O pai, a mãe e a maquina de escrever

Exposição de pintura e escultura de Eduardo Malé em Barcelona, inspira artigo de Xavier Muñoz-Torrent. 

Contrapontos na obra de Eduardo Malé[1]

Xavier Muñoz-Torrent,

Associação Caué – Amigos de São Tomé e Príncipe

“Literatura com tachos”, acrílico sobre manta de retalhos, de Eduardo Malé

Brilhavam-lhe os olhos, quase a chorar, quando me explicava o sentido do quadro. Tinha-o feito com o coração do filho que honra a família, sublimando o passado, e a representa com um toque de ternura e simplicidade, de leve felicidade,… essa emotividade da primeira consciência com os olhos bem abertos. São as figuras esboçadas dos pais sentados à mesa, na cozinha de casa. O pai miúdo, minguado pela idade e a doença, tornando-se cada vez mais infantil, brincalhão, uma sombra do que foi e dominou; mas, ao mesmo tempo, sustem um livro aberto, apelando à inquietude dos jovens. A mãe grande, com os punhos fechados, alçados em guarda, personifica a energia, a tremenda força de mulher que puxa para frente à família pelos seus próprios meios, o pilar do lar frente à regressão do marido. Ao seu redor, um corolário de tachos e utensílios de cozinha, fechando o mundo de tonalidades azuis e ocres com sombras para contrastar grandes luminosidades: o mundo da sobrevivência quotidiana, aquela que, a pesar das dificuldades, se obstina em garantir as condições necessárias para criar a família naquela ilha de África.

Em frente deles, em primeiro plano, encarando o espectador (convidando-lhe a ser também protagonista do conjunto), há uma velha máquina de escrever. É o teclado primigênio com o que se redigem fórmulas matemáticas e literatura (ou uma mistura de ambas as coisas), com a que se quer perpetuar o saber e, ao mesmo tempo, partilhá-lo também à mesa, como um alimento mais; ícone do progresso da próxima geração, da oportunidade de apreender e aproveitar o conhecimento para criar de novo e avançar. Uma máquina que fala de desejos de futuro, motor de dialéticas geracionais e do dever de superar-se; a melhorar aquela mesa, mas mantendo-a na memória mais estimada do orgulho, para explicá-la em todos os seus matizes, em toda a sua grandeza e simplicidade. Inteligente contraste na nebulosa africana, mistura de tradições ancestrais, de modernidade, de dúvidas e de oportunidades, de ordem e de desordem criadoras.

“Literatura com tachos” (2011) é o acrílico que preside a mostra espetacular da arte (pintura e escultura) de Eduardo Malé, que se apresenta na atualidade em Gràcia (Barcelona), no DeGusto Português. Eduardo Malé, artista da vila de Madredeus, um subúrbio crioulo da capital da ilha de São Tomé (Golfo da Guiné), oferece-nos uma particular seleção dos seus recentes trabalhos, que envolve um jogo de palavras “Nós e nozes… entrelaçados”, para mostrar um universo concebido da natureza, com materiais aproveitados, de restos (mantas de retalhos, pedaços de coco, cordas, fibra de bananeira, etc), entrelaçando-os… Lançando-nos, por um lado, uma nova proposta sustentável, fresca, mas que, por outro lado, não nos é alheia, já que no fundo há a mesma mensagem industriosa que encontramos também na obra de Gaudí, no “trencadís” de Jujol [2]. Malé propõe-nos agora um novo “trencadís”.

Malé não só destaca pelas diversas técnicas que domina e combina magistralmente, senão também pela sua prodigiosa criatividade, e pela mensagem no transfundo de cada obra, além da estética, desfiando uma linguagem própria, a própria iconografia (maquinas de escrever, luvas de boxe, bicicletas, sapos, Golias…) que aponta à genialidade do autor, que ao mesmo tempo desprende uma forte humanidade, um compromisso desmesurado com a sua terra.

Além disso, Malé traz a nossa casa o expoente do que nos últimos anos está a ferver na arte de São Tomé, ligado com um estreitinho cordão umbilical a Europa, mas explorando de sobremaneira o retrato da atual sociedade crioula, na África insular, tão difícil de encontrar na proposta galerística barcelonesa.

Barcelona, 18 de Março de 2011.

“Nós e nozes… entrelaçados”. Pintura e escultura de Eduardo Malé (São Tomé e Príncipe). DeGusto Português, carrer Montseny 12, 08012 Barcelona-Gràcia, até o 30 de Março de 2011. Com o apoio da Associação Caué, Amigos de São Tomé e Príncipe. Catálogo em: http://www.saotomeprincipe.eu.


[1] Versão portuguesa do artigo publicado em catalão no semanário L’Independent de Gràcia (Barcelona), a 18 de Março de 2011.

[2] Está-se a referir a Antoni Gaudí i Cornet, o genial arquiteto da Sagrada Família e do Park Güell, e ao seu ajudante Josep M. Jujol i Gibert, mestre na técnica do “trencadís”. O trencadís é um tipo de mosaico feito com fragmentos cerâmicos originários de resíduos, unidos com argamassa, típico da arquitetura modernista catalã e muito especialmente das obras de Gaudí.

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    Jucilene Responder

    Muito bonito o quadro, adorei!

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      wilçon conceiçao Responder

      male gostei muito da pintura . e o nosso amigo xavier que tanto faz para espandir os nossos trabalhos. um abraço amigao.

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    benavides pires sousa Responder

    fantástico, siga assim AMIGO!

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