AO SÉTIMO DIA

Esfregámos ainda os olhos: à nossa volta o mundo continuava líquido, bastava estendermos a mão para fabricar a cor azul, os aromas do arco-íris.

Escrever na Areia

São de Deus Lima

AO SÉTIMO DIA

Ao certo, ao certo, ninguém ouviu um clic, uma vibração, um estalar de dedos, suave que fosse. Facto é que, de repente, começámos a esfregar os olhos.

Começámos a olhar em redor. Começámos, de novo, a dar de caras com as coisas e os nomes das coisas e o significado de cada coisa. Vimos, por exemplo, que os nossos mil quilómetros quadrados não haviam aumentado nem minguado por aí além.

Estavam ali mesmíssimos e sobre eles viajavam os nossos pés. Ali o sol, rijo, inteiro. E os poros da chuva, tal qual antes de ontem.

Alguém levou a mão em pala sobre os olhos: o Cão Grande, em São Tomé, e o Pico Maria Correia, no Príncipe, continuavam no lugar de sempre, cumprindo o ancestral apelo às alturas.

Nos palmares, palmeiras.

Nos coqueirais, coqueiros.

Nos coqueiros balouçavam dáuas como pesados seios e uma cintilação de vassouras e de prata dançava nas folhas.

Esfregámos a cara e nesse acto reinventámos a função dos dedos. E vimos a banana-pão, a banana-prata, a ouro, a madeira, a manson, a grãmuchel… e vimos que a população bananícola ganhara um outro membro, a banana-Gabão. Estavam ali todas, prenhes de substância e de orvalho.

Provámos e lembrámo-nos de como eram todas boas e nossas amigas.

A fruta-pão não perdera o seu sabor a fruta-pão, o izaquente sabia a izaquente, da mandioca nasciam a farinha de mandioca e o bêguê e o flipotxi.

A jaca era a jaca e o salambá e o safú e o abacate e a framboesa e o limão da terra e o limão francês e as surpreendentes goiabas de Taiwan e a tangerina e o pêssego e os frutos todos com a distinta alegria das suas cores e o profundo chamamento dos seus cheiros.

Soubemos de novo tudo isso e vimos que era bom.
E vimos a horta e na horta o makêkê, a beringela, a couve, o perfumado miskito, a muswa e a fyá tatalugua e alfaces e também cenouras e quiabos. A jimbôa e a fyá-ponto cresciam, soltas e despreocupadas.

Provámos e vimos que eram todas boas.

E vimos as flores e os nomes dados às flores, antes de nós. Sem roçar as pétalas, soubemos de novo como eram belas.

Esfregámos ainda os olhos: à nossa volta o mundo continuava líquido, bastava estendermos a mão para fabricar a cor azul, os aromas do arco-íris. Lisas eram ainda as praias e lavadas, macios e fundos os tapetes de areia. Sim, o mar era o mesmo portentoso campo e o horizonte a mesma promissora lavra.

Vimos novas rotas na cintura das águas e ali a arca, ali a barca, a barcarola com perpétuas sementes de engenho e ciências.

Navegámos ali nas nossas próprias barbas, espantados com a proximidade de oceanos e continentes, espantados de assim sermos tão próximos e novos.

Tocámos os nossos próprios cabelos e tocámo-nos, maravilhados de tão conjunto deslumbramento nos olhos de cada um. E vimos que isso era bom.·
Guiados por um bando de garotos, lançámos pedrinhas. Saltitaram gorgolejos de cardumes.

Uma tartaruga que tapava os ovos estranhou aquela algazarra. Olhou em volta, viu outras tartarugas, apalpou o bico com a patinha e viu que era bom.

E limpando, enfim, dos olhos toda a névoa da véspera, vimos que nunca tantas asas haviam ousado equilibrar-se nos ares e nos céus do nosso sítio, sustendo o fulgor das suas penas e a arte dos seus ninhos e a prodigiosa harmonia dos seus cantos.

O suim-suim e o pápa-figo, o keblankaná e o kelêkêtê, o ossobô e a viuvinha, o tluki-sun-dêsu e o sêlêlê, o bico-de-lacre e o tomé-gagá e até a pata d’áua encontrara finalmente um timbre musical.

Olhámos e vimos que era bom o assombro de todos nos olhos de cada um.

De repente todas as aves sossegaram. Mas, coisa nunca vista, os cantos ecoavam de onda em onda, de ramo em ramo, de nuvem em nuvem, subindo cascatas, as paredes das casas, luxans,  mercados e praças, ruas, esquinas e becos, entrando em nós com a frescura de uma fonte antiga e prometida.

