Sobreviventes do Massacre de Batepá recebem apenas 300 mil dobras por ano cerca de 14 euros

Publicado em 04 Fev 2009
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Depósitos vivos da história sangrenta que marcou São Tomnota-de-50-mil.jpgé e Príncipe em Fevereiro de 1953, os sobreviventes do massacre de Batepá, aproveitaram a celebração do dia dos mártires da liberdade esta terça-feira, para manifestarem a sua indignação pela forma como têm sido tratados pelo estado. Anualmente recebem 300 mil dobras, valor inferior ao salário mínimo nacional. Com o corpo cheio de marcas das torturas a que foram submetidos, e a alma ferida pelo drama do massacre que impulsionou a luta pela independência nacional, os sobreviventes não se conformam pelo facto da Assembleia Nacional ter aprovado um diploma que dá regalias exclusivas a um grupo de combatentes da liberdade, nomeadamente figuras políticas que fizeram parte dos movimentos de libertação nascidos nos finais da década de 60.

O diploma aprovado pela Assembleia Nacional, dá uma série de regalias aos chamados combatentes da liberdade da pátria. Passaporte diplomático e uma pensão vitalícia de valor importante, fazem parte das regalias conquistadas por um pequeno grupo de pessoas, com destaque para figuras políticas que integravam os movimentos de libertação que nasceram após o massacre de Batepá, nomeadamente o CLSTP(comité de libertação de São Tomé e Príncipe), que se transformou em MLSTP, e a Associação Cívica, um grupo baseado no arquipélago que ajudou a desbravar o caminho da liberdade e a consequente entrada triunfante do MLSTP na praça da independência a 12 de Julho de 1975.

No entanto os homens e mulheres que conseguiram sobreviver ao massacre de 1953, não têm acesso a tais regalias, apesar de unanimemente se reconhecer que a resistência dos são-tomenses em 1953 contra a dominação colonial, foi um dos factores que justificou o início da luta pela independência nacional.

Odorico Afonso, um dos sobreviventes que saiu mais castigado do massacre perpetrado na Praia de Fernão Dias, guarda nas costas e noutras partes do corpo as marcas de queimadura com cigarro, das correntes que atavam as pernas, e do chicote que ensanguentava as costas. Reside numa casa de madeira praticamente em ruínas em Piedade localidade próxima de Batepá. Anualmente recebe 300 mil dobras, 14 euros, como recompensa por ter sobrevivido ao massacre que matou milhares de são-tomenses. «Vivo porque deus quer», afirmou para o Téla Nón.

Manuel Fernandes Vicente, é nome de outro sobrevivente, que reclama. «Recebo 300 mil dobras por ano que não dão para fazer nada. 1 ano é que nos dá alguma coisa. Isso é consciência que existe no país. Mas há dinheiro para todos», pontuou.

Idosos os sobreviventes de Fevereiro de 1953, não conseguem conter as lágrimas quando visitam Fernão Dias. Na última terça-feira, e como habitualmente o Presidente da República marcou presença no acto central. Fradique de Menezes disse que o massacre de Batepá é não pode ser esquecido. «É uma memória que a gente pode perdoar mas nunca esquecer. Que seja mais um factor de união e solidariedade entre nós para vermos se o futuro será melhor. Que não façamos coisas que possam nos levar a situações como as que ocorreram em 1953. Talvez de outra natureza mas idêntica. E que nem outros podem encontrar possibilidades de virem criar problemas no nosso seio, ou fazer-nos revoltar uns contra os outros», precisou o Chefe de Estado.

A angústia dos sobreviventes, deixou o Chefe de Estado embaraçado. Fradique de Menezes, garantiu que o estado são-tomense tem em conta a situação dos sobreviventes. Mas não tem recursos para dar satisfação cabal as suas necessidades. «Da parte dos dirigentes houve e há vontade de se fazer isto. O problema são os meios, para que haja continuidade, porque pode-se dar uma vez e não ter meios para garantir a continuidade», declarou para depois acrescentar que o assunto já foi analisado em conselho de ministro, mas o país é pobre. «Estamos num país pobre. Como fazer para que as pessoas tenham uma pensão vitalícia até a morte? Então lembra-se dessas pessoas só no dia 3 de Fevereiro, e lá se dá uma gratificação e não uma pensão que achamos ser mais justa», desabafou o Presidente da República.

O Téla Nón apurou que o actual governo, também analisou a situação no conselho de ministros que antecedeu a celebração do dia dos mártires da liberdade, mas não encontrou saída urgente porque estima-se em cerca de 1000 o número de sobreviventes do massacre.

Abel Veiga