Opinião

O Dízimo

Soube, há dias, que o governo Santomense, resolveu, de supetão, como habitualmente se faz na nossa terra, sem qualquer estudo, reflexão, amplo debate ou simples apresentação de um projeto fundamentado que alicerçasse tal ambição, criar uma contribuição, (não sei se imposto ou taxa) paga por todos os cidadãos através da fatura da luz, como mecanismo de financiamento do serviço da rádio e televisão públicas.

Isto não é só incompetência ou mediocridade, caracterizador do nosso modus faciendi habitual, tipifica, também, um certo Chico-espertismo promotor da perversão dos valores básicos de um verdadeiro Estado de Direito Democrático.

Já não bastava termos uma televisão e rádio públicas, deprimentes e com pendor imobilista, ao serviço do ADI e do atual governo, agora temos todos que, financiá-la, também, para cumprimento de uma agenda ou propósito político-partidário bem definido.

Faz-me muita confusão a forma como as pessoas aceitam, caladas e ordeiras, como gado adestrado, esta autêntica afronta e engodo, em nome do interesse público, contribuindo com o seu próprio dinheiro e esforço, uma agenda ou necessidade privada, comportando-se como fiéis daquelas igrejas que passam a vida a entregar as suas poupanças aos pastores das mesmas. Isto não é imposto ou taxa nenhuma! É uma espécie de dízimo que, mensalmente, as pessoas entregam, contrariadas ou não, ao pastor, para diariamente terem direito, nas antenas da rádio e televisão públicas, à bênção, banalidades, inaugurações de templos bem como comunicados e proposta pastoral.

Faz algum sentido as pessoas estarem a financiar, com o seu próprio dinheiro, um bem, que, eventualmente, provoca, a médio e longo prazos, impactos indesejados na sociedade sem qualquer relevância para as nossas necessidades ou propósitos como comunidade? Os cidadãos, de uma forma geral, devem contribuir, individual e coletivamente, com os seus esforços financeiros, para a função de propaganda de uma rádio e televisão públicas que simplesmente servem os interesses de uma força política em detrimento das outras?

O serviço público de rádio e televisão, contando ou não com uma contribuição financeira por parte de todos os cidadãos, só faz sentido se incorporar, na sua formulação estratégica, a montante, a ideia de fomento e promoção da liberdade de expressão e pluralismo de opinião. Isto é o mínimo que se poderia exigir aos nossos governantes responsáveis por esta iniciativa.

O episódio recente em que o Conselho Superior de Imprensa deliberou a favor dos partidos da oposição, MLSTP e PCD, instruindo a televisão pública Santomense que criasse condições para que estes partidos exercessem os seus direitos de respostas, na TVS, tendo em conta o conteúdoda entrevista anterior do primeiro-ministro, na mesma estação de televisão, só vem demonstrar que, de facto, não existe liberdade de expressão e pluralismo de opinião na rádio e televisão públicas. Como é possível que estejamos todos a pagar uma rádio e televisão públicas que têm este comportamento?

Não podemos estar a dizer todos os dias, que o nosso objetivo, como comunidade, é a criação de uma sociedade livre, informada e plural e, paradoxalmente, criar condições para que a rádio e televisão públicas funcionem como obstáculos ao desenvolvimento destes preceitos, sendo, por absurdo, ainda por cima, financiadas pelos próprios cidadãos.

Sempre tive imensas dúvidas de que quem, objetiva ou subjetivamente, criou condições para acabar com um programa de debate público e plural numa rádio privada, que era dos programas radiofónicos com maior audiência no país, não poderia estar em condições de configurar um verdadeiro serviço público de rádio e televisão no país que desse resposta aos nossos problemas como comunidade. Provavelmente, o dinheiro que é retirado às pessoas, mensalmente, como contribuição, em forma de taxa ou imposto, para garantia deste hipotético serviço público de rádio e televisão públicas deveria ser canalizado para a rádio Jubilar para o cumprimento de obrigações neste âmbito. Isto, sim, era um verdadeiro serviço público e é uma pena que seja uma rádio privada a fazê-lo.

Adelino Cardoso Cassandra

 

    14 comentários

14 comentários

  1. Germano Campos

    2 de Novembro de 2017 as 15:46

    Quem mais e melhor podera explicar isto e o antigo secretario de estado da comunicacao sicial Adelino Lucas no governo de Gabriel Costa.
    Na altura os objetivos pareciam ser outros e o montante a cobrar era bem menor, variando no entanto em funcao dos escaloes de consumidores. O sindicato da classe tinha tambem que ter uma opiniao.
    De qualquer forma felicito o Adelino Cardoso Cassandra pela reflexao, por mais este puxao de orelhas ao Patrice e seu ADI. Na verdade precisamos salvar esse nosso STP.

