Irão recorre leva a Rússia para Tribunal Internacional de arbitragem

Tudo por causa do fornecimento dos mísseis anti-mísseis S-300. Os dois países assinaram contrato de fornecimento, mas a Rússia acabou por suspender o processo alegadamente por causa de uma resolução das Nações Unidas. Em causa estão 800 milhões de dólares.

  • Melnikov: Partido Comunista não irá unir-se com outras forças políticas
  • Federação Russa surpreendida com a decisão do Irão de dirigir-se ao Tribunal de Arbitragem sobre contrato de fornecimento de S-300
  • · Medvedev e Kim Jong-il falaram de projectos e da dívida
  • A rádio dos anos dourados

Melnikov: Partido Comunista não irá aliar-se com outras forças políticas

Moscovo, 26 de Agosto – RIA Novosti.

O Partido Comunista da Federação Russa não tenciona formar alianças com outras forças políticas, mas não exclui uma possibilidade de cooperar com elas durante as eleições parlamentares, marcadas para 4 de Dezembro, comunicou quinta-feira aos jornalistas o dirigente adjunto da Duma de Estado e primeiro vice-chefe do CC do PCFR, Ivan Melnikov.

Terça-feira, o dirigente da Rússia Justa, Nikolay Levitchev, propôs aos comunistas formar uma aliança para lutar em conjunto contra a Rússia Unida, partido no poder, nas eleições.

Questionado pelos jornalistas se o Partido Comunista está disposto a unir-se com algum partido, Melnikov disse: “A única coisa que podemos fazer é trocar com eles as actas /das mesas de voto/”.

Anteriormente, Ivan Melnikov comunicara que, nas eleições para a Duma de Estado a 4 de Dezembro, os comunistas irão obter cópias das actas do escrutínio nas mesas de voto e contar paralelamente os votos.

Terça-feira, Ivan Melnikov declarou que o Partido Comunista pode formar uma aliança com a Rússia Justa se esta última apoiar o candidato pelo Partido Comunista nas eleições presidenciais.

Quinta-feira, Melnikov destacou que o Partido Comunista fez duas tentativas sérias de interacção com a Rússia Justa nos dois últimos anos.

“A primeira tentativa foi sobre os exames nacionais (nas escolas). Apresentámos a iniciativa e dirigimos uma interpelação ao Tribunal Constitucional sobre a inconstitucionalidade dos exames. Fomos apoiados pela Rússia Justa”, disse o comunista. Mas, nas suas palavras, quando os documentos já estavam no Tribunal Constitucional, a Rússia Justa anulou uma parte das suas assinaturas e o Tribunal Constitucional não examinou a interpelação, porque já não havia as 90 assinaturas necessárias.

O segundo caso mencionado por Melnikov foi uma demarche de três bancadas oposicionistas na Duma de Estado após as eleições de Outubro de 2009.

Na altura, o Partido Comunista, o Partido Liberal Democrata e a Rússia Justa abandonaram a sala de sessões plenárias da Duma de Estado em sinal de protesto contra as eleições, que, na sua opinião, não foram transparentes. Mais tarde, os representantes da Rússia Justa declararam não criticarem os resultados das eleições, mas sim o facto de terem sido privados da possibilidade de expressar-se.

“Embora Guennady Ziuganov admitisse a possibilidade de negociar com eles (Rússia Justa) sobre o assunto, a meu ver, a principal condição é o apoio ao candidato comunista à presidência /do país/ por parte da Rússia Justa”, acentuou o deputado.

Melnikov não apoia também os apelos da oposição extra-parlamentar a votar nas eleições “contra todos”.

“É uma grande estupidez, que equivale à votação a favor da Rússia Unida. Seria melhor se apelassem a votar a favor de quem quer que seja, menos da Rússia Unida”, disse Melnikov.

Federação Russa surpreendida com a decisão do Irão de recorrer ao Tribunal de Arbitragem sobre contrato de fornecimento de S-300

Moscovo, 26 de Agosto – RIA Novosti.

A Rússia está surpreendida com a intenção do Irão de recorrer ao Tribunal de Arbitragem Internacional sobre o contrato de fornecimento de sistemas de defesa antiaérea S-300, declarou quinta-feira o porta-voz do MNE da FR, Aleksandr Lukachenko.

Teerão apelou reiteradas vezes a Moscovo para que a Rússia cumprisse as condições do contrato de fornecimento de S-300. As autoridades da República Islâmica dirigiram-se anteriormente ao Tribunal de Arbitragem Internacional, para receber argumentos legítimos de que os fornecimentos de S-300 à parte iraniana não estavam abrangidos pela Resolução 1929 do CS da ONU. As autoridades do Irão esperam que o Tribunal de Arbitragem responda positivamente, permitindo fornecer legalmente sistemas russos S-300 à República Islâmica, declarou à RIA Novosti o embaixador do Irão em Moscovo, Seyed Mahmudreza Sadjadi.

