemplo, diz: “o que falta nas muitas mulheres santomenses é falta de amor próprio, autoestima (…)”. Vera Cravidafirma:“A violência contra as mulheres é secular (…) A nossa sociedade não valoriza as mulheres, não apoia as mulheres, subestima as mulheres…etc.” Belizete Quaresma diz “nós mulheres, dificilmente nos apoiamos na nossa ascensão, neste âmbito torna-se difícil debelarmos essa situação”.  As mulheres elas próprias reconhecem a falta sororidade na sociedade são-tomense.

Entretanto, uma voz masculina emerge: Liberato Mata Moniz, um homem fazendo parte do supracitado patriarcado, há cerca de cinco décadas (suponho) coloca a seguinte questão:

“Não será que a vertente mais prejudicial das mulheres em São Tomé e Príncipe é a forma como as mulheres não se apoiam umas as outras e muitas vezes não permitem a ascensão das próprias mulheres?”

Esta “voz masculina” pretende assim fazer-nos esquecer que ele mesmo enquanto homem é parte integrante do sistema que produz uma “violência” a todos azimutes na sociedade são-tomense. Assim, tranquilo, sem que ninguém o incomode, a “voz masculina” torna a questionar: “Não estarão as mulheres mais preocupadas com os homens ao invés das mesmas criarem espírito de entre ajuda e sustentarem uma política de liberdade, de respeito, de valorização e não de submissão?” O que quererá dizer?

O que me interpela particularmente nas palavras desta “voz masculina” é que, por um lado, este homem pretende dizer-nos que as responsáveis pela violência doméstica em STP são – as mulheres – elas mesmas. Através do seu discurso Moniz pretende construir por um lado a imagem dos homens que cometem horrores (homens maus); e, por outro lado, quer demonstrar a imagem do “homem bom”, que se preocupa com a violência feita às mulheres por culpa delas.

Esta “voz masculina” é a de um corpo que pode circular livremente no espaço público, sem medo de ser molestado física ou verbalmente, um legitimo representante da gente masculina que tem acesso aos corredores do poder que lhe conferem o sistema patriarcal.

Hannah Gadsby numa intervenção no “Hollywood Reporter’sWomen In Entertainment”

aborda a questão dos “homens bons” usando a imagem de uma linha traçada entre “homens bons” e “homens maus”. O objectivo desta linha, disse ela, é convencer as pessoas que agem como a supracitada “voz masculina” que estão do lado certo da linha – são “os homens bons”, aqueles que defendem as causas das mulheres. Mas o problema, diz Gadsby, é que são os próprios homens que traçam a linha!

Isto leva-me a concluir que a “voz masculina” em questão ao posicionar-se assim parece ignorar que a violência das mulheres feita às mulheres é consequência do patriarcado.  Pois é a sua posição na esfera patriarcal que lhe permite colocar tal questão tranquilo!

A “voz masculina” colocando a questão supracitada pretende passar por um “homem bom” em oposição aos “homens maus” e às “mulheres malvadas” no cerne da violência a todos os azimutes em STP.

É a voz de “Um homem feminista” como diria ChimamandaNgoziAdichie!  Mas será que exibir o seu “feminismo” como uma bandeira não é uma forma de sexismo? Liberato Mata Moniz sacode o capote, o problema, são elas, as mulheres! E a resposta vem logo  a seguir na voz feminina de Celiza Deus Lima-  cujo discurso  foi super aplaudido!!!.

Esta “voz feminina” sem se aperceber reproduz também o jogo da sociedade machista, não só na questão da violência entre as mulheres, mas também na questão dos homens vítimas de violência doméstica. Para a “voz feminina” em questão, os homens vítimas de violência doméstica, a existir relevam de uma minoria pois durante os 15 anos de exercício da sua profissão apenas viu um caso. Questão de estatística! Dir-se-á! Um caso exótico!

As vítimas são forçosamente as mulheres! Ora este é um discurso sexista com alicerces na velha máxima “homem que é homem não chora” ou como disse e bem Solange Salvaterra homem que apanha da mulher é “bolilo”. Noutros termos quando um homem ousa apresentar queixa, é vítima de chacota tanto da mulher que o agrediu como da família e dos amigos do casal e até mesmo da sociedade. Estas formas discursivas nasceram do patriarcalismo onde o homem tem que ser “macho cabra” como ouse dizer-se.

