Economia

Covid-19 provoca crise grave na produção e comercialização do cacau em São Tomé

Está a vista um dos grandes impactos da Covid-19, sobre a economia nacional, mais concretamente na produção e comercialização do cacau.

Há 20 dias que milhares de agricultores santomenses, perderam a oportunidade de vender a sua produção de cacau convencional.

Pedro Almeida, proprietário de 3 hectares de terra na roça Monte Estoril, procurou o Téla Nón, para denunciar a crise que está a ameaçar a sobrevivência de milhares de agricultores santomenses.

A empresa SATOCAO, maior compradora de cacau convencional de São Tomé, suspendeu a compra do produto nas parcelas dos agricultores.

«Há 20 dias que a SATOCAO deixou de comprar o cacau. Tenho muito cacau maduro, mas não posso fazer mais nada…. O pessoal da SATOCAO que esteve há 20 dias na roça, disseram-nos que era o último dia que estava a comprar o cacau», explicou o produtor de cacau Pedro Almeida.

Segundo o agricultor, a decisão da SATOCAO em suspender a compra do cacau lançou caos no seio das famílias dos agricultores. «A pobreza…a carestia está a explodir no meio rural…», desabafou Pedro Almeida.

O agricultor manifestou revolta pelo facto da empresa SATOCAO, não ter dado até o momento qualquer explicação aos agricultores. Pedro Almeida contestou também o facto de o Governo não ter pronunciado até o momento, sobre um assunto que está a arruinar a economia nacional.

O Téla Nón contactou a direcção da empresa SATOCAO, e recebeu do director a seguinte resposta: «Não falo nada sobre esta situação que se passa na empresa, porque não tenho orientação superior para o fazer».

O Téla Nón buscou explicações no Ministério da Agricultura, e contactou Hermenegildo Espírito Santo, Director da Agricultura. «Nós fomos alertados pela SATOCAO,  que alegou ter falta de liquidez para comprar o cacau», afirmou o Director da Agricultura.

Na conversa com o Téla Nón, o director da agricultura, acrescentou que segundo a direcção da empresa SATOCAO, «por causa da Covid-19 há uma redução drástica da compra do cacau no mercado europeu. A SATOCAO diz que os seus armazéns em Antuérpia estão todos cheios de cacau, sem poder vender. Por isso a empresa diz, não ter liquidez para comprar o produto aqui no país, onde também já tem acumulado um grande stock de cacau para exportar», explicou Hermenegildo Espírito Santo.

Segundo ainda a Direcção Geral da Agricultura, enquanto maior comprador nacional do cacau convencional, a SATOCAO solicitou apoio do Governo, para ser seu avalista num processo de pedido de crédito bancário na ordem de 800 mil euros, para garantir liquidez financeira e a continuidade da compra do cacau nas parcelas agrícolas de exploração familiar.

Pelo que o Téla Nón apurou a montagem financeira projectada pela SATOCAO junto ao banco privado ECOBANK, e com o Governo como avalista, ainda não teve sucesso. «A empresa SATOCAO diz que caso contrário suspende a compra do cacau em São Tomé, até o final do ano», frisou o Director da Agricultura.

Enquanto isso o cacau já está a apodrecer em algumas parcelas de terra. Noutras, é o rato que está a devorar todas as cápsulas maduras.

Sem qualquer rendimento, para a família, largas centenas de agricultores estão a assistir impotentes à destruição do bom cacau de São Tomé.

O impacto da Covid-19 sobre a produção do cacau é grande. Para além da SATOCAO, outras empresas santomenses que comercializam o cacau, também estão a fechar as portas.

CACSA LTD, empresa de secagem e comercialização do cacau, com sede nos arredores da Roça Água Izé, também anunciou que a partir desta segunda-feira, 27 de Julho, vai suspender a compra de cacau no país.

A CACSA LTD, que compra o produto nas diversas comunidades agrícolas da região de Água Izé no distrito de Cantagalo, através do seu director Nilton Santos descreveu a situação que se vive, como consequência do bloqueio comercial provocado pela Covid-19.

«Estamos na mesma situação…só asseguramos a compra de cacau, mas até sexta-feira 24 de Julho….A partir de segunda-feira não vamos poder comprar mais cacau…», pontuou .

CACSA LTD, garante que a pobreza vai devastar o meio rural de São Tomé e Príncipe, caso o governo não intervenha rapidamente para ajudar as empresas privadas na resolução desta crise. «Há que haver uma intervenção do governo para termos uma solução», concluiu Nilton Santos.

Apenas os agricultores filiados nas cooperativas de exportação de cacau biológico (CECAB), e de Cacau de Alta Qualidade (CECAQ-11), continuam a ter renda para as suas famílias, em função da comercialização do cacau biológico para as respectivas cooperativas.

Os agricultores que produzem o cacau convencional, são as primeiras vítimas do bloqueio a comercialização imposto pela Covid-19.

Abel Veiga                                             

    4 comentários

4 comentários

  1. Vendaval

    27 de Julho de 2020 as 15:45

    «Não falo nada sobre esta situação que se passa na empresa, porque não tenho orientação superior para o fazer».Que bela resposta, aí está, colocar cabeças ocas na chefia provoca estes desaborres.
    Como é que fica, senhor ministro Chico Pardal, afinal os agricultores rurais produtores de cacau estão aflitos prestes a sucumbirem, enquanto isto, o senhor abre o programa «ministério aberto» para estar em direto no Facebook a falar atôa?
    Convém solucionar isto, e deixar de responder comentários em certos grupos de redes sócias. Há muito dinheiro no projeto COMPRAN, 800 mil dólares não será nada para salvar estas famílias, fica a dica!

  2. Hilario B

    27 de Julho de 2020 as 16:13

    Muito triste, a ver se a situação melhora brevemente.

  3. marlene

    28 de Julho de 2020 as 10:31

    Nesta situação , questiono: para que serve o governo?. Distribuíram dinheiro para quem nunca pagou imposto e agora? Pois bem, acho que o governo sobre circunstância nenhuma deve avalizar um empréstimo de 800 mil euros para a Satocao. Porque isto abre um precedente para que todas as empresas peçam o mesmo. o governo deveria neste momento concertar um preço médio com os produtores e comprar o cacau seco dos pequenos agricultores, armazena-los em condições ideais para preserva-lo. Entretanto o próprio governo deveria dar diligências no sentido de apoiar todas as empresas que compram cacau (e não apenas a Satocao que quis açambarcar o cacau todo) a encontrarem compradores para o cacau. Quando estes novos contratos de exportação fossem assinados as empresas exportadoras comprariam o cacau armazenado pelo governo que ia reaver o valor investido na compra do cacau dos produtores e se a coisa for bem feita o país ainda ganha uma percentagem na revenda.

    mas será que os governantes sequer pensam nesta possibilidade?

  4. Pascoal Carvalho

    28 de Julho de 2020 as 20:07

    nenhum mal vem só.
    entretanto, dos males que são desconfiáveis,este é um deles.
    pelo e para o bem de todos, esperemos que o bom senso impere, e que soluções viáveis urjam nas mentes dos homens, porque por dificuldades todos passamos e, devemos ultrapassa-las.

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