“Naturalmente, tomámos conhecimento das declarações de personalidades oficiais iranianas sobre a intenção de contestar junto do Tribunal de Arbitragem as acções da Rússia neste contexto. Ao mesmo tempo, levando em consideração as relações amigas com aquele país, surpreende-nos que os nossos parceiros iranianos tenham optado por tal caminho”, disse quinta-feira Lukachevitch, comentando a pedido dos jornalistas as intenções de Teerão.

“Da nossa parte, consideramos mais construtivo procurar em conjunto soluções mutuamente aceitáveis para os problemas litigiosos que surgem periodicamente. Preferimos fazê-lo no quadro de um diálogo directo com a parte iraniana”, disse Lukachevitch.

O diplomata destacou que, para a parte russa, o problema do fornecimento de S-300 está encerrado desde o ano passado, após a respectiva Resolução 1929 do CS da ONU e o posterior Decreto 1154 do presidente da Federação Russa, assinado a 22 de Setembro de 2010.

O contrato de fornecimento de sistemas de defesa antiaérea S-300 ao Irão foi assinado no fim de 2007. A Rússia deveria fornecer à parte iraniana cinco grupos de sistemas de defesa antiaérea S-300PMU-1, no valor de cerca de 800 milhões de dólares. A 22 de Setembro de 2010, o presidente da Rússia, Dmitry Medvedev, assinou um decreto sobre o cumprimento da quarta resolução de sanções do CS da ONU em relação ao Irão (Resolução 1929 de 9 de Junho de 2010). O decreto proíbe a venda ao Irão de sistemas S-300, veículos blindados, aviões de combate, helicópteros e navios militares.

EM FOCO NA IMPRENSA RUSSA

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Medvedev e Kim Jong-il falaram de projectos e da dívida

O presidente Dmitry Medvédev encontrou-se esta semana na cidade de Ulan-Udé, capital de Buriátia, com o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-il.

Durante as conversações, as partes conseguiram tirar do ponto morto o problema da dívida contraída por Pyongyang à antiga União Soviética, tendo ainda decidido pôr em marcha um ambicioso projecto energético na península da Coreia.

O encontro dos dois líderes aparentemente deu resultados concretos. Do ponto de vista russo, conseguiu-se desbloquear as negociações sobre o pagamento da dívida de 11.000 milhões de dólares contraída por Coreia do Norte antes da desaparição da União Soviética.

Mas, mais importância ainda para o futuro económico e político na península da Coreia terá a futura construção de um gasoduto de 1.100 quilómetros de comprimento que, atravessando a Coreia do Norte, transportará o gás russo para a Coreia do Sul.

A rádio dos anos dourados

Elena Vánina, Aficha, Rossiiskaya Gazeta

O editor Aleksei Venediktov conta como a rádio Ekho Moskvy (Eco de Moscovo) tem conseguido manter o espírito dos “anos dourados” do jornalismo russo nas últimas duas décadas.

“Em Junho de 1990, Gorbatchov assinou uma lei de imprensa que permitia a abertura de emissoras de rádio privadas. Os meus colegas das emissoras estatais não suportavam mais fazer propaganda oficial e, assim, decidiram seguir um novo caminho. Reunimos toda a papelada para abrir a emissora e obtivemos o primeiro registo de entre todos os pedidos. Isso foi a  22 de Agosto de 1990.

Na época, eu trabalhava como professor numa escola. Eles ligaram-me e perguntaram: “Você está em Moscovo? Está de férias? Pode trabalhar uma semaninha connosco?”. Respondi: “Não ouço rádio, não tenho ideia do que é e não entendo como isso possa funcionar sem a presença de fios. Mas irei sim, por que não?”. Quando cheguei, perguntaram-me: “Conhece alguém do departamento de educação?”. Disse que sim. “Conheço o chefe do departamento, que já me concedeu vários prémios”. “Ligue para ele e entreviste-o no dia 29 de Agosto”. Essa foi a minha primeira entrevista na Eco de Moscovo.

Esta rádio surgiu como uma fonte de informação alternativa. Era 1990 na União Soviética desenrolava-se uma série de acontecimentos sem que os meios de comunicação oficiais os anunciassem. Logo um mês depois da fundação da emissora, o Conselho Presidencial discutiu a urgente necessidade de fechar a rádio. Tínhamos sido os únicos a informar que, em Setembro, as tropas se estavam a aproximar de Moscovo. O governo foi forçado a se justificar e disse que o Exército estava apenas a ajudar a fazer as colheitas nos arredores da cidade. Gorbatchov ficou indignado: “Mas qual é essa emissora pirata que diz o que não deveria ser dito?” Naquela época, estávamos situados na rua Nikólskaia, a duzentos metros da muralha do Kremlin. Esta foi a primeira vez que fomos atacados pelo Governo e, assim, ganhámos popularidade lentamente.

