Festa da música são-tomense

São Tomé e Príncipe comemorou recentemente uma das maiores festas da música nacional, através da premiação dos cantores e compositores das ilhas, no primeiro STP Music Awards.

A realização deste evento deixou escancaradas duas conclusões muito interessantes e que no meu entender merecem algumas considerações.

1ª Pela primeira vez em muito tempo, notou-se um consumo massivo e generalizado da música nacional.

2ª As transformações/evoluções ou retrocessos que marcam a música atual produzida em São Tomé e Príncipe.

Falar de transformações verificadas nas músicas feitas no arquipélago ao longo dos anos poderá parecer algo banal para muitos, já que é facto consumado, não só no país, mas também além-fronteiras, a sobreposição do estilo comercial ao tradicional ou mais característico. No entanto, não falo só disso, realço sobretudo dois estilos mais “usurpadores” seguidos pela maioria dos cantores e compositores do país em detrimento, por exemplo, do tradicional Rumba. Falo do Kizomba e do Kuduro.

Mais do que criticar essa opção dos fazedores da chamada “música nacional”, eu quero enfatizar aqui o que me parece ser um protelar de valor, ou seja, a impressão que fica é a de que os arquitectos da música estão a fazera pausa no que toca às referências musicais características das ilhas herdadas dos vários mestres do passado.

O Kizomba e o Kuduro, que são estilos típicos de outras paragens africanas, ganham cada vez mais raízes em São Tomé e Príncipe. De certa forma começam também eles a se tornarem tradicionais. Mas é dado adquirido o facto de esses dois estilos estarem desprovidos do simbolismo e exemplos que outrora caracterizavam a música são-tomense. Os leitores mais evolucionistas dirão com toda a certeza que é a moda, é comercial, é o que o povo gosta. Pois claro! Não discordo em absoluto, pois como já havia citado também o mundo musical é gerido pela economia.

Por outro lado, haverá certamente outra corrente que dirá que o assumir destes estilos como os prioritários no panorama musical nacional é um retrocesso, já queserdem os traços da são-tomensidade. Não me coloco a favor nem contra nenhuma das duas correntes e ressalvo que em meio às muitas contradições que as análises podem trazer à tona há espaço para inovações. Exemplos disso são algumas misturas de estilos que temos observado, sobretudo mais experimentadas pela nova geração de cantores. Kizomba com Stléva, Kuduro com Puita entre outras. Só um especialista em matéria de música poderia dar nota positiva ou negativa a essas misturas, no entanto a inovação está lá.

A realização do primeiro STP Music Awards veio provar isso mesmo. A maioria dos premiados pertence a nova incubadora de cantores são-tomenses. O evento que marcou a festa da música são-tomense trouxe outra certeza. Eu arrisco-me mesmo em dizer que “nunca a música nacional foi tão consumida como agora”.

O STP Music Awards estreou o sistema de “turnês” únicas e exclusivas de cantores são-tomenses, coisa até agora nunca vista. A recetividade do público foi tão alta, tão boa que para a organização pecou-se apenas por não se ter conseguido levar os espetáculos a todos os distritos do país.

Ainda assim, uma coisa ficou esclarecida, os são-tomenses amam a música nacional, seja ela em que estilo for…, Kizomba, kuduro ou com traços mais tradicionais

Brany Cunha Lisboa

 

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    Eusébio Pinto Responder

    Interessante o artigo!

    Julgo que a classe musical santomense, desde os fazedores (compositores, cantores e instrumentistas), os críticos, o governo, através do seu órgão vocacionado, deveriam aproveitar o “embalo” do momento e, quiçá, promoverem um fórum, uma mesa redonda, um colóquio, enfim… (a terminologia teria menos relevância do que o acto), sobre a música das nossas ilhas. E ousar-me-ia a propor o tema: “A música de São Tomé e Príncipe – A radiografia do passado e um olhar sobre o presente.”

    Eusébio Pinto
    Luanda – Angola

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