As mulheres interiorizaram assim o discurso machista e sexista veiculado pelo patriarcalismo como sistema basilar da sociedade de STP! A cultura machista está impregnada nas práticas e nos discursos sociais. Estas práticas são apreendidas e veiculadas no seio das instituições sociais como a família, a escola e os mídia. Mulheres interiorizaram-nas.

Assim pergunto: porque não falam as gentes do sexo masculino uns com os outros, “os homens maus” e “os homens bons”, sobre o porquê de se comportarem da forma como se comportam? Porque não falam uns com os outros, sobre as vossas vulnerabilidades e os vossos pontos fortes? Falar uns com os outros é falar sobre masculinidades, sobre o que isto produz, e como se reproduz, ainda hoje no seio da sociedade são-tomense. Talvez ajudassem assim à causa das mulheres. Talvez ajudassem assim “Todos os homens/ mulheres e crianças/ Do nosso africano Torrão/Erguendo os cartazes da esperança”, como um dia escreveu a poetisa Alda do Espírito Santo.

Na sociedade dita de gente “bem-educada e guardiã da moral” que só escuta com uma orelha e só vê com um olho conforme os seus interesses, esta sociedade do silencio selectivo engendra uma violência selectiva, que mata lentamente, sem faca, sem bala, sem sangue…parece, ainda, não incomodar!!!!!

Sim existe violência doméstica contra os homens em STP!!! Mulheres que esbofeteiam os companheiros, mulheres que impedem os pais de verem os seus próprios filhos, mulheres que viram os filhos contra os pais e sua família, mulheres que espancam crianças, mulheres que privam as crianças de escola, de cuidados básicos, de carinho, etc.

A essas mulheres é-lhes outorgado o direito de se pavonearem por todo STP pois sabem que a “opinião publica” está a seu favor! Estas sabem que podem jogar a seu belo prazer a carta de vítimas, pois os mídia e a sociedade já decretaram “o culpado por antecipação”. O velho demónio do tempo da escravatura e da época colonial que pintava todos os homens negros como homens violentos e machistas ficou enraizado, também, na sociedade são-tomense e está longe de esvanecer-se.

Sim existe violência doméstica a todos os azimutes em STP – incluindo de mulher para mulher, de mulher para criança, de mulher para homem. Normalmente estas outras formas de violência são ignoradas, pois não há lugar na esfera publica para estas outras vítimas se manifestarem!

Em jeito de conclusão:  Constato simplesmente que entre os discursos e as práticas sociais existe um grande fosso. A questão que se coloca é: como fazer para que esses discursos tenham uma acçao de facto na construção real da sociedade em STP? A partir dos diferentes discursos das intervenientes e dos múltiplos comentários noto que a sororidade, entre mulheres de STP, não existe.

A pergunta que fica é como inverter tal situação? O que fazer para mudar? Será que basta colocar mulheres a atenderem nos centros de acolhimento, como sugeriu uma das intervenientes no programa? Particularmente, não creio! Imaginemos por exemplo que a mulher que esta no acolhimento é amante do marido da queixosa, o atendimento seria imparcial, caloroso e solidário? Será suficiente mudar as leis, para mudar a sociedade?  Particularmente, mais uma vez, não creio!

Necessário se torna fazer-se um trabalho de consciencialização das mulheres. Uma prática, corrente é a realização de grupos de discussão não mistos a fim de discutir a discriminação sexista. Um grupo de libertação da palavra. Apenas mulheres, numa primeira fase. Parece-me ser um passo necessário para as mulheres de STP compreenderem-se  a si próprias e serem capazes de articular os princípios da mudança. Numa segunda fase, mulheres e homens discutiriam juntos, num ambiente misto, os meios e ferramentas para ultrapassar os problemas encontrados. Pois, tenho para mim que Mulheres e Homens são complementares.

Lamento o assassinato a golpes de machim da cidadã Maria de Lurdes Pereira, pelo seu ex-marido. Lamento igualmente todas as outras mortes de mulheres, homens e crianças vítimas de todo e qualquer o tipo de violência que outrora nem sequer chegavam aos mídia. Tendo estado no terreno desde finais dos anos noventa, presenciei vários actos de violência, que na época não faziam manchete de jornal.

Parabéns à organização do programa, às intervenientes, às comentadoras e comentadores.  Os vossos comentários são pertinentes e ajudaram-me a ler a sociedade de STP, nas ilhas e no estrangeiro.

Iolanda Aguiar

    1 comentário

1 comentário

  1. Gente Nobre STP

    30 de Junho de 2021 as 12:01

    Obrigado. Excelente reflexão. Parabéns….

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