Em Agosto de 1991, enviaram-me ao Soviete de Moscovo, ao Estado-maior da resistência e, logo em seguida, à Casa Branca, sede do governo. Como era politicamente instruído e lia bastante, não tive dificuldade em saber quem deveria entrevistar. Quando uma pessoa conhecida como Lujkov passava por mim, gritava no meu microfone, que pesava uns quatro quilos: “Iúri Mikháilovitch!” A verdade é que, para um professor de história, é fácil trabalhar com a informação. A pessoa com quem vou conversar é, para mim, como um estudante. Há vários tipos. Quando vejo Putin, noto que tive uns dois alunos assim em cada turma em que dei aulas.

Durante o golpe de Estado, passei dois dias inteiros na Casa Branca. Temos que ter em conta que, naquela época, não existiam telemóveis. No terceiro dia, ao voltar de lá, depois de uma noite louca, encontrei um dos meus colegas na entrada da rádio. Falando no telefone, ele disse-me, enquanto segurava o telefone: “Quer entrar em directo?”. Tinham cortado o sinal, mas nossos engenheiros, como o lendário artesão russo Levchá, haviam feito ligações entre os fios de modo que estávamos ligados através de um telefone. Isto é,  transmitimos o nosso programa por meio de um intercomunicador.

Em 1994, ficou claro que deveríamos criar um negócio sério. O público esperava mais qualidade, mas as equipas técnicas eram ultrapassadas, os salários eram muito baixos e não podíamos contratar ninguém. Começamos a procurar investidores. Finalmente encontrámos dois grupos: os banqueiros Weiner, de Chicago, e Gussínski, que acabara de adquirir o canal de televisão NTV. Os Weiner dar-nos-iam mais dinheiro, mas exigiam o controle sobre a política editorial. O Gussínski dava-nos menos, mas dizia: “Que os jornalistas escolham o chefe de redacção”.

Decidimos, então, escrever nos estatutos da rádio que os jornalistas deveriam eleger o seu chefe, enquanto o conselho de accionistas se limitaria a aprovar tal decisão. Ou seja, eles não tinham o poder de designar quem seria o editor-geral sem perguntar aos jornalistas, assim como havia ocorrido no NTV. Por isso, vendemos o pacote de acções ao Gussínski, que cumpriu com todas as suas obrigações.

Mais tarde, a rádio Eco de Moscovo e a NTV passaram a ser controlados pelo Gazprom Media. Eu sabia de todos os pormenores dessa negociação e encontrei-me com Volóchin e com Putin. Entendia que as autoridades haviam tomado a decisão de controlar a política editorial de todos os canais de televisão e de rádio. Primeiro foi a vez da NTV, depois da ORT (Canal Um). Essa nacionalização encoberta era um processo consistente. Da mesma forma, a polícia fiscal e os tribunais arbitrais também actuavam, e assim por diante.

Nenhuma acção aconteceu por acaso; pelo contrário, eram todas coordenadas. Estava bem consciente de que, por trás disso tudo, havia uma decisão política. Eles apanhavam os reféns e colocavam um investidor atrás de outro na cadeia. O que era possível fazer contra isso? Nada. Por isso, dizia aos meus companheiros que tínhamos que continuar a trabalhar como se nada estivesse acontecendo – e que se fechassem a rádio, logo saberíamos. Também lhes dizia que a minha tarefa era pensar nessas coisas enquanto todos se encarregariam de continuar a trabalhar.

Aos que estavam acima de nós, comuniquei: “Não nos vamos meter na vossa política, mas, se cometerem erros, vamos criticar”. Putin escutou o recado e o resultado foi justamente esse: fizemos críticas. Na realidade, o meu accionista não era a Gazprom, mas sim Vladimir Pútin. Eles me disseram: “O seu accionista está no Kremlin. Vocês nos trazem benefícios económicos, mas não nos interessam as questões internas”.

Em Agosto do ano 2000, fiz uma entrevista com Putin, na qual ele me disse claramente que o chefe de redacção era o único responsável sobre tudo que acontecia na emissora. Embora também soubessem que para manter tudo a funcionar, a Eco de Moscovo tinha que gozar de uma certa reputação, Hillary Clinton ou Barack Obama não dariam entrevista a uma emissora da Gazprom. Mas fá-lo-iam a um meio de comunicação independente. Expliquei-lhes isso de uma maneira bem clara tanto a Senkévitch quanto a Pútin, mas me parece que eles vêem a Eco de Moscou como um negócio, no sentido amplo desta palavra”.

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