Ilações de Eugénio Domingos

Depois de uma análise um pouco extensiva sobre os artigos de opinião publicados nos jornais Tela Nón/O Parvo, entrecruzando-os com as mais variadas informações dos jornais das outras paragens do mundo nomeadamente Europa ocidental, tirei algumas ilações que ouso compartilhar com todos, na tentativa de encorajar reflexões.

Primeira das ilações

Os atuais debates sobre o capitalismo e os modelos económicos

Parecem-me tais debates puras ideologias e preocupações dos ricos. Por isso, entendo que os países africanos têm problemas concretos que se diferem grandemente dos existentes nos chamados países industrializados. Devemos entender que somos uma economia pré-industrial e não pós-industrial/financeira como são os países desenvolvidos. Daí que é preciso encontrar meios que possam garantir a autossustentabilidade alimentar e energética às populações, sem que algumas delas fiquem postas de lado. Aliás, todos sabemos que sem energia não podemos desenvolver um país. A educação, a saúde, o papel das novas tecnologias, também são muito importantes. Portanto, é urgente nos dias que correm tentar encontrar experiências lá onde elas são um sucesso, porque tiraremos decerto importantes ensinamentos ao invés de passarmos a vida falando de ou sobre modelos. Indico desde logo Brasil como um grande exemplo a seguir talvez para munirmo-nos de conhecimentos de uma melhor organização da nossa agricultura, dos nossos agentes económicos ou quiçá do nosso sistema politico.

Atrevo-me mesmo em dizer que não devemos cruzar os braços diante dos elogios dos nossos parceiros internacionais nomeadamente Banco Mundial e FMI, nem tão pouco seguir as suas exigências sem fazermos delas um verdadeiro objeto de debate e análise interno junto da classe intelectual santomense face ao atual estado da nossa economia real. Exigências de não subvencionarmos por exemplo os nossos produtos, baseado na teoria de não intervenção do Estado, quando sabemos que durante a crise os Estados intervêm em todo mundo, não fazem sentido.

Os decisores políticos em África devem ensaiar de introduzir em comum uma política para energia, infraestruturas e o comércio interno, porque para se ter um mercado bastante grande, é preciso suprir as fronteiras. Nosso país pode não ter recursos matérias necessários para atrair o que quer que seja, mas se for hábil no aproveitamento dos recursos humanos disponíveis e se fizer representar pelos mesmos, pode fazer diferença nos cenários internacionais e fazer valer o bom nome da nossa nação.

Tal como nas outras paragens do mundo se verificam ambientes bastante prósperos de crescimento económico e consequentemente do desenvolvimento sustentável, no continente africano também se pode verifica-los. E o nosso país como parte constituinte deste magnífico continente e do mundo, também é suscetível de tais prosperidades. Apenas há uma questão que gostaria que todos compreendêssemos:

▪ A mudança depende e dependerá para todo e sempre em qualquer parte do mundo e particularmente em África dos seus dirigentes. Porquê?

  1. a. Para que você seja respeitado é imperioso que você comece a se respeitar.

Quando dizemos que começamos uma reunião às 9 horas é importante começa-la às 9 horas e não às 10h ou 12h. Em seguida olhem para o que se passa com a nossa Administração Pública ou mesmo ao nível das chefias de alguns organismos do sector privado. Cada um entra a hora que quiser e sai em função dos seus interesses pessoais, as reuniões ficam na maioria das vezes por se realizar, os assuntos são adiados sistematicamente por falta de agendamentos sérios ou de cumprimento dos horários, os convites às reuniões não respeitam regras, os cidadãos não se revêm na sua Administração, quer as coações como as sanções são permanentemente desrespeitadas, o que tem debilitado o nosso Direito objetivo e consequentemente os direitos subjetivos dos cidadãos santomenses. Quem fala de S.Tomé e Príncipe, fala de um pouco por toda a África. Ainda não desenvolvemos uma cultura de organização, de trabalho e de respeito pela ordem e autoridade do Estado. Neste sentido urge a necessidade de conceção de políticas que possam incentivar gosto pela organização, pelo trabalho e pelo bom funcionamento das instituições no nosso país.

  1. b. Há quem diga que os ministros não sabem o que fazer, sobretudo quando se trata do sector da justiça.

Se isto constitui verdade, então o chefe do governo e o seu elenco e muito particularmente o senhor ministro da justiça, devem todos em conjunto repensar e muito bem sobre as responsabilidades que lhes foram confiadas pelo povo santomense. E concomitantemente o Senhor presidente da Republica e todos os que direta ou indiretamente respondem pelo poder judiciário são-tomense devem encontrar nos meandros dos seus poderes, alternativas para ajudar o país a sair da desordem em que se encontra submetido. Deixo-vos então a meditar sobre esta excêntrica frase do extraordinário escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe – “antes melhor uma injustiça que uma desordem”, para mostrar que o objetivo principal da lei é a ordem e não a justiça.

  1. c. É preciso dotar S.Tomé e Príncipe de uma nova imagem.

