Desporto

Quando a incompetência custa milhões ao futebol são-tomense

Há notícias que causam indignação. Há outras que causam tristeza. E há aquelas que conseguem provocar ambos os sentimentos ao mesmo tempo. A revelação de que a Federação Santomense de Futebol terá perdido mais de 3 milhões de dólares em apoios da FIFA, além de cerca de 100 mil bolas e vários programas de desenvolvimento, simplesmente por não responder a e-mails, enquadra-se precisamente nessa última categoria.

Confesso que, há algum tempo, decidi deixar de comentar o estado do nosso desporto. A sucessão de erros, oportunidades desperdiçadas e falta de visão parecia ter atingido um nível tal que qualquer crítica acabava por cair em saco roto.

Mas esta notícia tocou-me profundamente, porque não estamos a falar de falta de recursos financeiros internacionais, nem de discriminação contra São Tomé e Príncipe, Estamos a falar de uma oportunidade perdida por falhas básicas de gestão e organização.

Num mundo cada vez mais digital, onde instituições, empresas e governos comunicam diariamente por via eletrónica, é difícil compreender como uma federação nacional pode perder milhões de dólares por não responder a mensagens de correio eletrónico.

Não estamos perante um problema técnico complexo, estamos perante uma questão de competência, responsabilidade e profissionalismo.

Os recursos disponibilizados pela FIFA não serviriam apenas para comprar equipamentos, Serviriam para formar treinadores, apoiar competições juvenis, desenvolver o futebol feminino, fortalecer o futebol de praia e criar oportunidades para centenas de jovens atletas em todo o país. Em suma, seriam investimentos no futuro do futebol nacional.

Enquanto muitos países lutam para captar financiamento externo para os seus projetos desportivos, São Tomé e Príncipe vê escapar apoios valiosos por razões que não deveriam sequer existir numa instituição que tem a responsabilidade de dirigir a modalidade mais popular do país.

O mais preocupante é que este episódio parece revelar um problema mais profundo: a existência de estruturas dirigentes que continuam a funcionar com métodos ultrapassados, sem capacidade de adaptação às exigências do desporto moderno. O futebol atual exige planeamento, gestão, transparência, prestação de contas e comunicação permanente com os organismos internacionais. Quem não acompanha essa evolução acaba inevitavelmente por ficar para trás.

As consequências destas falhas não recaem sobre os dirigentes. Recaem sobre os jovens que ficam sem formação, sobre os clubes que continuam sem apoio adequado, sobre os treinadores que perdem oportunidades de qualificação e sobre os adeptos que sonham ver o futebol são-tomense crescer e competir a outros níveis.

Este episódio deve servir como um sério alerta. O próximo ciclo de financiamento da FIFA, entre 2027 e 2030, não pode transformar-se em mais uma oportunidade desperdiçada. O futebol nacional precisa de dirigentes preparados, ativos e comprometidos com os interesses do desporto, e não de gestores que deixam passar oportunidades históricas por falta de acompanhamento administrativo.

São Tomé e Príncipe é um país pequeno, mas os sonhos dos seus atletas são grandes. O que falta não é talento. O que falta, demasiadas vezes, é uma liderança à altura das responsabilidades que assumiu.

Quando milhões de dólares destinados ao desenvolvimento do futebol se perdem por falta de resposta a e-mails, não estamos perante um simples erro administrativo. Estamos perante um fracasso institucional que envergonha o desporto nacional e que exige reflexão, responsabilização e mudança.

Porque o futebol são-tomense merece muito mais do que isto.

Daniel Ambrósio dos Santos

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