Lavámos as mãos e bebemos dessa fonte e vimos que a sua sede era boa.

Foi então que, com a simplicidade das coisas simples, alguém disse:

– Vamos agora equilibrar também o nosso ninho.

Foi exactamente ao sétimo dia, depois da lenda da perfuração do poço.

Crónica publicada originalmente na edição de Dezembro de 2009 da revista África 21

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    De Longe Responder

    Tudo me assusta!
    Equilibrei o meu minho longe das origens, não equaciono o regresso.
    O passado persegue-me. O passado vem presentemente dizer que é meu futuro. O passado diz que eu não serei eu sem ele porque nada seremos sem nunca nada termos sido. É aqui onde as visões, os odores, os paladares e as vozes das origens me aprisionam.
    Não devia assim ser mas é e de simples explicação. Vejamos uma uma pergunta insignificante: “de que terra és?”
    Resposta simples: “S.Tomé e Príncipe”
    Tão fácil sentir que não estou no meu lugar… que sou felizmente de algum sítio. SOU DE S.TOMÉ.
    Por isso assustei-me, São: Ao equilibrarem o seu ninho terão desiquilibrado a harmonia são-tomense?
    As ondas e os ventos não se enfureceram?
    Espero que haja ventos em STP que me tranquilizem aqui tão distante onde vivo.
    Porque mesmo não equacionando o regresso, sofro e luto por essa terra porque sou de S.Tomé e Príncipe.

    Vou continuar a perguntar sempre:
    _ O que existirá na nossa terra para mudar tanto as pessoas, inclusive as que já afirmaram ter sofrido tanto quanto eu?
    _ Faltou-nos educação equilibrada com amor? Consegiremos corrigir?

    Penso que para além das leis, só a dedicação e rigor governativo nos poderão salvar.
    VAMOS JUNTOS APOIAR QUEM O QUEIRA FAZER!

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    J. Maria Cardoso Responder

    Tudo está no sítio de onde não sairam. Só os homens sairam.
    Regressaram e trouxeram-nos “modas novas” com k vamos moldando o tempo e correndo loucamente para entrar no Mundo k não é nosso.
    Os k não regressaram tb ainda não sairam. A placenta funda na terra não solta a alma vadia.
    Não sabia k S.Tomé e Príncipe, minha terra, após os nove meses de parto ainda dava luz a gente de se vergar a testa.
    Soberba força Téla Nón.
    Parabens São de Deus.

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    COCO NZUCU Responder

    Caros amigos, a Sra Sao de Deus tem um perfil fora de comum. Porque sera’? Tenho estado a pensar se ela nao seria a pessoa ideal para protagonizar a proxima mudanca que devera’ ocorrer na vida dos Santomenses num futuro mt breve. Sabem do que estou a falar? Analisemos o perfil dela: Tem bagagem, QI acima da media e, sobretudo, possui um sentimento patrio profundo. Que mais podemos exigir duma pessoa? Havera mais alguem neste momento? Tenho duvidas. Seria uma pena nao aproveita-la, pois ela tem muito potencial para dar a esse povo que continua a ser martirizado. Sem a permissao dela, tomo a liberdade em convidar-vos a pensarem seriamente no assunto. Obrigado.

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    Jovem quadro Responder

    Cara São!!!

    O teu profundo amor a pátria, faz com que de todas as maneiras tentes despertar para o país, infelizmente o santomense não é bom com as palavras, mas com más acções. Mas ainda acreditas que cada um com o seu melhor ainda cnseguirá com que sintamos orgulhosos de sermos Santomenses. Apontas os pontos críticos, que é a melhor maneira de se atingir os pontos fortes, mas o Homem dessa terra é tão mau que transforma o ponto crítico factor chave para se atingir o sucesso, em factor destruitivo.Esse é o perfil do homem santomense. A nosso ilha esta sempre do nosso lado, incansávelmente nos brinda com a sua fantática natureza, e nós incansávelmente vamos destruindo.
    Mas o Homem santomense é espantosamente mau e egóistica que jamais acabará de construir o seu ninho, para olhar se a sua volta inda existirão folhas para consertar o ninho da mãe que ele ao longo dos tempos foi destruindo.
    Basta olhar para os acontecimentos acuais para vislumbrarmos que a história se repitirá e se calhar com mais perfeição malígna, que o ponto de equilibrio do ninho se vai distanciando cada vez mais do fundo do túnel.Não desistas, São, estás do lado da luz que ainda ao fundo do túnel vai conseguir ……..Estamos todos do teu lado, para um São Tomé em que,sim vamos ter orgulho de sermos parte.

