Cultura

Livro necessário para compreender a construção de um país – “Meu Nome é Joaquim”

Biblioteca dos Coruchéus, em Alvalade, recebeu no passado 17 de abril de 2026 a apresentação oficial em Portugal do livro O Meu Nome é Joaquim — Fragmentos de Memórias, da autoria do embaixador Rafael Branco.

Num momento marcado pela emoção, reflexão histórica e reconhecimento público, uma das intervenções mais relevantes da sessão foi protagonizada pelo jornalista especialista em assuntos africanos e escritor, Xavier de Figueiredo, que traçou um retrato incisivo do autor e da importância política da obra.

Logo no início, Xavier de Figueiredo revelou que acompanhou o nascimento do projeto editorial praticamente desde os seus primórdios, sublinhando a proximidade intelectual e humana que mantém com Rafael Branco. Recordou ainda que, no seu percurso como jornalista atento ao futuro africano, construiu uma vasta rede de contactos, na qual Rafael Branco ocupou sempre lugar de destaque, particularmente no acompanhamento da realidade são-tomense. 

Destacando qualidades raras no espaço político contemporâneo, o orador definiu Rafael Branco como uma personalidade dotada de profundo conhecimento dos assuntos nacionais, sensibilidade analítica, frontalidade e genuíno espírito autocrítico, características que considerou essenciais para compreender os desafios do passado e do presente. 

Segundo Xavier de Figueiredo, o livro constitui uma síntese dessas qualidades humanas e políticas, apresentando-se como uma obra escrita “num estilo muito direto, sem peias”, onde se faz luz sobre os sucessos e fracassos que marcaram cinquenta anos da história de São Tomé e Príncipe

Na sua análise, sublinhou três grandes alertas presentes na obra:

  • a erosão de valores morais e políticos provocada pela prevalência de interesses pessoais e de grupo;
  • o aparecimento de ameaças ao sistema democrático, através de tendências autoritárias e projetos de poder duradouro;
  • os reflexos económicos e sociais dessa degradação política, descritos pelo autor como uma verdadeira banalização do mal. 

Para Xavier de Figueiredo, trata-se de um livro politicamente oportuno, não apenas pela leitura crítica do passado, mas sobretudo pelo seu valor de advertência perante os riscos de um futuro sombrio para São Tomé e Príncipe, caso não haja correção de rumo. 

Num registo mais pessoal e descontraído, encerrou a sua intervenção com duas notas de apreço: a dimensão autobiográfica e profundamente humana do livro, que permite compreender o percurso de esforço e afirmação de Rafael Branco, e ainda os poemas incluídos na obra, garantindo ao autor, com humor e amizade, que “não é tão mau poeta como pensa”. 

A apresentação confirmou O Meu Nome é Joaquim como uma obra de memória, intervenção e consciência crítica, destinada a marcar o debate político e cultural em língua portuguesa.

Livro necessário para compreender a construção de um país

Na sua intervenção, o poeta angolano João Fernando André classificou a obra como “um livro necessário”, sublinhando que oferece o testemunho de alguém que viveu por dentro o processo de formação de um Estado africano de língua portuguesa.

Referiu ainda que a narrativa combina memória política, experiência humana e uma dimensão literária singular, enriquecida pela presença de poemas inseridos ao longo do texto. Para o investigador, essa escolha confere ao livro profundidade emocional e transforma-o num objeto literário que ultrapassa o simples registo autobiográfico.

Segundo o autor, os vários capítulos representam fragmentos da sua vida: a infância em São Tomé, a passagem do meio rural para a cidade, as dificuldades sociais, a descoberta da escola como instrumento de ascensão e, mais tarde, o envolvimento na política e na diplomacia internacional.

“Este livro é uma tentativa de mostrar quem eu sou verdadeiramente”, afirmou, acrescentando que o objetivo central da escrita foi alcançar paz consigo mesmo e aceitar, com honestidade, os acertos e erros do seu percurso.

Experiência internacional e visão crítica das Nações Unidas

Ao recordar os anos ao serviço das Nações UnidasRafael Branco descreveu esse período como um dos mais ricos da sua vida profissional.

Falou da importância histórica da organização no apoio à autodeterminação dos povos colonizados, mas também deixou uma crítica clara à atual estrutura internacional, defendendo uma reforma profunda do Conselho de Segurança e maior representatividade global. 

Diálogo com a juventude

Um dos momentos mais marcantes da sessão aconteceu durante a intervenção do jovem escritor são-tomense Valério, que questionou o autor sobre o contributo do livro para as novas gerações e para a construção de uma sociedade melhor.

Na resposta, Rafael Branco deixou uma mensagem forte: uma sociedade evolui quando valoriza o bem comum, o conhecimento, a honestidade e o sentido de comunidade.

Alertou ainda para o perigo da superficialidade e da opinião sem estudo, defendendo que o progresso exige preparação, competência e espírito crítico.

Um livro entre memória e futuro

Mais do que um lançamento literário, a sessão revelou-se um encontro entre gerações, onde passado e futuro dialogaram sem medo.

Meu Nome é Joaquim afirma-se, assim, como uma obra de memória viva, consciência crítica e esperança, destinada a ocupar lugar relevante no pensamento contemporâneo em língua portuguesa.

Fonte : www.autores.club

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