Rafael Branco
Há vidas que se contam em linha reta. E há outras -como esta- que só podem ser compreendidas em fragmentos.
Nasci antes da independência de São Tome e Príncipe. Carrego memórias de um tempo que já não existe- e de sonhos de um tempo que ainda não chegou.
Fragmentos de Memórias não é apenas um livro. É uma tentativa de reunir, entre ruínas e iluminações, aquilo que fomos, aquilo que perdemos e aquilo que, apesar de tudo, insistimos em ser.
Michel Montaigne escreveu” eu mesmo sou a matéria do meu livro”. E é nesse território – onde o autor se torna objeto e a vida se transforma em reflexão- que este texto habita.
Não há aqui a pretensão de oferecer respostas definitivas. Há, antes, a humildade de quem aprendeu que viver, é acima de tudo interrogar-se. A vida não se revela aos que têm certezas absolutas. Revela-se aos que aceitam duvidar. A dúvida, tantas vezes confudidas com fraqueza, pode ser uma forma superior de equilíbrio. É ela que nos afasta do fanatismo das convicções rígidas e nos devolve a nossa condição humana: imperfeita, inacabada, em constante construção. Neste sentido, o espírito de Hermam Hesse atravessa essas páginas. Em obras como Sidarta, o caminho não aparece como linha reta, mas como uma travessia feita de erros, ruturas e reencontros.
Este livro nasce dessa travessia. Não é uma celebração do sucesso, nem um lamento contínuo pelas quedas. É sobretudo um testemunho: o testemunho de alguém que olhou para dentro de si e aceitou o desconforto de não encontrar respostas fáceis. De alguém que percebeu que a maturidade não está em saber mais- mas em duvidar melhor.
Vivemos num tempo que exige certezas rápidas, opiniões firmes, identidades sólidas. Mas o ser humano não é sólido. É contraditório, mutável, fragmentado. E talvez seja exatamente nessa fragmentação que reside a sua verdade mais honesta.
Escrever sobre nós mesmos nunca é simples. Exige permanecer diante do que somos o tempo suficiente para não mentir.
Durante muito tempo, pensei que viver era ter razão. Hoje sei que viver é aprender a escutar, a hesitar, a voltar atras. É aprender a duvidar não como fraqueza, mas como respeito pela complexidade da vida.
Há uma geração- a que nasceu depois da independência- que hoje pergunta: valeu a pena? Não fujo a esta pergunta.
Quem viveu antes… sabe o que foi sonhado. Quem vive agora sabe o que ficou por cumprir. E eu, como muitos de nós, encontro-me no meio disto tudo: entre o que fomos … e o que ainda não conseguimos ser.
Este livro não responde a pergunta se valeu a pena. Mas também não a evita. Permanece diante dela.
Herman Hesse escreveu sobre caminhos interiores, sobre perder-se para encontrar-se.
Mas eu aprendi que nem sempre nos perdemos sozinhos. Por vezes perdemo-nos como país.
E, se houver caminho de volta, teremos de o fazer juntos.
Cada fragmento aqui reunido é uma tentativa de encontrar sentido. Mas é também o reconhecimento da sua impossibilidade plena. Viver é, inevitavelmente, não compreender tudo- e ainda assim continuar.
Se alguma sabedoria atravessa estas páginas, ela não está nas respostas que oferecem, mas nas perguntas que se recusam a morrer: perguntas sobre o amor, o tempo, o poder, a solidão, e a memória. Perguntas que não pretendem encerrar-se, mas abrir caminhos.
Talvez seja esse, no fim, um dos sentidos da vida: não alcançar uma verdade final, mas aprender a habitar a incerteza com serenidade.
Ao chegar ao fim, talvez o leitor descubra que não tenho respostas para lhes dar.
Tenho apenas isto- fragmentos de uma vida, sem filtros e sem defesas.
E talvez seja esse o ponto mais próximo a que conseguimos chegar da verdade. E se, no meio destas páginas, alguém encontrar um pedaço de si mesmo, então talvez tenha valido a pena.
Muito obrigado.
Silvino Palmer
1 de Abril de 2026 at 15:29
Bravo, Senhor Joaquim Rafael Branco!