    • Riboqueano

      3 de Novembro de 2017 as 11:36

      Subscrevo a sua orientação Germano Campos. Quando se quer fazer uma rádio e televisão pública tem que criar condições para que ela seja independente em primeiro lugar. Independente de partidos e de grupos. Não é isto que se verifica hoje em S.Tomé. Um grupo apoderou-se da rádio e da nossa televisão e age como coisa que fosse uma rádio e televisão de um partido político e ainda por cima cobra taxa aos cidadãos para que eles financiem esta rádio e esta televisão. Isto é um abuso e atropelo aos interesses dos cidadãos. O meu dinheiro, volto a repetir, meu dinheiro, não é para andar a pagar a propaganda política de um partido político, qualquer que ele seja. Isto é um grande atrevimento e roubalheira. Eu não tenho que estar a pagar as coisas que o ADI quer passar para o povo. Eles que fazem a televisão e rádio deles com o dinheiro deles. Volto a dizer que isto é um grande abuso de poder. Estou muito chateado com toda esta falta de respeito e abuso de poder.

      • Vexado

        3 de Novembro de 2017 as 23:32

        Sr. Reclama aqui. Reclama nos tribunais.
        Crime público como este, samba nada faz e nem pronúncia.
        Mas é porquê?

  2. antoninho

    2 de Novembro de 2017 as 20:51

    Esse Helder Bexigas, que diz ser Presidente da Assocuação dos Jornalistas ta feito que nem uma pedra lançada na lama. Nao muge nem tuge.
    Quando era governo de Gabriel Costa foi grande rebelde contra tudo e todos.Conseguiu essa boca…pronto.
    Mellhor sair fora oh bexigas. Voce deve favores a Patrice Trovoada. Ou então vais perder esta tua moto. Vemha dizer que é mentira, que a moto que usas não foi dada por Patrice na campanha.Tens rabo preso, por isso. Que tas fazendo para melhoria da classe?

    • XYZ

      3 de Novembro de 2017 as 15:40

      Tudo isto é tacho!!! Cada um está a saber de vida dele. Quem paga tudo isto é o povo pequeno nos seus vencimentos que é cortado para pagar os luxos do senhor Trovoada.

  3. Pereira

    2 de Novembro de 2017 as 22:38

    Contando não se acredita. O povo paga do seu próprio bolso para O ADI ter uma televisão e rádio onde podem andar a fazer a sua publicidade política. Isto parece brincadeira mas é pura verdade. Eu nunca pensei que o povo de S.Tomé pudesse ficar deste modo sujeitando estas brindadeiras. Isto já é uma espécie de escravatura. É inacreditável!!!!!

  4. Carlos Alburquerque

    3 de Novembro de 2017 as 9:29

    Ora nem mais senhor Germano campos!
    Convém ressaltar que em qualquer país do mundo são cobradas as taxas de comunicações, só que nalguns casos de forma mais camufladas do que outras.
    A iniciativa por si só deve ser reconhecida quando se sabe que a classe dos jornalistas e tecnicvos da comunicação social é das mais desfavorecidas neste país e era necessario encontrar-se formas de incentivar aqueles profissionais, ou pelo menos aquelas pessoas que até um passado recente ainda revelavam algum profissionalismo, ou seja antes de serem comprados e manipulados passando a ser marionetas.
    Aliás consta que mesmo em STP, na era colonial as pessoas que adquirissem aparelhos de radio tinham que fazer um registo nos correios de então. (verdade ou não não sei, mas são informações dos mais velhos)
    Ora, assim sendo, se as taxas estão sendo cobradas, então a radio e a TVS deveriam se de facto de serviço publico e não uma radio partidaria. Não creio que existe em STP uma radio nem uma televisão publicas. São todas propriedades do ADI ao serviço exclusivo da ADI e seu governo, do seu chefe, enfim….não se pode roubar o bolso do povo para sustentar orgaos partidários de comunicação social.
    Quanto ao episódio do Conselho superior de imprensa, resta-me apenas dizer que num país sério nem o senhor Ambrosio Quaresma, nem o senhor Kawiki seriam membros do conselho superior de imprensa. Nunca o deveriam ter sido pior ainda a julgar pelas suas declarações feitas na imprensa, onde até chegaram a ter cinquenta minutos, só para despejarem todo o seu fel contra o Presidente do Conselho Superior de imprensa. isso é inadmissível.