Dos assuntos relevantes nos jornais e nas agendas africanas destacam-se a corrupção e a sida. No nosso país – a corrupção tem assumido posição preocupante: as obras públicas parecem cada vez mais violar os princípios do direito dos contratos públicos e das obrigações contratuais. Grupos para auditar ou até mesmo realizar inquéritos que esclareçam denúncias ou ocorrências suspeitas que provêm da má gestão dos bens públicos, têm sido sistemática e paradoxalmente formados pelos presumíveis infratores, o que como deverão compreender em nada resultarão tais inquéritos, antes pelo contrário, continuarão a impossibilitar a cura definitiva que todos desejamos da depravação que há pouco mais de três décadas vem arruinando a nação são-tomense.

  1. d. É indispensável por enquanto agir visando uma melhor governança

- Renegociar os contratos das possíveis atividades económico-financeiras do país.

- Valorizar e aproveitar da melhor forma o sector privado, criando um maior e melhor equilíbrio entre o mesmo e o sector púbico do Estado para que as populações possam aproveitar realmente dos recursos disponíveis, evitando deste modo que continuemos a ser vistos como país das corrupções e das malárias onde os chefes do Estado e dos Governos só pensam neles e nos seus interesses pessoais;

- Fazer-nos representar por homens e mulheres capazes e responsáveis, devidamente formados e selecionados;

- Que se esqueça das querelas político-partidárias, e passa-se a pensar firmemente no país e na sua capacidade produtiva, procurando assim equilibrar as políticas externas com as internas do nosso país. Porque como todos sabemos há um desfasamento enormemente preocupante entre os dois sectores, o que deixa a nossa famosa estabilidade macroeconómica fragilizada;

- Enquanto são-tomense, peço a introdução ou reintrodução de uma disciplina cívica nas escolas e um pouco por todos os órgãos da soberania com enfase na Administração pública, porque a adoção de carácter punitivo ou de forma de “sermão” não tem sido e nem será tão já a mais oportuna para gerar mudanças e modificar comportamentos. É essencial que seja feito um trabalho de desenvolvimento de competências sociais, no que se refere a comunicação (verbal) de resolução de conflitos e de trabalho de grupo. E por outro lado, justifica-se fundamental, indagar mecanismos que possam garantir aos alunos e aos funcionários do Estado o desenvolvimento de autonomia, de autoconfiança, de assertividade e do sentido de responsabilidade.

Não podemos esquecer que a democracia avança em S.Tomé e Príncipe e um pouco por toda a África, que a população são-tomense é jovem e que esta juventude aspira a mudança e melhores padrões de vida. Não esqueçamos que as informações constituem hoje um património comum com o qual acompanhamos direta ou indiretamente a evolução dos mais distintos fenómenos que nos rodeiam no tempo que nos é dado viver. É por isso também que termino aconselhando o uso das novas tecnologias para acelerar a história.

Eugénio Domingos

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    Lede di alame ça ua Responder

    100% de acordo em relacao ao banco mundial e FMI, e tambem na diferenca existencia a situacao da africa e concrectamento sao tome, nao adiantando muito, uma vez que quase tudo esta dito, apenas como cidadao nacional e defensor de interreses de STP, sou de opniao de escoracar FMI do nosso pais, pois sao sanguesugas…..

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    Lima Responder

    Olá, meu caro Eugénio

    Quem como eu, tive a oportunidade e o previlégio de contigo partilhar uma turma, não me surpreende o teu interesse por essas matérias.

    Muito interessante o teu artigo

    Um abraço

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    Lima Responder

    Breve correcção…privilégio e não previlégio

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    Hélder Deus Lima Responder

    Caro Eugénio Domingos, também sou de opinião de que, os modelos económicos que servem grande parte dos países Africanos, embora possam incorporar muitos itens dos vários modelos praticados em muitos países desenvolvidos, têm que conter características específicas que favoreçam a emergência/crescimento, domínio de tecnologia, conhecimentos e capitalização do empresariado nacional e consequente depósito de riquezas no solo Africano.
    Sobre S.T.P, é urgente uma estratégia de gestão pela melhoria contínua dos serviços/produtos prestados pelas empresas e principalmente pela Função Pública (fruto de melhoria global no sistema de serviços ou de produção), como factor de atractividade, poupança e competitividade. O Estado deve assumir esta iniciativa e promover a propagação da filosofia/estratégia de gestão pela qualidade total também no sector privado, visionando os consequentes numerosos ganhos sócio-económicos.
    Também concordo contigo quanto a natureza de conduta das instituições do estado, onde cito um exemplo de postura recomendada: Uma comissão especializada de inquérito, de Assembleia Nacional, deve dar sinal claro da sua seriedade desde a sua constituição.

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    alcides Responder

    parabens amigo. o teu artigo deve servir de um pano de fundo para as reflexões de uma nova forma organizacional em Africa. De facto os políticos Africanos merecem uma nova licenciatura… que envolve respeito,etica, moralidade, pontualidade e assiduidade.

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