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      Andrade Catanhede Responder

      Meu caro Jovem quadro
      Não sou sociólogo nem tão-pouco antropólogo. Mas, pelo que conheço, por causa da minha vivência com os são-tomenses desde a época colonial a esta parte, atrevo-me a dizer que nós não somos maus por natureza. Transformaram-nos em maus!…
      Comparando o que éramos no passado e o que somos hoje em termos comportamentais, houve uma grande mudança para o negativo. No passado, éramos gente pobre mas honrada, amiga umas das outras, solidárias, gente que tinha orgulho de ser são-tomense, gente que era apreciada no estrangeiro, enfim, mulheres e homens que andavam de cara levantada, salvo algumas excepções. Conheci alguns são-tomenses, pertencentes a elite da época, que foram parar a cadeia por terem desviado os fundos do estado. O que quer dizer, isto de desvio dos fundos não é coisa de hoje. A diferença é que quem roubasse ia imediatamente para a cadeia. Há muitos chamados políticos da nossa praça cujos pais e familiares foram parar atrás das grades por esse motivo. Por isso, eles herdaram os seus predecessores. A diferença é que enquanto os primeiros foram parar a cadeia, os seus descendentes continuam impunes. Em suma, filho de peixe sabe nadar!…
      Posto isto, o que se passa connosco? O que teria acontecido e o que tem acontecido para levar-nos a perder todos esses valores positivos, restando-nos apenas os maus como o roubo e a preguiça de trabalhar?
      Na minha perspectiva, para além de outros factores, aponto o dedo a política que foi implantada neste país nestes últimos 35 anos. Essa política de dividir para reinar, essa política do deixar andar para criar o ambiente propício para o saque, essa política que promove a incompetência, deixando de lado homens e mulheres de competência reconhecida. Em suma, esta partidarização exacerbada da sociedade que tem promovido o princípio de “se não estás comigo, estás contra mim”. Assim, não vamos a lado nenhum e, cada dia que passa, vamos afundando-nos ao ponto de sermos maus uns com os outros, por razões anteriormente apontadas.
      Também cheguei a pensar da mesma forma. Mas, reflectindo de cabeça fria e profundamente, a culpa não deve recair sobre os ombros do povo como tal. A culpa deverá sim recair sobre os ombros dos nossos pastores, aqueles que, durante esses 35 anos, têm vindo a dirigir esse país da forma como todos nós sabemos.
      Se fosse possível, os nossos sociólogos deveriam organizar um debate público sobre esta matéria.
      Continuemos a trabalhar, cada um no que pode, para ajudar a inverter a situação. A São é um exemplo. Retiraram-lhe a Direcção de um Sector que domina. Como vez, ela não parou. Apenas mudou de estratégia.
      Um bem haja a todos os são-tomenses de boa vontade e que tem contribuído para o engrandecimento de São.Tomé e Príncipe.

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    PURA AFICANNA Responder

    ENTÃO SÃO! NÃO PODIA DEIXAR DE COMENTAR ESTA MARRAVILHOSA OBRA FEITA COM AS PERFEITAS PALAVRAS NO MOMENTO PRÓPRIO E QUE A CIMA DE TUDO É A MAIS PURA DAS NOSSA REALIDADES.
    SÓ TENHO MUITA PENA, PORQUE AS TUAS PALAVRAS MI TOCAM SINTO QUE PRECISO CONTRIBUIR PARA QUE REALMENTE O NOSSO PAÍS MUDE, MAS SINCERAMENTE NÃO SEI POR ONDE COMEÇAR. APARTIR DE MAIS ESTE DOS OUTROS TEXTOS TEUS, VERIFICO QUE PRECISAMOS RECUPREAR OS NOSSOS VALORES E NÃO SÓ. FORÇA AÍ SÃO LIMA

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    De Perto Responder

    Amiga São:

    Artigo lindo, pura literatura! Adorei. Mas o pôvo gosta de fogu na canjica, já viste? Se fosse otra carta pá Apolinária…

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    gilker Nascimento Responder

    Terra amada,patria amada!Sei que um dia iremos todos reconhecer o quao ela é valiosa!Eu creio no poder de acreditar,acreditar no impossivel!Acreditar que Deus,ha-de mudar a situaçao desta patria,e isso vai acontecer quando todos nós,começarmos á erguer as maos pra cima e declarar palavras de bençao sobre nossa naçao e sobre nosso povo,ainda que as coisas parecem contrarias!Deus do impossivel,abençoe Sao Tomé e Principe!Parabéns Sao por seres quem és e Deus te abençoe!!!

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