    • Papa Figo

      3 de Novembro de 2017 as 15:56

      Senhor Carlos Albuquerque eu concordo concordo consigo. Nesta situação atual estamos todos a pagar uma rádio e televisão do ADI. Também concordo que deve existir uma taxa mas era se existisse um verdadeiro serviço público. Não existe independência, imparcialidade, programas educativos e científicos, debates com pessoas de todos os quadrantes e outras coisas. Qualquer rádio privada e televisão privada poderia estar a passar estas coisas que a nossa rádio e televisão passam. Ainda por cima alguns locutores não sabem expressar em português e contamina as crianças e jovens com coisas más. Num país de gente séria o senhor Ambrósio Quaresma nem sequer seria jornalista quanto mais pertencer ao CSI. O Kauique nem sequer seria porteiro de um hotel quanto mais estar no CSI. O país não pode avançar assim desta forma. É exatamente o contrário daquilo que o senhor primeiro-ministro prometeu aos Sãotomenses.

  5. Dankuá

    3 de Novembro de 2017 as 9:34

    Meu caro amigo este povo virou bobo e aceita todas estas coisas sem mugir. Até os ditos intelectuais aceitam estas coisas. Eu garanto-te se eu vivesse no país não pagava nenhuma porcaria de taxa de audiovisual porque é uma roubalheira deste senhor Patrice Trovoada e da corja dele. Isto é roubar o povo o mínimo que ganha para dar ao partido dele. Uma falta de respeito e humilhação que este povo está a passar.

  6. Hermingarda

    3 de Novembro de 2017 as 10:33

    Isto é mesmo um dízimo como este senhor retratou. é assim que somos tratados neste país. saiu o colonizador branco e entrou o colinizador preto.

  7. F.F

    3 de Novembro de 2017 as 14:36

    Terra de cegos quem tem um olho é rei. Este senhor é um autêntico rei neste país. Ele sabe disso e abusa das pessoas porque ele apanhou um povo que é pacífico.

  8. Cidadão Modesto

    3 de Novembro de 2017 as 14:59

    O país bateu no fundo. Acidentes ambientais todos os dias. É gasóleo que brota do chão. É areia que é roubada das praias e danificam as praias. Não sei como querem fazer turismo com estas coisas todas. É roubalheira a grande a a francesa. São 30 milhões para aqui, 30 milhões para lá. É o primeiro-ministro que passa a vida a viajar todos os dias e não pára no país. É o vencimento que não sai nos dias certos. É a lixeira em plena cidade que provoca doenças e assusta os turistas. É a balburdia nas repartições onde ninguém sabe fazer nada. É a oposição que está de rastos e completamente dividida sem projeto alternativo para o país. É a educação que está uma miséria com alunos que nem sequer sabem o mínimo para passarem de ano. É o hospital que está numa lástima e até oa ratos já têm esconderijo garantido nele. E agora temos um governo que resolveu roubar os trabalhadores exigindo que eles paguem uma taxa para a televisão de luxo do ADI. Cheguei a uma conclusão definitva. Este país não tem remédio. É melhor entregarem este país para ser governado por um outro país. Isto é demais, minha gente. Perdi toda a esperança que eu tinha em relação ao desenvolvimento deste país. Perdoem se eu disse alguma coisa que ofendeu alguém. É que estou mesmo zangado com estas poucas vergonhas todas.

  9. Mandela

    3 de Novembro de 2017 as 15:18

    dizimo pra dizimar os pobres. Ele vai pagar isto um dia. Ele pode crer. aqui se faz aqui se paga. Ladrão do Povo. Bandido. Também é bem feito para certas pessoas aprenderem. Quem mandou colocar ele lá no poder. Agora aguentem. Só tenho pena de alma que não merece. Rouba o povo e ainda por cima o povo tem que pagar a televisão dele. Isto é o ponto que o país chegou.

  10. Jornalista Frustrado

    3 de Novembro de 2017 as 16:02

    Parabens Adelino Cardoso Cassandra por este grande post. Onde é que está o presidente da Associação de Jornalistas para opinar sobre estas coisas. Ele deveria chamar e reunir com a classe porque é a própria classe que pode ficar mal vista nesta coisa toda. Se houvesse um verdadeiro serviço público de rádio e televisão quem ganhava com isto são os jornalistas que ficavam livres de pressões para fazerem o seu trabalho com mais independência e profissionalismo. Só porcarias que acontece neste país.

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